Cama dura de hospital, quando acordei...
Bom, vocês já devem ter adivinhado qual foi a minha decepção ao acordar e ver que o Michael não estava mais ali. E bem, minha mãe estava ali!
E, bem, vocês podem acreditar ou não, mas ela tinha um algodão molhado com álcool na mão, e tirava sem o menor cuidado o esmalte preto que eu usava!
- Mãe! O que você está fazendo! – a pergunta era idiota, mas eu só queria dar ênfase ao que ela fizera. Tanto fazia se ela achasse que eu tinha batido a cabeça e ficado louca.
- Mia, querida, o que há com você? Bateu a cabeça e ficou louca?
Não disse?
- Olha o que você fez, estragou minha unhas. – eu disse, mais calma. Não me importava com elas, na verdade. Só estivera usando aquela porcaria para me sentir um pouco, hum, diferente.
- Não se preocupe, pior do que aquilo não poderia ficar. Aliás, por que eu estou surpresa? – ela fez uma cara ressentida, e eu senti dó por isso.
Na verdade, tenho dúvidas se foi dó dela ou de mim pelo o que provavelmente ela diria. Como eu não disse nada, aliás, ela foi mais rápida:
- Como você desaparece por dez anos e quando volta nem se dá o trabalho de dizer que voltou?
- Desaparecer? Dez anos? Mãe, você sabia exatamente onde eu estava, e sabia por quê! Aliás, pensasse nisso antes de ter uma filha com o Príncipe de Genovia!
Depois disso, minha mãe se debulhou em lágrimas. Me senti idiota por isso. Ela me abraçou e começou a chorar em cima de mim. A culpa de tudo era minha e eu acabei fazendo como se ela inteirinha fosse dela. Que tipo de filha eu era!
- Desculpe, querida. – ouvi-a murmurar e voltou a chorar no meu ombro.
- Hum...na verdade, acho que eu podia ao menos ter enviado um telegrama falando da minha volta. – disse, num sussurro, mas desejando que ela não ouvisse.
- Oh, querida, não tem problema... – ela disse, se afastando e enxugando as lágrimas com um sorriso de mãe, daqueles que você se sente a pessoas mais feliz do mundo, pois ela acaba de tirar todo o peso das suas costas. – O problema continua sendo você andar na rua sem olha para os lados, pior, sem segurar a mão de ninguém responsável! Mia, como você é tão irresponsável assim?
Tudo bem, ela estava muito boazinha para ser verdade.
- Eu prometo que da próxima vez eu vou te ligar para pedir que você vá até o meu trabalho para me dar a mão para que eu possa atravessar a rua direitinho. – disse, irônica.
- Não, não precisa disso, você pode apensa pedir para o segurança... Espera aí, você disse trabalho? Mia, você está trabalhando?
- Hum, é... Preciso pagar as minhas contas, não é? – respondi, cabisbaixa. Tinha voltado de Genovia, arranjado um emprego e nem me preocupara em avisar a ela. Na verdade, não tinha percebido quanta falta eu sentia.
- Crianças não tem conta para pagar! Aliás, é proibido, estão abusando de você, abuso de menores!
- Mãe, eu tenho vinte anos, sou maior e tenho contas para pagar sim.
- Claro que não tem, Mia. Você vai voltar pra casa agora mesmo e não terá que pagar por coisa alguma.
- Você não está falando sério, está? – perguntei, mas era aquilo mesmo que eu queria fazer. Se eu pudesse, ficaria de folga por mais seis anos só pensando e escrevendo meu romance prometido.
- Claro que estou, Mia. Você é a Princesa de Genovia! O que quer mais da vida? – minha mãe estava...bem, não parecia...minha mãe.
- Mãe, você sabe muito bem que ser Princesa nunca vai me satisfazer. Não te satisfaria. Eu adoro escrever, e preciso disso, assim como você precisou e precisa pintar até hoje, mesmo com aquele coisinha gritando mamãe pela casa inteira.
Por um momento, eu lembrei de meu irmão Rocky, e logo percebi o inevitável. Ele tinha seis anos e alguns meses. Eu passei os seis anos iniciais da vida do meu irmãozinho cuidando de um país que sequer mudou alguma coisa por minha causa.
- Oh, querida, me desculpe. – e ela me abraçou de novo. - Mas estou tão apavorada. Você some por seis anos, e volta, e é atropelada por aquele motoqueiro irresponsável, e...
- Motoqueiro irresponsável! – de quem ela pensava que estava falando.
- Ora, Mia...
- Mãe, o motoqueiro irresponsável é o Michael! – gritei, nem sei como pelo estado que eu estava, mas me lembro de ter gritado sim.
- E você acha que aquele garoto adorável continua sendo tão responsável como sempre foi? Pois está muito enganada.
Ah...do que ela estava falando exatamente? Como o Michael Moscovitz, meu ex-namorado mais lindo do mundo, tinha virado irresponsável? Estava começando a considera a possibilidade de a minha mãe ter batido a cabeça no meu lugar.
- O que você quer dizer?
- Há muito tempo que ele não é mais agradável, direitinho e responsável como era, Mia. Dois meses depois da sua ida, ele viajou para a Califórnia, e olhe só como voltou de lá.
- Eu não vi diferença nenhuma.
- Meu Deus, Mia, você encontrou com esse moleque?
Moleque?
- Claro, ele me mandou flores e veio me visitar. Afinal, foi ele quem me atropelou.
Burra...Não devia ter lembrado nada disso!
- Por isso mesmo! Ele te atropelou, mia. Quer maior prova de que ele esteja diferente?
- Mãe, você estava dizendo agorinha mesmo que eu não tive cuidado ao atravessar a rua, como pode...?
- Ele não é mais o que você acha que é, Mia. – ela estava séria agora, a forma como apertou meu braço me assustou. – Ele tem gangues, anda por aí durante a noite, outro dia o encontrei bêbado num bar com alguns amigos e algumas garotas. E também os vi pintados e pedindo dinheiro pelas ruas.
- Há, há...Que piada, mãe. Dá pra falar sério agora? – eu estava sendo irônica demais. Mas tinha que ser, não queria acreditar no que estava ouvindo.
- Filha, eu estou falando sério. O Michael está mudado, e muito. Os Moscovitz comentaram comigo outro dia que ele se meteu com drogas na Internet, e que o caso estava difícil. Ele bateu com o carro duas vezes, e por isso comprou uma moto. E agora, veja o que ele fez, te atropelou!
- Não foi culpa dele... – murmurei, minha voz saindo como um último fio de esperança que de aquilo fosse mentira.
- Mas e o resto todo? Coincidência? – ela estava sendo irônica também.
- E a Lilly? – perguntei, lembrando da mensagem que eu enviara a ela por e-mail e que eu nem tivera tempo de responder. Pensando bem, era estranho ela não ter aparecido por ali todo esse tempo, afinal, o irmão dela me atropelara, ela deveria saber... a não ser que...
- Ela está bem, meio revoltada por ele ter saído de casa, mas bem.
- O Michael saiu de casa?
- Saiu, querida. E acho melhor parara de falar com ele. Aliás, melhor até parar de dizer o nome dele.
E a olhei séria, mas no instante seguinte, vendo que ela estava falando sério...Ela não ia mentir daquele jeito, ia? Mas eu não podia acreditar que o Michael tivesse feito tudo isso que ela tinha dito.
Gangues, bebedeira? Esse não era o Michael...
Minha voz fugiu e num soluço, comecei a chorar. Senti os braços da minha mãe a minha volta, me apertando, e então chorei mais ainda.
Era verdade que eu tinha acabado com ele, tinha namorado outros dois caras nesse meio tempo em Genovia, mas ver o Michael novamente me trouxe de volta o passado, não tinha como esquecê-lo agora.
Chorei por um bom tempo, minha mãe me balançando como a verdadeira criança que eu estava me sentindo. Até que eu adormeci de novo, e não sonhei com nada.
Minha casa, meu quarto, cobertores quentinhos, umas oito da noite.
Voltei pra casa.
Bem, você já percebeu isso.
Com certeza.
Mas eu só vim pra cá por que ainda não me recuperei de todo.
Quando melhorar eu volto pra casa.
Prometo.
E...O Fat Louie está aqui comigo porque eu não poderia deixá-lo sozinho.
Mas logo vou voltar pra casa, juro.
Logo depois que eu me recuperar.
E descobrir o que aconteceu com o Michael.
Tuuuuuuuu...
Tã, tã, tã...tã, tã, tã, tã...
Trim...Trim...
(barulho do telefone)
- Alô... – eu conhecia aquela voz, era a voz da Lilly! – Alô... – eu não tinha coragem de dizer nada, não mesmo. – Alô? Quem é que tá falando, hein? – eu continuei com a respiração presa. Ouvir a voz da Lilly no telefone e falar com ela normalmente como se nada tivesse se passado parecia muito estranho. – Alô!
Eu desliguei. Desculpa, mas o fone estava realmente pesado na minha mão machucada, por mais que não fosse a machucada...
Respirei fundo novamente disquei...
Tããã...(redial)
- Alô? – a voz dela estava nervosa. – Michael, eu sei que é você, pode ir falando... – eu parei de respirar, ansiosa por ouvir o resto. – Talvez você não se dê conta do quanto está sendo idiota...Bem, que...num deve fazer diferença, né? Você virou o rei da idiotice nos últimos quatro anos... – eu continuei muda, querendo escutar mais. – Não vai falar nada, é? Vai continuar fugindo como todo esse tempo? - eu pude ouvi-la soluçar por um momento. – Você abandonou sua família, me abandonou, seu idiota! Está fugindo do que precisa encarar e veja tudo o que você fez! Veja! E atropelou a Mia, que foi isso? O que você virou, seu babaca...seu...
Eu desliguei o telefone rapidamente e o taquei num canto. Estava assustada, meu coração batia muito rápido como se tivesse corrido 10 quarteirões em cinco minutos.
Seja lá o que for que acontecera, Lilly achou que estivesse falando com seu irmão o tempo todo... E fosse o que fosse que ele fizera de tão ruim, Lilly achava que Michael ouvira tudo.
Então, era meu dever dizer tudo aquilo a Michael. E ia fazer isso, assim que mandasse outro e-mail a Lilly, dizendo que estava tudo bem e que logo que minha mãe deixasse, daria um jeito de encontrar com ela.
E logo que fiz isso, me vesti bem agasalhada, com meu casaco vinho comprido e minhas novas botas de combate, e saí de casa, com o menor ruído possível para que mamãe não percebesse.
Sala de espera da SINCAM, Departamento de Artes.
Eu sei, você deve estar se perguntando o que eu faço aqui, nessa cadeira colorida numa sala cheia de desenhos e instrumentos de miniatura.
Resposta: Michael estuda aqui! Ou pelo menos pretendia quando eu fui embora.
A mulher que atendia no balcão me mandara sentar aqui para esperar, mas eu juro que estou esperando a um bom tempo já. Poxa, eu só queria pergunta se o Michael estudava ali e onde eu podia encontrá-lo, mas o destino não queria me ajudar... Ou melhor, aquela mulher magricela à La Lana não queria me ajudar!
Já tinham se passado quarenta minutos e todas as vezes que eu levantava para perguntar alguma coisa, ou ela colocava o fone no ouvido e fingia que estava falando, ou derrubava muitos papéis...Uma hora ela se jogou no chão fingindo que tinha que se esconder do diretor.
Eu não duvidei que ela quisesse se esconder, pois o diretor devia saber do trabalho satisfatório e eficiente dela como atendente. Mas como ninguém passava por ali no momento e como ela ficou muito tempo caída no chão atrás do balcão, desisti de perder meu tempo com isso, e decidi então entrar em alguma das portas do corredor a minha direita.
Como todas tinham cores diferentes, decidi pela minha favorita: azul.
E quando a abri, a fechei novamente sem pensar no barulho que fizera ao bater a porta!
Uma menina...agarrada...e beijando...Michael Moscovitz!
Sem deixar que o pânico tomasse total conta de mim e me fizesse entrar por aquela porta e bater muito em Michael, saí correndo rapidamente, deixando a atendente, que já tinha se levantado, um pouco atordoada.
Corri pela rua inteira, atropelando todas as pessoas a minha frente. Nem sabia como consegui correr assim, com meu braço machucado e com as forças meio vagas ainda.
Parei numa esquina, me apoiei num poste para respirar, estava tonta. Fiquei algum tempo ali, as pessoas esbarrando em mim sem se importar, até que ouvi uma voz atrás de mim:
- Mia!
Me virei e pude ver o Michael, ofegante, não sei se por ter corrido muito ou pelo beijo. Só sei que ele tinha a blusa de cima aberta e essa visão me deixou brava. Virei eu rosto bruscamente, e senti a mão dele apertar meu braço.
- Espera, Mia. – ele disse, me fazendo virar pra ele. Estava com raiva, então cruzei meus braços, tirando a mão dele do meu braço, e olhei pra baixo. – A gente precisa conversar.
- É mesmo? – eu disse, irônica.
- É sim. – ele respondeu, com cara de inocente.
- Foi exatamente isso que eu vim fazer aqui! Mas você estragou tudo, como sempre. – nunca achei que poderia falar com o Michael daquele jeito, mas depois do que todos me disseram, começava a achar que aquele era outro Michael.
- Sempre estrago tudo, do que você está falando? – ele parecia confuso, os gestos bruscos falavam por ele.
- Do quê? – eu bati meu pé no chão. – Você saiu de casa, você abandonou sua irmã, você se mete em encrencas, você sai por aí beijando qualquer uma!
- Eu não acredito que...
- Não acredita em quê! – disse, bem mais alto. Ele passou a mão pelos cabelos bruscamente, algo que eu não lembrava que ele fazia, e aquilo me deu sinais do verdadeiro Michael ali comigo. Se eu não estivesse com tanta raiva, teria o agarrado ali mesmo. – Você me atropelou, Michael! Podia ter me matado, sabia? Você é um irresponsável! Algo que eu nunca pensei que fosse!
E saí correndo novamente, depois de me esquivar da mão dele quando tentou me segurar de novo.
- Ei, Mia, espera! – mas eu continuei correndo. – Espera!
Virei a esquina sem olhar pra trás, ciente de que ele ficara ali, parado, olhando para o nada, transtornado, talvez culpado.
Estava com muita raiva. Tinha ido procurá-lo para contar o que Lilly dissera, para perguntar se o que todos diziam era verdade, pois não acreditava em coisa alguma.
Mas achá-lo agarrado àquela garota, senti meu coração parar de bater. Ele nunca faria isso antes, a não ser comigo. Devia estar como sua irmã dissera. É, tenho que acreditar nisso, tudo indica, menos meu coração, que insiste que Michael é o mesmo Michael...O mesmo garoto bondoso e adorável, que me enviava flores e me deu um colar com um floco de neve de aniversário.
Esse Michael não existe mais.
N/A: Assustados com a revelação? Será que o Michael não é assim mais tão bonzinho, hein? Será? Pra quem quer ver um capítulo M/M pra valer é só esperar o próximo! Onde várias coisas serão explicadas e resolvidas...
Agradecimentos a todos!
E como são 04:11 da manhã, e tenho que acordar as 8 (ai, ai, ai!), depois eu coloco os nomes, no próximo capítulo!
Beijinhos,
Kel Minylops
