Um segundo após o tiro.
Mello viu tudo como um grande borrão: os caras da sua gangue, o revólver, sentiu seu corpo caindo, só havia uma explicação, levara o tiro e morreria, morreria imediatamente...mas porquê a dor não cessava? E porquê tinha caído tanto...?
Viu a resposta á sua frente. Não enxergava mais a parede feia e descascada do quarto, mas um céu limpo e escuro, e uma lua cheia que o iluminava.
Matt surgiu ao seu lado, andando com certa dificuldade, seus cabelos muito ruivos acentuados mesmo á noite. E então compreendeu.
Não sabia se era os videogames que tinham acentuado tão bem os reflexos do ruivo, mas só soube que o pensamento rápido tinha salvado a vida deles. Ele puxou Mello e pulou juntamente com ele á uma altura de 4 metros, de uma forma meio desajeitada que fez o loiro quebrar a perna. Mas ainda assim, vivos.
Um tiro muito próximo de seu rosto o fez lembrar que ainda não tinha acabado. Matt, apesar de estar quase caindo na força de sustentar o próprio corpo, conseguiu puxar o amigo e se esconderam na área mais escura próxima a casa, para dificultar os caras da gangue. Porquê Mello tinha que ter esquecido o próprio revolver na casa quando mais precisava?
-Está com a chave da sua moto? – Matt perguntou apreensivo.
-Sim, sim. – Disse extremamente aliviado, e entregou-a para o ruivo, xingando sua perna quebrada.
-Vem. – ele passou o braço dele em torno do seu pescoço, e andaram o mais rápido que conseguiam em direção á moto do loiro.
Assim que subiram na moto e ligaram a chave, já podiam sentir próximos os disparos da gangue toda, que tinha alcançado o térreo. Uma bala passou roçando pelo pescoço de Mello. O veículo imediatamente deu a partida, e se foram, velozes como águias, pelas ruas movimentadas do centro do Japão.
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21:00, apartamento de Mail Jeevas.
Respiravam agora profundamente aliviados o ar refrescado que saía do velho ventilador do quarto, sabendo que não correriam riscos enquanto o esconderijo de Matt fosse desconhecido pela gangue de Mello. Ou melhor, ex-gangue.
Matt colocou o loiro em cima de sua cama e, analisando nervosamente a perna quebrada dele, falou mais para si mesmo do que pro outro:
- Ah, por L, devia ter sido mais ajeitado...porquê não o puxei primeiro? Tinha tempo o suficiente, agora mesmo vou atrás de um gesso pra...
- Matt...
- Engessar, e obviamente algo pra essas outras feridas e arranhões, senão pode pegar uma infecção. Mello vai ficar aqui até que esteja bem, se bem que agora não deve ter onde ir, mas não tem problema, porque...
- Matt...
- Tenho espaço e tempo mais do que suficiente pra me dedicar á você. Como não pode andar, eu me encarrego de comprar comida, e aproveito para pegar algumas sopas quentes, pois ultimamente o clima está frio e...
- Mail! – e sua voz ressoou tão autoritária pelo ambiente que Matt finalmente se calou, e olhou aturdido pra Mello. – Pare, não quero tantos cuidados assim. Você me faz sentir uma criança.
- Aaah... – Matt colocou a mão atrás da nuca, rindo. – Tudo bem, mas é que você realmente precisa, com essa perna...
- Não preciso de nada por enquanto. Vai sarar. É só uma perna...
- Você é doido? Vai morrer de dor sem o gesso, e...
- Matt... Fica comigo.
Ele se calou imediatamente, e Mello via sobre seus olhos agora descobertos um verde mais vivo, a medida que se aproximava do loiro. Matt o enlaçou sobre seus braços carinhosamente e com o maior cuidado para não encostar na perna dele.
Agora, só se ouvia o barulho das hélices do ventiilador balançando melancolicamente acima deles.
- Tem certeza de que não quer nada?
- ...
- Está bem, está bem, já par...
- Eu quero que você compre um óculos novo pra você com o meu dinheiro. Foi por minha causa que você o perdeu. E também... – atropelou-o quando Matt fez menção de protestar. – quero que me desculpe. Por todas as minhas atitudes. Você...salvou a minha vida. Me fez feliz.
O ruivo ficou por muito tempo encarando seus olhos azuis, como esperando que ele risse do nada, anunciando mais uma das brincadeiras e mentirinhas que Mello fazia quando eram simples amigos. Mas ele não fez nada, permaneceu imóvel, encarando os olhos do ruivo com vivacidade.
E então, em uma resposta simples, Matt o beijou na testa, e escorou seu rosto lá, com as mãos acariciando o rosto do loiro.
