Capítulo Quatro

Por um centésimo de segundo o olhar de InuYasha encontrou o de Kagome, enquanto ela se esforçava para alcançá-lo. Antes que ela pudesse segurá-lo, ele mergulhou na água agitando os braços.

O córrego não era muito profundo naquele ponto, mas a queda estatelada de InuYasha e o peso de seu hábito encharcado poderiam impedir que ele recuperasse o equilíbrio antes que a correnteza o puxasse para o fundo.

Kagome sabia que algo assim acabaria acontecendo. Avisara InuYasha da única maneira segura de cruzar o córrego. Malditos sejam ele e sua modéstia monacal por não lhe dar ouvidos! Seria bem feito se ele se afogasse ou congelasse.

Mas não podia permitir que isso acontecesse. Seu povo precisava demais dele. No entanto não foram apenas pensamentos sobre os seus vassalos e Onigumo Naraku que a compeliram a desbravar novamente as águas gélidas.

O tempo pareceu parar, quando inúmeros pensamentos cruzaram a cabeça de Kagome. Outrora, InuYasha Taisho lhe dera as costas. Talvez ele não fosse mais o homem de quem ela já gostara. Talvez nunca houvesse sido quem ela pensara que fosse. Mas Kagome jamais se esqueceria da dor que sentira quando pensara que o perdera para sempre. Não suportaria perdê-lo novamente, em tão curto espaço de tempo. Não quando poderia tomar uma atitude.

Além do mais, seu corpo já estava mesmo entorpecido, então que diferença faria?

Infelizmente Kagome descobriu a verdade ao se atirar na água atrás de InuYasha. Na sua passagem anterior pelo córrego, pelo menos os ombros, o pescoço e a cabeça haviam permanecidos secos. Desta vez, eles foram os primeiros a atingir a água.

Um tremor percorreu-lhe o corpo nu. Kagome esforçou-se para plantar os pés no chão, enquanto tentava alcançar InuYasha.

Ele a pegou primeiro. A mão larga esbarrou no seu seio e depois agarrou-lhe o braço.

Por apenas um instante, seu toque a fez esquecer o frio implacável.

Agarrando o braço do homem com ambas as mãos, ela firmou os pés no chão e o puxou na direção da margem, com mais força do que supunha possuir. Ele se debateu mais do que ela esperava, fazendo com que Kagome perdesse o equilíbrio.

InuYasha aterrissou sobre ela, fazendo com que a cabeça da moça submergisse. Ela se esforçou para afastá-lo. Lutou para alcançar a superfície para poder respirar. Se os dois morressem afogados em um metro e meio de água, ela assombraria a alma miserável dele no inferno por toda a eternidade!

Em meio a tudo isso, InuYasha não largara seu braço. Agora segurava o outro, embora Kagome tentasse se soltar. O pânico tomava conta dela com cada batida desesperada de seu coração.

Quando chegou ao ponto de ansiar por ar com todas as fibras de seu ser, InuYasha girou o corpo dela para cima do seu, levantando-a acima da água.

Tossindo e se engasgando, chegando quase a vomitar, Kagome encheu os pulmões de ar. Escutou InuYasha fazer o mesmo. Sentiu o peito largo dele estremecer abaixo de si.

Aos poucos, ela foi se acalmando e organizando seus pensamentos. Por acaso, ou intervenção divina, ela e InuYasha acabaram alcançando a margem do córrego. Agora, ele estava deitado com os ombros acima da água, e ela estava apoiada sobre si, nua.

— Venha — ela falou, subindo na margem. — Vamos congelar se não nos movimentarmos.

Ela o puxou pelo braço. Se InuYasha não cooperasse, nem com a flutuabilidade da água para ajudá-la, ela jamais conseguiria movê-lo do lugar.

— Mexa-se, InuYasha!

Ele ainda estava tossindo e se esforçando para recuperar o fôlego. Mas a urgência do tom e do toque de Kagome pareceram despertá-lo. Lentamente, e com esforço óbvio, ele começou a se arrastar para fora do córrego gelado.

Colocando-se sobre ele, Kagome segurou firme os braços de InuYasha. Cada vez que ele avançava um pouco, ela o puxava com toda a sua força. Mesmo que isso só o levasse alguns centímetros além do que ele poderia alcançar por conta própria, o esforço valia a pena. Quando por fim ele saiu por completo da água — com a ajuda desajeitada da moça —, os membros de Kagome já lembravam menos cepos de madeira molhada e já até pareciam fazer parte de seu corpo, ou pelo menos era assim que ela se sentia.

Ofegante, ela desabou na grama ao lado dele. Se o sol estivesse mais quente e mais alto, ela teria adorado ficar ali deitada até que suas forças retornassem. Em vez disso, os dentes batendo e o corpo tremendo a encorajaram a continuar se mexendo.

A trouxa de roupas estava exatamente onde ela a deixara cair — em terra seca, graças a Deus. Kagome vestiu a bata de linho, saboreando o seu sutil calor. Ela começara a desenrolar as meias, quando se lembrou de InuYasha.

Ela se virou e o viu esparramado na grama, tossindo e tremendo. Naquele hábito ensopado, a situação do homem estava tão ruim quanto se ela o houvesse deixado na água. Kagome trincou os dentes para evitar que eles batessem, e para reprimir a praga por InuYasha não ter dado ouvidos ao seu aviso.

Talvez parte da culpa também fosse dela, por não ter feito com que ele a obedecesse. Se o tivesse convencido usando o tato e a razão, em vez de antagonizá-lo com ordens e provocações infantis, ele não estaria nesta situação.

InuYasha não fazia idéia do risco envolvido. Ela, sim.

Por este motivo, deveria ter usado quaisquer meios que fossem necessários para convencê-lo, mesmo à custa do seu orgulho. Talvez ela não fosse a mulher prática que alegava ser.

A consciência de Kagome a atormentou com pensamentos semelhantes enquanto se aproximou de InuYasha e começou a mexer na roupa dele.

Ele fez um esforço para afastar as mãos dela.

— O q-q-que você está fazendo agora?

Com algum esforço, Kagome engoliu a resposta que lhe veio aos lábios. Tentou dar um tom mais ameno à voz, como o que usava quando tentava convencer a mãe ou o irmão mais novo de algo desagradável que era para o bem deles.

— Ora, vamos. Se ficar com essas roupas molhadas, vai morrer. Seja razoável e me ajude a tirá-las.

Esperando que ele fosse protestar novamente sobre a modéstia, ela preparou a sua resposta.

Ficou surpresa quando ele assentiu e tentou ficar de joelhos.

— Isso não p-p-passa de castigo pelo meu erro. Eu d-d-deveria ter lhe dado ouvidos.

— É, deveria mesmo — Kagome retrucou, com menos satisfação do que esperava sentir. — Mas o que passou, passou, e águas passadas não movem moinhos, como costumam dizer.

Águas passadas não movem moinhos? Kagome pensou com escárnio. Como sua decisão de apoiar a imperatriz Matilde e tudo o que aconteceu depois disso? InuYasha tinha tanta chance de mudar o passado quanto de reconsiderar sua escolha malfadada de cruzar o córrego pelo caminho das pedras.

Ele se deitou de costas e começou a desfazer o nó da corda que lhe servia de cinto.

— N-n-no mínimo, p-p-poderia ter deixado que v-v-você atravessasse com o meu manto. Deste m-m-modo, ele estaria seco para me cobrir.

— Provavelmente teria pensado nisso, se eu não o tivesse provocado. — Kagome levou as mãos ao nó teimoso que ameaçava frustrar os dedos desajeitados de InuYasha. — Deixe-me ajudá-lo.

Apesar do evidente arrependimento de InuYasha, Kagome ainda ficou surpresa quando ele afastou as mãos, deixando-a trabalhar no nó. A medida que cada precioso instante de luz do dia passava, ela começou a ficar mais receosa. Isso fez com que seus dedos trabalhassem mais rápido, finalmente sendo vitoriosos sobre o entrelaçamento de corda apertado.

Ela ajudou InuYasha a retirar o hábito pesado e molhado por sobre a cabeça. Ele a fitava com um olhar de incredulidade e agradecimento que comoveu o coração de Kagome.

— Você salvou a minha vida.

O nó retorcido e apertado no íntimo da moça também começou a afrouxar.

Será que a água corrente levara embora toda a mágoa que havia entre eles?, InuYasha se indagou, ao escutar o sussurro macio da voz de Kagome e se render ao seu toque gentil, mas hábil. Ou será que o frio apenas eliminar o seu maldito orgulho?

Ele fora mesmo um asno em desafiá-la, dando tão pouca atenção às conseqüências. Merecera o caldo. O que não merecera fora Kagome mergulhando em seu auxílio quando ela devia ter estado morrendo de frio por causa da própria travessia do córrego.

Ela parecia estar surpresa com o fato de ele reconhecer seus feitos.

— Não poderia deixá-lo se afogar, poderia? Não depois de tudo que passei para trazê-lo aqui. Um defunto não dá um bom campeão.

É claro, ela só o salvara pelo bem de Harwood e Wakeland. Assim como empreendera a perigosa viagem até a abadia. Assim como lhe oferecera a sua mão e suas antigas terras, quando na verdade preferia que ele estivesse morto e enterrado. Seria tolice esperar algo diferente.

Com a ajuda de Kagome, retirou a roupa de baixo. De uma maneira estranha, sentiu-se como se estivesse se desfazendo de sua identidade como um frade beneditino, ao fazê-lo. Quando por fim sentou-se nu na grama, com as pernas encolhidas para preservar um resto de pudor, Kagome pegou as meias e começou a esfregar a lã sobre as costas e os ombros do homem.

— Na verdade, suponho que tenhamos salvado um ao outro. — Sua voz era tão vivaz e prática quanto seus atos, dissipando a melancolia tola que começara a se abater sobre ele. — Por um minuto, pensei que fosse o meu fim. Espero não tê-lo machucado quando me debati, tentando me libertar.

InuYasha se recordava vagamente da luta selvagem de Kagome, quando tentou sair de cima dela. Ele queria que ela soubesse que estava tentando ajudá-la. Em parte, sentia-se zangado por ela ter demonstrado tão pouca confiança nele.

— Isto deve ajudar a aquecê-lo — ela disse. — Depois, espero que consiga caber na minha túnica. Ela pode não cobrir muito do seu corpo, mas pelo menos está seca.

— Não posso aceitar a sua túnica! — Não agüentaria dever ainda mais a Kagome. — Minhas roupas estão molhadas por minha culpa. Você não deveria ter de sofrer pelos meus erros, ainda mais depois de ter me avisado.

Com a meia de lã, ela bateu de leve na cabeça dele.

— Não fale bobagens! Tenho minha bata e estas para cobrir as pernas. Botas para os pés e um manto para me cobrir. Posso abrir mão da túnica para impedir que você congele. De nada me servirá deste jeito. É, acho que não.

De certo modo, a confirmação de que Kagome estava apenas cuidando de seus interesses tornou a oferta da túnica mais fácil de aceitar. Por outro lado, embora não o quisesse admitir, saber disso incomodava InuYasha.

Quando Kagome terminou de esfregar-lhe as costas, os ombros e os braços, ela deixou a meia de lã deslizar pelo peito de InuYasha até cair no colo.

— O resto você pode terminar sozinho.

Dando-lhe as costas, ela mexeu na pilha de roupas molhadas. Com uma força impressionante, torceu cada peça até extrair a última gota possível.

O sol poente atravessou o linho branco da bata com seus raios, delineando-lhe as curvas graciosas do corpo. InuYasha sabia que deveria desviar o olhar, da mesma forma que ela teve a cortesia de fazer por ele.

Seus olhos obedeceram, mas com grande relutância.

Quando se deu por satisfeita, Kagome atirou a sua túnica, o seu capuz e as sandálias de InuYasha para ele. Depois, sentou-se na grama e começou a calçar as meias.

— Assim que estivermos vestidos, devemos correr para alcançar o bosque. — Ela olhou para o céu. — Receio que, como a noite passada, a de hoje vai ser límpida e fria.

InuYasha concordava com ela. Já tremia só de pensar no frio da noite. A túnica que cobria com tanta folga a figura esbelta de Kagome se agarrava a ele como a pele de uma cobra na muda, mal lhe cobrindo as costas.

Ele colocou as sandálias nos pés e cobriu o cabelo molhado com o capuz.

— É melhor nos pormos a caminho — disse. — A caminhada vai nos aquecer um pouco.

Ao olhar para ele, Kagome entreabriu os lábios para; falar. Em vez de palavras, uma gargalhada sincera os atravessou.

Um rubor zangado cobriu o rosto de InuYasha.

— Ah, controle-se, mulher! Foi você quem insistiu para que eu vestisse isso, lembra-se? Fez isso apenas para me ridicularizar?

Kagome sacudiu vigorosamente a cabeça, e tentou responder. Mas só conseguiu rir com mais força.

Embora InuYasha não fosse muito de brincadeiras — especialmente à própria custa —, o som da gargalhada dela atingiu o seu íntimo... e o divertiu.

Ele tentou protestar, mas os cantos de sua boca começaram a dançar e uma risada relutante emergiu de seus lábios. Quanto mais lutava para contê-la, mais ruidosa ela ficava, até deixá-lo sem fôlego, como se estivesse se afogando novamente.

Mas, desta vez, de uma maneira agradável.

— Chega! — gritou Kagome por fim, recuperando o controle. — Se houver alguém por perto que nos queira mal, estamos perdidos.

O aviso ajudou InuYasha a se conter. Mas ele não conseguia se arrepender do estranho comportamento deles. Servira para amolecer algo duro e inflexível no seu íntimo.

— Não tema — disse ele, com um sorriso. — Basta nossos inimigos olharem para mim e desmoronarão de tanto rir. Aí você poderá facilmente desarmá-los.

Enquanto Kagome calçava as botas, ele se aproximou e ofereceu a mão para ajudá-la a se levantar. Uma sombra passageira de suspeita cruzou o rosto da moça. InuYasha receou que ela fosse recusar.

Antes que ele pudesse voltar atrás na oferta, ela agarrou sua mão e fez força até ficar de pé.

— Poderia me emprestar o seu cajado?

— Claro. — InuYasha o pegou no chão e o estendeu para ela. — Para quê?

— Olhe e veja.

Ela pegou o bastão fino e estendeu as roupas molhadas sobre ele. Depois segurou uma das pontas, e estendeu a outra para InuYasha.

— Desta forma, nenhum de nós dois terá de carregar uma trouxa de roupas molhadas, e elas podem começar a secar enquanto caminhamos.

— Muito esperta — elogiou InuYasha. —Você sempre foi tão criativa?

Não era como ele se lembrava dela.

Será que o exemplo de inocência e virtude de quem ele se lembrara todos estes anos realmente existira? Ou será que ele a criara a partir de seu próprio desejo e remorso?

Kagome começou a caminhar na direção da floresta.

— Desde que me conheço, sempre tive uma veia prática. — Ela deu de ombros. — E a responsabilidade dá origem à iniciativa.

InuYasha apressou-se para acompanhar o seu passo e para elevar o cajado o suficiente para que nenhuma das roupas arrastasse no chão.

— E tem sido difícil para você, não tem? — Ele resistiu à compulsão de acrescentar "Desde Lincoln?". Em vez disso, perguntou: — Mesmo antes da ameaça de Naraku?

Um instante de silêncio se seguiu, quando os únicos sons que se escutaram foram os de suas passadas na grama e o murmúrio do córrego que deixavam para trás.

— O que você acha? — Ela tentou demonstrar indiferença, mas InuYasha não pôde deixar de notar a amargura na voz. — Uma mulher da minha idade à frente de duas enormes propriedades. Desde o início, minha mãe dependeu de mim.

InuYasha assentiu, embora, na verdade, ficasse surpreso por descobrir que Kaede Higurashi ainda estivesse viva. Ele se recordava dela como sendo uma criatura rabugenta e devota, cuja beleza o tempo desgastara. O tipo de mulher que sua Kagome imaginária poderia vir a se tornar, depois de anos gerando e criando filhos.

— Às vezes, acho difícil acreditar que ela seja minha mãe — disse a verdadeira Kagome com um suspiro. — Somos tão diferentes.

— Você puxou ao seu pai — concordou InuYasha, e a imagem vívida de Toutousai Higurashi apareceu na sua cabeça, felizmente intocada pela amargura e o remorso. — Não tenho dúvidas que você estava à altura do desafio.

Lorde Toutousai sempre tivera um temperamento capaz de aquecer e alegrar a vida de todos que tocava. Ou encolerizar e queimar quem estivesse por perto. Ao longo dos anos, InuYasha teve oportunidade de sentir tanto a satisfação do afeto de Toutousai quanto a chama de sua ira.

Em meio à insanidade da batalha, com um golpe irracional de sua espada, InuYasha Taisho extinguira aquelachama radiante. E arremessara a própria alma numa escuridão da qual jamais poderia escapar.

Ou será que poderia?

Talvez, sem perceber, Kagome lhe oferecesse a chance de conquistar a absolvição que vinha lhe escapando desde a batalha de Lincoln.

Uma brisa fria acariciou as pernas expostas de InuYasha.

Uma chance de absolvição? Ele tremia e os pêlos finos das pernas estavam todos arrepiados. É, ele poderia até ter tal chance, se ele e Kagome não morressem de frio antes do raiar do dia.

As sombras das arvores se estendiam como dedos frios para receber Kagome e InuYasha, à medida que se aproximavam do limite da Floresta de Thetford. Geara na noite anterior, e aquela que se estendia diante deles não prometia nada melhor.

Kagome conseguira suportar o mau tempo, mas tinha tido a vantagem de estar aquecida por um dia de caminhada puxada, e não estava gelada até os ossos devido a dois mergulhos no córrego. Além do mais, estivera apropriadamente vestida para dormir ao relento. Hoje à noite, os dois estariam compartilhando roupas que mal davam para um só.

Kagome engoliu a irritação que começava a sentir por InuYasha. Precisava ser prática. Ralhar com ele poderia até servir como uma forma de aliviar um pouco suas frustrações, mas não manteria os dois aquecidos até a manhã seguinte.

Para fazer isso, só conseguia pensar em um plano. E necessitaria da colaboração de InuYasha para colocá-lo em prática. Considerando-se os irritantes princípios elevados do homem, ele provavelmente veria nisso uma escolha entre congelar na Terra ou queimar no inferno por toda a eternidade.

Ela olhou para as árvores, buscando se situar.

— Espero conseguir achar a toca que fiz para mim ontem à noite. Tomara que nenhum animal a tenha encontrado.

— Toca?

InuYasha parecia estar um pouco ofegante pela caminhada. Kagome não podia culpá-lo. Seus próprios braços doíam de carregar a metade do peso das roupas molhadas! Mas esqueceu-se do desconforto assim que avistou dois carvalhos altos.

— Por aqui. — Ela apontou para as duas árvores altas e começou a atravessar a vegetação na direção delas. — Cavei um pouco para alargar um buraco perto da base de um daqueles carvalhos. Depois a forrei com limo e uma camada de folhas secas para preparar um lugar aconchegante para dormir.

— Não é à toa que você está cheirando como a floresta — murmurou InuYasha.

— Cheirando como o quê?

Olhando por cima do ombro, Kagome o fitou intensamente.

— Suas... roupas — ele tentou explicar. — Elas cheiram como... a floresta. Como a terra, a casca das árvores, o cedro.

— Se não gosta, posso pegar de volta a minha túnica — retrucou ela, já prevendo a discussão que teriam quando contasse para InuYasha que teriam de compartilhar a toca-durante a noite.

— Por acaso eu disse que não gostava?

Sua resposta desconcertou Kagome, mas ela fingiu não escutar.

— Juro que este bastão parece ficar mais pesado a cada passo que damos. Vamos ver se encontramos alguns galhos fortes para estender suas roupas.

— Você não me verá protestar.

InuYasha parecia até alegre, ao baixar a sua extremidade do cajado.

Sua ação e seu tom de voz pegaram Kagome desprevenida. Desequilibrando-se diante de todo o peso das roupas, ela teria caído no chão, se InuYasha não se adiantasse para segurá-la.

— Perdão! — ele gritou.

Perdão por tê-la desequilibrado? Ou por ter posto as mãos nela para impedir a sua queda?, Kagome se indagou.

Uma estúpida pontada de fraqueza a fez se demorar nos braços dele, tão fortes, seguros e acolhedores. A mesma fraqueza a fazia ansiar por jogar sobre os ombros fortes de InuYasha todas as responsabilidades de Harwood e Wakeland, mas ela precisava resistir. Ele logo partiria novamente, e ela precisaria retomar suas obrigações.

E, se não tomasse cuidado, teria de cuidar mais uma vez de um coração partido.

— Não devemos perder tempo.

Ela se desvencilhou dos braços do homem e se firmou nos próprios pés.

Como teria de continuar fazendo.

Avistando um galho baixo em uma faia nos arredores, ela pegou a roupa de baixo de InuYasha sobre alguns arbustos, onde ela havia caído, e apressou-se a pendurá-la.

Atrás de si, escutou o barulho dos passos de InuYasha, enquanto ele procurava um galho parecido para pendurar seu hábito e seu manto.

Kagome tentou se convencer de que não podia mais protelar. O dia já estava chegando ao fim.

Respirando fundo, jogou os ombros para trás e ergueu o queixo. Depois, caminhou até InuYasha, para confrontá-lo.

— É melhor pormos mãos à obra.

Ele a fitou ao pendurar o manto no toco do galho quebrado de um olmeiro, o canto da boca se repuxando ligeiramente.

— Não é o que estamos fazendo?

Ela resistiu ao ligeiro sorriso, que provavelmente logo seria substituído por um olhar zangado ou uma careta de indignação quando InuYasha descobrisse seu plano para passarem a noite.

— Ainda há muito a ser feito. — Ela apontou para os dois carvalhos. — Alargar o buraco. Juntar mais limo e ramos de cedro.

— Muito bem. — InuYasha pegou o seu cajado do chão.

— Mostre-me onde está o buraco. Posso cavar enquanto você cata o que for necessário.

— Você está entendendo o que estou sugerindo?

Kagome se preparou para a briga.

Uma coisa era desequilibrar um homem do tamanho de InuYasha e o segurar contra sua vontade por um ou dois instantes, como ela fizera na abadia. Não conseguiria imobilizá-lo no chão durante toda a noite. Não queria nem pensar em ter de fazê-lo.

— Se não quisermos congelar durante a noite, você e eu vamos ter de nos deitar naquela toca... juntos. Depois nos cobrir com o meu manto e uma colcha de ramos de cedro.

A única resposta de InuYasha foi um silencioso dar de ombros.

— Você bateu com a cabeça numa pedra quando caiu no córrego? — indagou Kagome. — Ou os ouvidos se encheram tanto de água que não consegue escutar direito?

— Nem um, nem outro. — Ele retirou o capuz que ela lhe emprestara e passou os dedos pelos cabelos úmidos.

— Escutei muito bem e compreendi perfeitamente suas palavras. É melhor começarmos a trabalhar enquanto ainda temos luz.

Sem nenhum protesto? O que ele estava tramando?

— Não acha minha idéia descortês? Indecente? Pecaminosa?

InuYasha soltou um suspiro resignado.

— Se eu não tivesse desperdiçado tais palavras antes de cruzarmos o córrego, talvez tivéssemos alguma outra alternativa agora. Não haverá nada de pecaminoso em dormirmos juntos, desde que eu não tome liberdades com você. E tem a minha palavra de que não o farei.

— Seria arriscado demais acender uma fogueira e atrair atenção sobre nós. — Kagome refutou uma sugestão que InuYasha nem mesmo fizera.

Ele seguiu na direção dos carvalhos.

— Os seus ouvidos se encheram de água? — perguntou, ao passar por ela. — Ou será que não fui bem claro? Eu disse que sim, Kagome! Gostaria que houvesse outra solução, mas já que não há, até mesmo eu sou capaz de me curvar à necessidade em situações extremas.

Antes que ela pudesse se recompor o suficiente para retrucar, ele virou-se para ela.

— Parece que você estava pronta para uma briga. Sinto desapontá-la, mas tenho muito para cavar, antes do cair da noite.

— Eu não estava pronta para uma briga! — Kagome vasculhou a vegetação em busca de limo. — Fiquei surpresa por você ter demonstrado um mínimo de bom senso, só isso.

Só isso, mesmo?, ela se indagou, sem saber se iria gostar da resposta. Ou será que queria fortificar suas defesas ao discutir com InuYasha antes de passar a noite no calor perigoso de seus braços?

...

sayurichaan - É ótimo saber que está gostando. Eu adoro essa história! ^^

Chove e não molha? Você ainda num viu foi nada, moça... Eles ainda vão brigar tanto que você num tem noção, rs. Vamos ver o que vai acontecer daqui pra frente. Beijo :*

Srta Kagome Taisho - O Inu é um teimoso nessa história e a Kagome também. Os dois dão certinho, rs!

Eu adoro histórias de época porque sou completamente fascinada pelo passado, especialmente pela Idade Média ^^

Fique torcendo pela minha história que eu vou ficar torcendo pela sua \o/

Ainda não li Harry nem Twilight! Quase inimaginável, né? Mas é porque só vim me interessar em lê-los este ano e (sabe como é...) estudante é bicho lascado e não gosto muito de ler na net (só no FF, hehe), só que parece que vai ser o jeito. Imagino que sejam realmente ótimas, vou tentar ler o mais rápido possível. Depois te digo o que achei ;D

Quanto a Nárnia, realmente é meio chatinho ler um livro do qual você já assistiu o filme, mas das sete crônicas apenas três viraram filmes até agora. Aê tipo tem uma que conta a origem de Nárnia, de como a feiticeira foi parar lá e tal... É muito bom, eu recomendo :D

Tou terminando o Ensino Médio sim, e naquela pressão: "Passe no vestibular! Passe no vestibular!" Quase endoidando, mas daqui pra frente só piora, né? oO

Beijão e até a próxima =]