Quando esse aperto em meu coração causado pelas saudades que sinto de Emma iria passar? Eu me fazia essa mesma pergunta todos os dias antes de dormir e tornava a repeti-las assim que eu acordava. Mas, aquela sensação de vazio nunca passava. Era como se nada que eu fizesse fosse capaz de preencher o vazio que se instalava em meu coração.
– Mais um dia! – pensei em voz alta, ainda com meus olhos fechados.
Lentamente fui abrindo os meus olhos enquanto a luz forte do sol entrava pela janela. Fechei meus olhos novamente, pois eles ainda estavam sensíveis devido ao inchaço. Como aquela forte luz que entrava em meu quarto não era o suficiente para me aquecer? Por que o frio que eu sentia internamente demorava a passar? Se é que ele iria passar algum dia. Secretamente eu tinha um desejo secreto de acordar e perceber que tudo o que eu vivia se tratar apenas de um mísero pesadelo. Mas, era a vida real, e eu teria que aprender a conviver com essa minha nova realidade. Eu não estava mais casada e havia voltado a morar sozinha. Por que agora o silêncio que se instalou em minha casa me incomodava?
Mais um dia que se iniciava e era mais um dia sem te ter ao meu lado. Os dias passavam de uma forma lenta, como se o ponteiro do relógio resolvesse pregar alguma peça comigo. Por que tudo tinha que ser tão complicado? Por quê? Ver a cama em que costumávamos passar momentos tão maravilhosos vazia me causava uma sensação de solidão em meu peito. Ele ficava tão apertado, de um modo que eu nunca havia me sentido antes. Eu não queria admitir a mim mesma, mas eu sentia falta de Emma Swan todos os dias, todas as noites, todos os minutos e segundos. Procurei abafar em meu travesseiro o meu choro compulsivo que mais uma vez se iniciava. Nem ligava mais para meus olhos que doíam. Eu só queria ser capaz de entender. Será que minha vida estaria resumida a isso? Tristeza atrás de tristeza. Dor atrás de dor. Havia me cansado de tudo isso. Havia me cansado de mim mesma. Por quê? As respostas pareciam cada vez mais distantes.
O que mais me irritava nisso tudo era que eu mesma estava me causando tamanha dor e solidão. Eu queria perdoá-la e poder esquecer tudo o que havia acontecido entre nós. Queria ter a capacidade de recomeçar minha vida novamente ao seu lado, mas o meu orgulho me impedia de fazer qualquer coisa. Cada lágrima que eu derramava por meu rosto era o preço que eu pagava por sempre me fechar em meu próprio mundo perante todas as dificuldades que surgiam em minha vida. Por que tudo sempre tinha que ser assim? Por que eu tinha que ser tão dura com os outros? Por que eu sempre me empurro para a solidão?
Lembranças, sempre essas malditas lembranças que ficam invadindo minha mente sem pedir minha permissão. Lembro-me que antes de me casar com Emma Swan estava morrendo de medo de assumir qualquer tipo de relacionamento. Traumas, receios, medos e anseios eram alguns dos motivos que iam mais uma vez me afastar de minha tão sonhada felicidade. Tinha medo de me prender a uma nova paixão e acabar saindo machucada no final da história. Minha primeira reação foi negar. Eu não queria me casar com Emma. Tinha medo de sofrer novamente com um casamento, afinal, minha experiência anterior não tinha sido das melhores. Saí correndo sem dar nenhuma resposta. Chorava, tinha medo, estava acuada e fui até o píer pensar um pouco ao som do mar. Queria naquele momento poder reencontrar a jovem sonhadora que já tinha sido um dia e buscar forças nessa Regina que insistia se esconder em algum lugar distante de meu coração. Quando menos esperava, Mary Margareth me deu um dos melhores conselhos que eu poderia receber naquele momento. Ela que tinha tudo para me odiar e querer manter o mínimo de distancia de mim foi quem enxergou todos os meus medos e me aconselhou.
Eu lembro que Mary Margareth me disse que eu só seria feliz novamente quando eu deixasse todos os meus medos de lado e começasse a abrir o meu coração. Eu não consegui dizer nada para ela naquele momento, apenas a escutei enquanto algumas lágrimas denunciavam o que eu realmente sentia. Ela me disse que a vida de casada muitas vezes não era fácil. Que várias dificuldades e crises poderiam surgir pelo caminho e atrapalhar a vida de um casal. E ela ressaltou para mim os segredos para uma relação ser duradoura: carinho, compreensão, respeito e confiança.
As palavras de Mary Margareth que cismavam voltar em minhas memórias me deixavam mais confusas ainda. Porém, eu tinha certeza pelo menos de uma coisa. Não tinha mais nenhuma confiança em Emma. Ela havia se encarregado de destruir tudo o que havíamos construído em nossa relação. Eu queria poder perdoá-la. Sempre cogitei essa possibilidade. Eu estaria mentindo se dissesse que eu não queria mais sentir o calor de Emma junto ao meu corpo. Eu queria poder estar com ela e compartilhar todo o nosso amor. Mas, é tudo tão difícil. Tão complicado. Eu sou complicada. Eu sou um enigma que precisa ser desvendado urgentemente. E quem se aventuraria a desvendar os mistérios de minha vida? Emma talvez?
Por mais que se passasse em minha cabeça poder largar tudo e correr atrás de Emma Swan e lhe dizer que a perdoaria e que eu iria esquecer tudo o que aconteceu e que finalmente poderia começar uma nova vida ao seu lado eu não estaria mentindo. Mas, uma parte de mim nunca teria esse tipo de comportamento. E confesso que essa minha parte estava me dominando desde que tinha descoberto sobre aquela maldita aposta. Aposta que estragou minha vida para sempre.
Vontade de sair de casa eu não tinha, parecia que a cada dia que se passava era como se minha energia fosse drenada, e nada que eu fizesse melhorava essa sensação que se instalava em meu corpo. Quando eu não estava chorando eu estava dormindo. E ter que sair de casa hoje não era o que eu planejava. Mas, uma reunião da prefeitura me aguardava e como prefeita da cidade não poderia me entregar a uma depressão e deixar toda a cidade ao relento. Só de pensar em sair de casa eu me arrepiava toda e uma sensação de pânico perpassava por meu corpo. E sendo Storybrooke uma cidade pequena, tentava ir preparando minha cabeça para o fato de encontrar Emma Swan pelas ruas da cidade.
Assim que coloquei os meus pés para fora de casa, tudo parecia fora de contexto. O ar parecia mais rarefeito, as ruas mais lotadas, o caminho até a prefeitura mais longo. Eu não me sentia pertencendo a nada. Eu me sentia fora do lugar. Tentei caminhar entre os habitantes da forma mais invisível que eu pude, mas eram inevitáveis os olhares sobre mim. A essa altura eu já era uma chacota para todo mundo. A mulher que havia sido enganada. Não sei se agüentaria muito tempo andando por aquelas ruas, até que a arquitetura familiar da prefeitura começou a despontar no horizonte. Poderia me esconder ali por algumas horas, provavelmente em alguma reunião insuportável. Mas, não tinha visto Emma, pelo menos não chegaria ao meu compromisso de trabalho com os olhos mareados. Antes de entrar por aquela porta inspirei fundo para reunir toda coragem que precisava.
Foram horas intermináveis de uma reunião que parecia que nunca findar. Se alguém me perguntasse qual era o tema da reunião eu não saberia responder, pois minha cabeça viajou para tudo quanto é lugar, menos prestar atenção naquele assunto maçante que eu tive que dar alguma solução no final da reunião. Agora que todos haviam se afastado de minha sala, finalmente poderia voltar para casa. Poderia entrar em minha banheira e ficar submersa, onde criaria uma ilusão que todos os meus problemas desapareciam. Assim que eu saí da prefeitura mirei um par de esmeraldas olhando em minha direção. Em silêncio nossos olhares se cruzaram e naqueles microssegundos me deu a vontade de sair correndo e pular nos braços de Emma. Mas, a razão se encarregou de minar tudo o que minha emoção planejava fazer. Rapidamente lancei um olhar de desdém em sua direção.
– Regina, nós precisamos conversar! – Emma se precipitou em minha direção.
– Não! Não precisamos conversar. Não há mais nada para ser dito. Eu já poderia imaginar que alguém se encarregaria de fazer fofoca sobre minha saída de casa. Quem foi que te contou? Aposto que deve ter sido Mary Margareth. Vá embora Miss Swan.
– Ela realmente se preocupa com você, por isso que ela me disse que você tinha saído de casa. Regina, você pode não acreditar, mas tem várias pessoas que te amam e se importam com você. Henry está morrendo de saudades da mãe dele. Eu sei que pode estar deprimida, mas não o abandone. Ele te ama muito.
– Deprimida? Pelo que eu saiba quem tem o diploma de terapeuta na cidade é o Archie. Ou será que você fez algum curso por correspondência? Quem é você para tentar me desvendar?
– Regina, eu estou aqui porque a amo e me importo com você. Não posso vê-la sofrer tanto sabendo que tudo o que aconteceu foi por minha culpa.
– Pelo menos tem a humildade de admitir toda a sua culpa. Eu até ficaria aqui de expectadora assistindo sua atuação, mas é que eu tenho coisas melhores para fazer da minha vida. Adeus Miss Swan.
– Eu não vou a lugar algum sem falar com você Regina. Sabe-se lá quando terei uma oportunidade novamente. Eu não posso e nem vou desistir de nosso amor, porque ele é forte e resistirá a todas as dificuldades. Eu errei Regina. E você não tem idéia de como eu me arrependo de ter no começo brincado com seus sentimentos. O amor acabou nos unindo e creio que isso é o que nos unirá depois de tudo. Regina! Eu te amo! Perdoa-me. – diz Emma olhando em minha direção com lágrimas em seus olhos.
– Poupe-me deste seu discurso. E guarde suas lágrimas para outra pessoa, porque comigo elas não irão funcionar mais. Acabou tudo o que existia entre a gente e quando eu tomo qualquer decisão eu não volto atrás. Para mim, nossa conversa se encerra aqui.
– Nossa conversa não se encerra aqui. Pelo menos não para mim. Eu nunca desistirei de nós. – diz Emma se aproximando de mim passando sua mão pelo meu rosto, o qual eu afastei rapidamente. – Você está bem Regina? – pergunta para mim.
– Claro que eu estou bem. Melhor do que eu nunca estive em minha vida. – menti e provavelmente Emma deve ter captado naquele seu maldito detector de mentiras, mas eu não liguei. Não queria ficar do seu lado, queria me afastar o quanto antes. – Por que está perguntando isso?
– Para mim você não está bem. Eu olho para você e percebo. Sei lá, você está mais magra, abatida. Isso são saudades minhas? – perguntou me provocando.
– Mas tem que ser muito convencida mesmo. Desde quando você vale alguma coisa para me abalar?
– Desde quando você mentiu para mim em todas suas respostas Regina. Eu posso reconhecer quando mentem. E você não deu uma dentro hoje. Que tal falar logo que me ama? Porque pelo menos eu sei que será verdade.
– Amar você? Nunca! Jamais! Eu te amei muito, não posso negar, mas você mesma tratou de minar todos os sentimentos.
– Será que todos os seus sentimentos acabaram mesmo? Eu não acredito em você. – diz Emma se aproximando de mim e com uma imensa volúpia rouba um beijo meu.
Não. Eu não queria admitir isso, mas como eu senti falta daqueles beijos. Eles podiam me levar à loucura em segundos e sentia que se aquelas carícias continuassem estragaria todo o meu plano de me afastar de Emma. Não queria me machucar novamente. Mas, os nossos lábios tocando um no outro e o sincronismo perfeito de nossos beijos conseguia me desnortear completamente. Deixei soltar um leve gemido. Que merda! Não podia ter soltado esse maldito gemido. Emma sabia muito bem como me satisfazer. E como eu detestava isso. Assim que nos separamos para recuperar o ar que esvaiu de nossos pulmões tomei coragem para fazer o que eu necessitava fazer. Eu precisava disso. Dei um tapa em seu rosto e me afastei rapidamente.
– Miss Swan, não se atreva a fazer isso novamente. – disse ofegante e me afastando a passos largos.
Para me ajudar na minha confusão de sentimentos ainda acabei fazendo o caminho mais longo para casa. Tudo o que eu necessitava agora era me trancar em minha vida. Esconder-me de todos. Principalmente de Emma.
Mais tarde já deitada em minha cama e eu continuava a me lembrar do beijo que Emma me roubou. Passava meus dedos por meus lábios no exato lugar que Emma me beijou. Fiquei com meus dedos pressionados lá nem sei por quanto tempo, mas a sensação gostosa não se afastava de minha boca. Isso me fez lembrar uma coisa que eu sempre odiei em Emma.
Eu odeio o jeito convencido de Emma Swan.Um jeito típico que só ela possui. Como em poucas palavras ela expõe todo o seu lado de dona da verdade. Só porque ela pode perceber quando alguém mente ela adquire um jeito convencido que eu odeio. Odeio!Nossa conversa de mais cedo só serviu para comprovar isso. Como ela se atreve a colocar palavras em minha boca? Aliás, como ela se atreve a me roubar aquele beijo? Ela não podia ter feito isso. Irrita ver aquela imagem de alguém que sabe tudo. Quanto mais querer desvendar meus sentimentos e dizer como eu me sinto.
Tudo bem! Eu a amo! Sei que não deveria, mas meu coração a escolheu. E quando isso acontece não há muito que fazer. Apesar de tentar ao máximo fazer todo aquele sentimento desaparecer de meu coração. Mas não consigo. Não sei como viver nesse turbilhão de sentimentos que confundem minha cabeça. Mas, não quero mais sofrer. Não quero ser enganada novamente. Mas, definitivamente detesto o jeito como eu fico desnuda na frente de Emma. Por que ela consegue me desvendar tanto?
