Sentada no dorso firme de seu robusto GrandPeco, Katrina olhava para o que restava de um Deviruchi. Lembrou-se de como antes estes pequenos demônios atormentavam-na em seus combates. Pobres coitados, não entendem que não há como derrotar as forças da Luz, pensava enquanto descia de sua montaria para recolher os espólios.
Enquanto pegava os chifres que restavam, lembrou-se de quando aprendeu a canalizar a Vontade Divina pelo seu corpo, de forma semelhante a que sua prima fazia, mas com fins de punição, não apenas de cura e suporte. Pensou em quanto esse poder representava sua missão de vida, e até mais do que isso, sua vida efetivamente. Era ao custo de sua energia mental e do esgotamento físico que as hordas de monstros e demônios que assolava Rune Midgard. E Haviam relatos de muitos outros lugares assim, mesmo fora do reino.
"Preciso ir conhecer a República que tanto falam os outros. Preciso conhecer o que seria essa república que tanto falam, entender porque não existe uma Igreja central neste lugar recém aberto." Katrina estava pensando em voz alta, como sempre fazia quando estava sozinha. "Bom, chega de devanear, ainda há muito o que fazer aqui nesta cidade perdida."
Katrina montou novamente em seu GrandPeco e tornou a correr pelos tortuosos caminhos das ruínas que existiam abaixo da cidade de Geffen, a cidade da magia.
Enquanto caçava demônios e procurava limpar os calabouços de Geffen, Katrina pensava na luta de sua irmã e sua prima para expurgar o mal que afligia em uma longe cidade, fora do reino de Rune Midgard, Lighthalzen.
Aisha disparava flechas prateadas com uma destreza quase sobrenatural, procurando manter-se longe dos ataques daquelas criatura humanóides, oriundas de uma ciência irresponsável, dentro de um laboratório limpo, mas com uma aura péssima, em companhia de sua prima, que a auxiliava encantando-a com todo o repertório de favores e graças divinas a que tinha acesso. Suas flechas voavam com a única missão de destruir os doppelgangers, como ela havia sido informada, de guerreiros do reinado. O que teria levado a Reckenber a criar estas criaturas?
Tentar alcançar o status da divindade criando vida? Aquilo não era vida, mas uma distorção daquilo que a natureza havia criado. Como os cientistas não conseguiam entender isto? Nem mesmo os alquimistas conseguiam criar vida, mesmo muito próximos, conforme Gabi havia mostrado.
"Elenna, cuidado! Estou vendo o Algoz! Melhor nos afastarmos!" Gritou Aisha, avistando o doppelganger que mimetizava um Algoz à distância, que parecia ainda não ter visto as duas aventureiras. No encontro anterior com ele, ambas acordaram algum tempo depois, carregadas do laboratório de somatologia da Fundação Rekember. Ele era muito rápido para que Aisha pudesse escapar de seus golpes, como costumava fazer com outros monstros, e muito forte para que Elenna pudesse agüentar seus golpes enquanto usava seu poder divino para curar as feridas de seu corpo.
Vendo que conseguiram despistar novamente do Algoz, continuaram na infinita busca para livrar o laboratório dos monstros que o infestavam. uma dúvida afligia sua mente: será que eram mesmo monstros que afligiam o laboratório, como que criações sem controle, ou simplesmente seria uma produção constante destes doppelgangers que a Reckenber insistia em fazer? Talvez para testar suas criações, ou buscar algum grupo de heróis para alguma função?
Elenna e Aisha estavam há bastante tempo caçando e tentando desvendar a história e o que acontecia nos laboratórios. Encontraram novos amigos por lá, alguns velhos amigos também, que estava com a mesma missão, ou ao menos tinham o mesmo objetivo: a destruição destes doppelgangers. E, enquanto corriam contra as hordas que chegavam, Aisha, e depois Elenna, constataram algo: elas sentiram a plenitude de suas ações transformando a percepção delas e de outras pessoas sobre elas mesmas. Elas demonstravam uma aura de compreensão do mundo que parecia que tudo o que havia para ser aprendido, sentido, conhecido havia chegado ao seu limite, como se nada mais houvesse para ser descoberto.
"Há quem diga que a cada combate, a cada situação vivida, as pessoas aprendem algo." Elenna falava com Aisha, encostadas em um canto do laboratório para descansar. "Há quem diga que é possível ver a evolução de uma pessoa a medida que esta avança em seus conhecimentos, eu sua postura em relação à vida. Dentro desta visão, é dito que pessoas que atingem a plenitude do conhecimento, a plenitude de suas realizações, passa a emanar esta plenitude em uma forma sensível. Há relatos na biblioteca da Igreja que diz que é até possível ver uma aura azulada ao redor de alguém que tenha atingido este estado de espírito, e dizem que é de uma cor azul-clara. Mas, mesmo quando não é possível ver esta aura, é possível senté-la só de estar por perto de alguém nesta situação."
"É, eu consigo sentir isso em mim, e acho que sinto isso vindo de você. Mas isso significa que o teu marido não conseguiu este feito ainda, mesmo andando sempre com você? É um lerdo mesmo. Sabia que não deveria ter aceitado esse molenga..."
"Aisha, não fale assim do Dorei. Ele é esforçado. E ele nunca teve a intenção de atingir meta alguma, exceto quando tentava te convencer a deixar eu me casar com ele."
"Ou seja, é um perdido. Ao menos ele sabe lutar." Aisha fazia cara de azedo quando falava do casamento de Elenna, ciúmes que Elenna já conhecia desde sempre.
"Não reclame, Aisha. Ele está ajudando bastante a Duality, mostrando o emblema a todos, dando fama a sua guilda."
"Não precisa dizer algo que eu já sei. Bom, vamos voltar pra cidade, que estou muito cansada, e estou ficando sem flechas."
"Está bem, está bem... Mas espero que você aceite o Dorei na família um dia." Falando isso, Elenna pegou uma gema azul de sua bolsa e a jogou no chão, formando um portal azulado. "Pronto! Superfície, aí vamos nós!"
Aisha entrou com seu falcão, seguida de Elenna, pelo portal circular que surgiu no chão, e em instantes estavam novamente banhadas pela luz natural da cidade. Soltando seu falcão para a liberdade, Aisha voltou-se para a Funcionária Kafra de Lighthalzen, para que esta guardasse em seu armazém seus pertences, enquanto Elenna procurava Dorei na cidade, que estaria certamente avaliando a quantidade enorme de equipamentos que encontraram em suas investidas nos laboratórios.
Dorei estava perto da entrada do hotel da cidade, avaliando os equipamentos que as meninas conseguiram. No exato momento que Elenna o encontrou, ele estava com uma pesada maça com lâminas nas pontas, examinando-a com atenção, sentado ao lado de seu carrinho.
"Olá, querido!" Disse Elenna a Dorei. "Muita coisa boa, não?"
"Ah, oi, amor, não te vi chegando. Vocês duas fizeram uma ótima coleta de equipamento nesse laboratório! Preciso ir com vocês qualquer dia..." Dorei examina Elenna mais de perto. "Tem algo diferente em você... Não sei o que é, mas sinto que você está diferente..." Dorei começou a falar mais e mais rápido. "Sua prima também, mas não vou falar nada senão ela vai de novo falar que vai me matar, e eu não vou brigar com ela agora. Mas, de repente, você parece mais forte, melhor... Não sei dizer... Mas seu olhar me diz que devemos comemorar em algum lugar! Já sei! Vamos a uma taverna!"
"Ahn... Ah, vamos lá! E tente falar mais devagar quando você se empolga, não é qualquer um que entende o que você fala nessas horas."
"Ninguém mandou você ser devagar!" Respondeu Dorei, sorrindo. "Vamos, lá!"
Colocando o braço ao redor de Elenna, Dorei a levou para a taberna de Lighthalzen, sob o olhar ciumento de Aisha, que olhava à distância o casal.
