BEST I EVER HAD

ShiryuForever94

Direitos Autorais: Saint Seiya não me pertence, mas nem por isso podem ficar pegando meus argumentos sem citar não é mesmo? Se gostou de alguma cena especial ou de algum personagem novo, use à vontade, apenas cite de onde veio a inspiração ok?

Fanfiction de conteúdo adulto, contendo relações homoafetivas masculinas. Se você tem menos de 18 anos, ou não suporta yaoi e relacionamentos entre homens, procure algo mais adequado à sua faixa etária e gosto. Aviso dado, me poupem de flammers mal educados que tenho mais o que fazer. Quanto aos casais que costumo retratar, são do meu gosto pessoal. Se não gostar de algum, por gentileza não desmereça todo o meu trabalho por isso. Todos têm direito a seus gostos e preferências. Boa leitura.

Tema do capítulo: Carnival of Rust, Poets of the fall

Mais que poderosa Beta Reader: Midnight Desire

QUATRO

Despertar

"Senhor..." A voz dolorida de Harpia soava baixa ainda. Ele não estava em sua plena consciência.

"Não apenas seu senhor." Wyvern era uma figura mítica, um dragão alado perigoso. A casa de Valentine era pequena, a majestosa figura do Kyoto de Wyvern parecia tomar conta de todos os cômodos. Seu cosmo roxo poderoso parecia infectar o ar e a sensação para um ainda confuso Valentine não era das melhores.

Valentine estava completamente zonzo. Era como se uma rocha o tivesse atingido. A súrplice de Harpia brilhava como se estivesse viva e, na verdade, estava. A presença do Kyoto fazia a veste do ruivo reagir de maneira intensa, como se precisasse daquilo, daquela energia toda.

A mente do cipriota parecia um furacão. Tentava não se deixar levar pela presença impactante e aterradora – e, ao mesmo tempo era tudo o que gostaria de fazer. Desde que fora escolhido, desde que vestira a súrplice a primeira vez, havia algo em sua existência que o empurrava para Radamanthys. Desde que chegara que sabia que havia algo estranho demais.

Mas estranheza era pouco para descrever tudo que a presença de Radamanthys causava.

"Eu posso ter que matar você, deve entender isso. Se eu não me controlar a tempo, apenas saiba que sinto muito, mas é minha natureza. E sinta-se honrado, não costumo me desculpar." Outra vez a presença hipnotizante do Kyoto, agora mais perto. "Reaja a mim, Valentine! Precisa reagir!"

A cauda da armadura de Radamanthys pareceu entender a mensagem e atravessou sem piedade a palma da mão de Valentine, rasgando a pele clara e provocando um grito de dor pura no cipriota.

O Kyoto? Um cintilar dourado de momentos e nada mais. Nenhuma palavra para aliviar a dor de Valentine, nada.

"Por que..." Valentine começou a falar, mas sua súrplice pareceu esmagar seu corpo e gemeu alto sentindo sua mente ser tomada por flashes de cenas que tinha certeza que não vivera. Uma inexplicável ânsia, uma busca desenfreada por algo... Sensação de vazio, um vazio tremendo que parecia levá-lo para mais e mais perto de Radamanthys.

Uma dor que crepitava no meio de todo seu corpo, subia por suas costas e explodia em sua cabeça. Era o que Valentine sentia no momento. Suas mãos tremiam descontroladamente e o sangue pingava da ferida na palma da mão. Via sangue em várias imagens, territórios cobertos de sangue, seu rosto coberto de vermelho, gritos. Não era nada agradável, mas não estava com medo.

"Pare de lutar contra o que sabe que não pode vencer. Diga-me como se sente." Radamanthys segurou-o pela cintura, sem ligar para o fato de que aquelas armaduras impediam que chegassem muito perto um do outro. "Somente eu posso libertar você, somente eu tenho poder para trazer você de volta ou mata-lo durante o processo. Estou no controle, mas perde-lo será bem fácil se você não me ajudar."

Um suspiro fundo e um toque até suave no rosto de Valentine. "Estou me controlando ao máximo, porque é você. Por favor, volte para mim ou irá morrer. Não posso impedir que o mal se espalhe, mas posso impedir que você sucumba a ele e consiga ser quem deve ser ao meu lado. Sei que sua mente está girando e se perdendo, mas é a única maneira. Olhe para mim e enxergue o que precisa ver."

Do you breath the name of your saviour,

Você suspira o nome de seu salvador,

In your hour of need

Em sua hora de necessidade?

And taste the blame, if the flavour

E sente o gosto da culpa, se o sabor

Should remind you of greed

Fizer você se lembrar da ganância

Of implication, insinuation and you will,

Da implicância, insinuação e você lembrará,

Till you cannot lie still

Até que você não possa mais mentir

In all this turmoil before it cave and foil,

Em meio a esse tumulto antes que se esconda e desvie,

Come closing in for a kill

Avançará para matar

"Eu não sei o que eu sinto... Não sei quem é você, não quero você. Me deixe..." Valentine gemeu novamente e tentou se afastar daquele homem. As palavras dele pareciam nada fazer ao Kyoto. Estava tão cansado. Tanta energia sendo colocada nele e retirada dele, numa troca doentia.

A face impassível do juiz mentia quanto à dor que o carcomia por dentro. Sentia tanto amor, Wyvern sentia tanto amor. Era como se sua chance de ser inteiro, de ser um ente completo, em plena força e poder, estivesse escorregando para longe através das negativas de Valentine.

Radamanthys e sua estrela maléfica não iriam aceitar. Ouvir que o único amor de todas as suas encarnações não o queria era desalentador. Soltou o corpo menor sem maiores cuidados. Seu parco controle da natureza assassina que possuía indo embora em gotas.

"Não vou aceitar suas palavras, não posso. Precisa se lembrar." Radamanthys ficou observando o ruivo se contorcer com a dor da opressão da súrplice, a ferida na palma da mão sangrando sem parar. "Não posso ajudar se você não entender quem é e, mais importante, se não aceitar que nunca mais será quem foi, nunca mais poderá voltar a ser humano e tem apenas a mim nessa existência perdida."

Radamanthys estava encurralado. Se usasse os métodos necessários, não tinha certeza que o corpo daquele Valentine aguentaria a provação. Queria-o de volta, mas não queria matar aquele homem, ou aquela alma, embora fosse a única opção se ele não despertasse. A súrplice partiria buscando outro hospedeiro. Poderia não ser tão importante assim, afinal Harpia voltaria, mas havia algo naquele corpo, naquela alma, que fascinava a parte humana do Kyoto. Ele parecia reconhecer muito mais que apenas um receptáculo naqueles olhos verdes. Era uma alma viva ainda. Um pouco apenas de humanidade, mas estava lá.

"Não sou Harpia..." Valentine murmurou sentindo as asas de sua súrplice fecharem-se sobre seu corpo e apertarem. "Eu não quero ser!" Bradou revoltado, lutando para se livrar daquilo.

Wyvern suspirou. Era malévolo, cruel e prepotente, mas sabia exatamente como aquele homem ali se sentia. Quando despertara para ser Wyvern também sofrera, e muito. Como aceitar que sua vida acabara e que agora era um ser abjeto e cheio de terror? Era para enlouquecer qualquer um. Quanto mais Valentine resistisse, mais o Kyoto teria certeza de que ele não era tão ruim assim. Era tão mais difícil para aqueles que ainda tinham alguma parcela boa em suas almas.

Tão mais difícil.

"Quem é Harpia? Radamanthys perguntou querendo delimitar os limites de realidade e sonho do outro.

"Quem acha que é? Ora, não se faça de idiota, você sabe, sua súrplice sabe, mas não quero que seja eu!" Valentine arfava, tentando ficar calmo e resistir. "Vá embora. Não tem nada para você aqui. Apenas me deixe morrer."

"Estou tentando saber quem você é, ou era, Valentine. Eu sei quem é Harpia, sei tudo que há para saber. Sei que você resiste demais e pode morrer por isso, sei que será trocado por qualquer outro corpo se não se deixar tomar e posso notar que tem algo de bom em sua alma ou não estaria sendo tão difícil assim aceitar. Que tal parar de achar-me um completo imbecil e aceitar seu destino antes que eu tenha que piorar sua situação? Não hesitarei!" E falar isso já era hesitação... Ele já teria socado, derrubado, esmagado, qualquer outro espectro que resistisse, mas não conseguia fazer aquilo com Harpia... Com Valentine. Droga, com Valentine de Harpia! Eram um só. E eram dois. Era confuso demais, mas era como deveria ser e sempre fora.

O juiz não conseguia ir adiante e cumprir suas ameaças. Não conseguia.

Não tão friamente, não tão rapidamente.

"Prefiro a morte a ter que me deitar com você." Valentine murmurou sentindo ainda mais dor. "Você é violento, cruel e insensível. Eu li os diários de meu predecessor, eu sei toda a história de amor dos dois, mas realmente, não vejo em você o que ele via. Não há carinho em você. Só há essa alma... Negra! Me deixe em paz! Ou então mate-me de uma vez. Por que hesita se é uma alma podre sanguinária sem piedade? Você não é o todo poderoso sanguinário serviçal de Hades? O cão de Pandora?"

Os olhos verdes de Valentine estavam resolutos e aquilo fez Wyvern recuar. Era impensável, inacreditável, mas alguma coisa em Radamanthys reagia a toda a honra do outro. Era um homem honrado o que havia ali à sua frente. Não era qualquer um. A estrela maléfica não se enganaria. Na mente do juiz a súrplice jogava pensamentos insensatos, maldades indizíveis porque ela sabia que ambos seriam entregues à danação. Não havia salvação sem Harpia. Uma parte de Radamanthys não sabia se queria ser salvo. Não sabia se gostaria de sentir algo.

Não mais.

A armadura do Kyoto ergueu suas asas e um cosmo destrutivo fez todos os móveis do pequeno cômodo serem atirados nas paredes. Wyvern estava frustrado e furioso. Não queria ser privado daquele por quem esperara por séculos!

Come feed the rain

Venha suprir a chuva

'cause I'm thirsty for your love,

Pois eu estou sedento pelo seu amor,

Dancing underneath the skies of lust

Dançando sob os céus do desejo

Yeah, feed the rain

Yeah, alimente a chuva

'cause without your love my life

Pois sem o seu amor minha vida

Ain't nothing but this carnival of rust

Não é nada além deste parque de diversões abandonado

Um soco potente atirou Valentine como um trapo velho contra uma das paredes e o espectro pareceu desfalecer. Radamanthys o pegou no colo e chutou a porta, derrubando-a dos caixilhos. Viu Garuda e Sylphid do lado de fora. "SUMAM! Ele é problema meu." Seus olhos ardiam e o gelo sob seus pés rachava pela intensa energia. Não queria desistir, mas estava ficando numa posição insustentável.

"Sou juiz de Hades como você e estou apenas cumprindo meus deveres, não vou sumir daqui, pois me foi ordenado manter tudo em ordem no meikai e isso deve incluir um Kyoto descontrolado como você, Wyvern." Não havia simpatia nem subserviência. Eram equivalentes em seu cargo de juízes. Ayacos não iria se afastar.

Sylphid permaneceu onde estava, não podia de jeito algum se intrometer naquela pequena contenda.

"Eu vou resolver tudo, ao meu jeito. Ou quer que eu deixe Valentine no chão para irmos às vias de fato? Não tem nada melhor para fazer? Que tal ir caçar almas perdidas, Ayacos?" O vento uivava sem parar. O Cocytes não era ambiente para qualquer um permanecer muito tempo, talvez com exceção de Valentine. O Kyoto de Garuda soube que não ia ser da maneira mais fácil.

Ayacos olhou o céu do meikai, sentiu as rajadas gélidas, perdeu alguns momentos avaliando o cosmo agressivo de Wyvern e perscrutou o corpo desmaiado no colo do inglês. Sua missão era conter o loiro, mas ninguém fazia isso melhor que Valentine, ou melhor, Harpia. "Sylphid, você foi encarregado de despertar Harpia, será que faria isso melhor que o Kyoto?"

Basilisco respirou fundo. Estava numa situação maluca. Não gostaria de acordar Harpia, pois não era agradável provocar ao extremo o corpo de alguém para obter uma resposta da estrela maléfica. Na verdade, não era apenas o corpo que era levado ao extremo, a alma ainda humana, se resistisse, também era bem machucada. "Como o senhor disse, fui encarregado de fazer tal trabalho, pelo próprio Hades, a menos que isso ocorra de outras formas. Talvez dentro de uma ou duas horas. Quem sabe? Eu poderia ter tido algum tipo de discussão com o juiz Wyvern e por isso estive fora de combate uns tempos."

Ayacos sorriu de leve, entendera a ideia de Basilisco. Era honrosa para todos.

"Não preciso de favores." A voz metálica do Kyoto inglês soou bem baixa, e perigosa. A mente sagaz de Radamanthys já havia compreendido que aquele trabalho, acordar Harpia, havia sido designado àqueles dois que, por liberalidade, haviam cedido um pouco para que ele tentasse, mas seu orgulho recusava-se a agradecer. Não queria permitir ao mesmo tempo em que temia não poder suportar o que necessitava ser feito: rasgar a alma dentro do corpo de Valentine, causar-lhe horror indizível até seu pior lado aparecer para Harpia poder renascer.

"Seu orgulho continua intacto, Radamanthys. No entanto, também tenho o meu. Ou resolveremos do jeito proposto por Sylphid ou irei avisar o imperador de que talvez precisemos de medidas mais extremas para acordar essa avezinha de rapina..." Ayacos sorria como se tivesse dito a coisa mais agradável do mundo, embora fosse uma grave ameaça chamar Hades para resolver. Todos seriam punidos pela incompetência em lidar com o assunto e por não terem cumprido seus deveres.

Os dois kyotos encararam-se por momentos. Radamanthys trincou os dentes, revoltado por saber que teria que ceder – mas saber disso não significava necessariamente que seria o que ele viria a fazer. A súrplice escura exalava perigo e o corpo do inglês obedeceria, sem dúvida.

Sob o olhar preocupado de Sylphid, o corpo de Valentine foi colocado no chão e uma nuvem poderosa de cosmo roxo se desprendia da veste de Radamanthys.

"Se é combate que você quer, é o que terá, não esqueci o que você fez para despertar a alma negra que habita em mim. Eu não revidei seus golpes com potência suficiente daquela vez, mas isso irá mudar."

"Talvez eu o destrua devagar para dar chance de que se arrependa." Ayacos não ia fugir de um desafio direto, jamais.

"Altezas, o Imperador não irá gostar de vê-los desperdiçando energia..." Sylphid ainda tentou contemporizar, mas um soco potente de Garuda o atirou longe.

O cosmo dos juízes se inflamou. Não estavam nada calmos. Seres escondidos do meikai surgiram dentre pedregulhos, por trás de pequenos montes de gelo, com olhares de curiosidade e escárnio. Quem sabe aqueles dois não se matassem? Eram os maiores torturadores, os mais doentios, eram juízes.

Algumas formas ectoplásmicas se acercaram do local, esperando.

O vento cortante, gelado, perigoso, esbranquiçado.

Pequenos flocos caíam no rosto de Wyvern e outros flocos no rosto de Garuda.

Radamanthys se deu conta de que não queria viver. Depois de ouvir o que Valentine lhe dissera, para que resistir? Deveria lutar, se esforçar, apenas para ser rechaçado? Hesitou pela segunda vez naquele dia. Concluiu para si mesmo que não precisava sobreviver.

It's all a game, avoiding failure,

É tudo um jogo, evitando falhar,

When true colours will bleed

Quando as verdadeiras faces irão sangrar

All in the name, of misbehaviour

Tudo em nome, do mal comportamento

And the things we don't need

E das coisas que nós não precisamos

O soco de Garuda atingiu o Kyoto de Wyvern com potência máxima; afinal de contas, Ayacos esperava que o outro se esquivasse.

A parede contra a qual o pesadíssimo conjunto formado pelo Kyoto inglês e sua súrplice foram jogados não resistiu ao impacto e desabou. Uma nova entrada para a casa de Harpia.

Sangue escorrendo pela boca, o dragão alado se levantou com fúria no olhar âmbar vincado de riscas vermelhas. O cosmo alto e intimidador. Voou como uma fera assassina, que na realidade era, até onde Ayacos estava. Tão depressa quanto o vento enraivecido que agora uivava perto deles.

Violência.

A linguagem que Wyvern mais entendia.

Rolaram pelo chão engalfinhados numa luta cheia de socos, pontapés, sangue e dor. As súrplices de ambos eram poderosas, fortes.

Não havia dúvida alguma nos dois. Não iam parar até que um deles se rendesse. E, decididamente, rendição não era palavra comum no vocabulário daqueles dois seres infernais.

No chão, alheio a tudo aquilo, o corpo de Valentine de Harpia começou a se mover, devagar. Não estava consciente, ainda não. No entanto, a súrplice estava. Muito viva e cheia de energia.

Mais golpes de Radamanthys em Ayacos e vice-versa.

E mais sangue escorrendo pelo gelo, num contraste entre o rubro e o nevado. Gotas voaram e se depositaram na súrplice de Harpia, parecendo fazê-la queimar.

Sylphid se recobrou do golpe após algum tempo e ouvia os potentes socos, sentia os cosmos virulentos, violentos, descontrolados. Correu até onde via o corpo de Valentine estremecer e tocou na súrplice. "Acorde, por favor, acorde. Somente você vai conseguir impedir esses dois."

Gemidos fracos. Valentine não estava totalmente desperto, mas Harpia se ergueu, levando aquele corpo junto. O cosmo roxo forte, mas não tanto quanto poderia ser pois ainda não havia consciência total em Valentine, se espalhou naquela parte do Cocytes.

Foi o bastante para Radamanthys parar de golpear Ayacos e se virar, preocupado, tateando alguma emoção naquela confusão de almas, Harpia, Valentine, Radamanthys, Wyvern. Quem era quem? O amor deles no meio daquela confusão.

Se é que ainda havia amor.

Amor no inferno era uma ironia que aqueles dois espectros há muito haviam aprendido a reconhecer para suportarem juntos seus destinos caóticos.

I lust for after no disaster can touch,

Eu desejo que nenhum desastre possa nos tocar,

Touch us anymore

Nos tocar nunca mais

And more than ever I hope to never fall

E mais do que nunca, eu desejo nunca cair em tentação

Where enough is not the same it was before

Onde o bastante não é o mesmo que era antes

"Creio que ver Wyvern morrer talvez resolva todos os problemas para todo mundo. Apenas conseguirá me deter se estiver desperto, Valentine de Harpia." Ayacos de Garuda aproveitou que a atenção de Radamanthys estava no jovem cipriota e atingiu o Kyoto de Wyvern com seu Garuda Flap.

O vôo de Garuda.

Era um golpe impressionante. Não o pior de todos, mas era poderoso. O adversário se via lançado em velocidade incrível aos céus, deixando-o confuso e sem defesa, uma longa distância percorrida em pouco tempo. Mas, o tal voo não durava muito, pois logo vinha a queda, um grande impacto capaz de destroçar um corpo sem piedade.

Mesmo que Radamanthys estivesse vestido com sua súrplice, seria um golpe devastador.

O corpo do inglês começou a cair. Sylphid mordeu os lábios, não podia interferir.

"Que me diz, Harpia? Ou melhor, que me diz, Valentine?" Ayacos sorria, um jeito cínico no olhar. Ele não ia deter a queda, ele realmente não se importava. "Será culpa sua, afinal de contas toda esta luta é por sua causa. Pelo visto sua alma humana não é assim grande coisa. Cúmplice de assassinato é um bom crime, será ótimo ver você vagando sozinho por aí quando Harpia assumir o controle e descobrir que você, resto humano, foi o responsável por separar o amor de Wyvern do amor de Harpia. Mas, nada disso lhe diz respeito, não é mesmo? Que são seres cósmicos vivos há séculos para um reles humanozinho de merda?"

"PARE!" A voz de Valentine, ainda medianamente desperto, soou. A mão doía horrivelmente, a mente embaralhada não entendia tudo que o nepalês dizia, mas sabia que aquilo devia cessar.

"Ora, mas por qual motivo? Você não liga para ele, não se importa com o que esse lixo do meikai possa ser. Para que se preocupar? É apenas Radamanthys, você mal o conhece, ao contrário de Harpia. Wyvern vai sobreviver, já não posso dizer o mesmo de seu hospedeiro, que nem é tão bonito assim, diga-se de passagem." Ayacos não parava de falar, nem de provocar. Queria ver até onde aquele ser aguentaria.

Finalmente acordado, Valentine sentia dores incomensuráveis. Seu senso de justiça estava mais vivo que nunca. "Ele ainda está vivo dentro daquela súrplice! Ainda há algo humano lá dentro! Ele vai sofrer!" Valentine falou mais alto, dando-se conta de que não era apenas um ser do inferno dentro da súrplice. Radamanthys era alguém, tinha vivido e morrido e tinha sido dominado e... E?

Seu coração humano doeu. Sua estrela maléfica o atiçou mais um tanto. Sua mente obliterou-se da realidade daquela situação com lembranças cruéis e também com cenas de amor. Beijos, abraços, salvação. "Por favor, pare..." Gemeu enquanto a súrplice de Harpia parecia sugar o sangue de Radamanthys derramado sobre ela em gotas.

Come feed the rain

Venha suprir a chuva

'cause I'm thirsty for your love,

Pois eu estou sedento pelo seu amor,

Dancing underneath the skies of lust

Dançando sob os céus do desejo

Yeah, feed the rain

Yeah, alimente a chuva

'cause without your love my life

Pois sem o seu amor minha vida

Ain't nothing but this carnival of rust

Não é nada além deste parque de diversões abandonado

"Seu pedido é muito educado, mas de que adiantaria para ele viver se tudo que ele queria era você? Ou melhor, Harpia. Ou talvez, quem sabe, se tivessem oportunidade, talvez pudessem ser amigos e tornar tudo mais fácil? Você não deu chance alguma a ele, deu? Claro que não! Afinal de contas, o que lhe importa outrem se está apavorado demais e é estúpido demais para pensar em outra pessoa além de você? Existe honra no meikai, apesar de tudo, e você descartou o desgraçado que é tido pelo mais honrado de todos nós. Grande feito, não acha? Está feliz agora?"

Valentine estremeceu, sentia a agonia intensa de sua súrplice, sentia seu estômago contrair de puro nervosismo, sentia dor na alma, no corpo, na mão ferida, sentia vontade de morrer de uma vez e deixar tudo aquilo para trás. Paz parecia algo impossível. Morrer era para ser uma morte afinal de contas! Ao invés disso, dilemas morais e chacotas? Mas que inferno!

Porque afinal de contas era o inferno.

Garuda sentiu a aproximação do corpo indefeso que se dirigia ao solo em velocidade vertiginosa. "Creio que você tem... Vinte segundos para decidir se usará os poderes de Harpia para tentar salvá-lo ou se vai deixá-lo morrer, porque eu garanto que o corpo de Radamanthys será destroçado. O que vai ser?"

O que ia ser?

Pavor inumano dominou os resquícios de alma humana de Valentine. Seria responsável por aquilo. Por que seria responsável? O quê tinha ele a ver com tudo aquilo? O quê? Ouvia os gritos desesperados de sua súrplice. Mas por quê? A súrplice resistiria. Então qual seria o problema? Por que aquilo o incomodava tanto?

"Quinze segundos." A voz de Garuda era fria e distante.

Um sussurro agoniado, mas que ecoou como um trovão na mente de Valentine.

"Por que ele é um bom homem, coisa que eu já não sou há milênios. Salve... Salve-o. Ele pode dominar Wyvern e ser alguém de que você se orgulhe. Você é um bom homem, eu posso sentir. Salve... Radamanthys, não por mim, por você."

Valentine gritou. Agonia misturada com confusão, delírio, medo, sensação de impotência.

"Oh, parece que isso está indo muito bem." Ayacos ria, simplesmente ria. Ah, a capacidade maldosa de uma súrplice. Se bem que estava achando que as emanações de Harpia pareciam mais doces que deveriam. Melhor não pensar muito. "Dez segundos."

Sylphid agoniou-se. "Valentine... Por favor. Ele é seu general. Ele... Eu não sei o que pensar."

Na mente do cipriota, a repetição incessante.

"Salve-o, salve-o, salve-o..."

"E-eu não posso!" O ruivo travava imensa batalha para se manter são.

"Não o deixe, não vá embora, não o abandone. Ele jamais abandonaria você." Harpia entoava seus encantos maléficos.

"Ele jamais deixaria você." Imagens de lutas, missões, mortes, fugas, destruição.

"Ele ama tanto você." Juras de amor, no silêncio quebrado por gemidos enquanto se amavam no castelo do Kyoto...

Don't walk away, don't walk away, ooh, when the world is burning

Não vá embora, não vá embora, oh, quando o mundo está queimando

Don't walk away. don't walk away, ooh, when the heart is yearning

Não vá embora, não vá embora, oh, quando o coração está desejando

Don't walk away, don't walk away, ooh, when the world is burning

Não vá embora, não vá embora, oh, quando o mundo está queimando

Don't walk away. don't walk away, ooh, when the heart is yearning

Não vá embora, não vá embora, oh, quando o coração está desejando

A luz roxa intensa da armadura de Harpia brilhou com força absurda. A neve veio mais forte, mais rápida, mais enregelante. Garras afiadas cortaram o ar, olhos verdes retiniram com as asas se abrindo na imponente presença.

"EU SOU HARPIA!"

"Uh?" Ayacos nem se mostrou impressionado. "Mesmo? Cinco segundos..." O zunido do corpo de Radamanthys descendo para a destruição.

"Jamais!" A força sobrehumana de dois braços estendidos, asas púrpuras equilibrando o peso inacreditável de uma súrplice cheia de detalhes e metal. Pernas poderosas impulsionando para cima num salto perfeito e um abraço protetor em torno do corpo desacordado.

Rosnares.

Uma espécie de guincho, de silvo, um grito de... Harpia.

O espírito mais valente da floresta conforme antigas lendas indígenas. A ave também conhecida como Gavião-Real sempre era monogâmica e morria sozinha após perder seu par.

"Agora, se me dão licença." A voz baixa, calma, porem audível, o olhar frio e distante, a armadura reluzindo.

"Creio que terminamos, Sylphid." Ayacos deu meia volta, sem sequer se despedir e, acompanhado de Basilisco, sumiu num cosmo poderoso para a Giudecca. Harpia estava de volta.


Este foi o penúltimo capítulo. Espero que estejam gostando e comentem. O capítulo final virão em três ou quatro semanas. Beijos.