–Bella – meu pai segurou as mãos dela entre as suas – Tudo bem se não quiser. Não precisa fazer isso se não se sentir confortável.
Eu estava apoiado na parede do outro lado do quarto quando rolei os olhos. Pelo jeito que ele tava falando, parecia até que ela tava se oferecendo pra um sacrifício de sangue. Sra. Marie deu um tapinha no meu braço e apontou acusatoriamente pro meu pé que estava confortavelmente apoiado na parede.
–Vai sujar a parede – ela chiou.
Com um suspiro mal humorado, tirei o pé da parede e olhei pra idosa que parecia satisfeita.
–Tudo bem, Dr Cullen. – Bella sorriu docemente – Não tem problema nenhum.
–Muito bem então. – meu pai sorriu – Obrigado de verdade.
Depois de falar ainda um pouco mais sobre o quadro dela ser positivo e ela parecer estar bem, meu pai saiu parecendo cansado como sempre.
Encaminhei–me para a poltrona e observei enquanto Sra. Marie se aproximava da neta e tocava suavemente seu rosto. Os olhos castanhos encontraram os azuis como eu nunca tinha visto antes. Quando foi a ultima vez que olhei para alguém daquele jeito? Ou melhor, quando foi que alguém olhou pra mim assim? Eu sabia. Não eram olhos azuis ou castanhos. Não... Eram verdes. Verdes como uma folha contra o céu azul, como o campo de grama num dia verão. Verde como o amor que eles transmitiam.
Respirei fundo e afastei a lembrança. Agarrei–me ao presente e ouvi Sra. Marie me olhando.
–Eu vou indo, Edward. – ela sorriu – obrigada por ficar.
Desviei de seu olhar e acenei.
–Até mais, Sra. Marie.
Ela deu mais um beijo na neta a saiu.
Continuei olhando a parede, quase esquecendo que eu não estava sozinho.
–Então... – ela falou – o que você fez pra estar merecendo esse castigo?
Eu a olhei. Ela me encarava. Os cabelos caíam pelos ombros, a pele estava pálida e os hematomas do acidente já estavam quase imperceptíveis. A boca não estava totalmente fechada, uma fresta por onde apareciam de relance os dentes da frente estava aberta entre seus lábios. Ela não era exatamente bonita.
–Dirigi alcoolizado.
Respondi automaticamente e olhei para o outro lado do quarto. Demorei um tempo até me virar pra ela novamente. Ela me olhava, como se pudesse enxergar além de mim. Ela pareceu ficar em silêncio por muito tempo. Quando finalmente falou, sua voz era baixa e cautelosa.
–Alguém se machucou?
–O que?
–Alguém se machucou quando você estava dirigindo bêbado?
–Não – eu respondi – ninguém se machucou – eu senti uma leve culpa em mentir.
–Menos mal. Ainda assim não devia ter feito isso. Foi por causa de alguém irresponsável que eu estou assim.
Ela olhou para baixo e depois voltou a olhar para a TV, como se encerrasse o assunto. Ignorei a onda de culpa, tudo que eu precisava era de uma brecha pra falar sobre o acidente e lá estava ela. Antes que eu me permitisse sentir culpa, precisava saber se aquela culpa era justificada.
–Você se lembra do acidente?
Ela se recostou no travesseiro e me olhou.
–Mais ou menos. É tudo meio impreciso, sabe? Como um sonho.
–Lembra do carro?
–Talvez – ela franziu o cenho – lembro que era um carro prateado. Lembro dele ter entrado na minha pista, estava atrás de um caminhão. Imagino que ele queria ultrapassar o caminhão. Eu me assustei, virei o volante o máximo possível. Fui direto pra um muro e não consegui frear.
Eu a encarei. Pra um mais ou menos, ela lembrava bem até demais. Então era ela mesmo. Ela era a garota do acidente. Meu coração começou a acelerar.
– Você... Você lembra das pessoas do outro carro?
–Uhm... – ela fechou os olhos – Não... Não lembro de nada depois do muro. E não consigo lembrar dos rostos deles quando o farol iluminou o outro carro.
Quando ela parou de falar, percebi que minhas mãos estavam suadas e presas no apoio da poltrona.
–Você... – eu não podia evitar a pergunta que se formava em minha boca – Ainda vai voltar a andar?
Ela engoliu seco. Vi seu pescoço ficar cada vez mais tenso, como se ela estivesse fechando a garganta. Eu já estava quase ficando preocupado se ela estivesse sufocando quando ela falou.
–Seu pai disse que meu quadro é reversível. Ele explicou que minhas chances são boas, apesar de pequenas, não são impossíveis.
–Isso é bom.
Ouvimos uma batida na porta. Nossos olhares se romperam e ela fitou a porta enquanto ela se abria e um urso entrava no quarto, seguido por um duende.
O cara grandalhão era alto e musculoso. Os cabelos negros como uma mancha de petróleo combinavam com os olhos escuros, ele vestia uma camisa cinza e calças escuras. A menina tinha o cabelo curto e repicado, as feições e o corpo eram miúdos. O vestido verde justo no busto, ou na falta deles, realçava sua magreza. O pior de tudo era que eu os conhecia. Todos conheciam aqueles gêmeos.
–Bella! – Emmett entrou no quarto com um sorriso largo que logo se desfez ao abraçar calorosamente a menina na cama. Enquanto ela não podia ver, seu rosto assumiu uma seriedade e parecia que em um segundo, o cara envelhecera dez anos. – É tão bom vê–lá acordada!
–Ora, Emmett – Alice partiu o abraço dos dois e enrolou os gravetos em torno do pescoço de Bella – Ficamos tão preocupados! – os olhos dela se encheram de lágrimas.
–Alice, cuidado – Bella riu – sou uma recém-operada.
Alice soltou imediatamente Bella e tratou de limpar as lagrimas da bochecha conforme elas escorriam.
–Eu não acredito que isso aconteceu com você – Emmett cruzou fortemente os braços – se eu pego o cara que causou isso...
–Emmett – Bella sorriu amavelmente e segurou a mão do amigo – Não fique assim. Agora vamos... – ela colocou o cabelo atrás da orelha – quero que conheçam o Edward.
Pela primeira vez desde que entraram, os dois pareceram notar minha presença. A surpresa dos dois seria hilária, se não fosse o estado em que eu me sentia por dentro.
–E aí, Edward – Emmett contornou a cama e me deu um aperto de mão, os olhos negros encontraram os meus e permaneceram lá. Em seu aperto não havia nada além de segurança. Não ameaça, ou desafio, ou qualquer coisa do tipo, apenas segurança.
–E aí – retribuí o aperto de mãos e olhei para Alice.
Ela deu um sorriso largo e sincero e acenou docemente. Tentei meu melhor pra sorrir também, mas saiu algo parecido com uma careta. Sentei-me novamente na poltrona enquanto Emmett voltava suas atenções para Bella. Alice parecia ansiosa, me lançando olhares rápidos e dando pequenos saltinhos no lugar, olhava ansiosamente para Bella, mordendo os lábios e depois voltava a olhar pra mim.
Eles mantiveram uma conversa alegre, Emmett sempre tinha uma piada na ponta da língua, e por mais que eu tentasse acompanhar o assunto, minha cabeça estava fixa no fato de Bella ser a garota do acidente. Deus, eu não parava de repetir isso. Bella me lançava alguns olhares, procurando alguma interação, mas eu estava em off.
Olhei para Bella, sorrindo e rindo com seus próprios amigos, deitada naquela cama, e pensei nela caída sobre o volante. A ficha tinha caído. Levantei-me e andei em direção à porta.
–Não precisa ir. – Alice sorriu pra mim.
–É – Emmett virou o corpo e me olhou – Há muito tempo que minha presença não impede essas duas a falar sacanagem. Parece que a sua ajuda. – soltei uma leve risada.
–Volto daqui a pouco. – respondi antes de fechar a porta.
Cruzei o corredor, indo para o extremo oposto, de onde eu ainda conseguia ver a porta do quarto, sentei num banco de plástico e suspirei. Irritado com todo o desenrolar do dia, pensamentos invadiam minha mente como um turbilhão. Eu tentava processar tudo. Eu causei o acidente. Bella era a garota do outro carro. A imagem dela sangrando sobre o volante veio em minha mente. Deus, pensar agora naquela garota e saber que ela era a Bella elevava o caos a uma categoria inédita. Bella estava paraplégica e por minha causa.
Eu afundei o rosto nas mãos. Porque tinha que ser justo ela? Deus! Éramos eu e Will que estávamos bêbados e drogados dirigindo como loucos, não Bella. Talvez se eu tivesse ficado paraplégico ficaria com ódio de mim mesmo, o que era muito melhor que a culpa que me batia naquele momento. A resolução de que havia outra pessoa sofrendo as consequências dos meus erros era forte demais pra ser ignorada ou maquiada. Ela estava lá. Que merda. Merda. Merda. E agora? O que eu fazia?
Fitando o nada, imaginei como minha vida seria se eu estivesse paraplégico. Coisas básicas como andar pela casa não seriam fáceis, tomar banho, me locomover, nada. Tudo seria extremamente difícil. Pensei em Bella naquela cama. E a imagem de outra pessoa veio em minha mente.
Senti as lagrimas querendo saírem e o nó em minha garganta apertou. Pensei nos cabelos ruivos e lisos caindo pelo seu ombro. Os olhos verdes brilhando de amor, mas perdendo a vida. A garra da mulher que mais amei se esvaindo bem na frente dos meus olhos. E não havia nada que eu pudesse fazer.
Meus olhos queimaram e as lagrimas silenciosas escorreram. Suspirei tentando controlar minha respiração enquanto eu me recompunha. Encostei a cabeça na parede e fitei o teto. Eu me tornara meu maior inimigo. Meu mais profundo demônio. Como isso foi acontecer?
Inclinei a cabeça para o lado a tempo de ver os gêmeos deixando o quarto. Os dois cabisbaixos, andando lado a lado e falando baixinho sobre alguma coisa. Depois de me recompor, levantei-me do banco e retornei ao quarto. Quando fechei a porta e me virei, ela me encarava incisivamente.
–Me desculpe – ela falou determinada – Não devia ter deixado você se sentir desconfortável com meus outros amigos aqui.
–Não precisa se desculpar – eu falei, desviando os olhos. Vê-la naquele estado, deitada e imóvel na cama era doloroso.
–Eles me disseram que vocês estudam na mesma escola.
–Estudamos, mas somos de grupos diferentes, entende? E minha imagem não é exatamente a mais carismática na escola.
–Entendi... Faz sentido. Nunca ouvi eles dizerem nada sobre você. De qualquer forma, na próxima vez você se sentirá mais à vontade. Eles são muito legais.
–Eles vão voltar?– perguntei desanimado
–Não tão cedo – ela abaixou os olhos, parecendo triste – eles vão viajar, como todos nessa época.
–Eu nunca viajo – falei olhando para a janela e dando de ombros.
–Por causa do trabalho do seu pai, né?
Travei o maxilar e me esforcei pra relaxar e conversar normalmente. Ela me olhava sem parecer notar minha irritação, sua expressão era neutra e ela me encarava como um bebê observando algo colorido. Como se esperasse que algo mágico saísse de mim.
–É. – respondi seco, desviando os olhos e procurando outro assunto.
–Por que você faz essa cara quando seu pai é mencionado, ou quando ele estava aqui?
–Porque sua avó que tem que ficar aqui enquanto sua mãe viaja pelo mundo vivendo como uma criança?
Acertei seu ponto fraco. Seus olhos se arregalaram e ela fechou a boca numa linha, me olhando com os olhos castanhos fervendo. Não fazia ideia se a raiva era direcionada a mim, ou a sua mãe, mas funcionou.
–Ué, não tem problemas falarmos sobre meu pai, mas não podemos falar sobre sua mãe? – eu a olhei com os olhos estreitos, o maxilar ainda travado enquanto eu via a pele pálida pegar um tom de vermelho vivo.
–Não sou eu que apronto todas e só faço merda, agindo como um ridículo rebelde mimado e sem causa! – ela gritou. Os olhos brilhando e o nariz empinado.
–Não me julgue – eu levantei e me aproximei da cama, encarando–a, nossos olhares nivelados. – Não sabe nada sobre mim ou meu passado. Não diga que não tenho causa sem saber porra nenhuma sobre mim.
–E daí se tiver alguma causa? Todo mundo têm problema e não é por isso que você vê as pessoas agindo como idiotas, machucando quem está perto! Eu tenho meu passado e ninguém me vê me lamentando e agindo estupidamente.
–Vou embora agora – eu rosnei, a voz tremendo.
–Cresce e perceba que o mundo não gira ao seu redor! – ela gritou antes que eu batesse a porta fortemente.
Meu corpo tremia com vontade de bater em alguma coisa. Andei até o elevador, esperando impacientemente a porta se abrir. Enquanto ficava parado lá, sentia os olhares curiosos das enfermeiras que estavam atrás do balcão. Assim que a porta se abriu, entrei no elevador, dando uma trombada com ninguém menos que meu pai.
–Onde está indo? Ainda é cedo. – ele me alertou, me encarando do lado de fora do elevador. Eu lancei um olhar raivoso e apertei o botão para que as portas se fechassem.
Seus olhos azuis sustentaram os meus por um longo tempo, até que eu virei o rosto e as portas fecharam. Dentro do elevador, um casal relativamente jovem me encarava e eu queria perguntar se eu estava cagado.
Com um suspiro, saí aliviado pela porta da frente do hospital e senti a brisa úmida se chocar contra meu rosto. Comecei a caminhar de volta pra casa, peguei um cigarro e o isqueiro do bolso. A merda do isqueiro não acendia de jeito nenhum. Parei na calçada, irritado como o demônio e me concentrei em acender o fogo. Quando ele finalmente acendeu, o céu desabou de uma vez, me ensopando em questão de segundos. Revoltado, chutei o poste do meu lado e gritei pra Deus.
–Tem como piorar porra?
Quando meu celular tocou, tirei-o do bolso esperando que fosse James, mas vi que era uma mensagem de um número desconhecido. Cliquei em ver e carreguei o vídeo que estava anexado. O horror invadiu meu corpo quando olhava através da tela do celular o carro de Bella estraçalhado contra o muro, o de James parado ao lado e, segundos depois eu e James em pé do lado do carro.
Parei o vídeo, já sabia muito bem o que acontecia depois. Além da chuva, senti o suor frio brotando em todo o meu corpo enquanto voltava na mensagem e lia o texto.
"Que meninos malvados... Tsc tsc tsc . Beijinhos, Roselie"
Nota da Autora: Olá, gente! Primeiramente queria agradecer as reviews. Não é a minha primeira história, mas é a primeira que tomei coragem pra postar. É muito gostoso receber elogios e opiniões através das reviews! :D
Como muitas de vocês suspeitaram, dá pra ver que a mãe do Edward realmente passou o final da vida do hospital. e lá vai uma dica, não era câncer.
A Bella tem uma personalidade rígida, de gostar tudo preto no branco, por isso às vezes é meio sem tato. Ela vai ter que aprender a lidar com esse Edward pra evitar esse tipo de atrito. Edward é muito acostumado a atacar os outros pra não se expor, isso ele sabe fazer bem.
E finalmente... É, esse Edward é um merda. mas só no inicio, gente, prometo! (: Afinal de contas, o que um peso na consciencia não faz com uma pessoa? ;)
Espero ansiosamente mais reviews e o próximo capítulo é da Bella. Que tal espiar um pouco a mente dela?
Beijinhos!
