CAPÍTULO IV

Na manhã seguinte Jacob levou as duas moças até o centro para fazerem compras. O constrangimento de Carmem era evidente e a raiva de Isabella tão grande que nem se animava a romper o pesado silêncio no interior do luxuoso carro de Edward.

— Vamos tomar um café antes? — sugeriu Isabella, friamente. — Não fiz uma lista, mas, já que é cúmplice de Edward nessa sujeira, deve saber o que devo comprar.

— Você está zangada.

— E você, não estaria?

— Há uma casa de café excelente, logo ali. Minha irmã a recomendou. Vamos até lá e então conversaremos.

Sentaram-se frente a frente, cada uma com sua xícara de café. Carmem acendeu um cigarro e deu uma profunda tragada.

— Edward me telefonou esta manhã.

— Não diga!

— Isabella...

— Imagino que ele tenha lhe contado o que aconteceu.

Ele me disse que você reagiu muito mal à sua proposta.

— Meu Deus! E o que você esperava que eu fizesse? Como pode querer que eu seja compreensiva? — Seus olhos brilharam de ódio.

— Se quer manter o respeito próprio...

— Respeito próprio?! Como posso me respeitar? Oh, concordo que não há alternativa. É claro que vocês pensaram nisso também. Não tenho nenhuma chance, já que não me formei nem tenho experiência profissional. Arranjar emprego nessas condições é praticamente impossível.

— Se Edward fosse um velho corrupto eu concordaria com você. Mas ele é um homem adorável, com excelente posição social. Você devia sentir-se grata por essa proposta de casamento. Ele não tinha nenhuma obrigação moral de fazer isso.

— Estou sendo manipulada, coagida. Isso não é justo!

— Há muitas mulheres que adorariam se casar com Edward.

— Mas eu não sou uma delas!

— Nesse momento você não está raciocinando com clareza. — Isabella fechou os olhos e voltou a abri-los lentamente, forçando um sorriso.

— O que está querendo me dizer é que devo ser realista. Talvez eu não esteja preparada para isso!

— Charlie fez o que fez para evitar que a sua vida se arruinasse. Ele a amava como a uma filha de verdade. Teria feito qualquer coisa para garantir o seu futuro.

Isabella quis protestar, mas não conseguiu dizer nada; sua garganta estava embargada pela emoção.

— Ele sabia que Edward cuidaria bem de você.

— Acho muito difícil aceitar um casamento sem amor. E por favor não me humilhe mais com essas considerações sobre as vantagens de se casar com um homem rico.

— Você cresceu acreditando que o amor era a coisa mais importante do mundo. No entanto, é melhor para a mulher escolher um marido que possa cuidar de suas necessidades. O tempo se encarregará do amor.

— Parece tão frio, tão cínico...

— Você ainda é jovem... uma sonhadora. Com o tempo saberá como é importante ter comida na mesa e dinheiro para pagar as contas.

— Um casamento deve ser mais do que isso.

— Companheirismo, afeição, respeito... todas essas qualidades também são ingredientes essenciais.

— Então, não vê nada de errado na situação?

— Vejo muitas coisas certas.

Isabella suspirou, desanimada. Não havia mais nada a dizer. Carmem não compreendia seus princípios, muito menos seus sentimentos.

— Nesse caso, vamos gastar o dinheiro de Edward. Ele disse a você o que devíamos comprar?

— Sim. O vestido do casamento e mais algumas coisas.

— O quê?

— Vestidos de noite. Você quase não os tem.

— Ele quer que eu me vista como uma rainha... como a esposa de Sua Majestade, claro!

— Não subestime Edward, Isabella. Guarde seu sarcasmo para alguém da mesma fragilidade que você. Pode se machucar.

Isso era verdade, embora Isabella se recusasse a aceitar. Crescera com a ideia de que todos os seres humanos eram livres e iguais e achava ridículo ter de se submeter à tirania de um ricaço qualquer. Sem falar nada, saiu do bar em companhia de Carmem, decidida a concentrar-se nas compras.

Ao meio-dia, já tinha comprado tudo de que precisava: um vestido maravilhoso, que era o modelo mais caro que Isabella já vira, alguns pares de sapatos, lingerie, três vestidos de noite e uma camisola comprida de seda azul. Sentia prazer em gastar o máximo de dinheiro possível, divertindo-se com a ideia de diminuir a conta bancária de Edward.

Na hora do almoço, Carmem sugeriu que fossem encontrá-lo no seu escritório. O prédio ficava perto dali.

— Ótimo, Carmem. Assim posso deixar estes pacotes com ele. Não pretendo ficar carregando isto a tarde toda.

O escritório de Edward ocupava um andar inteiro do prédio. A recepcionista era tão sofisticada, que Isabella teve a impressão de que estava pronta para um desfile. Se a intenção era impressionar, o responsável pela decoração do escritório estava de parabéns!

— Srta. Swan, srta. Roussos? O sr. Cullen as receberá agora. Sigam-me, por favor.

Isabella entregou os pacotes à moça e foi até a sala de Edward, que ficava no fundo do corredor. A secretária desapareceu discretamente, assim que ele surgiu.

Ao vê-lo vestido naquele impecável terno claro, Isabella sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo. Seu coração disparou e a respiração se acelerou.

— Querem tomar alguma coisa? Ou preferem esperar até o almoço? — indagou ele.

No estado em que Isabella se encontrava, um pouco de álcool seria o suficiente para que não pudesse mais se responsabilizar por suas ações.

— Não, obrigada — respondeu com firmeza, com a aprovação de Carmem.

Deixaram o escritório conduzidas por ele, que se mostrava bastante cortês, porém inacessível. Mas, afinal, o que esperava? Um beijo em homenagem ao casamento que se aproximava? Não havia necessidade de fingir. Ninguém os vigiava.

— Vamos andando? — sugeriu Edward. — O restaurante fica no próximo quarteirão.

Dizendo isso, ele colocou a mão em seu ombro, num gesto de cortesia. Se ela recusasse aquele contato, pareceria infantil. Achou melhor relaxar e pensar no estômago, ao invés do coração.

Comida! Sentindo o delicioso aroma do restaurante, percebeu que estava faminta,

— Vinho branco, Isabella?

Não! Se bebesse agora acabaria se rendendo ao charme daquele homem que tanto desprezava.

— Suco de laranja.

— Querendo se manter sóbria?

— Não é isso, Edward. Sempre me responsabilizo por meus atos. Apenas detestaria ter que gastar o seu dinheiro com futilidades.

— Talvez você precise da minha assistência.

— Não tenho certeza se você acharia interessante perder a tarde toda escolhendo cosméticos.

Edward deu uma gargalhada desconcertante.

— O.K., você venceu. Talvez seja melhor nos concentrarmos no cardápio.

Almoçaram conversando sobre amenidades, até que Edward informou friamente:

— O casamento está marcado para sexta-feira, às cinco horas.

Isabella quase engasgou de susto.

— Já compramos quase tudo — declarou Carmem.

— Nos próximos dias daremos conta do resto.

— Então só falta me levar para a igreja na hora certa.

— Ao cartório, Isabella.

Claro! Seria uma heresia ter aquela união abençoada por Deus. Depois disso, Edward possuiria seu corpo, aquilo que realmente desejava. Era melhor ser cautelosa. Assim talvez ele fosse mais gentil; do contrário, se arriscava a ser violentada. Sua mente foi tomada pelo pânico. Sem perceber, começou a tremer, totalmente vulnerável.

— Está com frio?

— Um fantasma passou perto de mim.

— Charlie?

Realmente, ele era sensível demais!

— Talvez ele esteja tentando me alertar.

— Pare com isso, Isabella — repreendeu Carmem. — Está se tornando terrivelmente mórbida.

— Não se meta. Não compartilho de sua filosofia de vida.

Edward cortou a conversa e voltou-se para Isabella.

— Passe no escritório mais tarde, vou levá-la em casa.

— E depois?

— Estou pensando em passar uma noite tranquila.

— Não diga! Eu gostaria tanto de sair... — Ela sorriu com ironia. — Adoro dançar! Talvez possa me levar a uma danceteria... Ou não está habituado a frequentar ambientes de jovens?

— Prefiro lugares mais tranquilos — retrucou Edward, com olhar ameaçador. — Uma boate, talvez.

— Isabella! Você nunca foi dessas coisas!

— Ora, Carmem. Já que não tenho mais que estudar, quero viver. — O sorriso não disfarçava seu sarcasmo. — Querido, será que pode me acompanhar?

— Ainda não manco, nem sofro do coração — ele observou, divertido.

— Seus amigos vão pensar que enlouqueceu!

— Isabella, isso não é jeito de falar com seu noivo. Desculpe-se imediatamente.

— Por que, Carmem? Edward é dezessete anos mais velho que eu, podia ser meu pai!

— Não sei o que está acontecendo com você.

— Não sabe, Carmem? Você é uma mulher muito atraente e no entanto preferiu não se casar. Eu não pude nem mesmo escolher o meu marido. E agora vocês querem que eu me sente aqui e me comporte como uma menininha bem-educada! Bem, sabem o que eu gostaria de fazer? Pegar essa musse de chocolate e jogar na cabeça de vocês dois!

Apesar da evidente tensão de Edward, Isabella teve a impressão de vislumbrar um toque de humor em seu riso.

— Acho que sua ideia não chega a ser brilhante — respondeu ele, simplesmente.

— Você está quase fazendo uma cena, Isabella!

— E as menininhas bem-comportadas nunca devem chegar a extremos, não é, Carmem?

— Guarde esse seu mau humor para quando estivermos sozinhos — retrucou Edward, com uma calma imperturbável.

— Senão você me dará outra lição como aquela do escritório, não é, meu bem? Ah, mas não devemos escandalizar a casta Carmem.

— Tenho certeza de que Carmem aprovaria qualquer método que a pusesse nos eixos.

— Ah! Vamos embora daqui!

— Não, senhora. Você vai ficar quietinha aí e esperar até que Carmem termine sua sobremesa e eu tome mais uma xícara de café.

Isabella achou melhor calar-se e esperar. Se abrisse a boca de novo diria coisas ainda piores e não tinha certeza de que suportaria as consequências.

Ainda ficaram mais alguns minutos no restaurante, e, depois que saíram, Carmem olhou-a completamente espantada.

— Não entendo você, sempre foi tão bem-comportada!

— Nunca tive razão para me comportar mal.

— Não percebe a sorte que tem?

— Chega! Edward já me disse o bastante sobre isso. Vamos comprar os tais dos cosméticos antes que eu estoure!

Caminharam rapidamente pelas ruas, até que Carmem já não podia mais acompanhá-la.

— Escute, Isabella, por que está tão apressada?

— Quero comprar um outro vestido. Uma boate pede algo muito especial...

— Mas você já tem três, Isabella! É melhor ter cuidado para não deixar Edward zangado.

— Estou apenas satisfazendo o ego dele. Um homem mais velho adora ser visto ao lado de uma jovem bonita. O objetivo é chamar atenção.

— Acho que você está tramando alguma coisa...

— Não me diga! Como você é maldosa! Nem pensei nisso...

Ela levou duas horas para encontrar o que queria, e de nada adiantaram os protestos de Carmem. Já que era obrigada a se casar com Edward, faria com que isso lhe custasse muito dinheiro.

Eram mais de cinco horas quando terminaram as compras. Subiram o elevador carregadas de pacotes.

— Gastou dinheiro demais, Isabella — observou Carmem, preocupada.

— Edward não me impôs limites.

— Não procure se vingar dele. Poderá se arrepender.

Isabella deu uma gargalhada maliciosa e encarou a amiga com ar de desafio.

— E o que a faz pensar nisso?

Quando chegaram ao escritório, foram levadas até uma antessala, enquanto Edward atendia um cliente. A vista dali era maravilhosa e Isabella aceitou o brandy que a secretária lhe oferecia.

Depois de quinze minutos, Edward apareceu. Sua presença eletrizante fez com que Isabella virasse o resto da bebida de uma vez e lhe solicitasse outra dose. Sem dar mostras de surpresa, Edward estendeu-lhe a garrafa. Vinte minutos depois estavam no estacionamento do prédio. No caminho, deixaram Carmem em casa e seguiram em silêncio até a mansão.

— Jacob tomará conta dos pacotes.

— Se está achando que me excedi nas compras, seja claro.

— Minha querida Isabella, você é uma mulher bonita. Por que me zangaria se pretende se tornar ainda mais atraente?

Que raiva! Fazia de tudo para provocá-lo e no fim sempre dava a impressão de estar justamente tentando agradá-lo!

— Reservei uma mesa para as sete e meia. Acha que consegue se aprontar em meia hora?

— Claro.

E realmente Isabella ficou pronta na hora marcada. O vestido que escolhera era o mais ousado possível. Vermelho, decotado, justo nos quadris, combinando com a maquilagem altamente insinuante.

Escondeu-se embaixo de um casaco longo e foram para a boate. O ambiente era elegante e bastante selecionado, frequentado exclusivamente pelo jet-set.

— Quer tirar o casaco?

Depois de um breve momento de hesitação, ela entregou o casaco ao garçom, que aguardou que se sentasse, desviando o olhar respeitosamente.

— Escolheu esse vestido com a intenção de provocar os homens? — perguntou Edward, contrariado.

— Pensei que você gostaria.

— E quem não gostaria? Não há um homem aqui que não esteja me invejando.

Edward conseguia fazer com que todas as suas atitudes parecessem infantis, o que, para falar a verdade, não deixava de ser justo. Se fosse uma mulher madura, tentaria tornar a situação mais agradável. Não seria difícil aproveitar as vantagens de um casamento próspero.

— Quer escolher o vinho?

— Não, seu gosto é impecável!

— Isso é um elogio, Isabella?

— Não brinque comigo, Edward.

— Recomendo o mesmo para você, querida.

Era loucura desafiar aquele homem; sempre saía perdendo. Tomou a bebida muito rápido, agoniada com o silêncio que prevalecia entre ambos. Mas... sobre o que poderiam conversar? A única coisa que lhe ocupava a mente era o casamento. Tinha se tornado propriedade dele, para que fizesse o que bem entendesse, A ideia lhe provocou um tremor, sacudindo-lhe o corpo por inteiro.

— Está com frio?

Será que ele tinha o poder de ler seus pensamentos? Diante daqueles olhos penetrantes, sentia-se transparente. Retomando controle emocional, sorriu para Edward.

— Não quer dançar? Assim poderá me esquentar...

— Claro. — Ele deu a volta na mesa e puxou sua cadeira, conduzindo-a com desenvoltura até a pequena pista de dança.

Os braços fortes a enlaçaram com firmeza. Para sua surpresa o corpo musculoso não impedia seus movimentos leves e graciosos, seus passos combinavam perfeitamente, o que tornava o prazer ainda maior.

Ela desistiu de tentar controlar suas emoções. Alguma mistura diabólica de aromas, gestos e olhares a enfeitiçava totalmente, acelerando-lhe o pulso que parecia bater no ritmo da música. Seu corpo se arrepiava completamente, devido à presença envolvente daquele mago que a conduzia pela pista.

Completamente aturdida pelo vinho e a sensualidade da dança, achou melhor jantar, embora ainda não estivesse com fome.

A comida estava excelente. Era quase meia-noite, quando Edward informou que deviam ir embora.

— Tão cedo? Está com medo de que eu vire Cinderela? — Ele lhe estendeu o casaco e a olhou com cinismo.

— Tenho um compromisso logo cedo no escritório.

— Sempre leva as suas acompanhantes tão cedo para casa?

— Depende.

— Verdade?

— Sim, depende se eu vou para a mesma cama que elas ou não.

Depois dessa resposta Isabella achou melhor calar-se. Entraram no carro em silêncio, e assim permaneceram até chegarem em casa.

Ela foi direto para a escada, parando um momento no primeiro degrau, sem poder resistir ao impulso de olhá-lo mais uma vez.

— Obrigada por ter me levado para dançar.

— Então... Agradeça-me.

— Mas acabei de lhe agradecer.

Por que se sentia tão apreensiva? Parecia um ratinho na jaula do leão... E por que não saía dali de uma vez? O que estava esperando? Um beijo de boa-noite?

— Boa noite, Edward.

— Ah, não, minha querida noivinha. As coisas não são bem assim.

— Já é tarde, Edward.

Ele a agarrou pelos ombros e forçou-a a encará-lo.

— Há pouco você dizia que a noite é uma criança.

— Quero ir para a cama. — Estava exasperada com a atração que ele exercia sobre ela.

— Eu também quero.

— A minha cama ainda não é sua.

— Você esta usando um vestido muito sensual. Escolhido para me excitar. Por que não assume?

— Daqui a alguns dias você terá esse direito. Tenho certeza de que pode esperar até lá.

— Você quer que eu espere?

— Duvido que eu consiga detê-lo. — O coração lhe saltava pela boca, abafando suas palavras. — Mas vou detestá-lo para sempre se tentar me seduzir agora.

— E por acaso irá me detestar menos daqui a duas noites?

— Provavelmente não. Não pense que vou cair nos seus braços feito um carneirinho obediente.

— Prefere cair como um bichinho encurralado, não?

A mão de Isabella voou em direção ao rosto dele, mas antes que pudesse tocá-lo foi agarrada.

Por um momento, ela pensou que fosse apanhar, mas ele apenas a segurou com firmeza e a beijou com toda a violência de que era capaz. Seus lábios amoleceram, permitindo à língua morna e macia que penetrasse sua boca completamente. Seu corpo jovem vibrava a cada toque.

Se aquele era um castigo, foi perfeito, pois, assim que ele a soltou, o desejo de tê-lo de novo a humilhou como nunca nada o fizera.

— Lembre-se de uma coisa. Agrida-me e eu a agredirei também. Escolha as armas, eu pagarei em dobro.

Os olhos dela se enevoaram. Sem mais uma palavra, Isabella reuniu todas as suas forças e correu para o quarto. Não havia tranca na porta e ela a segurou como pôde, até certificar-se de que ele não voltaria. Então jogou-se na cama e lá permaneceu em uma angustiante vigília, até que as primeiras luzes do dia lhe trouxeram o esgotamento total, fazendo com que adormecesse profundamente.