Capítulo 4

A Reviravolta

Snape foi levado à enfermaria de Hogwarts na manhã de terça-feira, ele estava completamente fora de si. Dumbledore descobriu que o professor havia sido enfeitiçado e do pior jeito: um feitiço desconhecido e mal feito, o que o tornava muito perigoso já que era difícil de achar seu contra feitiço. Por este motivo, todos os alunos passaram novamente para a lista negra do diretor e quase todos os privilégios foram cortados até que o culpado se apresentasse. Porém, como havia acontecido antes, o diretor temia que ninguém se apresentasse como culpado e ele resolveu abrir uma investigação e um inquérito. Estava interessado na expulsão e na retirada da varinha do culpado. Era a primeira vez que os alunos de Hogwarts viam Dumbledore alterado daquela forma. Na noite passada ele fizera um longo discurso sobre a moral e os valores que acreditava serem os corretos, e demorou tanto tempo que os alunos mal conseguiram comer, pois já estava na hora da sobremesa e esta desaparecera pouco depois de começarem a comê-la.

― Ai, nem que eu tenha o resto da vida vou conseguir descobrir quem é o responsável por isso! - dizia Hermione folheando livros e mais livros de feitiços - Mas ninguém me tira da cabeça que foi sua amiguinha, Harry!

― Ah, Mione. Será que não deu para perceber que ela está bem diferente? Ela não é mais aquela pessoa...

― Na sua frente. Agora que o Malfoy está dando um gelo nela, a "coitadinha" se aproveitou do primeiro otário que encontrou!

― Ei! O Harry não é otário, Mione! - bradou Rony.

― Não, não é! Assim como você também não, né, Roniquito? - ironizou ela rindo.

― Ei! Pára com isso, Mione. - gritou Rony.

― Deixa para lá, Rony. Vem, vamos pro quadribol.

― É, vão. É melhor eu ficar sozinha mesmo, só assim posso encontrar o feitiço e provar que foi ela!

― Olha, Mione, você sabe que sou seu amigo e que você é a pessoa mais inteligente que eu conheço...

― Pare! - pediu Hermione - Se vai defendê-la, nem comece a falar!

― Só disse que do jeito que Antoine conhece a magia ela nunca faria um feitiço tão ruim!

― Você é patético, Harry!

― Hermione! - disse Harry levantando o dedo.

― Defende ela, vai! E se ela fez de propósito em errar o feitiço?

― E por que ela jogaria no Snape? Por que não na Sprout, que é a professora que ela detesta? Ou então no próprio Malfoy já que ele não está querendo nada com ela?

― Estou indo pela lógica, Harry.

― Lógica... pela lógica Dumbledore conseguiu encontrar a pessoa que enfeitiçou Antoine anos atrás? Conseguiu? - murmurou Harry olhando para os lados. Hermione não falou nada - Como você sabe que foi ela?

― Não sei, está bem? - gritou Hermione.

― Ah, então você não sabe tudo - murmurou Harry conseguindo chegar ao ponto em que queria, a amiga baixou os olhos, respirou fundo e saiu pisando forte.

Antoine estava preocupada com o professor de Poções, mas não com quem havia feito o feitiço, porque isso ela já sabia há muito tempo. E também sabia que Dumbledore descobriria sem a ajuda de ninguém. Bem, na verdade, ele já deveria saber quem era o feitor, só estava esperando que o próprio se apresentasse por livre e espontânea vontade. Entretanto, passaram-se duas semanas e ninguém se apresentara ao diretor. Foi pensando no culpado que os alunos entraram nas masmorras, naquela sexta-feira cedo da manhã, onde o amistoso professor Flitwick conversaria com eles sobre feitiços malfeitos, porém, para espanto geral e desespero total os alunos deram de fuças com Severo Snape sentado sobre o canto da mesa central. E ele sorria escandalosamente feliz, dando contornos cavernosos ao seu rosto. Com toda certeza, aquela seria a hora em que o culpado se entregaria, caso contrário, estaria morto.

― Então... - a voz grossa, irônica e agora melodiosa soou alto na sala de Poções. Calafrios correram pela espinha dos alunos - alguém achou que me tiraria de combate! Devo dizer que eu mesmo me surpreendi no começo por estar enfeitiçado. Mas fui ficando furioso ao saber que o feitiço não tinha sido executado com precisão. E vocês podem imaginar como anda meu bom humor agora... NÃO PODEM? - aquele grito ecoou pelas masmorras até chegar aos corredores inferiores. Os alunos, todos eles, sabiam que até o culpado não se apresentar, suas vidas seriam quase piores do que viverem cercados por dementadores em Azkaban.

Dumbledore não estava nada contente e continuava fazendo longos discursos. Hermione achava que o diretor fazia de propósito para que ninguém comesse, o que era uma forma de castigo. Mas ele estava impaciente, e naquela noite anunciou que na segunda-feira pela manhã alunos passariam a ser interrogados um a um, e não apenas por ele, o diretor, mas sim pelo Conselho Bruxo.

― Bom, quem não deve não teme! - disse Rony meio sem graça, não achando aquela frase muito verdadeira. Os três amigos se dirigiam para o jardim.

― Isso mesmo, senhor Weasley! - era Snape passando por eles - Quem não deve, não teme! - rosnou olhando para Harry.

― Ai, ai, ai... - choramingou Rony. Antoine, que estava se aproximando deles, ouviu tudo, e quando ia parar para trocar umas palavras com Harry, ouviu o ferozmente urro Snape, que lhe apontava o dedo:

― Você! Minha sala, agora!

Harry acenou dizendo que depois conversariam e se afastou. Antoine tentou caminhar lado a lado com Snape, mas ele a deixou para trás já que seus passos eram muito maiores e mais rápidos.

― Entre logo. - disse ele, assim que Antoine deu o primeiro toque com os nós dos dedos nas grossa e escura madeira da porta.

― Com licença.

― Eu estava custando a querer acreditar na história, primeiro porque eu estava enfeitiçado e via e ouvia coisas que não eram verdade! Depois pensei que estivessem me contando mentiras, - disse ele sem puxar o fôlego ou deixá-la dizer qualquer coisa - mas agora que estou em sã consciência estou pasmo. Diga-me, você e o Potter, o que há?

Antoine ergueu as sobrancelhas e abriu a boca, mas nada mais que ar entrou ou saiu de seus pulmões porque Snape não a deixou prosseguir.

― Custa-me realmente acreditar que uma sonserina esteja se envolvendo com alguém tão baixo quanto Potter.

― Ele é apenas um amigo.

― A palavra Grifinória lhe diz algo?

― Depois que Drraco se afastou de mim... porr causa do senhorr...

― Não por minha causa! Por sua causa e pelos seus desejos incontroláveis!

― Harrry é apenas alguém com quem posso converrsarr sem que...

― Quero você longe dele! - bradou Snape apertando as mãos.

― Ficarr sem me rrelacionarr com qualquerr um que seja na escola é uma forrma de aprrendizado?

― Não me venha com esse papelzinho de vítima. Fique longe dele ou então eu mesmo me encarrego de afastá-lo de você. - Snape apontou para ela com o longo dedo macilento - Potter estará fora de Hogwarts depois deste ano, ou até antes mesmo!

― Mas... - murmurou Antoine - não foi ele que lhe jogou o feitiço!

― Isso é o que vamos ver. O conselho bruxo já ouviu a minha versão dos acontecimentos.

― Prrofessorr Snape...

― Não se atreva a falar mais com aquele moleque!

― Prrofessorr...

― Agora saia daqui!

― Mas não fiz nada de errrado! - bradou, mas em seguida olhou para o chão, aquilo não era bem verdade.

― Espero mesmo que não tenha feito, caso contrário, a lição que lhe dei há algum tempo atrás não foi aprendida - e ele baixou a cabeça e não falou nada mais.

O fim de semana passou rápido. Na segunda de manhã, a escola toda estava alvoroçada. Ninguém sabia quem seria o primeiro a ser interrogado, mas depois da terceira aula, tiveram suas respostas.

― Todos do primeiro e segundo anos já foram entrevistados e descartados. - disse Hermione para Harry e Rony - Já era de se imaginar. O que é que esses pirralhos iriam saber fazer, não é?

― Você sabia fazer bastante coisa. - resmungou Rony.

― Mas o conselho bruxo é formado por pessoas muito inteligentes e sábias. Eles podem sentir se alguém fez ou deixou de fazer algum mal. - continuou Hermione.

― E quem serão os próximos? - perguntou Harry.

― A professora McGonagall me disse que são os do quinto ano. Hoje e amanhã.

― Ufa, estamos livres por hora. - exclamou Rony aliviado.

Na quarta e quinta, os alunos do quarto anos foram chamados, um a um e na sexta e sábado os do sexto ano. Ficando os do último ano para a semana seguinte porque até aquele momento ninguém tinha sido acusado.

― Ai, ai. Se não chegar logo segunda, vou pirar! - disse Hermione.

― Pirar vou eu - berrou Rony - se chegar segunda! - Harry apenas riu dos dois e voltou a olhar para o corredor, apinhado de gente, indo e vindo, provavelmente fofocando sobre seus interrogatórios. Foi nesse ziguezague de gente que Harry viu passar Draco de nariz empinado e atrás dele, como uma cadelinha, viu Antoine. Balançou a cabeça como que tentando sacudir o cérebro para ver se ele não o estava enganando, porém, era ela mesma. Seguiu os dois até a entrada das masmorras e percebeu que estavam sozinhos lá, pois o resto dos sonserinos estava perambulando pelo castelo como todos os outros alunos em busca de informações sobre seus interrogatórios e um suspeito. Ah, se pelo menos ele tivesse trazido a capa de invisibilidade.

― Drraco, querr me ouvirr?

― Se Snape nos pega vamos entrar numa fria, Antoine.

― Você está me magoando muito, sabia? - disse Antoine, Draco se calou, ela se aproximou.

― Você está andando com o Potter!

― Não comece você também, porr favorr.

― Ah, então que dizer que já te chamaram a atenção?

― Olha, Drraco, sabe porr que estou aqui! Sei que me querr longe...

― Eu não quero isso, mas Snape exigiu.

― E você não faz nada parra remediarr isso! - cutucou ela, mas arrependida logo continuou - Tudo bem, só querro lhe alerrtarr... Dumbledorre não vai acrreditarr que foi Harrry quem enfeitiçou Snape.

― Porque o velhote está apaixonado pelo Potter, só por isso! Só ele não vê que foi...

― Drraco, - e ela fez uma pausa hesitando - fale com o Snape e conte a verrdade. Ele vai saberr o que fazerr e ninguém vai sairr machucado nessa histórria. Ninguém inocente...

― E como é que eu vou saber da verdade, Antoine? - ironizou aproximando-se bem dela.

― Porr favorr, sou eu quem está pedindo. Faça porr mim.

― Vá até seu queridinho e peça a ele para contar ao Snape a verdade. Ele deve saber muito bem! - resmungou Draco, e queria Draco sabia ser mais teimoso do que uma mula, mas Antoine tinha aprendido a lidar com ele, e tinha absoluta certeza de que Draco, desta vez não abriria o bico como das outras vezes e ela temia pensar nas conseqüências.

Na segunda bem cedo, antes mesmo do café da manhã, Antoine foi procurar Harry. Teve que esperar por meia hora até enfim conseguir chamá-lo a um canto e lhe contar o que estava acontecendo.

― Você está me dizendo que foi Draco que enfeitiçou o Snape? Que ele está pondo a culpa em mim? E quer que eu não diga nada?

― Oh, Harrry. Só não querro que você seja o único que não saiba...

― De que lado você está?

― Você sabe que não fez nada e Dumbledorre sabe muita coisa parra acrreditarr que foi você que enfeitiçou um prrofessorr. Ele sabe que você jamais farria uma coisa dessas.

― Será? - murmurou ele - Uma vez eu fiz... uma coisa dessas.

― Fez? - perguntou ela rouca.

― Bem, não fui eu, mas eu sabia que a pessoa iria fazer... achei que era por uma boa causa, só que ao ver o que aconteceu...

― Mas desta vez não foi você! - afirmou ela com convicção.

― Não - respondeu apenas.

― Então aconteça o que acontecerr, rresponda o que lhe pedirrem com a verrdade, está bem?

Harry bufou, fechou os olhos e deu as costas para Antoine. Quando finalmente se virou para lhe dizer que faria isso viu que ela já não estava mais ali. Cabisbaixo, saiu com o pensamento em Hermione e no que ela diria sobre aquilo tudo.

Na terça à tarde restavam apenas dez alunos para serem interrogados. Antoine era um deles. Draco tinha sido um dos primeiros e saíra sorridente da sala do diretor, o que dizia que ele deveria estar livre de tudo. Harry, no entanto, estava sentado num canto do corredor esperando, remoendo o que ia falar. Então um tumulto começou perto da porta de entrada. Podiam-se ouvir os urros de impaciência e advertência de Snape de muito longe, e um murmúrio contando o que estava acontecendo lá na frente chegou aos ouvidos de Harry: Antoine acabara de se entregar, de se declarar culpada. Harry se espremeu entre a multidão e forçou passagem até a porta de entrada que levava à sala do diretor. Antoine estava parada em frente à entrada, Snape de um lado e Dumbledore do outro, tentando fazer com que o barulho cessasse. Rapidamente, Harry agarrou o braço de Antoine e a puxou para perto.

― Mas o que está fazendo?

― Larrgue meu brraço, Harrry. - disse ela apenas.

― Não foi você!

― Harrry, você não faz idéia do que vai acontecerr...

― Faço sim, você vai ser expulsa!

― Larrgue meu brraço e saia daqui! - disse, mas foi o olhar fulminante de Snape que fez com que Harry soltasse o braço de Antoine. Dumbledore abriu a porta e ela entrou, seguida por Snape e depois Dumbledore fechou a porta atrás de si.

― Não era a vez dela! - sussurrou Hermione - A professora Minerva chamou o Eugene... - Harry não quis mandar a amiga calar a boca, então saiu de perto dela, se sentou novamente num canto perto do corredor e meteu o rosto nas mãos, arrependido de ter dado às costas a Antoine.

O conselho bruxo parecia a família de Antoine reunida, um bando de velhotes rabugentes, resmungões, que vivam cochichando e lançando olhares indagadores. Talvez aquilo tenha lhe dado forças para prosseguir com o plano. Ela sabia que eles eram muito mais sábios e entendidos em magia do que ela e sua família inteira, mas Antoine confiava em seu poder de persuasão.

― Pois bem, senhorita Dimanchè. Por que não começa nos dizendo qual o motivo que a fez furar a fila? - disse um senhor atarracado e velhinho, mas com uma voz bem alta. Antoine olhou ao redor e percebeu que todos ali esperavam dela atitudes diferentes das demais crianças e adolescentes de Hogwarts, tudo por conta da conhecida "família" Dimanchè.

― Bem. Achei que os senhorres me farriam perrguntas mais específicas, mas se querrem que eu confesse logo... furrei a fila parra admitirr que fui eu quem enfeitiçou o professorr Snape.

O bruxo que fez a pergunta soltou uma gargalhada. Mais alguém o acompanhou, todos se voltaram para ele, mas ao contrário de estar envergonhado, Snape fechou a cara e mirou Antoine com profundos olhos negros.

― Nem em um milhão de anos você conseguiria se sair tão mal em um feitiço!

― Orra, prrofessorr, e o que o senhorr acha se eu tivesse trrocado cerrtas palavrras sem querrerr?

― Isso quer dizer que a senhorita queria a morte do professor Snape? - perguntou outro homem do conselho.

― Clarro que não - respondeu ela fechando o cenho.

― Mas como deve saber, qualquer feitiço mal lançado pode ter efeitos desconhecidos e alguns bem conhecidos: um deles, o que mais acontece, é o que leva a pessoa a morte ou a loucura.

― Ou seja, o professor Snape poderia morrer ou ficar incapacitado para o resto de sua vida! - afirmou outro homem. Antoine ficou calada, um súbito terror se assolou em seu corpo. Sabia daquilo, mas não tinha ao menos uma vez treinado o que diria a eles.

― E que motivo a faria pensar em matar seu professor?

Euforia por temer não conseguir chegar onde queria, Antoine fechou os olhos.

― Já disse que eu não querria matá-lo. - falou ela em alto tom - Ele apenas estava sendo - e Antoine olhou para Snape que ansiava pela resposta - sendo intrrometido! Não, intrrometido não, porrque todos os prrofessorres devem se prreocuparr com seus alunos. O prrofessorr Snape estava me perrseguindo... e muito. Ele não tinha outrra pessoa em mente a não serr eu. E eu já estava cansada daquilo.

― Provavelmente ele estivesse em sua cola porque a senhorita estava fazendo algo de muito errado - disse um conselheiro.

― Nada que outrros alunos mais velhos não faziam, e bem mais embaixo do nariz dele - salientou ela.

― Como é? - rosnou Snape.

― Senhorita Dimanchè, se importaria em dizer por que acha que o professor Snape a estava perseguindo?

― Eu... - e os dois se entreolharam e Snape, pela primeira vez, teve medo que ela dissesse alguma besteira -...eu me encontrrava com Drraco Malfoy, e acrredito que o prrofessorr Snape não achava que ele fosse uma pessoa boa suficiente parra ficarr ao meu lado. Na verrdade, ele achava Drraco uma má influencia, já que é um rapaz encrrenqueirro e que quase ninguém suporta. Eu me rrecusava a aceitarr que Drraco não erra uma pessoa boa, comigo semprre foi e semprre me ajudou em tudo o que conseguia fazerr, o que lhe estava ao alcance...

― Poupe-nos desses disparates! - ironizou Snape - Não acoberte ninguém! Fale a verdade!

― Então porr que o senhorr mandou que me afastasse de Drraco?

― Porque aqui é uma escola. Nada mais que isso!

― E os outrros alunos também não estão na mesma escola? Porr que não têm que seguirr as mesmas regrras que eu?

― Todos são iguais...

― Ah, prrofessorr, ninguém é igual a ninguém. E eu estava com muita rraiva do senhorr. Eu quis machucá-lo e mostrrarr ao senhorr que corrria perrigo aqui, mesmo que a maiorria dos alunos o temiam, eu não! E ainda... não... temo. - disse ela lentamente, entoando cala palavra sarcasticamente.

― Antoine, - disse Dumbledore calmamente - para fazer o que você fez é preciso muita raiva. E para vir até aqui e admitir, depois de se esconder tanto tempo é preciso muita coragem.

― Sim, senhorr dirretorr. - murmurou ela cabisbaixa.

― Se você realmente sentisse tanta raiva do professor Snape para enfeitiçá-lo, com toda certeza estaria furiosa, nervosa ou amedrontada por ele estar nesta sala agora. Não estaria?

― Ele sofrreu o bastante.

O diretor soltou uma gostosa gargalhada. Antoine se ajeitou na cadeira.

― Como acha que seria tratada daqui por diante pelo professor Snape?

― Não serria, não é mesmo? Porr que eu serria expulsa, não?

― Tecnicamente. - balbuciou Dumbledore.

― Ah... como? - gaguejou ela, erguendo a sobrancelha.

― Oh, esqueci de lhe dizer. Haveria uma punição para o aluno, mas a história da expulsão e a perda da varinha vão além da conta não acha?

― Ah, clarro. - respondeu ela disfarçando a decepção e olhando para o lado, na direção da porta, pensando em Draco, em Harry.

― Mas a punição será severa - afirmou um dos conselheiros - e muito! - Fez-se um súbito silêncio. Antoine remoeu alguns pensamentos. E se aquilo tudo fosse uma jogada para ela admitir que estivera acobertando alguém? Sim, claro que seria. Snape poderia ter morrido e Dumbledore não faz nada? Não. O conselho estava ali por uma razão, e era a de encontrar o culpado e puni-lo.

― Prrofessorr Dumbledore, eu não sei porrque não admiti logo a culpa. Bem, parra falarr a verrdade, não achei que a coisa fosse chegarr tão longe! Se o senhorr se lembrra, há anos atrrás fui vítima de um feitiço e até hoje ninguém foi acusado. Logo, imaginei que o senhorr não darria tanta imporrtância a um evento...

― Evento? - berrou Snape. E vários conselheiros se exaltaram, concordando com o professor de Poções.

― O feitiço que foi lançado em você, Antoine, era conhecido por todos nós e sabíamos como desfazê-lo. O feitiço discutido aqui, do qual você se diz criadora, ninguém conhece - e Dumbledore fez uma pausa.

― Por que não nos diz qual feitiço utilizou, senhorita Dimanchè? - perguntou o bruxo mais novo do conselho. Dumbledore pareceu contrariado por ter sido interrompido, mas não disse nada.

― O feitiço... - suspirou ela - Uma misturra do feitiço da desmemorrização com o de trroca de perrsonalidade...

― Você não havia nos dito que só trocara algumas palavras de apenas um feitiço, Antoine? - relembrou Dumbledore.

― Disse por dizerr, prrofessorr.

― Poderia lançá-lo agora em algum dos presentes?

― O quê? - respondeu ela angustiada à pergunta de Dumbledore.

― Quem está acobertando? - bradou ele sem deixá-la recuperar o fôlego?

― Ni... ninguém!

― Não minta! - exclamou Dumbledore.

― Eu... não...

― Saiba que estará em maus lençóis se a pegarmos mentindo. - retrucou outro conselheiro. A respiração de Antoine estava descompassada agora. Até mesmo Snape não estava acreditando no que ouvia.

― Por que está defendendo o Potter? - gritou Snape.

― Ele é inocente! - berrou Antoine - Ele jamais farria mal ao senhorr! Ele não é como... - e instantaneamente Antoine parou de falar. Todos se mexeram nas cadeiras. Certamente aquela garota sabia de algo.

― Ele não é como? - repetiu Dumbledore. Antoine passou a mão pelo rosto, secou uma lágrima e ergueu os olhos lentamente.

― Ele não é como eu - sussurrou. - Ele não resolve os prroblemas dessa forrma.

As lágrimas fizeram com que os conselheiros cochichassem entre si. Snape aproveitou e aproximou-se de Antoine.

― Se não é o Potter, que é o culpado?

― Sou eu.

― Não foi você - afirmou ele com convicção. - Quem foi?

― Bem, acredito que o conselho já tenha terminado com a senhorita Dimanchè - disse o bruxo mais velho. - Queira se retirar senhorita. Temos mais nove alunos a interrogar ainda.

― Sim, senhorr. - disse ela levantando da cadeira e dirigindo-se à porta de saída que foi aberta por Dumbledore. Snape a seguiu.

― Severo - disse Dumbledore quando os dois se encontraram na porta -, acompanhe Antoine até o salão comunal, por favor.

― Sim, diretor - respondeu Snape franzindo a testa. Era exatamente o que ele queria, uma oportunidade de falar a sós com ela. Snape caminhou lentamente ao lado de Antoine até as masmorras. Nenhum dos dois abriu a boca no trajeto, apesar de Snape estar louco para dar um longo sermão - Amanhã a chamarão novamente - disse ele se contendo. Ela baixou a cabeça e parou de costas para ele, estavam em frente a porta do dormitório - Vai continuar com essa versão barata da verdade?

Antoine queria apenas entrar e se jogar na cama. Não estava com disposição para bater boca. Estava caindo na realidade e sabia que seria expulsa, e então, para onde iria?

― Foi Draco, não foi? - sussurrou Snape, sentindo pena por ela estar tão abatida. Antoine levantou o rosto, ainda de costas - Você tem um ótimo futuro pela frente. É uma das mais inteligentes alunas que passou por aqui, por que jogar tudo fora por outros?

― Posso irr me deitarr, prrofessorr Snape? - pediu suavemente. Ele baixou os olhos, as mãos dela estavam cruzadas e os dedos se apertavam uns contra os outros.

― Vá. Eu pretendia lhe dar um sermão, mas vejo que aprendeu sua lição. Apenas espero que amanhã, ao voltar a falar com o conselho, você confesse que foi tudo invenção e que estava protegendo alguém.

Ela abriu a porta do quarto e parou subitamente olhando para o chão.

― Eu não tenho parra onde irr depois que me expulsarrem, prrofessor. E não poderrei voltarr parra casa... não me querrem porr lá...

― Conte a verdade a eles - disse com sarcasmo.

― Semprre foi assim, desde crriança, semprre me pedindo parra dizerr a verrdade, quando eu já a estava falando... - e ela acendeu as luzes e caminhou para dentro do quarto sem fechar a porta. Parecia distante, desolada, deslocada. Por um instante Snape pensou que ela poderia ter-lhe lançado o feitiço e viu isso nitidamente quando ela se sentou olhando para o nada.

― Antoine... - murmurou ele ajoelhando-se em frente a ela, que tinha os olhos vermelhos e marejados - ...você lançou o feitiço?

Ela ergueu uma das mãos e afastou dos olhos dele uma mexa de cabelos. Um breve sorriso apareceu no rosto dela e fez com que ele também sorrisse.

― O senhorr é muito imporrtante parra mim, prrofessorr - Snape não soube o que lhe dizer. Gentilezas não eram o seu forte.

― Antoine, por favor, não estrague sua vida por ninguém.

Ela sorriu, baixou os olhos e Snape viu o tapete absorver pequenos pingos de água. Seu coração partiu. A garota não revelaria seu segredo. Isso era uma qualidade forte, no entanto, a situação não pedia bondade, o feitiço não tinha ajudado ninguém, não fora de coração. Então, Snape levantou o rosto dela com as mãos e secou-lhe as lágrimas com as pontas dos dedos. Sentiu que ela estava tremendo, mas sabia que não era de medo, ele mesmo estava tremendo, e aquilo se chamava desejo. Snape aproximou seus lábios dos dela e a beijou, sentiu os lábios dela apertando os seus, sentiu-a ainda tremer, então, tomou nos braços, a deitou sobre a cama e a beijou incansavelmente. Iria mostrar a ela o que era um homem, o homem perfeito. Iria mostrar a ela o que um homem de verdade fazia com uma mulher; iria agradá-la e amá-la como nenhum outro homem poderia fazer ou poderia ter feito. E foi daquele momento em diante que Antoine aprendeu o que era ser mulher e o que era estar com um homem. E ela se apaixonou mais ainda pelo professor de Poções.

A manhã raiou ensolarada. As frestas da cortina escura do quarto de Antoine mostravam que seria um dia quente e gostoso, o dia perfeito. Ainda era muito cedo, mas ela acordou assustada. Snape havia saltado da cama num pulo.

― Já amanheceu! - disse assustado.

― São cinco horas.

― Eu não devia estar mais aqui! - sussurrou para si mesmo. Antoine se espreguiçou e se sentou ao lado dele, sorrindo. Tocou-o no peito e se aproximou para roubar um beijo.

― Nada vou mudar entre nós - disse Snape curta e grossamente. Ela parou de sorrir.

― Eu só queria outro beijo. - pediu murmurando. Ele respirou fundo, olhou para os lados como se alguém os estivesse observando e a beijou suavemente nos lábios. Antoine sussurrou o primeiro nome dele.

― Professor Snape - corrigiu ele. Ela baixou os olhos - Não estrague seu futuro, Antoine. Entregue quem quer que seja que você está acobertando - e dizendo isso Snape se vestiu com um toque da varinha e saiu, sorrateiro, porta afora.

Quando Antoine levantou já era tarde da manhã. Era quase meio-dia. Todos já haviam sido interrogados e o conselho continuava na sala de Dumbledore debatendo, não sobre quem era o culpa, mas provavelmente sobre o que fazer com ele. Antoine tinha a certeza de que Dumbledore sabia que ela estava mentindo, e que ele revelaria o culpado sozinho. Mas não sairia de sua boca quem haviam lançado o feitiço, não, não sairia de sua boca.