Capítulo III

Por precaução, evitei-a durante uma semana. Conseguira, finalmente, abafar aquela voz sibilante que tanto odiava, no entanto, não estava ainda certo da minha força.

Desde aquele dia, o meu pesadelo adquiriu um carácter distinto, o que confesso que me desorienta. Não porque me assuste ou algo do género; apenas não compreendo o que vejo, enquanto durmo.

O vestido vermelho que ela usa apresenta-se um pouco mais curto, ondulando um pouco acima dos seus tornozelos. O meu olhar é captado para os seus pés descalços, pequenos e frágeis. Logo a seguir, sou forçado a seguir as linhas que desenham os seus tornozelos. Admiro-me por descobrir que são esbeltos. Pergunto-me se também o serão, na realidade.

Desta vez, não sou eu quem a procura. É ela quem vem ter comigo, deixando que o seu vestido vermelho esvoace em seu redor, inundando a minha visão com aquela cor. O vermelho embriaga-me, ao ponto de eu não conseguir pensar em mais nada. Fecho os olhos, mas aquele tom, tão vivo e agressivo ao mesmo tempo, continua lá. E eu não sou capaz de afastar o vermelho de mim. Para onde quer que eu me vire, tudo é vermelho.

Sinto-me a sufocar. Inspiro, então, com vivacidade, tentando encher os pulmões com oxigénio puro. No entanto, não é oxigénio aquilo que passa por entre as minhas narinas. Não é o oxigénio que se funde na minha corrente sanguínea. Não é oxigénio o que atinge o meu cérebro. É ele, o maldito vermelho.

Volto a inspirar, sôfrego. O aroma que me chega inebria-me ainda mais do que a cor em si. Consigo identificar um certo aroma floral, mas não o reconheço. E há algo mais; algo ácido, que me provoca um ardor nos pulmões.

Acordo, então, alagado em suor. E, durante as horas que antecedem o despertar dos meus colegas, debato-me com aquele odor, tentando descobrir a quem pertence. Contudo, por mais que me esforce, não consigo senti-lo com tanta intensidade como no meu sonho. Gradualmente, a sua lembrança vai se desvanecendo.

--

Pela primeira vez em dias, ousei fitar a mesa dos Gryffindor. Ansiosamente, procurei a sua cabeleira rebelde, sem resultado. Recomecei a minha busca, certo de que me deveria ter distraído. No entanto, continuava a não encontrar a sua figura confiante.

Súbita e estranhamente nervoso, procurei o Potter. Não foi difícil encontrá-lo. Estava sentado de frente para mim, de cabeça erguida. Como se buscasse algo, ou alguém. Os nossos olhares encontraram-se, durante um milésimo de segundo, sem que nenhuma reacção fosse provocada em ambos.

Baixei a cabeça, numa tentativa de esconder o meu incómodo. Afinal, o que se passava comigo? Desde quando é que me preocupava com as horas a que ela almoçava? E, sobretudo, desde quando é que perdia o apetite assim, sem mais nem menos?

Senti que algo se contorcia no meu interior. Como se aquela malfadada cobra tivesse acordado e, preguiçosamente, se movesse em torno do meu estômago, comprimindo-o. Não sibilava; de facto, parecia deveras satisfeita. Satisfeita com a ausência da Weasley.

Alguém deixou cair os talheres no prato, com estrondo. Sobressaltado, levantei a cabeça e olhei na direcção do som, por puro instinto. De início, deixei-me levar pela irritação: tinha sido o idiota do Potter. Contudo, logo a seguir percebi o motivo do seu comportamento, o que fez com que toda a minha anterior exasperação se esfumasse.

A minha visão apreendeu algo que o meu cérebro insistia em considerar ser impossível. A cobra que habita em mim subiu ao longo do meu tubo digestivo, pressionando o meu esófago. Percebi que ela estava, agora, descontente. O que só poderia significar uma coisa: a minha visão estava certa.

Rose Weasley caminhava lentamente, com os olhos postos no chão e os ombros curvados. Parecia destituída de toda a sua habitual confiança e serenidade. Não consegui ver a sua expressão, mas o seu primo sim. E o que viu marcou-lhe a face de preocupação.

Ela sentou-se ao lado do primo, arfando. O meu peito começou a subir e a descer mais depressa, à medida que a minha própria respiração acelerava. Ignorei o meu mal-estar, concentrando-me na cena que se desenrolava a alguns metros de mim, sem que mais ninguém a presenciasse, além de mim.

O Potter rodeou-lhe os ombros com um braço, talvez receando que ela caísse, tal era a fragilidade que dela se desprendia. Com uma outra mão firme, ergueu-lhe o queixo, o que me permitiu observar, por fim, o seu rosto. Estava muito mais pálido do que o costume, o que lhe emprestava um ar doentio que não lhe ficava nada bem. Ou seria eu que não o suportava?

Os seus olhos estavam injectados de sangue, sendo rodeados por dois círculos arroxeados. O que teria provocado aquelas profundas olheiras? Será que também ela se debatia com pesadelos idênticos aos meus?

Os seus lábios moveram-se, quase imperceptivelmente. Distingui algumas palavras soltas, como "bem", "cansada" e "passa". Tentava sossegar o primo, contudo, não foi bem sucedida. Ele continuava alarmado, sem desviar o olhar da rapariga que tinha a seu lado.

O que mais me chocou foi o tom azulado que os seus lábios tinham adquirido. Não havia vestígios de vermelho nem rosa. Apenas azul. Um azul frio, gelado, impiedoso.

A necessidade de apagar aquela cor do seu rosto ameaçava tomar conta de mim. A minha mente deixou-se levar por esse desejo, transmitindo-me uma rápida sucessão de imagens que me mostravam a correr na sua direcção, roubando-a dos braços do primo e beijando-a, numa tentativa de lhe transmitir algum calor. Tudo isso para apagar aquele azul e trazer de volta o vermelho.

Abanei a cabeça, com força. Eu não podia estar a ter aquelas visões. Afinal, era ela quem estava doente, não eu. Só havia uma explicação para aquilo: os meus pesadelos estavam, finalmente, a enlouquecer-me.

Mordi o lábio inferior, já sem tentar controlar as minhas emoções. Não me importava que todos vissem a preocupação que me trespassava, qual espada cruel. Não me importava que a cobra começasse a silvar, barafustando comigo. Não queria saber das conversas fúteis que me rodeavam, como um enxame de abelhas barulhentas. Naquele momento, só ela importava.

Como se tivesse ouvido a minha vontade, ela ergueu a cabeça na minha direcção e os nossos olhares encontraram-se. O choque foi suave, quase natural. E, contudo, não havia nada de natural nas emoções que transbordavam dos seus olhos. Arrependimento? Preocupação? Medo? O que se passava com ela?

A resposta atingiu-me, queimando-me a face e o peito. Eu era o causador de todo aquele sofrimento. Eu era a doença que a consumia, que a impedia de se restabelecer. Eu era o azul que sufocara o vermelho. Eu era a cobra que a mordera, roubando-lhe a cor e, com ela, a vida.

Consumido por um medo irracional de a ter magoado, fugi, sem nunca olhar para trás. Um nó formara-se na minha garganta, impedindo-me de respirar convenientemente. Mesmo assim, corri para bem longe dela e do seu sofrimento.

Era esta a diferença entre eu e ela, Slytherin e Gryffindor. Eu era um cobarde, que fugia quando tinha medo; ela era corajosa, pois, mesmo receando-me, não me evitou. Percebi, então, que coragem não é não ter nunca medo, mas sim saber enfrentar os nossos receios, mesmo que não se consiga vencê-los. Como estar parado ao pé de um precipício, amedrontado com o perigo de cair e, mesmo assim, dar um passo em frente de olhos fechados.

--

Depois de uma noite em branco, concluí que não tinha atacado a Weasley. O que quer que eu tenha feito, fi-lo conscientemente, e não sob a forma de um monstro. Não pude deixar de me sentir aliviado por ter a certeza de que a sua pele não estava marcada por marcas de dentes. Ou presas.

Ao pequeno-almoço do dia seguinte, consegui mirá-la de relance, sem atrair a sua atenção. Surpreendi-me por a encontrar com um aspecto bastante saudável, como se não tivesse sucumbido a uma qualquer doença, ainda no dia anterior.

Durante toda a manhã, debati-me com aquele mistério. Não conseguia perceber como é que ela recuperara tão depressa, tendo em conta o estado em que se encontrara mergulhada, ontem. Tentei observá-la discretamente, no entanto, a presença constante do seu primo, sempre vigilante e atento, impedia-me de o fazer. Dei por mim a ansiar pelo almoço. Nessa altura, poderia proceder à minha análise, sem mais obstáculos que não a distância.

Zabini quis saber o motivo da minha pressa em almoçar. Omiti-lhe a verdade, como seria de esperar. Como é que eu iria justificar esta ânsia em vê-la?

Ele não acreditou que eu estivesse, simplesmente, esfomeado.

– Sabes o que acho? – perguntou ele, retoricamente. – Acho que estás demasiado obcecado com essa tua competição. Não a venceste já?

Encolhi os ombros, certo de que não valia a pena dar-me ao trabalho de lhe explicar o que eu próprio não compreendia. Ele ergueu uma sobrancelha, interrogativamente.

– Se eu não te conhecesse, diria que tu não estás assim tão importado com a competição, mas sim com a Weasley.

Fiquei sem reacção, face àquela insinuação ridícula. Eu, obcecado com a Weasley? Nunca! Apenas quero certificar-me de que ela está bem. Afinal, fui eu o causador da sua inusitada doença. Bem, pelo menos indirectamente.

Quando cheguei a esta conclusão e quis enfeitiçá-lo pelas suas palavras, já ele tinha fugido, rindo-se às gargalhadas. Engoli o orgulho e encaminhei-me, sozinho, em direcção ao Salão, esquecido do meu principal objectivo. Como tal, apenas quando estava a mordiscar uma maçã é que me lembrei de mirar a mesa dos Gryffindor.

A minha mão paralisou, a alguns centímetros da minha boca entreaberta. Pisquei os olhos, repetidamente, pensando não estar a ver convenientemente. Fui assaltado pela mesma imagem espantosa: uma Weasley deveras sorridente e, sem dúvida, saudável.

Os seus cabelos castanhos, permanentemente revoltosos, estavam mais brilhantes do que nunca e caíam em cascata nos seus ombros e costas. Algumas madeixas mais rebeldes haviam escorregado para a sua face, o que a levou a erguer uma mão para as retirar e devolver ao seu habitual lugar. Surpreendi-me com a delicadeza do seu gesto, mas não tanto como quando percebi o quão belas eram as suas mãos. Mãos de artista, diria a minha mãe, nada dada às artes, mas sabedora das características físicas de todas as celebridades. Eram mãos compridas e esguias, dotadas de uma graça que eu nunca tinha presenciado. Dei por mim a desejar vê-las de perto, sentir a sua textura certamente suave, averiguar se aquele tom rosa que emergia das suas unhas era natural.

Os meus olhos desobedeceram aos silvados que se soltavam do meu âmago e continuaram a percorrer a sua figura. Foram captados pela alvura da sua pele, que brilhava à luz das tochas penduradas nas paredes. Esse tom lembrava-me a cor que as nuvens adquiriam, algum tempo antes do início do pôr-do-sol.

Mentalmente, comparei-a com a sua mãe. Não estranhei as semelhanças entre elas; de facto, estava convencido de que não poderia ser de outro modo. Nunca conseguiria imaginar a rapariga com cabelos ruivos, por mais que tentasse. Seria como imaginá-la sem a sua irritante inteligência. Pelo contrário, achava as suas diferenças, mesmo sendo óbvias, chocantes. Não era só no tom de pele que diferiam, mas também noutro aspecto: a cor dos olhos.

Os olhos dela eram azuis. Não tão claros como o céu, nem tão-pouco tão escuros como águas profundas; não obstante, reflectiam mistério, como se de um espelho se tratassem. Já para não falar no brilho intrigante que, por vezes, os assaltava, alturas essas que coincidiam com os seus sorrisos.

Eu era forçado a admitir: a Weasley sabia sorrir como ninguém. Não se limitava a erguer os cantos dos lábios e mostrar os dentes; esse movimento era acompanhado pela formação de uma pequena covinha do lado direito, em forma de meia-lua. Apenas desse lado, porque os seus lábios esboçavam sorrisos assimétricos, mas perfeitos. Tão perfeitos como a rosa que nasce branca no meio de todas as suas companheiras vermelhas.

Agora que já os vira azuis, era capaz de apreciar o vermelho que caracterizava os seus lábios, criando um espantoso contraste com a brancura da sua tez. Não era uma cor artificial, como a que as outras jovens usavam, numa tentativa de aumentarem a sua beleza. Rose não usava nenhum desses redutos e, mesmo assim, continuava a ser mais bela do que qualquer uma das outras.

Subitamente, a magia que me invadira nos últimos instantes quebrara-se, qual cálice estilhaçado. Abanei a cabeça, com vigor, repreendendo-me por estar a observá-la tão abertamente, durante um tão longo período de tempo.

Desde quando é que a consideras bela?

Fiquei boquiaberto, face ao meu comportamento. O que se teria passado comigo? Teria ficado prisioneiro de um qualquer encantamento? Como é que pudera achar que Rose pudesse ser a mais perfeita das mulheres?

Rose?!

Não, eu não dissera o seu nome próprio. Isso é impossível! Eu sou Scorpius Malfoy e ela é simplesmente A Weasley, a minha adversária. Aquela que insiste em derrotar-me, mesmo quando tudo joga a meu favor. Aquela que despertou a cobra que dormia em mim, aquela que eu devia, supostamente, odiar! E, contudo, eu estivera a contemplá-la durante uma pequena eternidade, alheio ao que me rodeava, com o olhar preso na sua figura.

Novamente, a cobra sibilou, furiosa. Quase podia distinguir o tom acusatório que se desprendia da sua voz. Mais uma vez, ignorei-a. Eu sabia que tinha feito um tremendo disparate, mas já bastava a vergonha que sentia; não era necessário que a serpente se contorcesse nas minhas entranhas, castigando-me.

Inconscientemente, voltei a olhar para ela. Estava a ler um livro, demasiado concentrada para se sentir observada. Suspirei de alívio. Teria sido o toque final, a cereja por cima do bolo, se ela me tivesse apanhado naquele estado de delírio adorador. Seria, justamente, a arma que lhe faltava para me humilhar de uma vez por todas.

Voltei a morder a maçã, que, nessa altura, já se encontrava um pouco escurecida. Evitei fitar o outro lado do Salão, embora tenha de admitir que me tenha custado bastante desviar a atenção dela. No entanto, eu tinha de o fazer; ela era a minha presa e eu o seu caçador. Não havia tempo para tecer considerações sobre o seu aspecto, por mais agradável que seja. Tudo o que importava era vencê-la no seu próprio jogo, custasse o que custasse.

Esbocei um sorriso para a peça de fruta que segurava na mão. Um plano acabara de me ser sussurrado ao ouvido, num sibilado algo sinistro.

--

Nessa mesma noite, voltei a sonhar com ela. À semelhança do pesadelo anterior, foi ela quem tomou a iniciativa de romper a distância que nos separava. Desta vez, pude reparar que ela sorria abertamente, como se tivesse plena confiança em mim.

Desviei o olhar do seu sorriso e fitei o seu vestido vermelho. Apresentava-se ainda mais curto do que antes; eu conseguia ver os seus joelhos, espreitando sob as bordas das suas vestes. Não tive, no entanto, tempo para contemplar as suas pernas, visto que o vermelho voltou a atingir-me, retirando-me a capacidade de raciocinar. Novamente, senti-me pleno. Era como se aquele tom fosse suficiente para me alimentar e saciar a minha sede. E eu estava sequioso, sequioso do perfume do vermelho, tão indescritível como sempre.

Não estava, contudo, suficientemente embriagado. Precisava de mais vermelho, mais daquele odor sublime, muito mais. Aproximei-me, num passo hesitante e um pouco trôpego, típico de um bêbedo. Acabei por tropeçar e cair aos seus pés, como um servo ajoelhando-se em frente à sua senhora. Ergui o olhar para cima, desejoso de voltar a mergulhar naquela onda de vermelho.

Por entre toda aquela mancha avermelhada, um par de olhos azuis brilhava.

--

Nota da Autora: Obrigada, flores, pelos comentários. É tão bom abrir a caixa de e-mail e ver lá um mensagem do a dizer: review alert.

Bem, eis a notícia que eu queria dar: "Contradições" foi premiada com o 2º lugar (PRATA), no II Challenge de Slytherin.

Beijos.