Ela não pedira para que Keitarô fosse buscá-la, no dia seguinte. Como agora já sabia onde ele morava, e memorizara o caminho, fora de táxi até o apartamento dele.
Ele já estava pronto, e Kanako estava no quarto de hóspedes, terminando de se aprontar, quando ela chegara.
- Bom dia, Keitarô... - ela cumprimentou-o, com um sorriso.
- Bom dia, Shinobu. Mas por que não me pediu para ir buscar você ? Isso não seria nenhum incômodo.
- Não precisava, uma vez que agora já sei como chegar aqui - ela objetou, embora sorrisse - Assim, você e sua irmã teriam mais tempo para se aprontarem.
Kanako saíra do quarto naquele instante.
- Olá, Shinobu. Que bom que você veio mesmo.
- Bem, e por que eu não viria ? Afinal, parece ser um passeio interessante, e ultimamente eu não tenho saído muito.
Obviamente, Kanako sabia o que, em primeiro lugar, fizera com que ela aceitasse o convite. Mas Shinobu aceitara os dois conselhos que ouvira recentemente - tanto o de Ayumi quanto o de Kanako - e iria segui-los tanto quanto fosse possível. Ela não queria perder nenhuma oportunidade de estar ao lado de Keitarô.
Shinobu se perguntava como estava o processo de divórcio, no qual ele já tinha dado entrada. Volta e meia, ela pensava nisso, desde que Keitarô tinha lhe falado a respeito, há dois dias. Mas ela poderia esperar mais um pouco. Aquela decididamente não era a hora certa para falar sobre tal assunto.
Os dois tomaram o café da manhã, e perguntaram se ela não queria acompanhá-los, mas ela recusou, porque já tinha comido em casa.
Em seguida, eles desceram, entraram no carro e seguiram até o Parque Ueno.
Como Kanako ia voltar para a Pensão Hinata naquela tarde, ela imaginou que o passeio não seria tão longo assim. Preferia que não fosse o caso, mas isso já não dependia dela.
- Puxa, como são lindas ! - ela exclamou, ao ver as flores de cerejeira ao longe. O parque tinha aproximadamente 800 cerejeiras, e aproximadamente dez milhões de pessoas visitavam-no por ano, apesar de não ser apenas por causa disso. E, de fato, havia muitas pessoas no local em que se encontravam as cerejeiras.
- É, concordo... dá uma sensação de paz... - Keitarô disse, indo até o local do parque no qual Shinobu estava.
Ficaram ali por algum tempo, e, em seguida, foram ao Museu Nacional de Tóquio. O Parque Ueno era também o local no qual ficavam vários museus, sendo esse um deles.
Não era um programa ao qual Shinobu estivesse muito acostumada, mas, no fim, acabara gostando bastante. Visitaram mais de uma seção do museu, como a Honkan, a galeria japonesa. Também visitaram a Toyokan, a galeria asiática, que apresentava arte e arqueologia da China, Coréia, Índia, Sudeste Asiático, Oriente Médio e Ásia Central, e, por último, a Horyu-ji Tomotsukan, a galeria dos tesouros, que continha vários objetos recuperados durante o período da Restauração Meiji.
Kanako também dera mostras de ter gostado, assim como Keitarô. Eles almoçaram no restaurante que havia no primeiro andar da Galeria dos Tesouros. Se tivessem mais tempo, Shinobu bem que queria olhar alguns dos outros museus que o Parque Ueno abrigava, mas, em horas como aquela, o tempo costumava passar muito rapidamente, e logo já estava na hora de eles voltarem para o apartamento de Keitarô.
- Acho que já está na hora de nós voltarmos, não é ? - ela tomou a iniciativa, depois de ter terminado o seu almoço.
- É, infelizmente. Eu sabia que não poderia demorar demais hoje, mas mesmo assim valeu a pena ter vindo aqui - e, virando-se para o irmão: - Você também não acha, onii-chan ?
- Acho... acho, sim. Foi um programa até mais divertido do que eu imaginava que seria - ele admitiu.
- Vamos indo, então.
Chegando lá, ele e Kanako novamente trocaram de roupa. Ela já tinha deixado a mala pronta, e, assim, não precisou perder tempo com isso. Antes de sair do quarto, ela pediu para falar rapidamente com Shinobu.
- Algum problema, Kanako ? - Shinobu perguntou, ao entrar no quarto.
- Nenhum - ela esclareceu - Mas, antes de ir, quero te dar uma coisa - e estendeu-lhe, então, um pedaço de papel, que Shinobu aceitou.
Ela olhou o que havia escrito ali; eram dois números de telefone.
- O primeiro número é o da Pensão Hinata, e o segundo, o do meu celular. Eu espero que isso não seja preciso, mas, se for o caso e você precisar, não pense duas vezes antes de telefonar para mim, está bem ? - pediu Kanako, com bastante seriedade.
- Não tem problema... mas você acha que isso é mesmo necessário ?
- Sempre é bom se prevenir, Shinobu. Bom, agora está na hora de eu ir. Boa sorte para você. Espero que consiga ter sucesso em sua empreitada, e também ser feliz com o onii-chan. Tanto você quanto ele merecem isso.
- Obrigada por todo o apoio... ser bem-sucedida é o que eu mais quero e espero que aconteça...
As duas saíram do quarto. Keitarô, já pronto, só esperava pela irmã. Subitamente, levou uma das mãos à cabeça, e voltou a entrar em seu quarto. Sem entender o que tinha acontecido, Shinobu pôs-se na entrada da porta e ficou olhando-o, de longe.
- Nossa, e não é que eu quase me esqueci... - dizia ele, enquanto abria uma das gavetas da cômoda. De lá, tirou um embrulho, e voltou a sair do quarto. Shinobu viu-o caminhar na direção da irmã.
- Kanako, eu comprei isto para você já há algum tempo. Não sabia se conseguiria me lembrar quando estivesse mais perto. Você sabe, eu estava vivendo um momento terrível...
- O que é isto, onii-chan ? - Kanako perguntou, curiosa, após aceitar o embrulho.
- Seu presente de aniversário. Afinal, estamos no fim de julho, falta menos de uma semana para o seu aniversário, e você não pode ficar vindo aqui com tanta freqüência, não é ?
Ela abriu-o. Era um vestido vermelho, com base preta, e vários lacinhos - acessório quase que obrigatório nas roupas que ela vestia - e rendas. Embora aquele traje fosse diferente, comparado com os que Shinobu se lembrava de vê-la tê-la visto usar durante o período em que convivera com ela na Pensão Hinata.
- Já vi você usando esse tipo de vestido por algumas vezes, espero não ter errado na escolha, e que você goste dele.
- Sim, eu gostei muito, onii-chan ! - disse ela, abraçando-o, e esboçando um sorriso - Obrigada.
- Eu não sabia que o seu aniversário estava próximo, Kanako... em que dia é o seu aniversário ? - perguntou Shinobu, que até então apenas estivera observando a cena.
- Bem, isso não é surpresa, lembre-se de que não sou exatamente a pessoa mais sociável que você já conheceu. Meu aniversário é no dia um de agosto. Como o onii-chan disse, falta menos de uma semana para ele.
- Então... bem, meus parabéns, por antecipação - disse Shinobu, apertando a mão dela.
- Obrigada. E, já que estamos falando sobre aniversários, quando é o seu ? Se o dia ainda não tiver passado, é claro.
- Não, não passou. O meu aniversário é no dia quinze de novembro, este ano eu vou completar 24 anos.
- Quinze de novembro... - disse Kanako, como se falasse para si mesma.
Keitarô acabou por interromper a conversa.
- Podemos ir ? - ele perguntou.
- Sem problemas.
- Bem... eu não me importo se a resposta for negativa, mas posso acompanhar vocês ? - Shinobu perguntou - Eu também queria me despedir de Kanako.
Nenhum dos dois viu qualquer problema nisso, e então Shinobu também embarcou com eles até a rodoviária. Chegaram quase na hora em que o ônibus que levaria Kanako de volta à cidade de Hinata ia partir, e, por isso, não houve muito tempo para despedidas.
- Cuide-se bem, Kanako - ele disse, antes de despedir-se da irmã, pouco antes de ela entrar no ônibus.
- Digo o mesmo para você, onii-chan... e seja feliz. Sempre. Independente de como esteja a sua vida agora.
Ele ficou sem saber como responder a isso.
- Você também, Shinobu... e lute por isso - e não era preciso ser nenhum gênio para saber sobre o que ela estava se referindo.
"Pode deixar", foi o que Shinobu respondeu, com o olhar, antes de Kanako, enfim, embarcar no ônibus, e logo em seguida, despedir-se deles em definitivo. Então, eles voltaram.
Naru tinha esperado que eles descessem. Ao que tudo indicava, eles tinham saído pela manhã, mas, independente de para onde tivessem ido, não se demoraram tanto assim. Vira quando Keitarô entrara no carro, seguido pela irmã, e finalmente conseguira ver quem era a terceira pessoa, a mesma que tinha se encontrado com Keitarô na sorveteria, e que tinha também estado com ele e Kanako no dia anterior.
Ela mudara bastante, mas, pelo fato de já ter convivido com ela por muito tempo, no passado, Naru reconhecera-a sem maiores problemas. Shinobu Maehara. Não esperava por isso. Será que os dois tinham algo ? Naru lembrava-se de que ela era apaixonada por Keitarô, no tempo em que morara na Pensão Hinata. Mas ela nunca fora uma rival direta.
Mas aquela Shinobu, com a qual convivera, era muito diferente da atual. Cabelos longos e soltos, na altura da cintura, curvas de tirar o fôlego, sorriso autêntico... ela podia ser uma ameaça ?
Saíram novamente, e ela imaginou que tinha sido para levar Kanako para a rodoviária. A irmã de Keitarô provavelmente viera para uma visita, mas era provável que não pudesse ficar tempo demais longe da pensão, da qual agora era a gerente.
Decidiu esperá-los novamente.
E se pôs a pensar em como seu casamento chegara àquele ponto.
Era verdade que tudo começara por causa do trabalho de Keitarô como arqueólogo. A princípio, isso não a incomodava tanto; sabia que ele adorava Arqueologia. Mas, depois de um tempo, com ele passando muito mais tempo fora de casa - e algumas vezes até do país - , a paciência dela chegara a um limite. Se tivesse sido um pouco mais paciente, talvez a situação não tivesse chegado a aquele ponto. Porém, Keitarô tentara. Primeiro, espaçara mais as escavações das quais fazia parte, e depois deixou de participar de escavações fora do Japão. Até que, por fim, decidira dar palestras sobre o assunto na Toudai. Não deveria ter sido o suficiente para colocar um ponto final em todos os desentendimentos que ambos haviam tido até então ?
Deveria. Mas não fora. Por culpa dela, e ela tinha de admitir isso. Se tivesse se comportado de modo mais adulto, provavelmente não estaria na situação atual. Se não fosse pelo fato de ter a "brilhante" idéia de falar pouco com ele, ou mesmo não falar, ela achava que os dois ainda estariam juntos.
E filhos... eles não tiveram nenhum, e ela, em parte, tivera culpa nisso, pois não quisera filhos logo após o casamento. Se tivessem pelo menos um filho, Naru acreditava que Keitarô não a teria deixado.
Ela reconhecia que errara demais. Mas que, mesmo assim, o queria novamente ao seu lado.
A qualquer custo.
Esperou por mais um tempo. Não soube dizer por quanto tempo, até que vira o carro de Keitarô aproximar-se. Mas ele passara direto. Provavelmente tinha ido levar Shinobu até a casa dela.
Entrou no carro que dirigia. Felizmente, tinha agora licença para dirigir. Seguiu-os a uma distância segura, sem ser notada. E viu quando Keitarô estacionou em frente a uma casa; ele e Shinobu desceram do carro, e, em seguida, despediram-se.
Ela esperou que Keitarô fosse embora, e, depois de um tempo, parou em frente à casa, desceu e olhou com bastante atenção, para memorizar os detalhes.
Entrando novamente no carro, ela afastou-se um pouco dali. Iria esperar por mais algumas horas.
E Shinobu Maehara teria uma surpresa.
Já tinha anoitecido, e Shinobu estava assistindo TV. Se bem que ela quase não conseguia prestar atenção no que estava assistindo, enquanto se lembrava daquele dia. O programa não durara tanto tempo assim, mas fora muito bom. Ela não sabia se teria essa mesma impressão caso o tivesse feito com outra pessoa. Mas agora tinha de pensar no que faria a seguir.
A campainha da porta tocara. Seria Ayumi ? Conhecendo a amiga, ela não achava isso impossível.
Abriu-a, e quase não acreditou no que viu. Ou melhor, em quem viu do lado de fora. Exteriormente, ela não mudara muito. Continuava sendo muito bonita. Os cabelos castanho-claros chegavam-lhe quase até a sua cintura. Mas tinha uma expressão diferente da qual ela se lembrava.
Estava frente a frente com Naru Urashima.
- Oi, Shinobu. Muito surpresa por me ver ? - ela sorriu, e aquele sorriso nem de longe era o da Naru que ela se lembrava. Era um sorriso mais irônico, e não autêntico.
Shinobu se recompôs da surpresa.
- Bastante - ela respondeu - O que você está fazendo aqui, e, aliás, como soube que eu moro aqui ? - ela não disfarçou a contrariedade em sua voz, pois imediatamente lembrou-se de tudo pelo qual Keitarô estava passando atualmente, e que não merecia. A única culpada por tudo encontrava-se ali, bem à sua frente.
- Nossa que recepção ! - Naru exclamou, fingindo estar surpresa - Nem me convida para entrar ?
- Não. Acha mesmo que eu faria isso ? - ela respondeu com firmeza, e ainda mais contrariada - E já chega de jogar conversa fora. Se você quer falar sobre algo comigo, Naru, então nós podemos conversar aqui mesmo.
Naru deu um suspiro.
- É, você mudou...
- Assim como você. Mas eu, pelo menos, não mudei para me tornar alguém igual a você.
Naru ficou sem palavras por alguns segundos, o que a fez achar que ela tinha acusado o golpe. Shinobu não pôde deixar de sentir-se satisfeita. Se ela queria intimidá-la de alguma forma, veria que não iria conseguir.
- Muito bem, vamos ao que interessa. Você está tendo algo com meu marido ?
Como ela podia saber que Shinobu estava encontrando-se com ele ? Andara seguindo-os ? Era a única explicação possível, e não duvidava que Naru estivesse seguindo Keitarô há mais tempo, desde bem antes de Shinobu tê-lo reencontrado.
- Depois de ouvir isso, eu devo rir ou chorar ? Você ainda chama Keitarô de marido ? Sei que oficialmente vocês ainda são casados, mas que, na prática, esse casamento já chegou ao fim. Ele existe apenas na sua mente insana !
- Pode responder, por favor ? - ela ficou impaciente.
- Antes, responda você uma coisa - Shinobu disse, zangada - Você tem seguido Keitarô ? Porque só assim saberia que eu tenho me encontrado com ele.
Ela ficou em silêncio, e, para Shinobu, foi o suficiente.
- Muito bem, vou responder à sua pergunta, mas apenas porque eu quero - deixou bastante claro - O que tenho com Keitarô é amizade. Como sempre foi o caso, desde o primeiro dia em que eu o conheci. Mas que, agora, eu espero e quero que mude ! - ela sabia que talvez fosse melhor não falar mais, porém não conseguiu segurar tudo o que estava entalado em sua garganta - Você fez da vida dele um inferno ! Se o que você acha que sente por ele é amor, não quero nem imaginar como seria se fosse ódio. Você teve a sua chance de ser feliz com ele, Naru. Mas nem de longe você a aproveitou, certo ? Se você e ele ainda estivessem felizes, eu sequer pensaria em me aproximar de Keitarô, não mais do que como a amiga que sempre fui. Pois bem, agora o destino decidiu me dar uma nova chance. Que, ao contrário de você, eu não pretendo jogar na lata de lixo. Porque, ao contrário de você, eu o amo de verdade.
Naru ficou tensa ao ouvir a última parte da sentença.
- Shinobu, preste muita atenção, porque eu vou falar apenas uma vez: seja como for, ou por bem ou por mal, eu não vou admitir que ninguém tente tirar Keitarô de mim ! Não ouse tentar. E é melhor que você leve muito a sério este meu aviso.
- Ah, isso é um aviso ? Então "Ameaça" agora mudou de nome ? - Shinobu rebateu, com ironia - Você está me ameaçando, Naru ?
- Entenda como quiser. Mas não diga que não foi avisada.
- Se eu ainda estivesse precisando de uma prova para acreditar que você realmente não está no seu juízo perfeito, agora não precisaria mais - ela calou-se por um momento, mas logo voltou à carga: - Em primeiro lugar, Keitarô não é um objeto ou um bichinho de estimação, para pertencer a você ! Porque, do modo como você fala, até parece que ele é sua propriedade - disse ela, com o tom de voz um pouco mais alto, e já bem mais irritada do que antes - E, em segundo lugar, eu não convidei você para vir até aqui, porque só se eu estivesse completamente louca é que eu faria tal coisa; e a única louca, aqui, é você. Portanto, se você não tiver mais nada para me dizer, pode fazer o favor de se retirar da minha casa ?
Por um momento, ela achou que Naru não fosse fazer isso, ou que ainda fosse dizer algo. Mas ela apenas deu-lhe as costas, e, após andar mais alguns metros, entrou em um carro... azul, se não tinha visto mal. Ela não sabia qual era a marca do carro, pois nunca fora boa com isso. Em seguida, Naru foi embora.
Shinobu entrou em casa logo depois. Fechou a porta, e atirou-se no sofá, suspirando aliviada pelo fato de aquela visita mais do que indesejada ter chegado ao fim. E, por mais que não quisesse admitir, a verdade era que ela sentira um frio na espinha quando Naru lhe fizera aquela ameaça. Felizmente, ela não demonstrara isso, e também não se deixara intimidar.
Lembrou-se dos dois números de telefone que Kanako havia lhe dado, mas descartou a idéia. Não por orgulho, mas porque achava que só devia telefonar para ela no caso de alguma coisa mais urgente; além do mais, àquela hora, talvez ela ainda não tivesse chegado na cidade de Hinata. E, pelo mesmo motivo, pelo menos por enquanto ela decidiu não falar nada sobre o que acabara de acontecer com Keitarô.
Voltando a lembrar-se da conversa, e de que Naru ainda achava que tinha qualquer tipo de direito com relação a Keitarô, ela sentiu o sangue ferver. Aquilo seria cômico se não fosse trágico. E, se ainda estivesse lhe restando alguma dúvida sobre tudo o que Keitarô tinha lhe contado, agora já não restava mais nenhuma. Ele não havia exagerado em absolutamente nada. Seria impossível que qualquer pessoa que não sofresse de insanidade mental quisesse viver com alguém como ela.
De modo algum aquilo podia ser visto como amor. Era obsessão, e do pior tipo. Naru estava totalmente obcecada por Keitarô, e, pelo jeito, estava igualmente determinada a não permitir que ele fosse feliz com nenhuma outra pessoa. Como se fosse possível que ela e Keitarô voltassem a ficar juntos...
"Você não vai conseguir me fazer desistir, Naru", ela pensou, agora mais decidida do que nunca.
Já tinha se passado algum tempo, e chegara o fim de agosto.
Keitarô já estava começando a se perguntar quando os papéis do divórcio ficariam prontos para serem assinados. Revirou os olhos quando lembrou de que isso, necessariamente faria com que ele tivesse de reencontrar Naru, mas seria um mal necessário. Se bem que ele não acreditava na possibilidade de um divórcio amigável, e tinha quase certeza de que ela faria o possível para complicar as coisas. Se fosse só por dinheiro, ele não se importava de ceder qualquer quantia que estivesse ao seu alcance, contanto que isso fizesse com que ela também assinasse os papéis, e então o deixasse definitivamente em paz.
Ele pensava em tudo isso, quando o seu celular tocou. Olhou o número, e quase não acreditou quando viu que era o do seu advogado !
Sentou-se no sofá da sala, e ansioso, atendeu aquela ligação.
- Alô ?
- Sr. Urashima ? - respondeu a voz do outro lado da linha, que ele logo reconheceu como sendo a de Kyo Hayase, o advogado que contratara.
- Eu mesmo, sr. Hayase. Já estava preocupado com a demora...
- Certo, vamos direto ao ponto. Os papéis do divórcio já estão prontos, e só precisam da sua assinatura, e da assinatura de sua esposa.
Agora, ele imaginou, ia começar a parte complicada.
- Obrigado, Sr. Hayase. Entrarei em contato assim que falar com minha... esposa - Keitarô sequer gostava de se referir a Naru naqueles termos. Mas, paciência, legalmente ele ainda era casado. Por pouco tempo, assim esperava.
As férias de verão estavam muito perto do fim. Assim que ele terminasse, dentro de mais algum tempo, o planejamento para as aulas de setembro, a primeira coisa que faria seria procurar Naru. A idéia decididamente não lhe agradava, mas era um pequeno sacrifício a ser feito, se quisesse ser livre novamente.
Demorou um pouco até ele se ver totalmente livre de tudo. Mas não tinha mais nada que estivesse pendente.
E, então, ele não perdeu tempo. Entrando no carro, tomou a direção, que conhecia tão bem, da casa em que morara por algum tempo, e que não pensara que teria de abandonar; mas fora necessário, para preservar a sua sanidade.
Tocou a campainha do portão.
A própria Naru atendeu, e ficou parada por alguns segundos ao ver quem estava ali.
- K... Keitarô ?
- Eu mesmo... mas não pense que eu estou aqui porque decidi voltar. Estou aqui, sim, mas porque quero dar outro rumo à minha vida.
- Quer entrar ? Fica melhor para conversar.
Ele aceitou.
Uma vez lá dentro, enquanto ele e Naru tinham se sentado em sofás que ficavam de frente um para o outro, ela foi a primeira a quebrar o silêncio.
- O que você quis dizer com "outro rumo" ?
- Simplesmente que, depois que eu saí daqui, eu entrei na Justiça com um pedido de divórcio. Telefonaram hoje para mim. Os papéis já estão prontos para serem assinados. Mas, é claro, apenas a minha assinatura não é suficiente. E por isso eu vim até aqui.
- Você não pode estar falando sério ! - ela olhou-o incrédula - Quer que eu também assine esses papéis, e que nosso casamento chegue ao fim ?
- Que casamento, Naru ? - Keitarô perguntou, com um ar de cansaço - Você sabe que ele não existia mais, a não ser no papel. Eu saí daqui porque queria me ver livre de tudo aquilo. E agora quero ficar livre de uma vez por todas. Não quero ter mais nenhum tipo de vínculo com você.
Por alguns instantes, nenhum dos dois falou nada. Até que Naru foi a primeira a quebrar o incômodo silêncio.
- Keitarô... reconsidere. Eu sei que errei demais antes. Não fui paciente. Acabei forçando você a parar com a profissão da qual tanto gosta. Você acabou por apenas dar aulas na Toudai. Mas posso consertar esses erros. Você não pode me dar uma segunda chance ?
Ele fez que não, com a cabeça.
- Você já disse a mesma coisa em outras ocasiões. Já dei uma segunda, terceira, quarta chance... e nada mudou, muito pelo contrário. Eu vim aqui torcendo para que esse divórcio fosse resolvido amigavelmente, mas também sabendo que isso podia acabar não acontecendo.
- Suponho que você não vai mudar de idéia ?
- Não. Se você acabar tirando tudo o que eu tenho, ainda assim eu vou ficar feliz, desde que meu estado civil mude de "casado" para "divorciado" - ele afirmou, e não estava exagerando.
Por um momento, ela ficou em silêncio.
- Posso perguntar se você tem outra pessoa ?
- Não que isso seja da sua conta, mas a resposta é não.
Novamente Naru ficou em silêncio, como se estivesse ponderando a situação. Demorou alguns minutos até ela voltar a falar algo.
- Eu assino.
Ele não esperava por aquela resposta.
- Vai... assinar, mesmo ?
- Sim. É o que você quer, não ? Não vou ganhar nada recusando, a não ser a sua raiva. Imagino que você já esteja com bastante raiva de mim, aliás.
Não era uma mentira, mas ele preferiu não comentar nada sobre a última frase. De repente, ela podia voltar atrás... e isso ele não queria, de jeito nenhum.
- Então... eu posso passar aqui, amanhã pela manhã, para ir com você até o escritório ?
- Não precisa. Eu vou até lá com o meu advogado. Assim que terminarmos essa conversa, eu vou telefonar para ele. É só você me passar o endereço, Keitarô. Não se preocupe, eu vou estar lá.
Ele anotou o endereço em um pedaço de papel, e passou-o para Naru. Também lhe disse como chegar lá sem maiores problemas. Em seguida, levantou-se e se despediu.
E Keitarô não quis perder tempo. No dia seguinte, logo pela manhã, ele foi diretamente ao escritório. Tivera de esperar um pouco por Naru, mas ela viera mesmo, acompanhada de um homem calvo, que só podia ser seu advogado.
Os termos da separação foram explicados. Keitarô concordou com eles. Naru também. Ele assinou os papéis, e depois ela fez o mesmo.
Foi preciso que ele se contivesse para não externar como estava se sentindo naquele momento. Estava livre ! Finalmente tudo acabara ! Legalmente, ele já não era mais casado com Naru, e isso lhe dava uma alegria e um alívio sem tamanho.
Naru voltara para casa naquele instante, mas sem estar abalada.
Quando Keitarô a procurara na noite do dia anterior, claro, a primeira reação dela fora recusar o divórcio. Mas depois, ainda antes de ele ter ido embora, ela ponderara sobre a questão.
Ela concordara com aquilo porque senão o processo poderia se arrastar por muito e muito tempo, e isso apenas faria com que Keitarô a odiasse. O que não seria nada bom. Por isso, pelo menos temporariamente, deixaria de ser Naru Urashuma, e voltaria ser Naru Narusegawa.
E ela lembrara-se também da conversa que tivera com Shinobu. Podia até ser que Keitarô ainda a considerasse apenas como uma amiga, mas decididamente a recíproca não era verdadeira. Até porque a própria Shinobu deixara bastante claro que queria que essa situação mudasse. E não era cega. Mesmo antes de ter falado com ela, Naru já pudera ver, com seus próprios olhos, como ela estava muito mais bela do que da última vez em que lembrava-se de tê-la visto. E, com tudo o que Shinobu havia lhe dito... sim, ela agora podia e devia considerá-la como uma grande ameaça.
Ela ainda iria ver qual o próximo passo que daria. Ela ainda não desistira. Ainda não perdera a guerra.
Já tinha anoitecido, e Shinobu estava se aprontando para sair. Ainda durante a tarde, Keitarô tinha telefonado para ela, convidando-a para jantar, mas fora. Ela ficara com a impressão de que ele estava bastante contente, mas não perguntara nada, e não pensara uma segunda vez antes de aceitar o convite.
Ela já estava começando a se acostumar ao fato de ele quase sempre vir buscá-la. Quando ouviu as batidas na porta, foi atendê-la, estando quase certa de que era ele. E não se enganou.
- Oi, Keitarô ! - ela cumprimentou-o - Eu já estava indo esperar você lá fora. Você me deixou curiosa, hoje, com aquele telefonema. Quer me contar algo ?
- Sim, mas não aqui. Vamos ? - ele deu-lhe a mão, que ela segurou, e ambos caminharam em direção ao carro. Ele escolhera um restaurante aconchegante, o Ten-Ichi.
Depois que eles chegaram lá, e fizeram o pedido, ela perguntou:
- Bom... temos algo para comemorar hoje ?
- Para ser sincero, temos, sim. Você lembra que eu tinha dito que entrei com o processo de divórcio ?
- Lembro, sim... - ela respondeu, com as batidas do coração tendo se acelerado - Por quê ?
- Porque ontem, o meu advogado me telefonou para me avisar que os papéis estavam prontos para serem assinados. A primeira coisa que fiz, ontem, depois de terminar o planejamento para setembro, foi passar na casa de Naru, já que, afinal, eu também precisava que ela os assinasse.
- E ela... ?
- Bom, a princípio ela resistiu à idéia, disse que podia fazer o casamento dar certo... o que não me surpreendeu. Mas eu deixei claro que não dava para ter mais nenhuma chance, pois eu já tinha tentado bem mais de uma vez. Ficamos calados por um tempo, depois disso. E então, quando voltou a falar, ela aceitou assiná-los; eu até fiquei surpreso, mas, se ela aceitou sem oferecer maiores dificuldades, tanto melhor. Enfim, nós assinamos os papéis hoje pela manhã. Estou divorciado, Shinobu ! E é isso que estamos comemorando. É um bom motivo, você não acha ?
- Claro ! Que bom que deu tudo certo, então ! Parabéns por ser um homem livre novamente ! - ela felicitou-o.
Mas Shinobu estava desconfiada. Lembrava-se muito bem da conversa que tivera com Naru, há poucos dias. Ela não parecia nem um pouco disposta a abrir mão de Keitarô facilmente... e concordara com o divórcio quase sem oferecer resistência ? Por quê ? O que ela ganhava com isso ?
Tinha uma peça que faltava ser encaixada naquele quebra-cabeça. Mas ela deixaria para pensar naquilo depois. Como Keitarô tinha dito, aquela era uma notícia que merecia ser comemorada. E muito. E não tinha como ela não ficar feliz com a notícia. Agora não precisava mais sentir nenhum tipo de culpa. Se ele não era mais um homem casado, Shinobu agora se sentia livre para conquistá-lo. Ou pelo menos tentar.
O jantar fora bastante agradável, e, depois que terminaram, eles ainda ficaram conversando por mais algum tempo.
Quando, enfim, os dois saíram do restaurante, Keitarô abriu a porta do carro para Shinobu. Mas ela não entrou. Ao invés disso, ficou olhando para ele por alguns instantes, e deu um passo à frente. E então, como se não pudesse evitar, abraçou-o fortemente.
Ela tinha decidido dar o primeiro passo. Não queria perder aquela chance.
- O que... nós estamos fazendo ? - ele perguntou, ofegante.
- Pense nisso depois... - ela sugeriu, torcendo para que ele não voltasse atrás.
- Eu não vou parar agora... - ele falou, e Shinobu ficou muito feliz ao ouvir essas palavras. O que menos queria era que ele parasse - Certo ?
Ela concordou.
Quando Keitarô inclinou a cabeça em direção a ela, Shinobu foi ao seu encontro com bastante naturalidade. Ela sonhara demais com aquele momento. Suas bocas se uniram, então, em um beijo apaixonado, e ambos podiam sentir seus corpos moldarem-se perfeitamente, como se fossem um só. Dominados pela paixão, os dois moviam-se como se estivessem em uma solitária dança.
Ela nunca tivera qualquer dúvida de que aquilo era o que mais queria, e, se ainda lhe restava qualquer resquício de dúvida, tinha sido já totalmente descartado.
Porém, tinham de parar. Não podiam ir mais longe, não no local no qual se encontravam. A contragosto, ela afastou-se um pouco. E, enfim, disse as palavras que, há muitos e muitos anos, ela tinha guardadas dentro de si.
- Keitarô... eu amo você. Talvez você achasse que o que eu sentia por você há alguns anos antes era apenas uma paixão de adolescente, e que logo seria esquecida; aliás, é o que provavelmente todos achavam. Mas a verdade é que eu nunca consegui te esquecer durante todos esses anos.
- Tem mesmo certeza disso, Shinobu ? - ele parecia estar genuinamente surpreso com aquela declaração.
- Mais do que qualquer outra coisa que eu já tenha afirmado em toda a minha vida. Ouça, eu entendo que foi hoje que você saiu de um casamento muito complicado. Mas o que eu não quero é ser vista apenas como sua amiga. Quero que você me veja e que me ame como mulher, mesmo que isso leve mais algum tempo. Você acha que consegue me ver e me amar desse modo ?
- Neste momento, eu não posso afirmar isso com certeza absoluta, e admito que você me pegou de surpresa. Eu não vou mentir agora, e dizer que amo você da forma como você quer. Mas talvez isso possa ser um início, não é ?
- Sim, pode ! - ela concordou, feliz.
- Por enquanto, eu não posso prometer nada além disso, Shinobu - ele voltou a deixar claro.
"Talvez" não era exatamente a palavra que ela queria ouvir. Mas era melhor do que um "não".
Afinal, era um começo.
Mais tarde, em seu apartamento, Keitarô relembrou os acontecimentos das últimas horas. Até achava difícil de acreditar. No mesmo dia, não apenas divorciara-se de Naru, como também ouvira Shinobu declarar-se a ele, e, ainda por cima, eles haviam se beijado.
Ele gostava de Shinobu, e, se quisesse ser sincero consigo mesmo, agora ela estava muito mais bonita do que há anos atrás; mas não sabia se conseguiria amá-la. Não imaginava que ela ainda o amasse, pois, afinal, haviam se passado quatro anos, nos quais os dois não tinham mais se visto.
Eles não eram namorados, mas, agora, ele não sabia dizer o que exatamente os dois eram. Mas, mesmo que Keitarô chegasse a se apaixonar por ela, os dois poderiam dar certo, juntos ?
Principalmente por causa do fracasso do seu casamento com Naru, era essa a pergunta que ele se fazia.
Mas tentaria ser feliz. Fizera essa promessa à própria Shinobu e também a si mesmo. Não ia deixar que o passado, ainda que recente, arruinasse o restante da sua vida.
