Snape

Severo Snape se encontrava nu, na própria cama, pensando no que diabos estava acontecendo. Ele se recriminava por três razões: Em primeiro lugar, ele se recriminava porque nunca em todos os seus anos de docência em Hogwarts ele jamais se aproximara de uma aluna. Nunca ele cometera tão anti ética conduta.

Em segundo lugar, ele se recriminava porque aquela era Hermione Granger. Hermione que ele viu chegar a escola aos 11 anos e sempre levantava às mãos a cada pergunta, e nunca errava, de um jeito que o irritava. Hermione que ele viu se tornar uma mulher bonita e corajosa, sem a qual, ele tinha certeza que Potter e Weasley não teriam destruído nem a unha do dedão esquerdo de Voldemort. Hermione que estava tendo pesadelos com os horrores que vira na guerra e ele não podia deixar de sentir que estava aproveitando-se da moça, que estava fragilizada.

Quando Hermione deixou seu quarto pela primeira vez, constrangida, vestindo-se rapidamente, e ele parou para pensar que aquela provavelmente tinha sido a primeira noite dela, e não tinha sido nada romântica, ele não era um príncipe encantado, não era um menino da idade dela pronto para amar, foi isso mesmo que ele pensou: que era um aproveitador.

Mas no dia seguinte, quando a moça demonstrou que o desejava, claramente, esse argumento se perdeu. "Foi consensual", ela dissera, para deixar claro que sabia o que estava fazendo. "Eu não me arrependo", ela tinha dito ainda, como que afirmando que faria outra vez. Ele já não se sentia mais tanto um aproveitador. No entanto, Severo Snape sentia que ele estava fazendo algo muito errado, mesmo que a jovem o quisesse, ele sabia que aquilo não acabaria bem. Nada poderia ser mais distante, estranho ou oposto do que ele e Hermione Granger.

Mas o terceiro motivo de Severo Snape era o que mais o atormentava, ele se recriminava por não ter conseguido se controlar. "Por que? Por que eu fiz isso duas vezes?", ele pensava. Ele tinha sido espião, aguentado torturas, protegido sua mente do Lorde das Trevas, fingido compactuar com ele e seus comensais, aquele era um homem que sabia se controlar. Por que uma jovenzinha como Granger tinha levado todo seu controle? Por que ele se deixara levar pelo desejo? Por que se regozijara com a sua inocência? Por que se sentira tocado quando ela disse que tinha os pesadelos, para começo de conversa?

Sem conseguir mais pensar no assunto, resolveu que trataria do acontecido como um deslize, que não tornaria a acontecer e seguiria a sua vida como se nada daquilo estivesse acontecido. Ele manteria Hermione afastada, era questão de tempo até que ela prestasse seus NIEMs e deixasse Hogwarts.

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Hermione adentrara o salão comunal da grifinória já tarde da noite e encontrou seus amigos esperando por ela, acordados.

- Estava até agora na detenção com Snape? – questionou Rony quando a viu.

- Não, depois fui dar uma volta. – ela disse, vagamente.

Harry fez uma expressão preocupada.

- Mione, você está bem? – ele perguntou.

- Estou, Harry.

Ela foi se deitar aquela noite pensando no que tinha acontecido. Nos beijos daquele homem, nos toques, no intenso orgasmo que sentira, na preocupação que ele demonstrara ao perguntar "Tem certeza?". Sua mente viajava. Aquele afinal era Severo Snape. Severo Snape ela repetia para si mesma, tentando convencer a si própria de que tudo não passava de um vívido pesadelo erótico, no qual seu corpo era tomado por desejos sem nenhuma explicação.

Ela o admirava, era verdade, admirava sua força, sua coragem, sua determinação, sua inteligência e todas as ações que tivera na guerra. Sabia, também, que por traz daquele homem taciturno e sério tinha existido um dia um jovem capaz de um amor incondicional. Mas ela acreditava que a paixão por Lílian Potter ainda perdurava em seu peito e que ele era um homem endurecido e frio que perdera a capacidade de qualquer sentimento ou envolvimento com quem quer que fosse. Afinal, Severo Snape não tinha tido amigos, não tinha tido namoradas, não havia nada que ela soubesse nesse sentido.

Ela não tinha dúvidas que ele tivera várias mulheres, para aplacar um desejo instintivo de seu corpo, pois ele a tocara com mãos experientes. Algo se revirou dentro dela quando pensou que tinha sido mais uma destas mulheres. Ao mesmo tempo, ela pensava que Severo Snape não era o tipo que se envolvia com suas alunas, mesmo no caso dela, que já tinha atingido há dois anos a maioridade bruxa.

Mais do que não compreender o que tinha se passado com Snape, Hermione não entendia o que se passava com ela própria. Deitada na cama, sozinha, seu ventre latejava ao recordar-se de como tinha sido estar com ele. Por que aquele desejo tão súbito? Tão impróprio?

Depois de horas revirando-se, quando o sono a atingiu, Hermione só tinha um pensamento: precisava descobrir mais sobre aquilo, precisava saber mais sobre ele, estar com ele de novo e atender as ânsias do seu corpo. Precisava entender o que afinal esperava, o que afinal sentia e o que queria daquele homem.

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Os planos de Hermione foram frustrados nas duas semanas seguinte quando a presença de Snape foi requisitada pelo departamento de Aurores para auxiliar na captura de alguns comensais da morte e em seu julgamento, naquelas semanas as aulas de DCAT foram lecionadas por um professor substituto, Auror do Ministério da Magia.

Na semana na qual Snape retornou à Hogwarts, ela quase não o viu. Ele não jantou no salão principal e não circulou pelos corredores. Ela o viu poucas vezes, de longe, quando passou à porta da sala de DCAT. Ela aguardou a sexta feira, quando teria aulas com ele, com ansiedade por aquele encontro. Já seriam quase três semanas que ela não o via desde a última noite que deixara-o nu em sua cama e voltara para o Salão Comunal da Grifinória.

Quando ela finalmente adentrou a sala de DCAT junto de Harry, Rony e Neville, viu o professor de cabeça baixa, sentado em sua mesa, anotando algo em um pedaço de pergaminho. Quando o horário do início da aula chegou, o professor levantou a cabeça, os olhos negros encontrando os dela. Ela arrepiou-se, sem deixar de notar o fogo que havia ali, mesmo que ele tenha disfarçado alguns segundos depois, e prosseguido a aula sem nem mesmo olhar pra ela.

Ele iria ignorá-la completamente. Estava fugindo do que tinha acontecido. Ela se deu conta do que já vinha desconfiando desde o retorno do professor à Hogwarts.

- Se ele sente necessidade de fugir, é porque não está conseguindo controlar. – um sorriso suave brincou no rosto da menina quando ela sussurrou para si mesma.

- O que você disse? – sussurrou Harry de volta, desviando a atenção das explicações de Snape.

- Nada. – disse baixo, Hermione, que não percebera ter dito aquilo em voz alta. – Estava apenas lembrando de algumas anotações sobre a aula passada.

- Potter, ter derrotado Voldemort pode ter lhe dado a impressão equivocada de que sabe tudo sobre as Artes das Trevas e como proteger-se dela. – disse Snape, repuxando os lábios em desgosto.

Harry ficou vermelho e abriu a boca para responder. Mas antes que o menino pudesse faze-lo, Hermione enxergou uma oportunidade.

- Fui eu que fiz uma pergunta a Harry, professor. – intrometeu-se Hermione. – Na verdade ele me pediu que aguardasse o final da aula para me responder.

Severo Snape duvidava muito de que Potter tivesse respondido dessa forma. Mas não havia nada que ele pudesse fazer para provar o contrário. Granger tinha se culpado em voz alta, para que todos os alunos ouvissem.

- Tenho certeza que todos nós queremos saber sobre a sua pergunta. – questionou Snape. – Cujo tema certamente está relacionado a aula.

Ele sabia que a mente da menina era inteligente e ágil o suficiente para formular com rapidez uma pergunta sobre Defesa Contra as Artes das Trevas. Ele tiraria alguns pontos da grifinória, responderia a pergunta e seguiria a aula como se nada daquilo tivesse acontecido.

- Na verdade, senhor, era uma pergunta pessoal. – Hermione abaixou a cabeça, falando baixo, em tom de arrependimento. Depois, continuou, respeitosa – Eu estava desatenta em relação a aula, peço que me desculpe, professor.

- Detenção, Granger, hoje as 19:30. – ele disse, impulsivamente. Nunca um aluno tinha dito que não estava prestando atenção em sua aula de forma tão direta. Ele não tinha opção a não ser castiga-la. Era o que todos os alunos a sua volta esperavam que ele fizesse. Era o que ele esperava de si mesmo.

Foi então que seu olhar encontrou o da moça, e ele viu um brilho vitorioso que não deveria estar ali. Foi quando ele pensou: Ela sabia que eu a colocaria em detenção, ela queria isso. Algo dentro dele se acendeu naquele instante. Ele precisou sentar-se atrás da mesa para esconder as evidencias físicas de sua excitação.

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