Auto-confronto

Encontrar-se em um dilema significa que só existem duas soluções para um problema das quais ambas são inaceitáveis e você não sabe que raios fazer a respeito.

O meu dilema não tem nada a ver com o James ou com o Potter.

'James e Potter' é um conjunto.

'James e Potter' é James Potter.

A gramática que me perdoe, mas eu não posso usar um verbo no plural quando uso o nome da pessoa duplamente. É uma pessoa, é singular.

Não posso me iludir pensando que James mudou. Não posso me iludir pensando que James não é o Potter. James amadureceu, mas isso não o deixa ser menos Potter do que antes. James é o Potter; sempre foi e sempre será. Não há nada que mude isso.

Estou prestes a me tornar a garota mais hipócrita da história de Hogwarts. Eu quero convidar o James para ir comigo no Clube do Slug, porém será contra todos os meus princípios desde a primeira vez que nos vimos; será contra o primeiro convite para sair que ele me fez; será contra todas as negações e xingamentos; e, seguinte a qualquer outro argumento, será contra eu mesma.

Perderei minha dignidade.

Eu não vou convidá-lo com segundas intenções, mas o convite é o suficiente para eu ser minha própria inimiga. Será meu 'Eu e minha afeição por James' contra meu 'Eu e o desgosto por Potter'. É um conflito interno. Esse é o meu verdadeiro dilema.

Eu sou o dilema.


"O que você tem, Lílian Evans?", olhei para o lado com metade de uma torrada na boca.

"Marlene!", falei com a boca cheia. Que gafe.

"Parece que você não jantou ontem a noite". – falou sentando ao meu lado, olhando discretamente ao meu prato cheio de torradas. – "Alias, onde você estava na hora do jantar? E por que você acordou tão cedo?" – eu não respondi, estava mastigando. – "O que você tem, Lily?".

"Ansiedade" – contei. – "Você ainda tem aqueles doces que comprou na Dedos de Mel?"

"Tenho. Você ainda não me respondeu onde estava ontem a noite".

"Você não se importaria em dá-los a mim, não é?", perguntei ignorando sua pergunta.

"Depende. Conte-me o motivo do seu entusiasmo e eu penso numa condição", revirei os olhos. Chantagista de uma figa.

"Cadê a Alice?", perguntei levando outra torrada a boca.

"Agarramento matinal".

Frank está monopolizando minha amiga.

"Droga. Eu preciso de vocês agora".

"Eu estou aqui, Lily" – falou risonha. – "O que aconteceu?".

"Ainda não aconteceu. Pelo menos não concretamente" – disse. – "Mas dentro de mim, Lene, o estrago já está feito".

"Eu sempre soube que você é meio louca, mas agora você me preocupou. Esclareça mais", pediu.

"Estou pensando..." – falei pausadamente e Lene me incentivou com a cabeça para que continuasse. – "Você sabe que hoje tem Clube do Slug?".

"Ah, claro, Alice me contou que vai. Com quem você irá?".

"O que você vai fazer hoje?", perguntei educadamente.

"Deveres atrasados" – respondeu dando de ombros. – "Não se preocupe".

"Bom..." – disse rapidamente. – "Talvez eu deva chamar o James para ir comigo".

Isso soa totalmente estranho dito em voz alta. Parece contraditório a todas minhas verdadeiras intenções.

"Isso é ótimo!", exclamou com um olhar orgulhoso para mim.

"Não, Lene, não é bem assim. É mais complicado do que você imagina".

"Lá vem você complicando as coisas...", falou revirando os olhos.

"É o Potter!"

"Você já não tinha superado isso?".

Parece que superei?

"Acho que não." – suspirei longamente. – "Eu estou tão confusa".

"Então deixe para chamá-lo em uma visita a Hogsmeade. Não precisa ser necessariamente a próxima, terão outras", palpitou.

Através dessa frase percebi que ela não sabia. Será que as pessoas não sentiram falta do James e o Sirius nas aulas ontem? Eles não são pessoas recatadas em uma sala de aula. Eles são os Marotos. Os mandas-chuva dos Marotos.

Não são pessoas que passam em branco.

"Oh, você não sabe o que aconteceu", disse mais para mim do que para ela.

"Ham?". Estava confirmado, ela não tinha idéia do que estava acontecendo.

"Com o pai do James", contei.

Antes de Marlene perguntar qualquer coisa, alguém se sentou a nossa frente.

"A noticia está se espalhando", ouvi uma voz grossa dizer.

Era o Remus, separando serenamente as torradas que comeria e se servindo de suco de abóbora.

"Eu quero fazer alguma coisa por ele, Remus", confessei.

"Todos nós queremos".

"Eu entendo que ele está triste, eu também estaria no lugar dele. Eu tentei conversar com ele ontem, mas ele não quis nem sair do dormitório!" – contei rapidamente, quase impaciente. – "Não é uma coisa que eu esperava de James Potter. Você o conhece, Remus. Sabe o quão forte e durão ele é. Alias, sabe mais do que eu. O pai dele está bem agora, não está? E só irá melhorar, não é?".

"O pai dele sim. A Sra. Potter mandou noticias agora pouco, ele está mais calmo, porém ainda chocado".

"Como assim 'o pai dele sim'?", perguntei espantada. O que ele quis dizer com isso?

"Alguém me explica o que diabo está acontecendo?", Lene exigiu.

"Acho que Sirius e Peter não te contaram a história inteira, Lily. O que aconteceu não foi tão fácil assim", Remus me respondeu ignorando totalmente a Lene que cruzou os braços descontente.

"Como assim história inteira? Tem mais?".

"Você imaginou que o Sr. Potter estava sozinho na patrulha para o ministério?".

Para falar a verdade, eu não pensei sobre nada além de como James estava e, Merlin, eu sou tão egoísta.

"Como assim?", pedi.

"Ele estava com Bobby Macdonald, também auror" – eu continuei calada e acho que Marlene começou a entender o que estava acontecendo. – "Pai de Mary Macdonald do sexto ano" – tanto eu quanto Marlene tivemos a mesma reação, ficamos estáticas. – "Vocês se lembram o que Mulciber tentou fazer com Mary alguns anos atrás?" – assentimos. – "Temo que isso tenha alguma ligação. Bobby Macdonald era filho de trouxas" – como eu, pensei – "Ele casou com uma trouxa, tudo que se leva a crer que os Macdonald's não são, como posso dizer... queridos pelos Comensais".

"O que... O que aconteceu com ele?", vacilei.

"Os Comensais o mataram", respondeu-me friamente.

"Merlin!", exclamei.

"Merda!" – disse Lene dando um soco na mesa. – "Não sei qual é a desses Comensais da Morte, mas eu vou matar um por um!".

"Pois é. Pode começar com o que está sentado na mesa da Sonserina nesse momento", Remus disse.

Eu olhei e avistei, longe dos primeiranistas, Severus. Uma corrente de tristeza atravessou o meu corpo. Não era novidade para mim nem para ninguém. Ele sempre teve aqueles amigos de pouco agrado. Era ruim enfrentar a verdade.

"Snape?", Lene perguntou.

"É o que dizem", assentiu.

Encarei minhas torradas e senti náuseas. Minha fome foi embora. Decepção. Não existe palavra melhor que represente Sev para mim além da mesma. Ele tornou-se uma decepção. Só Merlin para entender o pesar de desgosto que eu sinto ao pensar sobre Sev.

"Eu vou para a sala. Encontro vocês daqui a pouco. Com licença", pedi me retirando da mesa.

"Lily, espera, vou com você!" – ouvi Lene clamar. – "Até, Remus".

Andamos até a sala de Transfiguração caladas. Encontramos Alice e Frank pelo caminho e apenas nos cumprimentamos. Bom, eu só cumprimentei, Lene ficou nos passos atrás conversando enquanto eu seguia meu trajeto.

Não tinha como piorar.

E então, em um relapso mental, despertei. Por que Dumbledore não me convocou em sua sala? Por que ele não queria me informar sobre o que estava acontecendo? Por que eu tive que ouvir da boca de Sirius, Peter e Remus? Eu queria ter ouvido com James. Eu queria ter estado ao lado de James. Eu tinha esse direito; não por ser sua amiga, eu era a Monitora-Chefe. Não, isso não é um abuso de poder. Dumbledore sempre nos comunicava dos ataques. Por que não agora? Por que eu não pude saber através dele?

Merlin, por que isso tudo estava acontecendo?

Definitivamente, pode piorar.

Entrei na sala de Transfiguração com o trio ainda atrás de mim. Alguns alunos já residenciavam o local e eu não pude deixar de reparar em uma cabeça com cabelos espetados deitada sobre uma mesa ao fundo da sala.

James.

Seus amigos não estavam por perto. Encarei-o sem rodeios, enquanto sua presença continuava inerte ali. Pensei em sentar ao seu lado, porém Marlene me puxou para lhe fazer companhia. Sentei-me, ainda olhando para o fundo, retirando meus pergaminhos da bolsa para as novas anotações do dia.

"Lily, você está bem?", Lene perguntou-me.

Não, eu não estou bem.

"Estou sim", menti.

"Eu conheço você, sei como se sente sobre os ataques".

"Eu não entendo" – confessei. – "Por que Dumbledore não me informou? Ele sempre me chama em seu gabinete quando acontecem–".

"Talvez ele esteja esperando você ir até ele", me interrompeu.

"Eu ir até ele? Eu ir até ele?" – guinchei, demonstrando toda minha irritação. – "Francamente, Lene, não posso exigir explicações do diretor!".

"Por que não?" – urrou descontente com a minha reação. – "Que postura você imagina que James tomou ao saber isso? Se Dumbledore o chamou para conversar ou não, tenho certeza que ele arrancou tudo que se sentiu no direito de saber. Ele não seria o James se não o fizesse".

"Claro, ele é o Potter", evidenciei.

"Ele não é o Potter, Lílian. Ele mudou. E, se você quer minha opinião, ele não é o único que tem que mudar", rosnou aborrecida.

"O que você quer dizer com isso, Marlene?".

"Depois" – sussurrou. – "Aula".

Olhei para a porta e avistei McGonagall exigindo atenção para introduzir a aula.


Rainha do drama.

Eu admito, adoro arranjar contrapontos em tudo que eu pretendo fazer. Só que existe um todavia: eu não posso continuar fazendo isso quando existem coisas mais importantes acontecendo no mundo.

A vida não gira ao redor dos meus problemas. Eu em tanto anos gastados dizendo sobre o Potter e sua vida em torno do ego enorme e observe o que diabo estou fazendo. Exatamente a mesma coisa. Minha preocupação nessa vida dentro de Hogwarts, ignorando claramente o resto do mundo. O meu dilema, o James e o Potter, a minha decepção com Sev, o meu egoísmo, a minha hipocrisia... Isso não é nada comparado ao mundo. Pessoas estão morrendo enquanto eu tenho uma guerra civil dentro de mim. Sou patética.

Nada que passa pela minha cabeça convém a ajudar. Eu só estou complicando. Se eu quero fazer alguma coisa decente, deveria ter sentado ao lado do James na aula de Transfiguração e arrancado alguma felicidade daquele garoto. Não que se eu sentasse ao lado dele mudaria o resto do mundo, mas eu estaria contribuindo para uma felicidade alheia. E o que eu fiz? Fiquei pensando no que Marlene me falou. Eu precisei pensar para entender o que ela quis dizer e, sinceramente, não era necessário. Estava tão claro que até a Lula Gigante soube antes de mim. Eu preciso mudar também. Não sei como eu pude ser tão cega ao ponto de não enxergar o óbvio.

O que me consola é que estou evoluindo.

Portanto, sim, convidarei o James, se isso o fizer melhor, não hesitarei. Eu o convidarei independente do que vão falar. Agirei contra todas negações dos convites que ele já me fez. Ele será o meu par se não, não me chamo Lílian Evans.

Isso revira o meu estômago.

Será que o Profº Slughorn tem algum estoque de Felix Felicis?