Desespero
O urso correu pela floresta, não aparentava ter um objetivo, mas aos poucos a consciência humana conseguia guiar os passos da besta até o círculo de pedras – o lugar mais seguro para ele no momento. A cada passo dado em direção ao círculo de pedras a garota podia se sentir mais em controle do corpo descomunal do animal.
Seus passos vacilaram, não conseguia acreditar que atacara Soluço, que dera lugar para o monstro e que agora nada mais poderia impedir a guerra. Não acreditava que beijara o viking, que o que sentia era correspondido. Como poderia encontrá-lo novamente? Não conseguia pensar em como conseguiria se forçar a encarar o (pretendente gay), quanto mais encarar Soluço, agora que ele vira o monstro dentro de si.
Recostou-se contra uma das pedras – a pedra que matara Mor'du – e cobrira sua cabeça, rugindo de dor e tristeza. Não havia mais nada a fazer, não havia futuro. Desejava nada além de que seu desespero chegasse ao fim. E mais uma vez se perguntou porque não acabava com tudo, porque continuava tentando.
Ouviu os cascos de cavalos ao longe e não conseguiu impedir que a besta rugisse, irritada, apenas esforçou-se para mantê-la quieta, esperando que seu coração se acalmasse o suficiente para voltar ao normal. Encarou com seus olhos azuis a entrada de Angus e o (pretendente gay) na clareira, seguidos pelos outros cavaleiros que se assustaram com a presença do urso ali.
O (pretendente gay) se aproximou do urso, trazia um tipo de lençol que jogou sobre os ombros do animal. Novamente as patas do animal cobriram sua cabeça e soluços irromperam pela sua garganta. Vagarosamente sua transformação se revertia e sentia as lágrimas deixando seus olhos. Tudo o que não queria era ter que explicar o que acontecera, encarar os olhos do (pretendente gay) e perceber que não havia uma saída para seu futuro.
- O que houve com a Merida?
Sem tirar os olhos da garota-urso, o (pretendente gay) respondeu com a voz clara.
- Ela encontrou alguns vikings e foi atacada, o urso tomou conta de seu corpo.
- E por que você não foi ajudá-la?!
- Quando eu a encontrei ela já estava se transformando, não havia nada que eu pudesse fazer, apenas tirei Angus de perto dela e procurei algo para ajudá-la quando voltasse.
Sem conseguir acreditar no que ouvia, permitiu que ele a ajudasse a se levantar. Segurando fortemente o lençol em volta de seu corpo, permitiu-se um momento de fraqueza e foi abraçada pelo (pretendente gay).
- Grizel, avise aos líderes o que aconteceu e que os vikings se aproximam pelo norte*. Vou ficar aqui com Merida até ela se acalmar mais um pouco, os outros podem ir.
Os outros pretendentes não queriam deixá-los, mas logo continuaram seu caminho até o castelo, pretendendo deixar o caminho livre para que Merida voltasse ao castelo sem nenhum empecilho. Tudo o que ela não precisava agora era que as pessoas perguntassem o que acontecera.
- Eu... – A voz de Merida estava fraca, não conseguia encarar os olhos do (pretendente gay).
- Não se preocupe, Merida. Eu não direi nada sobre os seus encontros com aquele viking.
O susto foi grande, o encarou sem acreditar no que ele dissera. Como ele poderia saber dos seus encontros com Soluço? Será que ele a seguiu? Será que ele sabe..?
- Como..?
O rapaz deu um meio sorriso e segurou a mão livre de Merida com carinho.
- Digamos que não foi a primeira a chegar na clareira em um dos dias de nosso serviço e que eu fui procurá-la. Vi como vocês gostam da presença um do outro e não achei que seria necessário incomodá-la.
- Mas... Macintosh...
Eles finalmente se encaravam, Merida notou que faltava algo no olhar dele.
- Merida, há três anos você lutou contra todos os antigos costumes de nosso país para se casar por amor. Isso significa que nós, seus pretendentes, também temos o direito de escolher quem amamos como esposa.
A ruiva tinha certeza que estava boquiaberta. Isso só podia significar que o seu (pretendente gay) na verdade não era o seu (pretendente gay).
- Macintosh! Você não sabe o quanto isso me alegra!
O rapaz sorriu tranquilo e permaneceram alguns instantes apenas felizes de estarem na companhia um do outro, até que um pensamento cruzou a mente de Merida.
- Seu pai... ele não sabe, não é mesmo?
O jovem Macintosh deu de ombros, soltando a mão de Merida e se aproximando de seu grande cavalo marrom.
- Ele nem sonha.
O sorriso indecente que o rapaz lançou sobre si a fez entender exatamente o que ele queria dizer. Suspirou e se aproximou de Angus.
- Ok, eu não falarei nada sobre a sua namorada.
- E eu não falarei nada sobre o seu viking.
Montaram e começaram o seu caminho até o castelo DunBroch. Após vários metros de silêncio o rapaz finalmente disse algo.
- Mas realmente acho que devíamos contar sobre aqueles lagartos gigantes...
- São dragões... – Tinha certeza que Macintosh estava com o mesmo olhar incrédulo que ela mostrara quando conheceu Banguela.
E foi nesse momento que a ruiva se xingou mentalmente. Tinha tanto que deveria contar para os líderes, mas parecia que mais ainda deveria ser mantido em segredo. Por quê, deuses, por que eram tão cruéis?
Os líderes dos clãs já os esperavam no castelo. Elinor apenas conseguiu que deixassem Merida em paz por tempo o suficiente para que ela colocasse uma roupa decente.
- Você está bem, filha?
- Estou, mãe.
Não queria ver seu pai, ou outro líder. Não queria encarar os olhos preocupados de sua mãe. Não queria fazer nada além de deitar-se em sua cama e chorar até seu coração se satisfazer e dormir – de preferência para sempre. Apenas soltou um suspiro e dirigiu-se à sala do trono.
- Merida, que história é essa de ser atacada por vikings?
Nunca se decepcionava com seu pai, direto e sem o menor toque.
- Estava me aproximando da cascata de fogo, quando um casal de vikings me interceptaram. – Tinha que tomar cuidado, não podia dar mais informação que os deixaria desconfiados e nem menos informação do que o necessário para se protegerem. Sentia-se caminhando no fio de uma navalha.
- E eles simplesmente a atacaram? – a voz de Dingwall a retirou de seus pensamentos.
- Primeiro perguntaram quem eu era... – seus pensamentos estavam à mil, precisava convencê-los do perigo sem expôr seu envolvimento.
- E você simplesmente respondeu? – a incredulidade estava presente na voz de MacGuffin.
- Obviamente que ela não respondeu, minha filha não seria tão inocente assim!
Estava prestes a desistir de contar o que acontecera visto que os líderes pareciam apenas ansiosos em começar uma luta – contra quem quer que fosse. Sua mãe chamou a atenção dos líderes com um olhar de indiferença.
- Se vocês parassem de interromper Merida, ela com certeza já teria nos contado tudo o que aconteceu.
O silêncio que se seguiu foi quase palpável. A ruiva apenas deu um meio sorriso para a mãe, respirou fundo e continuou sua história.
- Quando eu me recusei a responder, a viking se adiantou dizendo que eu só podia ser da família real, mas o viking disse que seria arriscado caso não fosse. – não podia dizer que Soluço a protegeu, muito menos que conhecia o viking, e nem sonhava em dizer que estava apaixonada por ele. – Foi nesse momento que eles começaram a discutir e vieram para cima de mim.
Continuou a história antes que alguém a interrompesse, ou perdesse a coragem de continuar falando.
- Antes que eu pudesse pensar em algo, ela havia me tirado de cima do cavalo e me puxava para a besta que cavalgava. O urso, então, tomou poder de meu corpo, me transformei, lutei e fugi. Foi nesse momento que o jovem Macintosh me seguiu e me trouxe em segurança até o castelo.
Olhou para o jovem ao seu lado que tomou a palavra, livrando-a de mais constrangimento.
- Permaneci na floresta, mas ao escutar o urro do urso vindo da direção que Merida havia ido imaginei o que podia ter acontecido. Ao chegar nos limites da floresta a vi correr em direção ao círculo de pedras, entrei na clareira para pegar Angus, já que não tinha sinais de nenhum inimigo. Eles já se dirigiam para o norte.
Os líderes ficaram em silêncio por alguns instantes, apenas encarando os dois jovens à sua frente. Até que Fergus coçou sua barba.
- Como pode ter tanta certeza que eles seguiram para o norte se não tinha sinal deles quando saiu da floresta?
- Realmente isso não faz sentido, filho. O que vocês não estão nos dizendo.
Os jovens se encararam e suspiraram.
- É que ainda não acreditamos no que vimos...
- Eles estavam voando.
O silêncio que se seguiu foi mortal. Durou pouco, já que Dingwall e MacGuffin começaram a rir, sendo seguidos por todos na sala.
- Voando? Vikings voando!
- Não estamos mentindo, pai! Eu os vi voando.
- Vamos, vamos, jovem Macintosh. Não pode esperar que acreditemos que os vikings, de alguma forma, consigam voar.
- Mas é simplesmente aceitável a princesa da Escócia se transformar em um urso. – A voz de Merida estava carregada do mais puro gelo. – Eu acho que há três anos eu provei que magia existe, mesmo todos nessa sala não acreditando nela. Será que é tão difícil assim acreditar que existem dragões em algum outro lugar no mundo?
Todos na sala mantiveram o olhar baixo, envergonhados, sem conseguir manter o olhar de Merida.
- Achei que vocês deveriam saber o que vimos para, quem sabe assim, termos alguma chance de vencer essa luta. Se vão apenas rir do que vimos, vou-me embora.
Com isso a garota se dirigiu ao seu quarto onde, finalmente – após trancar a porta -, permitiu-se chorar todo o desespero que sentia. Já não queria saber o que seria desta batalha, apenas queria que tudo acabasse e pudesse voltar à maldita escolha de seu futuro marido.
Tudo era mais simples quando tinha que se preocupar apenas com isso.
-x-
* Estou considerando que o castelo de Mor'du fica ao norte da Escócia.
N/A: E mais um capítulo acabado. Espero que vocês tenham gostado dele! ^^~
Agora as coisas já estão se encaminhando para a guerra, é... ela ainda acontecerá. Sowwy.
Beijos da Tia Tifa!
