N/a: Esse capitulo e o próximo são bem curtinhos e razoavelmente inúteis, portanto vou postar os dois de uma vez. E obrigado a todos que mandaram reviews, e aos que leram mas não mandaram por algum motivo. Estou surpresa em como as pessoas podem gostar tanto de algo tão... hetero.
Razão e Desrazão - by Blodeu-sama
Cap. III
Ron me esperava quando aparatei na sala de estar, ainda levemente trêmula e com os olhos avermelhados. Sua expressão era estranha, mas ele se adiantou e me deu um leve beijo, perguntando se estava tudo bem. Voltei a tremer com a perspectiva de que ele pudesse ler em meu rosto meu mais recente pecado, porém meu sorriso cansado o convenceu.
- Cama estranha, não dormir bem... tudo correu bem por aqui?
-... aham... – embora ele tentasse aparentar indiferença, eu conhecia meu ruivinho bem de mais para saber que ele estava louco por detalhes.
- Consegui o emprego, começo em uma semana.
- Ah, isso é bom – seu tom de voz desmentia as palavras.
- Escuta, amor... eu sei que está sendo difícil pra você, pra nós dois... mas tem muitas coisas positivas em eu ir pra Hogwarts... – murmurei acariciando seus cabelos com as pontas dos dedos.
Ele se jogou no sofá, olhando pela janela.
- Aham, você vai ganhar bem, vai fazer o que gosta e vai estar longe de mim.
- Eu não quero ficar longe de você! Você que não olha para mim, não me toca, não me beija!
- Você se isolou como um casulo nos seus livros, o que eu podia fazer?! – Seu olhar ainda se mantinha longe do meu, e cheguei ao limite que podia suportar daquilo.
- Você não é o único que sofreu com a perda do bebê Ronald! Foi difícil pra mim também, sabia! Você nem sequer uma vez perguntou como eu me sentia, perguntou?! Não, estava ocupado de mais me acusando de ter sido a culpada por você não ter o seu bendito filhinho!
Eu havia passado do ponto. Existia entre nós, desde aquele dia, uma linha que separava o que podíamos dizer do que não podíamos, um acordo silencioso. Naquela frase, eu havia passado completamente a linha, dito coisas que eu sabia, não deveriam ter sido ditas. Nunca vi tanta mágoa nos olhos de Ron.
Ele se levantou, olhando diretamente para mim, avançou por toda a sala e agarrou as laterais dos meus braços, ameaçador, ainda me encarando com aquele olhar assustador de lobo machucado para mim. Não tive medo, apenas um certo alívio desgostoso por encontrar os olhos dele novamente. Engoli o bolo salgado de lágrimas parado na minha garganta.
- ... eu só queria ter uma família feliz – ele murmurou, então me soltou e subiu as escadas correndo, e ouvi a porta do nosso quarto bater, e em seguida coisas serem arremessadas contra a parede e quebradas.
Chorando, corri para a casa de Harry, com uma certeza dolorosa que havia estragado tudo.
"... e eu espero que possa me perdoar um dia, porque eu ainda amo você. Com todo o amor do mundo, da sua Mione." Terminei de assinar meu nome e enrolei o pergaminho. Ginny entrou no quarto nesse momento com uma bandeja com chá nas mãos.
- Pronta pra ir? – Ela perguntou, apoiando a bandeja na barriga proeminente e redonda, sorrindo aquele sorriso condescendente que eu me acostumara a ver em seu rosto nos últimos seis meses.
- Quase, só preciso enviar... uma coisa. – Amarrei o pergaminho à pata de Atena e murmurei somente para ela – leve a Ron, depois vá para Hogwarts...
Uma semana chorando pelos cantos na casa de Harry e Ginny, uma semana sentindo-me o ser mais desprezível do mundo, e uma semana sem ter notícias de Ron. Eu sabia que Harry o vira muitas vezes nesta semana, mas ele nunca mencionara nada para mim, por mais que eu insistisse. Mas apesar de estar vivendo em um verdadeiro inferno, eu iria para Hogwarts. Se a distância não salvasse meu casamento, ao menos manteria minha cabeça bem ocupada.
Sorri um sorrisinho tímido para Ginny e abri espaço na cama para que ela se sentasse comigo.
- Nem sei como agradecer a você e ao Harry por me deixarem ficar aqui e me agüentarem...
- Mione, você sabe que a nossa casa vai ser sua sempre, não sabe? E cá entre nós, o cabeça dura do meu irmão precisa perceber que está cometendo um grande erro.
-... ele não está errado Ginny, eu estou...
Bebi um gole da xícara de chá, olhando pela janela a noite alta e negra da véspera do meu primeiro dia de trabalho. O negro na noite era profundo e o chá era de camomila. Larguei a xícara discretamente de volta na bandeja, evitando a todo custo pensar nele. Eu não permitiria que ele povoasse mais do que os meus pesadelos.
- Não pense nisso, Mione. Com o tempo tudo se acalma.
- Sim, sim... você quer que eu leve alguma carta sua ou algo para Neville ou alguém de Hogwarts?
- Bem, a festa de aniversário de dois anos de James está aí, convide todos para virem, se puderem. E por falar nisso, esse garoto está muito quieto... Harry fala que ele puxou ao avó, ao James original, mas pra mim ele é uma junção de cabelos pretos de Fred e George!
Rimos brevemente e ela me deixou sozinha com meus pensamentos e meu chá. Acabei por me encolher em baixo das cobertas e tomá-lo todo, uma sensação boa de não estar tão sozinha me preenchendo. O gosto era doce o suficiente para ficar em meus lábios e o calor do líquido espalhava-se fácil pelo meu corpo um tanto debilitado. Descobri naquele chá uma magia trouxa que os bruxos – ou talvez a maioria deles – desconheciam por completo. Camomila diminuía a solidão.
Acenei para Harry e Ginny pouco antes do Expresso de Hogwarts fazer a curva, acompanhada por vários alunos que faziam o mesmo para seus pais. E então me virei para o corredor, flutuando minhas malas atrás de mim com a varinha, procurando uma cabine vazia.
Eu poderia ter aparatado em Hogsmeade se quisesse. Seria mais prático, eu teria tempo de desfazer as malas, me recompor e tudo o mais.
Mas que diabos, eu também tinha o direito de me sentir nostálgica às vezes! E era pura nostalgia o que eu sentia ao me esquivar dos alunos menores que corriam pelo corredor, olhando dentro das cabines e até mesmo reconhecendo alguns rostos que haviam estudado comigo, quatro séries mais novos, e agora estavam começando a parecer pequenos adultos. Alguns olhavam para mim, davam sorrisinhos e cochichavam, outros apenas perguntavam-se quem eu era afinal e o que fazia ali. Por fim achei uma cabine vazia, no último vagão, e sorri discretamente ao colocar minhas malas nos devidos lugares. Aquela cabine fora ocupada por mim, Harry e Ron, várias vezes durante os anos que usamos aquele trem.
O sorriso morreu ao me lembrar de Ron parado ali, sentado de seu jeito todo torto, com a boca cheia de bolo de caldeirão. Éramos tão jovens!
Joguei meu corpo no assento mais afastado da porta da cabine, fechei os olhos e aos poucos meus pensamentos se transformaram em sonhos. Acordei com vozes infantis baixas do meu lado e não tive coragem de abrir os olhos.
-... é óbvio que é uma professora! – Dizia uma voz feminina fininha. – A McGonagal disse que queria se aposentar.
- As iniciais na mala são H.J.G.W... ela parece muito nova pra ser professora. – Desta vez a voz era masculina, mas igualmente fina.
-... eu conheço essas iniciais de algum lugar... – a garota retrucou, e pude sentir seu olhar sobre mim.
Não resisti, e falei ainda com os olhos fechados.
- Hermione Jane Granger Weasley – abri meus olhos e me vi sorrindo para uma menina pálida com duas tranças negras escorrendo pelos ombros até a cintura –, sua nova professora de Transfiguração.
Ela corou levemente e ficou bastante sem graça, ao passo que o garoto, louro de olhos escuros, riu baixinho. Ela lembrava-me alguém, eu não conseguia assimilar quem. Mas eu sabia que era alguém importante... e não costumava esquecer rostos. Deviam ter doze ou treze anos e vestiam-se com uniformes da Corvinal. Logo depois então a garota arregalou os olhos para mim.
- Você é a Hermione Granger que lutou ao lado de Harry Potter?! Na última batalha em Hogwarts?!
Confesso que fiquei surpresa. Então era assim que eu seria conhecida pelas crianças do mundo bruxo... como a fiel escudeira de Harry Potter. Estranho... bem, nem tanto.
- Sim, sou eu. Mas a partir de hoje eu serei somente sua professora.
- Ta brincando!! – O garoto sorriu. – Vamos ter aula com a amiga de Harry Potter!! É verdade que ele é um animago?
Eu ri.
- Não, Harry não é um animago, o pai dele era um animago.
- Sério?! – O garoto, que eu ainda não sabia o nome, parecia bastante entusiasmado em me interrogar sobre Harry, deixei que continuasse. – É verdade que, quando vocês estavam na mesma série que nós, enfrentaram uma aranha gigante?
- Como foi que...?? Bem, eu não, eu estava na enfermaria petrificada pelo olhar do Basilisco, mas Harry e Ronald entraram na floresta proibida e falaram com uma aranha gigante chamada Aragogue, e tiveram que fugir dos milhares de filhos dela em um velho carro trouxa chamado Ford Anglia.
O loirinho estava exultante com as novas informações. A garota das tranças, porém, me olhou.
- 'Ronald' é 'Rony Weasley', certo? Você agora se chama Weasley.
- Eu e Rony nos casamos depois de terminada a escola. – Disse, num tom mais sério, e perdi a vontade de contar façanhas. – E quem são vocês?
- Eu sou Alasdair Black. Da família Black. – Ele disse.
-... é mesmo? De que lado da família Black você é? – Imagens de Sirius afloraram em minha mente.
- Sou primo sobrinho de Narcissa Malfoy. Sabe, da família Malfoy.
O garoto parecia gostar de falar sobre famílias.
- Sim, eu sei quem são os Malfoy. Mais especificamente Draco Malfoy. Também conheci um Black há muitos anos atrás, era padrinho de Harry Potter. Chamava-se Sirius e por acaso também era um animago.
- Uau, meu tio Sirius era um animago!! Eu não sabia disso porque ninguém na família fala sobre ele...
- E você? – Me virei para a garota, que se mantinha calada desde então, absorvendo as informações que eu deixava escapar.
- Eu sou Frances Prince, professora.
Então entendi porque a garota parecia-me tão familiar.
Tinha os olhos de poços sem fim de Severus Snape.
oOo
Notinhas: Gente! Como ela ta EMO!
...
Nada contra Emos.
