Harry

-Eu gostaria de saber como o mestre vai domesticá-la. Ela mais parece um pequeno felino arisco. Aquelas garrinhas seriam capazes de tirar sangue de qualquer um de nós.

-Eu gostaria que ela tirasse meu sangue. –Uma voz, pensativa. - Seria muito prazeroso ter aquele corpinho debaixo de mim, arranhando minha pele. Eu poderia gozar com essa imagem.

Risadas.

-Eu não tiraria as meias enquanto a fodesse. Já viram o quão sexy ela fica com aquelas meinhas de colegial? Ah. –Um gemido divertido.

Saí de trás da porta entreaberta.

-Isso. –Aplaudi relaxadamente, em tom banal. -Continuem falando sobre a futura noiva do mestre. Ficarei feliz em gravar outra conversinha sórdida de vocês e mostrar a ele.

Silêncio mórbido.

Eu sorri diabolicamente.

-Vão procurar algo para fazer imediatamente, seus inúteis. –Ordenei com voz imperiosa. Os dez homens se levantaram imediatamente da mesa da cozinha. –E se eu pegar outra conversa desse tipo em horário de trabalho, vocês estão ferrados comigo.

-Senhor Potter, nós não tivemos a intenção de ofender...

-Cale-se, Noudini. –Girei os olhos, tediosamente. -Suas desculpas conseguem ser mais patéticas que você.

Assim que fiquei sozinho, suspirei.

A chegada daquela garota havia causado absoluto frisson por ali, e aquilo não me agradava em nada. De repente todos os comensais – aqueles mesmos que torturavam bebês e crianças trouxas, que matavam pessoas de forma tão corriqueira quanto davam uma trepada, que obedeciam as ordens mais cruéis do Lorde – estavam encantados por uma criaturinha petulante de longos cabelos cor de chocolate e olhos âmbar.

A situação estava patética.

Ela havia roubado todas as atenções para si.

Resmunguei comigo mesmo e saí da cozinho, indo na direção do meu escritório.

Meu braço doeu. Uma chamada do Mestre.

Imediatamente mudei de curso e fui até as masmorras.

Obviamente o Lorde não estava ali, mas sua cabeça estava entre as labaredas verdes da fogueira para que pudéssemos nos comunicar.

-Mestre. –Fiz uma mesura respeitosa e me ajoelhei de cabeça baixa em frente à fogueira verde, mantendo os olhos fixos em meus joelhos.

-Harry. –A voz macia e suave do Lorde me saudou quase como um avô fala com o neto.

-Em que posso servi-lo? –Ergui a cabeça para olhá-lo, sem sair da minha posição.

-Como andam as coisas com a garota?

Hesitei. Não sabia se dizer a verdade era uma boa opção.

-Hm... bem, Mestre. Exceto que a menina anda fazendo birras para comer. Mas não se preocupe. –Me apressei a tranqüilizá-lo. –Eu estou cuidando disso, e não se tornará um problema.

-Bom. –Ele disse suavemente. –Quero que a prepare para hoje a noite, Harry. Eu pretendo aparecer de madrugada para um encontro formal. Quero vê-la.

Assenti, perguntando-me como a garota iria lidar com aquela notícia. Mas foda-se.

-Sim, Mestre.

-Eu entrarei em contato. –O Lorde me deu a sombra de um sorriso cansado, e desapareceu nas labaredas.

Quarenta minutos depois, Nott foi chamar-me em minha sala.

-Senhor Potter. –Ele acenou respeitosamente da porta.

Ergui uma sobrancelha, esperando que ele falasse.

-Receio que temos um problema. A garota não quer comer e está em histeria no quarto.

Bufei, irritado. Será que eu agora tinha que ficar vinte e quatro horas por dia de babá?

-Não devo ser muito difícil conter uma criatura daquele tamanho, Nott. –Falei friamente, voltando a atenção aos meus papéis. –Você pode lidar com isso. Segure-a pelo maxilar e enfie a comida adentro.

Nott remexeu-se, inquieto à minha frente.

-Senhor, nós realmente já fizemos de tudo.

Larguei os papéis, impaciente.

-Diabos. –Me levantei e passei por Nott. Ele me seguiu.

Como não era permitido aparatar na Torre, tive que subir todos os degraus até o último andar. De longe, pude ouvir a gritaria. A porta do quarto dela estava aberta, ao final do corredor, e pude ver que Death tentava remediar a situação – sem nenhum sucesso.

-Eu não o quero ! –A vozinha delicada replicava com fúria.

-O que demônios está acontecendo aqui? –Rugi, entrando no quarto.

A garota parou de gritar por um segundo e me olhou. Pude ver seus olhos lampejarem – medo? – por um segundo, antes dela vir até mim com o dedo pequeno em riste.

Quase ri com o choque. Como aquela coisa pequena ousava erguer o dedo para mim?

-Pode me dizer por que não consigo sair do quarto? –Ela parecia fora de si.

Ergui a sobrancelha e cruzei os braços.

-Você não esperava que ainda pudesse sair, depois da cena que aprontou no dia que chegou aqui, não é? Agora a porta do quarto está enfeitiçada, para que só os comensais possam entrar e sair.

Eu pensei que uma daquelas veias pequeninas de seu pescoço fossem estourar quando ela colocou a mão sobre os olhos, furiosa.

-Eu não posso ficar trancada aqui para sempre. –Disse com a voz mais baixa.

Sorri, divertido e malicioso.

-Isso quem vai decidir é o Lorde. Agora, eu soube que você anda dando problemas para meus homens em relação à comida. Pretende fazer greve de fome para chamar atenção? Não vai conseguir, neném.

Seus olhos âmbar me encararam com raiva.

-Eu não vou comer. Prefiro morrer de fome a ficar mais um dia aqui, sendo tratada como uma prostituta de luxo por vocês e pelo seu Lorde.

A palavra Lorde saiu com desdém ácido. Aquela garota estava testando minha paciência.

-Saiam. –Eu ordenei suavemente para Death e Nott.

-Senhor... –Nott tentou me acalmar.

-Saiam. –Repeti.

Os dois homens saíram e fecharam a porta ao fazê-lo. Agora eu via um pouco de temor naqueles olhos atrevidos que me encaravam.

-O que vai fazer? –Ela ergueu o queixo delicado que possuía um pequeno e discreto furinho.

-Você vai aprender, muito rápido eu diria, que eu não sou um molenga como o resto deles. –Falei ácidamente, me aproximando. –E tampouco vou me manter quieto diante das suas provocações mimadas. Não vou machucá-la por ordens restritas do Lorde, mas tampouco vou ser a babá que ficará lhe dando a mamadeira sempre que chorar. Você vai ter que aprender a se comportar aqui, seja por bem ou por mal, querida.

Ela franziu o cenho. Sua pele translúcida era tão jovem que mal possuía rugas.

-Não tenho medo do senhor.

Tive vontade de gargalhar maliciosamente daquele comentário. Absurdamente, gostei de ouvir a palavra senhor ser dirigida a mim por aqueles lábios puros e rosados.

-Pois vou lhe dar uma amostra de medo, para que de agora em diante pense bem antes de falar.

Ela se afastou de mim rapidamente, o pequeno nariz empinado. Com dois passos, eu a agarrei com força pelo braço e a joguei sentada na cama.

A maldita saia de colegial que ela usava – apesar de já ter se banhado, ela insistia em usar as roupas dela, ao invés de usar qualquer roupa do recheado armário que o Lorde lhe providenciara – subiu com o gesto brusco, expondo as coxas jovens e bem feitas.

-Você vai comer por bem ou por mal? –Minha voz saiu macia enquanto eu pegava a bandeja intocada sobre a cômoda e me aproximava.

-O senhor não pode me forçar! –Ela escondeu o rosto no travesseiro.

-Isso é o que nós veremos. Foi você quem pediu, nunca se esqueça disso.

Sentei ao lado dela e a puxei do travesseiro violentamente. Ela começou a se debater, mas sua força era nula como a de um ratinho entre meus braços.

Peguei um pedaço de pão, o cortei com meus dentes e segurei o rosto dela, imobilizando-a. Ela tinha os lábios firmemente cerrados – não precisei apertar muito seu maxilar para que ela gritasse.

Enfiei o pão em sua boca, fazendo-a engasgar.

Peguei um pedaço de melão e coloquei em sua boca. Ela grunhiu, se debatendo com mais força.

-Eu a aconselho a mastigar. Ou vai morrer sufocada e eu vou continuar colocando comida em sua boca. –Avisei.

Quando eu aproximei outro pedaço de pão de seus lábios, vi que ela começou a mastigar rapidamente.

Empurrei comida por comida, até que mais da metade da bandeja ficasse vazia. Foi penoso, mas a fiz comer tudo.

-Eu odeio o senhor! –Ela gritou quando terminou de engolir. –Nunca vou perdoá-lo.

Eu ri alto.

-Certamente um dia vou precisar do seu perdão, querida. –Ironizei. –Agora, seja uma boa garota e coma sozinha daqui em diante, sim? Da próxima vez que eu tiver que fazer isso, -apontei para a bandeja. -não vou ser tão gentil.

Ela me olhou com os olhos apertados flamejando em puro ódio. Me deleitei com aquilo.

-Eu o odeio. –Ela repetiu.

-Você não sabe como isso me agrada, princesa. –Levantei da cama, olhando-a de cima. –O ódio é um sentimento apaixonado.

Me diverti vendo como ela abria a boquinha –que era tão pequena que eu me perguntei como ela não havia sufocado com a quantidade de comida que eu empurrei ali – em pura indignação.

-E mais uma coisa: -Virei por cima do ombro ao chegar na porta. –O Mestre deseja vê-la hoje a noite. Escolha um vestido bem bonito, deve ter centenas deles em seu armário, e eu virei buscá-la mais tarde.

N/A: Gatas, muito agradecida pelos comentários. Quero que me perdoem pela demora, eu realmente não tenho muito tempo para postar semanalmente. Posto sempre que dá.

Mas espero que tenham gostado do capítulo.