Eu chorava como um bebê nos braços de Riza. Nenhuma palavra me servia como consolo. Mesmo saber que na noite do ataque Ed ficou bem, aquilo já se fazia três meses. Muita coisa poderia ter acontecido nesse período.

Eu já não parecia mais a garota de 17 anos que saíra de casa com um sorriso enorme no rosto. Eu já não tinha mais nenhuma característica da figura forte que eu estava tentando ser. Eu nunca fui forte. Eu ainda não era forte, pelo menos não o suficiente para enfrentar a realidade daquele momento. Por isso, eu tinha que ficar o tempo inteiro dependendo dos outros. Parabéns, Winry. Pensei ironicamente. Você conseguiu não mudar nada nesse tempo. Realmente merece um prêmio.

- Riza... – eu chamei baixinho – Você acha que eu sou... Muito fraca?

- Por que me pergunta isso? – ela disse, parecendo meio confusa. Pigarreei para minha voz agüentar meu pequeno discurso:

- Porque é assim que eu acho que todo mundo pensa de mim. Quando Ed e Al partiram, eu chorei. Quando eles voltaram e Ed estava estranho eu chorei. Quando descobri sobre a guerra, eu devo ter apenas servido como motivo de estresse do Ed. Quando ele foi para a guerra, a única coisa que eu fiz foi dizer "Eu não queria que você fosse" e começar a chorar. Céus, eu não tomo nenhuma atitude, eu não tenho coragem de enfrentar as coisas que acontecem, eu apenas... Choro por tudo. Choro, faço drama, dificulto a vida de todos... E aqui estou eu, que numa conversa com você acabei ficando assim. Parece que eu apenas nasci para isso: para os outros se preocuparem, ou sentirem pena.

- Winry – Riza me colocou de frente para ela e pôs as mãos em meu ombro - tem certas coisas que as pessoas são capazes de enfrentar e outras não. Tem pessoas que são mais sensíveis, pessoas que são mais protetoras... Há também quem nem ligue. Isso depende de cada um de nós. Com o tempo verá que existem coisas que você pode ajudar os outros a suportarem. Coisas que as pessoas precisarão de alguém para ser forte, e esse alguém será uma pessoa que saiba lidar com isso. Um dia, essa pessoa pode ser você.

Eu não me imaginaria aconselhando ou ajudando alguém a superar algum problema. Porque geralmente quem precisava disso era eu. Mas talvez Riza estivesse certa sobre isso. Talvez eu não fosse tão fraca como parecia. Talvez um dia alguém precisasse de mim.

Mas é horrível saber que a pessoa que mais precisou de mim sempre me ignorava quando eu tentava ajudar.

Edward e os seus "não é nada", "está tudo bem" ou "não é da sua conta". Essas eram as três únicas respostas que minhas perguntas recebiam. Ele não tinha idéia de como isso me feria? Parecia que ele não confiava nem um pouco em mim, que aquele idiota se achava maduro o suficiente para enfrentar situações difíceis sozinho. Foi assim quando eles resolveram ressuscitar a mãe, era assim quando Edward voltava com o automail quebrado. Foi assim quando ele foi chamado para a guerra também.

- Talvez... – eu disse, mesmo que estivesse completamente dispersa em pensamentos – Talvez as coisas sejam como você disse. – eu sorri para ela. Mesmo que eu considerasse irônico pensar em uma Winry que consola e não sofre, eu sabia quem é que provavelmente precisaria de mim – Obrigada por me ouvir, Riza.

- Tudo bem – ela sorriu de volta. Depois, levantou-se do sofá e estendeu a mão para mim – Já lhe contei tudo o que eu sei... Está na hora de ir. Vamos?

Depois que eu me levantei, nós saímos, caminhando pelo corredor nem muito cheio, nem muito vazio do quartel. Notei que as pessoas me olhavam com curiosidade, mas devia ser porque eu nunca tinha aparecido por ali antes. E também, eu mal reparei nisso. Apenas andava calada ao lado de Riza enquanto meu cérebro recapitulava todas as informações adquiridas naquele dia. Eu me via pensando em Edward frequentemente em meio às lembranças.

Depois de algum tempo caminhando entre os corredores intermináveis, atravessamos uma porta que levava ao exterior do quartel. A iluminação do meio-dia me cegou por um momento, afinal, o quartel era tão grande que não se sabia se era dia ou noite se ficasse muito tempo pelos corredores iluminados artificialmente. Então, Riza parou. Eu parei ao lado dela.

- Tenho compromissos, não poderei ficar junto com você – ela lamentou, se desculpando.

- Não tem problema – eu não me importava com isso, mas me sentiria um pouco sozinha – Eu arranjo algo para fazer, não se preocupe com isso.

- Tudo bem mesmo? – ela perguntou. Eu assenti, sorrindo – Então... Se cuide.

Despedimos-nos e eu a vi entrar novamente dentro do lugar. Quando eu não conseguia mais vê-la, me senti sozinha. Eu estava sozinha o tempo todo. Sheska mal teve tempo de me dar um oi, Riza ficou algum tempo a mais comigo, mas ainda assim, foi apenas para me contar sobre o que ela sabia da guerra. Vovó e Al estavam em casa, provavelmente o mais novo estaria brincando com Den enquanto eu estava ali, parada em frente a um prédio enorme, sem saber para onde ir e completamente só. E a pessoa que eu mais queria ver... Eu não tinha nem ao menos idéia de onde essa pessoa estava.

Ou se estava vivo.

Como assim? Eu era muito volúvel em minhas opiniões. Uma hora eu estava eufórica, esperançosa por causa dele, outra hora eu não acreditava mais em nada, para depois passar a acreditar novamente. Desse jeito, eu não iria a lugar algum. Ele vai voltar, pensei. E ponto final. Comecei a caminhar para longe do quartel. Em algum momento eu encontraria algo para fazer, ou um lugar para onde ir.

Enquanto andava pelas ruas movimentadas passei em frente a uma casa grande. A entrada estava interditada. Assustei-me com a porta de entrada, onde se viam placas de madeira pregadas para impedir a passagem das pessoas. Era óbvio que tinha acontecido algo ruim um tempo atrás, mas parecia ser algo que eu não precisava saber, então continuei caminhando sem rumo.

Parei em uma praça, onde se viam crianças brincando em casinhas e brinquedos. Caminhei mais um pouco em volta do lugar e me sentei em um banco, olhando as crianças se divertirem. Foi quando uma delas me chamou a atenção.

Era como se eu já tivesse visto aquela menininha com o cabelo preso em chiquinhas, com olhos verdes e cabelos castanho-claros. Demorei um tempo para perceber quem era.

- Elysia? – murmurei, espantada. Como é que eu não tinha percebido de cara? Ela virou o seu rosto para mim, e eu arregalei os olhos – Elysia!

Se tinha algo que eu queria fazer, era falar com Gracia, a mãe de Elysia e esposa do falecido Hughes. Comecei a olhar ao redor, tentando encontrá-la. Ela estava sentada em outro banco, mais próximo da filha. Levantei-me e fui rapidamente a sua direção.

- Gracia? – chamei por ela. Gracia virou-se para olhar e sorriu gentilmente ao me ver:

- Winry! – sorri de volta e a abracei. Ela me convidou para sentar ao lado dela e foi isso que eu fiz.

Eu tive muita sorte em ter encontrado Gracia e Elysia. Elas eram a minha segunda família, praticamente. Sempre pude contar com a esposa do Hughes quando tive problemas, ou para contar coisas... Gracia sempre soube que eu gostava de Edward, acredito eu que ela sabia disso antes que eu mesma me desse conta.

- Como vão as coisas por aqui? – perguntei, para quebrar um pouco do silêncio.

- Um caos total – ela me disse – A guerra no leste está causando prejuízos demais para o exército. Só se comenta isso.

Senti uma onda de pânico se apossar de mim.

- Que tipo de... Prejuízo? – perguntei com a voz pausada, sabendo que ouviria:

- O número de mortos e feridos aumentou bastante – Gracia respondeu. Eu senti que poderia desmaiar naquele momento.

Edward era... Importante no exército. Por ser um Alquimista Federal. E se a guerra causava prejuízos para o país, e esses prejuízos estavam ligados ao número de mortos e feridos... Não, não era totalmente certo. Ele poderia muito bem estar apenas ferido, ou até mesmo ileso.

Mas talvez ainda esteja no campo de batalha, com chances de não voltar. Mas eu não perderia as esperanças nunca.

- Entendo. – eu respondi. – E você sabe alguma coisa sobre Edw...

- Eu pensei que você já soubesse... – antes que eu terminasse de falar Gracia me interrompeu. Soubesse... Céus! Soubesse de quê? Esperei ela dizer, mas não continuou. A onda de pânico que antes se acalmava voltou a aumentar.

- O que é que eu não sei? – perguntei, minha voz mostrava claramente o meu medo. Eu já esperava que tivesse chances de ouvir algo desagradável de se saber se viesse para a Central, mas não sabia que mesmo preparada, pensar em ouvir uma notícia dessas seria... Praticamente a minha morte.

O que seria saber que Ed morreu? Isso era algo que eu não saberia, e nem se soubesse iria querer explicar.

- Você não sabe mesmo... – aquele mínimo suspense já fazia com que as minhas mãos ficassem suadas. Gracia me olhou, espantada. – Acalme-se Winry. Ele não está morto, e nem está mais na guerra no leste.

De repente, eu não sabia mais como se respirava. Não sabia se meu coração ainda batia em meu peito, não sabia mais se meu corpo ainda funcionava, ou se eu estava tendo um sonho, ou até mesmo um pesadelo. Eu não sentia nenhuma onda de pânico, ou de tristeza, nem de felicidade. Eu não sentia nada, porque ainda não tinha absorvido e compreendido o que tinha acabado de ouvir.

Acalme-se Winry. Ele não está morto, e nem está mais na guerra do leste.

Não está morto e já saiu de lá.

Vivo. E em segurança.

Em vez de me acalmar, meu coração disparou, minhas mãos suaram ainda mais, e o meu pânico transformou-se em ansiedade e nervosismo. Até mesmo respirar era meio difícil.

- Onde ele está agora?! – perguntei quase gritando e pulando em cima de Gracia. Seu espanto com minha reação me fez "quase voltar ao normal" – Desculpe... Onde ele...?

- Em um hospital ao lado do quartel. – Gracia me respondeu.

Espera aí.

- Hospital? – arregalei os olhos. Depois, me lembrei que Riza tinha dito que aqueles que se tornavam inúteis para continuar na guerra voltavam para a Central. É claro que não haveria outro jeito para Edward voltar da guerra. – O que aconteceu com ele?

- Ele foi baleado no abdome e está com alguns ferimentos pelo corpo. – ela disse. Apertava o punho, controlando-me para não me levantar e sair correndo, fazendo com que eu me contrariasse totalmente – Fui vê-lo dois dias depois da chegada dele. Ed já está a uma semana no hospital.

Sentia meus lábios tremendo, uma reação que eu sempre tinha antes de chorar. Abracei Gracia com força.

-Eu tenho que vê-lo... Obrigada... Foi bom te ver... – eu murmurava meio trêmula. Depois, saí do abraço, me levantei de ímpeto e corri de volta ao quartel, para poder encontrar o hospital.

Pelo menos, ele não tinha levado o maldito tiro na cabeça, fazendo o meu pesadelo transformar-se em realidade. Pelo menos, ele ainda tinha chances de se recuperar e viver. Pelo menos, ele voltara vivo daquele lugar. Enquanto eu corria descontroladamente pela cidade Central, esbarrando nas pessoas que andavam pelas calçadas, ou quase caindo ao tropeçar, eu sentia o alívio tomar conta de mim. Ele estava vivo, ele estava me esperando.

De onde eu tirei tanto fôlego para correr? Eu já avistava o prédio enorme do quartel da Central sem precisar parar para descansar. Porque a minha vontade de revê-lo era maior do que a minha vontade de parar de correr, arfando e sentindo as dores ao respirar fundo.

Finalmente parei de correr quando estava em frente à entrada do quartel. Então, senti as dores e o cansaço por correr demais. Algumas gotas de suor já escorriam pelo meu rosto. Caminhei rapidamente para um lado, observando em volta, procurando o hospital. E lá estava ele. De repente, as dores sumiram, a ansiedade voltou e eu voltei a correr descontrolada até o grande prédio claro e cheio de janelas.

Escancarei a porta, fazendo algumas pessoas da recepção me olhar assustadas. Ignorei e fui até a recepcionista.

- Onde está Edward Elric?! – perguntei, nervosa, mas dessa vez não foi alto. A mulher chamou uma enfermeira que estava andando pelo corredor.

- Leve-a para o quarto do Alquimista Federal – a mulher disse com a voz firme e forte, fazendo com que eu me arrepiasse. Era tanta autoridade...

A enfermeira parou de frente para mim e sorriu, os cabelos castanho-escuros caíam sobre os ombros e realçavam os olhos, quase cinzentos de tão claros. Ela não era muito mais alta do que eu: apenas meia cabeça.

- Vamos? – ela me perguntou, ainda com o sorriso no rosto. Tinha uma voz doce, lembrava um pouco a do Al, só que mais feminina. Eu a acompanhei.

Perdi a conta de quantos corredores passamos antes de encontrarmos a escadaria e subirmos no mínimo dez escadas. Cheguei ao andar desconhecido quase sem conseguir andar. Olhei para a enfermeira ao meu lado: como ela conseguia estar normal e sem um pingo de cansaço depois de tantas escadas? Provavelmente já estava acostumada.

Depois, ela me levou até uma porta e eu senti meu coração batendo mais forte. É claro que eu já sabia o que tinha do outro lado. Respirei fundo e assenti para a enfermeira, que sorriu e abriu a porta dizendo:

- Qualquer coisa, eu estarei aqui fora. – então, eu entrei.

O quarto era grande e claro, as janelas à minha frente eram largas e davam uma visão de quase toda a parte oeste da cidade Central, entre elas o quartel, que era a coisa mais visível ali. E em um dos cantos, deitada em uma cama, profundamente adormecida, estava a pessoa que eu mais desejava reencontrar.

Edward.

Eu sentia algumas lágrimas saltando para fora dos meus olhos, o meu coração batendo fortemente contra meu peito, e um sorriso emocionado se formando em meus lábios enquanto eu quase estourava de felicidade, de emoção e alívio.

- Ed... – murmurei em um suspiro emocionado, dando pequenos passos em direção à cama enquanto mais lágrimas caíam.

Eu pude notar: ele realmente estava mudado. E eu tinha acertado, pois ele já era ligeiramente mais alto do que eu, e mais adulto. Eu admirava, deitada e adormecida à minha frente, a pessoa mais importante para mim. O meu pequeno Edward de 15 anos que agora se tornava um jovem adulto de 17 anos, mais forte, mais alto e ainda mais belo.

Toquei a pele de seu rosto, que estava quente e macia como sempre. Eu conseguia ouvir a respiração calma. Fechei meus olhos, ouvindo cada ruído.

Era como um sonho. Mas era real.

- Winry... – congelei no lugar ao ouvir aquela voz, tão conhecida, chamando fracamente pelo meu nome. Ele abria os seus olhos lentamente, e lentamente eu reencontrava os orbes dourados que faziam com que eu me perdesse enquanto os admirava.

Ao abri-los totalmente, ele me olhou e sorriu de leve. Eu já começava a chorar, e cobri o rosto com as mãos. Mas logo depois tirei as mãos dali.

- Ed! – eu me abracei nele, sentindo seu calor e seu cheiro doce. Soluçava em seu ombro. Depois, eu senti dois braços me envolvendo levemente. Era muito pouco, mas eu sentia aquela mesma sensação de estar no local mais seguro do mundo.

Porque Ed era o meu porto seguro. E seria pelo resto da minha vida.

Beijei o ombro dele levemente, depois o soltei e rocei os lábios nos dele. Ed não falava nada, mas eu não o deixava falar. Beijei seus lábios e voltei a abraçá-lo.

- Idiota – eu choraminguei, com o rosto escondido em seu ombro novamente – Você me fez esperar demais. – depois, o soltei novamente e sorri para ele, sentindo meus olhos marejados – bem vindo de volta.

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Finalmente, o cap novo. Não me matem, mas: em momento algum eu pensei na possibilidade do Ed morrer. O suspense foi só para me divertir -qq tá, eu não sou tão má assim, o suspense era preciso. :D

Mesmo com essa ficwriter cruel, eu espero que vocês tenham gostado do novo cap. Não esqueçam do review!!