CAPÍTULO 4- TUDO POR UMA NOVA VIDA
Rebecca's POV
Assim que Dean e eu chegamos na recepção, pude ver porque Sam revirou os olhos quando Dean sugeriu pegar informações com a recepcionista. Ela era linda.
- Você é muito esperto, sabia? – falei para Dean.
- Eu sei. Mas porque dessa vez?
- Você já cai matando em cima da recepcionista, né? – Eu sorri para ele e saí saltitando para fora do hotel, acenando para a garota.
O mercado não deve ser muito longe, pensei. Não pode ser muito longe: eu estava de salto e sem carro.
Uma luz se acendeu...
Eu podia ter carro!
Voltei correndo para o hotel e encontrei Dean conversando intimamente com a recepcionista. Eu me aproximei deles.
- Oi – falei, para a mulher. – Eu sou Nicole, prima de Raphael.
- Olá – disse, empolgada. Talvez fizesse planos de conhecer a família do futuro namorado. Coitada, pensei. Ela nem sabia que isso não aconteceria. – Meu nome é Angelina.
- Prazer. – Eu me virei para Dean. – Primo, preciso falar com você.
Ele olhou com cara de quem se desculpa para Angelina e me seguiu até um cantinho.
- O que foi?
- Olha, você não vai sair do hotel, né? – sussurrei.
- Não.
- E eu vou.
- Hmm, legal – murmurou sem entender o outro aspecto.
- Me empresta o carro? Eu sei dirigir e preciso dele para me locomover. A cidade não é grande, mas eu estou de salto.
Ele olhou incrédulo.
- É só tirar.
- Dean! – sibilei. – Me empresta.
- Argh, nem começamos a conviver e você já é chata – resmungou, me entregando a chave.
- Obrigada. – Dei-lhe um beijo na bochecha. – Volto assim que tiver informações relevantes.
E eu saí correndo para o carro dele, que era muito lindo por sinal.
Carro: http: // www. orkut. com. br/ Main #Album Zoom. aspx? uid= 9232792981758338606&pid= 1250532879878& aid=1245147461 (junte os espaços)
Comecei a vaguear pelas ruas do lugar até encontrar um mercadinho que estava bem cheio. Ótimo lugar para fofocas, pensei.
Saí do carro e entrei. Até que era confortável.
Fui direto para a prateleira de cosméticos, mas depois eu me dirigi para a prateleira de comida. Turistas não precisavam de cosméticos e sim de mantimentos. Peguei alguns lanches de pacotes, que eram esquentados em micro-ondas; os garotos deveriam gostar disso.
Depois eu peguei refrigerante e fui para o caixa.
- Oi – disse a moça que me atendeu.
- Oi – repeti.
- Está de passagem? – Essa mulher era boa de papo.
- Aham. Não vou ficar por muito tempo, fiquei sabendo da mulher que foi encontrada morta e isso me deu medo.
- Ah, eu também fiquei meio assustada. Nunca tinha acontecido antes na cidade, sabe? Olha. Fica calma... É uma boa cidade.
Eu sorri.
- Então é uma cidade segura? – fingi preocupação.
- Aham. As pessoas são hospitaleiras e amam turistas. Vinte e três dólares, querida.
- Vocês notaram algo estranho? – Me senti ridícula de perguntar isso.
- Estava muito frio no dia... E houve um lapso de energia elétrica. As luzes se apagaram. Foi bizarro. Tem gente que fala que pode ter sido uma maldição que foi jogada na família dela.
- Hmm, algum familiar dela já morreu dessa forma? – falei.
- Er, não.
- Então como pode ser uma maldição? – Eu ri. Era tão tolo.
- Não fui eu que disse. Eu apenas estou lhe contando...
- Aqui. – Dei o dinheiro para ela. – Obrigada por tudo. Talvez eu fique um pouco mais, então.
- É. A gente se vê.
Passei pela porta e entrei no carro. Ao longe vi as crianças brincando, os idosos conversando e os adultos caminhando pelo parque. Parecia ser uma cidade calma, então por que, de repente, surgiu um lobisomem?
Dean's POV
Eu estava lá, na recepção, conversando com Angelina. Eu tentava prestar atenção na conversa, mas confesso que meus olhos nem sempre faziam isso. A culpa não era minha se a recepcionista era boa – Sim, o sentido de boa é o que você entendeu. Eu só não jogava umas indiretas porque ela parecia ser inocente.
Certo. Isso não era problema para mim.
Corrigindo: Eu só não jogava umas indiretas porque eu queria informações. E Angelina não parecia ser do tipo de mulher que troca informações por flertes e sexo.
Rebecca havia saído com o meu carro há mais ou menos meia hora. E eu estava com medo de algo ter acontecido... com o meu bebê. Não que eu fosse egoísta e não me preocupasse com Rebecca, mas, ah, se alguma coisa acontecesse com ele. Eu não queria ser muito rígido com ela bem no começo de nossa vida, mas se Sam fizesse a mesma coisa, sofreria o mesmo castigo.
- E eu moro aqui há 15 anos! Muito incrível como essa cidade parece ser perfeita para mim – continuou a tagarelar Angelina, sem perceber que eu não prestava atenção na sua conversa. Eu sorri para tentar mostrar interesse.
- Quantos anos você tem mesmo? – perguntei, sem querer ser mal-educado. Eu estava perdidos em pensamentos quando ela falou sua idade antes.
- 22 – murmurou, como se fosse óbvio. – Fiz semana passada.
- Então perdi uma data comemorativa muito importante – flertei. Abaixei minha cabeça para tentar mostrar uma personalidade 'Gostei de você e quero demonstrar isso; mas tenho vergonha'.
Ela deu uma risadinha tímida e mexeu no cabelo.
- Gosta de seu trabalho, né? – recomecei o assunto.
- É. É bom se interar dos assuntos, e fazer muitas novas... amizades, como a nossa. – Eu sorri quando ela o disse. – E também é bom receber uns hóspedes gatinhos.
Ela prendeu a respiração quando se deu conta do que falou.
- Desculpe.
- Ah, nada. Um elogio de vez em quando é bom. – Lógico que eu sabia que eu era um tesão, mas eu não queria parecer convencido.
- Eu sou muito sincera às vezes, sabe? – comentou.
- Eu gostaria de poder ser – sussurrei, sem que ela ouvisse. Ter uma vida normal, ser casado com uma bela mulher, sem monstros e criaturas místicas... Deveria ser tão bom. Pelo menos poder ter uma namorada e falar toda a verdade para ela. – Tem família?
- Hmm... Só eu e meu irmão aqui na cidade. Meus pais moram no exterior; na Suíça.
- Ah. Ei, o que aconteceu com a menina que morreu? – indaguei.
Ela franziu o cenho com a repentina mudança de assunto. Depois, Angelina sorriu, talvez pensando que eu mudei de assunto porque não tinha nada para falar e queria continuar a conversar com ela. Eu fingi timidez – uma coisa que eu nunca tive – e abaixei a cabeça.
- Foi horrível demais. Ela era conhecida minha, sabe? Mas eu não tinha tanto contato com ela: Karine e eu não nos dávamos muito bem... Talvez a amiga dela saiba dos rolos em que Karine se meteu, pois só alguém muito sádico para fazer o que fizeram com ela.
- Você acha que ela se meteu com alguém muito perigoso? – perguntei. Se Angelina tinha achado que era isso, tinham duas probabilidades: Ou Karine deu motivos, ou a minha nova 'amiga', Angelina, não gostava mesmo da vítima.
- Eu não sei de nada; talvez Olívia, a melhor amiga dela, saiba de algo. Eu nunca estive disposta a ter algum laço de amizade com elas.
- Ah – suspirei, quando avistei o meu carro sendo estacionado delicadamente (ainda bem) na frente do hotel/pensão.
Angelina me olhou, confusa pelo meu suspiro, e depois seguiu o meu olhar.
- É que eu tenho medo de ela ser meio barbeira, se é que você me entende... – expliquei.
Ang riu.
- Eu nunca tive um carro, mas gostaria de ter.
- Sabe dirigir? – falei, ainda encarando meu bebê.
- Claro! – Ela riu. – Que americano não sabe?
Eu acompanhei o riso dela e respirei fundo; relaxado por meu carro estar são e salvo de Rebecca.
Rebecca's POV
Vi a postura de Dean mudar quando ele me viu chegando com o seu carro – que estava em ótimo estado; do mesmo jeito de quando eu o peguei – com sacolas na mão.
Tranquei o bebê de Dean e coloquei a chave no bolso de trás da minha calça. Eu iria provocar a amiguinha de Dean.
- Oi, primo – gritei, assim que entrei na pensão. Não era muita coisa, porém servia. Eu ainda não estava acostumada a viver desse modo, em lugares menos sofisticados do que a minha outra casa.
Eu saltitei para o lado deles, de Dean e Angelina, com as duas mãos ocupadas segurando as sacolas.
- Como foi lá? – perguntou meu 'priminho', olhando para as minhas mãos e para o carro, tentando (provavelmente) achar a chave do seu automóvel.
- Bem. Eu comprei umas coisinhas. – Levantei as sacolas na direção dele. – Eu até conversei com a moça do caixa... – Foi uma indireta tipo: 'Venha conversar'.
- Cadê a chave? – observou, estragando os preliminares.
- Ai, está no bolso de trás da minha calça. – Eu fiz uma careta. – Pega aí.
Eu me virei e empinei minha bunda para o lado dele.
Imaginei a cara atual de Dean e segurei o riso. Ele tinha cara de safado, mas não colocaria a mão diretamente na minha calça. Ele estava com a 'flerte' dele.
- Ãhn... Hmm, você não pode pegar aí? – disse.
- Ah, Raphael Campbell! – exclamei. – Somos primos. Pode pegar aí as chaves sem vergonha... Minha mão está cheia de sacolas.
Ele soltou um suspiro e eu senti ele se aproximar. Dean colocou a mão – fechada – no meu bolso apertado. Depois ele viu que não conseguiria pegar a chave de mão fechada, então as abriu.
Não deixei de perceber que ele demorou alguns segundos sua mão no meu bolso após pegar a chave.
- Hu, pronto – falou Dean. Ele estava com um sorrisinho mostrando os dentes e um brilho no olhar. Controlei o riso.
- Obrigada pelo carro – agradeci, indo em direção às escadas. A recepcionista estava tão sem-graça que eu ri de sua cara assim que subi o lance de escadas e cheguei no corredor do quarto.
Tentei abri a porta do quarto 23 – nosso quarto – e o fiz sem força alguma: Estava destrancado.
E, quando eu entrei no quarto, tive que segurar as sacolas mais fortes para que elas não escorregassem por meus dedos.
Sam estava deitado na cama, mexendo em seu notebook. Assim que eu me virei de frente para ele, eu me deparei com ele vestido somente com uma toalha branca. Ele me encarou, o rosto envergonhado e corado, e eu encarei de volta a sua barriga de tanquinho.
Ele pigarreou e se cobriu com o cobertor.
- Eu não mordo... - falei. - só se você quiser.
Ele riu, sem-graça, e se levantou.
- Eu vou me vestir. Eu não fiz isso antes porque pensei que você iria demorar.
- Não precisa se explicar, meu amor. - Eu sorri.
Ele se abaixou diante de sua mala para pegar uma camiseta e uma calça, ficando de costas para mim. E que costas...
Eu sempre tive uma tara por costas. É que quando eu ainda estava na escola, eu costumava ficar olhando os jogadores do time de futebol fazendo flexões. A culpa não era minha! Eram os meninos que ficavam mostrando os seus atributos.
O irmão Winchester se levantou e se trancou no banheiro. Eu continuei imóvel, segurando as sacolas. Era esforço demais para uma mulher só conviver com dois caras gostosões andando seminus pelo quarto pequeno e fechado com uma cama de casal bem convidativa. Respirei fundo e coloquei as sacolas em cima de uma das cômodas.
Assim que pude pensar um pouco, concluí que Sam deveria estar dormindo. Não fiquei fora nem por uma hora e quando cheguei, ele já estava de banho tomado!
O dito cujo saiu do banheiro balançando os cabelos na tentativa de secá-los. As gotículas de água voaram para o meu lado e eu dei um gritinho fino.
- Hei!
Ele sorriu.
- Desculpa.
- Relaxa e goza, colega - respondi.
Ele arregalou os olhos.
- Estou brincando, Sam.
Ele continuou parado um tempo, me encarando assustado, mas desistiu de tentar me entender.
- Novidades para o caso? - perguntou, mudando sorrateiramente de assunto.
- Não muitas. A moça do caixa disse que fazia muito frio e que houve um lapso de energia elétrica. E que dizem por aí que foi uma maldição jogada na família dela. Mas nunca houve mortes desse tipo na cidade!
Sam desligou o notebook e colocou a escrivaninha. Depois ele arrumou a cama de casal - a qual ele estava deitado - e se sentou nela.
- Quanto tempo você dormiu, Sam?
- Não dormi.
Ele me olhou e puxou o canto da boca em um sorrisinho de quem se desculpa.
Enruguei o cenho.
- Eu vou tirar o notebook de você se começar a não dormir! - ameacei.
Ele levantou as sobrancelhas.
- Estou brincando, mas é melhor você dormir. Quando Dean voltar, como poderemos discutir o caso se você estiver dormindo em pé? - provoquei. - Deita e durma.
Ele arregalou os olhos novamente e murmurou:
- Eu não consigo.
- Duvido - disse eu. - Deve estar sem dormir a mais de 20 horas. Quer uma massagem?
Eu sorri enquanto ele escancarava a boca.
- Não, obrigado.
- Ah, larga de ser enjoado que minha massagem é ótima. Tira a camisa e deita aí. - Indiquei a cama de casal.
Ele continuou parado.
- Está esperando o quê? Eu vou empurrar você! - ameacei.
Ele sorriu, sem-graça, e fez o que eu mandei - em partes. Ele deitou-se, me encarando.
Respirei fundo. Aposto que se fosse com Dean, ele estaria até nu agora.
- Tira a camisa e deita de costas - mandei.
Ele, dessa vez, fez o que eu mandei... exatamente.
Eu tirei meu salto e me aproximei da cama, ajoelhando-me na sua beirada.
- Fica quietinho - pedi.
Eu me senti nas suas costas com as pernas abertas - sentindo Sam encolher-se - e sorri. Se Dean chegasse nesse momento, Sam e eu viraríamos motivos de piada pelo resto de nossa vida - ou até mais.
Comecei a massagear suavemente os ombros largos de Sam, esperando ter uma boa primeira impressão. Eu não era do tipo 'menininha delicadinha' - Não por dentro. E não depois que meus pais morreram. Certo, sempre fui sim uma mulher menina, porém só na frente da minha mami e do meu papi. Eles estavam aqui? Resposta: Não. Então deixo sempre meu lado 'mulher' predominar. Como eu não sou mais menininha delicadinha, me tornei outra pessoa: mais agressiva, vingativa, teimosa, sensual, coisa do gênero. Ou seja, massagem suave não era o meu forte.
Vira e mexe, eu sentia Sam arrepiar-se com algum movimento de minha mão - algum toque inoportuno.
Depois massageei o meio de suas costas, agressivamente, e passei as mãos pelas laterais de seu corpo - o encontro entre a barriga e as costas. Sam prendeu a respiração e tremeu quando fiz isso, o que quer dizer que era o seu ponto fraco. Sorri - tirando a casquinha dele.
Eu desci minha mão - depositando-a em sua barriga - e me deitei sobre as costas de Sam, para alcançar seu ombro. Depois eu me sentei de volta.
Massageei Sam por mais algum tempo, até que percebi que a pulsação e a respiração dele se aquietaram - o que significava que ele provavelmente havia dormindo.
Eu tombei para o lado, deixando-o livre para se movimentar na cama e dei um salto para ficar de pé e colocar minha sandália. Eu separei dois lanches e duas Cocas em uma sacola e a agarrei comigo. Deixei uma chave na porta do quarto e peguei outra comigo, trancando o quarto assim que saí. Eu estava morrendo de fome e apostava que Dean também estava. Como Sam estava dormindo, eu deixei o lanche dele no quarto. Ele esquentava quando acordasse.
Quando desci o lance de escadas, Dean e a recepcionista estavam no mesmo lugar que estavam quando os vi antes. Eles não tinham mais nada para fazer, não?
- Oi novamente, gente! - cumprimentei.
- Onde está Robert? - perguntou Dean, visivelmente mal-humorado por eu tê-lo interrompido com Angelina.
- Acabei de fazê-lo dormir - respondi.
Dean olhou com aquela cara de: (?) e eu deixei subentendido que explicava depois.
- Primo, olha, eu comprei lanche e Coca para a gente almoçar, né. Aí não tem como esquentar! - gritei, desesperada.
A recepcionista interrompeu.
- Mas eu sirvo almoço e jantar aqui no hotel. – Pensão, corrigi mentalmente.
- Meu amor, sirva amanhã então porque se não comermos o lanche hoje vai estragar. Não estragaria se tivesse freezer no quarto - acrescentei.
Dean olhou, pasmo, para mim.
- Como é assim... posso esquentar o lanche de vocês no micro-ondas que tenho aqui. Enquanto esquento, a Coca pode ficar no meu congelador - disse Angelina.
- Sério? - murmurei. - Obrigada!
- Me acompanhe - falou.
- Ah, vai lá, Raphael - pedi. - Eu estou com preguiça.
Entreguei a sacola para Dean, dando uma piscadela, com uma cara de: 'Vai lá na cozinha com ela e a pegue de jeito!'
Ele sorriu - segurando um riso - e a seguiu.
Dean's POV
Angelina estava calada enquanto chegamos na cozinha; depois percebi que, longe de Rebecca, ela estava se soltando. Eu sorri sem que Angel visse: Eu nunca entenderia mulheres! Elas vivem brigando por território, pode se dizer assim. E o território é sempre um macho. Eu dei um sorrisinho.
A cozinha não era grande coisa – assim como o restante do edifício – mas eu quis ser agradável:
- Bela cozinha – murmurei, com um sorriso. – Nem todos os hotéis que eu conheço tem uma cozinha.
Ela riu.
- Bem, não teria mesmo uma cozinha... Mas eu também moro aqui, então...
Eu arregalei meus olhos para ela.
- Você mora aqui?
Ela riu.
- E o seu irmão? – questionei.
- Hmm, ele quase não pára aqui; e quando vem é só para dormir...
Eu fiz um biquinho.
- O que ele faz? – eu disse.
- Nada. Ele fica fora sempre, não trabalha, não ajuda aqui... Nada.
- Deve ser um horror – comentei enquanto Angelina colocava um dos pacotes de lanche no micro-ondas.
- Na verdade, é mesmo. Eu nunca sei o que ele está aprontando, se está bem, se está até vivo. Mamãe morreria de desgosto se soubesse.
- E você simplesmente o recebe de volta quando ele quer? Arranja um quarto, dá de comer... Essas coisas? – Eu fiz uma careta.
Ela suspirou.
- É meu irmão... É minha família. Eu não posso deixá-lo sem nada.
Eu abaixei a cabeça. Eu entendia muito disso.
- Ah! Dean, antes que eu me esqueça de novo, coloque o refrigerante no congelador. Ficará gelado em um instante.
Eu fiz o que ela mandou, enquanto – pela visão periférica – pude ver Angelina pegando dois pratos, colocando-os na mesa e abrindo o outro pacote de lanche.
- E essa sua prima... – começou. Já imaginei coisas do tipo: "Sua prima é vagabunda, eu a odeio, AAAAH!". Bem, era o que as mulheres dos filmes faziam. – Ela dá muito problema?
Eu enruguei o cenho. De todas as perguntas que eu esperava ouvir, essa não era uma delas.
- Problemas, como?
- Como meu irmão... Ele me dá problemas.
Eu balancei a cabeça negativamente.
- Ela é hiper-ativa, mas é só isso.
O micro-ondas apitou e Ang colocou em um dos pratos um lanche que parecia ser bem saboroso. Pude sentir minha barriga reclamando. Angelina colocou o outro pacote no aparelho eletrônico.
- Bem, me conte porque você não gostava de Karine – sugeri, seduzindo-a. – Você parecia ter muito ódio dela.
- Ah, não é bem assim. Nós duas tentamos nos aceitar; a gente tentou ser amigas. Mas era difícil ser amiga de uma criatura tão... enjoada! Ela era uma patricinha assumida.
Eu fiz uma careta. Patricinhas normalmente eram bonitas, mas era – exatamente como Angelina falou – enjoadas. E melosas. E escandalosas.
- Credo – murmurei.
- Credo mesmo. – Angel fez o sinal de 'Pai - Filho - Espírito Santo'. – Ela não merecia morrer, apesar de tudo.
- Apesar de tudo? – repeti.
Angelina revirou os olhos e fez um gesto com a mão – como se quisesse matar uma mosca.
- Esquece. É complexo demais. Mas, se você está tão fascinado pelo caso dela, eu poderia passar a você o endereço da melhor amiga de Karine. – Eu pude ver o ciúme borbulhando dentro dela. Eu não queria perder Angelina, então inventei algo rápido.
- Chega perto – cochichei. A recepcionista se aproximou e eu continuei com a voz baixa. – Eu não deveria dizer nada, mas eu gostei de você. Bem, promete que não vai contar nada a ninguém?
Angelina assentiu.
- Ótimo, porque é muito segredo. Eu sou um agente especial disfarçado. O caso da Karine é muito grave, e temos alguns suspeitos, mas achamos mais seguros não deixar bem claro que continuamos a investigar o assunto. Temos até um suspeito que é da polícia mesmo.
Angelina me encarou, boquiaberta, e perguntou:
- O outro não é seu irmão e ela não é sua prima?
- Na verdade, eles são. Faz séculos que nossa família mexe com essa profissão, então seguimos a tradição. Mas por favor, você não pode contar isso nem a eles. Ficariam furiosos se soubessem que eu lhe contei. Eu, somente eu, tenho que informá-los disso.
Ela sorriu, acreditando em tudo, e seus olhos brilharam.
- Você é um agente. Isso é tão sexy.
Ela não pareceu se arrepender e eu ri. Garotas assim são as melhores.
O micro-ondas apitou novamente.
- Prontinho. Bem, para um lanche congelado ele está bem grande. Sua prima soube escolher uma boa marca – comentou Angelina enquanto colocava o outro lanche no outro prato. Ela pegou dois copos e o refrigerante na geladeira.
- Deixe-me ajudá-la – sugeri, percebendo que minha fala foi totalmente formal. Fiz uma careta.
- Aham. Pode levar os copos e o refrigerante. Eu levo os pratos.
Eu peguei o que ela mandou e a segui de volta para a recepção. Eu tentava equilibrar os objetos enquanto meu olhar estava focado na bunda dela e em seu jeito de andar. Dei um sorriso malicioso.
Rebecca's POV
E, finalmente, os dois chegaram. Dean deve ter se empolgado com ela. Mas eu estava com fome, bem que ele podia fazer uma rapidinha ao invés de enrolar tanto. O caso de Karine parecia bem complexo; isso significava que ele teria tempo para transar com a recepcionista – mais tarde, e quando eu (de preferência) não estiver com fome.
Eu, na ausência deles, fiz algo que Angelina nem sonhava que eu podia fazer: Arrumei a mesa para Dean e eu.
- A mesa está... arrumada – concluiu ela. Com essa capacidade dela, ela se daria bem como policial. Policiais eram inúteis. Eles não resolveram o caso da minha família.
- Bem, não era para arrumar? – perguntei.
Ela sorriu.
- Não, é que foi muita gentileza da sua parte; muita mesmo.
Eu respirei fundo. Se ela seria tão 'amável' eu começaria a me sentir depressiva. Eu estava a fim de nocautear alguém, e se o resto da população fosse como ela, eu teria que provocar Dean; ou o lobisomem. Eu sorri, era uma boa ideia – se ele não me mordesse.
- Ah, se isso foi um obrigada, de nada.
A recepcionista multiuso colocou tudo na mesa e se sentou na mesa ao lado. Dean passou na barriga, com uma cara de canibal, e eu ri.
- Com fome? – eu disse.
- Você nem imagina o quanto.
- Acho que imagino sim – concluí.
Eu coloquei Coca em nossos copos enquanto ele dava uma bocada no lanche dele.
- Hmm, isso é muito bom – falou de boca cheia.
Eu ri enquanto tampava a garrafa.
- Não se aproxima do meu lanche – ameacei.
Mas Dean nem prestou atenção no que eu disse e eu vi que 1/3 do lanche dele simplesmente... se foi.
- Credo. Você come feito um louco! – exclamei.
Angelina riu e Dean sorriu para ela. Eu revirei os olhos. Se eles ficassem nesse clima de 'love' eu teria que dar uns pegas em Sam – e se o próprio Sam arranjasse alguém para ficar também no clima de 'love' eu teria que arranjar outro alguém para catar. Mordisquei o meu lanche enquanto pensava se existiriam homens decentes – decentes, no meu dicionário, é: Gostoso, inteligente e romântico – nessa cidade.
- Prima – começou Dean. Eu suspirei, lá vinha bomba. –, eu contei à Angelina sobra nossa personalidade.
Eu joguei meu lanche no prato e escancarei a boca.
- Você... o quê? – falei. – Você está louco? – Eu olhei rapidamente para a recepcionista e ela estava com os olhos arregalados.
- Calma, me deixa explicar – murmurou ele. Eu respirei fundo, de olhos fechados, e depois os abri; pegando meu lanche de novo. – Ela pode ajudar no caso, então contei a ela que nossa família toda é policial e que a gente veio aqui secretamente resolver.
Eu saquei a dele. Há, esperto. Fisgaria a moçoila, teria a ajuda dela e resolveria o caso. Estreitei meus olhos.
- O que você contou a ela exatamente? – perguntei.
Dean ficou mais calmo ao perceber que eu estava colaborando.
- Contei que nós somos agentes secretos e estamos na missão de descobrir o caso sem causar muito alvoroço.
Eu me virei para Angelina.
- Você vai ajudar? – questionei.
Ela sorriu.
- Lógico. Com tudo que eu puder fazer!
- Ótimo – eu disse dando outra mordida no lanche. Engoli tudo para voltar a falar: - E você sabe exatamente como Karine morreu? Os moradores estão até melhor informados do que nós mesmos.
Ela hesitou.
- A acharam no chão da sala, bem despedaçada e sem o coração. A porta estava aberta, a janela da sala também e acharam uma gota de um sangue na sacada que era de DNA desconhecido.
Dean me encarou e eu não sabia o que aquilo significava. OMG, eu sou inútil!
- Será que a gente poderia ver a cena do crime? – perguntei, por curiosidade.
Angelina fez uma careta.
- Eu acho que a polícia interditou a casa dela.
- Que horror! – exclamei. – Eles não deveriam ter fechado a casa tão cedo.
Dean tinha acabado o lanche e virou com um gole só a Coca do seu copo.
- Já faz duas semanas, Nic – retrucou ele.
Eu levantei a sobrancelha.
- Uau – murmurei, tratando de comer o lanche. Se Dean tinha acabado, eu tinha que acabar logo.
Mas, sinceramente, eu não sei o que eu ia fazer. Dean ficaria aqui embaixo conversando com a amiguinha dele; e eu com certeza não podia ficar 'segurando vela'. Sei lá, vai que ela era do tipo "Não vamos perder tempo" e já queria o levar para o quarto? Melhor prevenir – ficar longe deles e não saber qual era o tipo dela – do que remediar – ficar perto deles e descobrir se ela era esse tipo.
Mas, se por outro lado, eu fosse ficar no quarto, o que eu iria fazer? Sonharia que estava assistindo uma TV, coisa que no quarto não tem? Mexeria no notebook de Sam com a permissão de Dean? Daria uma voltinha pela cidade sem atrações? Dormiria ou ficaria vendo Sam dormir? Revirei meus olhos. Minha vida estava fudida!
Dean, pelo amor de dadá, tenha a ideia de ir discutir o caso lá no quarto, pensei.
- Hmm, a viagem foi muito cansativa. Acho que eu preciso dormir – comentou Dean. Transmissão de pensamento, pensei feliz. Angelina fez uma careta. – E você, Nic?
- Bem, eu também estou exausta.
- Ótimo. Vamos? – Ele colocou a mão em minhas costas e me empurrou levemente, como se estivesse me guiando. Aí ele parou e piscou para Angelina. – Volto mais à noite.
Ela sorriu enquanto levava os pratos, os copos e o lixo para a cozinha.
- E aí, mulher maravilha, conseguiu alguma coisa? – perguntou Dean, quando subimos as escadas. Angelina não estava mais por perto, então eu podia falar de coisas sobrenaturais à vontade.
- Na verdade, nada de interessante. A moça do caixa disse que fazia muito frio e que houve um lapso de energia elétrica. E que dizem por aí que foi uma maldição jogada na família dela. Mas nunca houve mortes desse tipo na cidade – repeti o que eu disse a Sam.
- Bem que a gente poderia ver a cena do crime – falou fazendo uma careta. – Eu queria poder ver.
- É fácil poder entrar na casa – retruquei enquanto procurava a chave do quarto.
Dean revirou os olhos.
- Fácil? Tem guardas vigiando e eu aposto que eles não nos deixariam entrar.
- Bem, e se eu for uma repórter bem curiosa e quiser saber mais? – sugeri. – Eu levo um gravador e coloco uma roupa bem provocante. Aposto que consigo enganá-los.
- Mas você não poderia conhecer a cena do crime... – disse.
- Não tem problema, você verão e me contarão tudo depois. – Eu pisquei.
- E se eles desconfiarem? – provocou.
Eu dei um sorrisinho torto enquanto destrancava a porta.
- Eu os faço não desconfiar mais. São 8h da manhã ainda, temos tempo para planejar tudo direitinho – falei.
Dean riu e entramos no quarto. Eu tranquei a porta logo que entrei.
Nós dois examinamos o quarto. Havia lugar para nós dormirmos, o problema é que a gente tinha que decidir quem dormiria na mesma cama que Sam.
- Ímpar ou par para ver quem dorme na cama de casal? – sugeri.
Dean encarou Sam e fez uma careta.
- Ah, não. Dorme lá você que é mulher.
- Eu não. Dorme lá você que é irmão dele – retruquei.
- Ele é homem – resmungou.
- Mas é seu irmão! Aposto que já dormiu na mesma cama do que ele várias vezes.
Dean olhou para mim.
- Só porque não tive escolha. Mas aqui eu tenho, e a cama de solteiro parece ser o meu paraíso perfeito – disse.
- Ímpar ou par, briga ou o quê? – falei. Agora eu lhe dei duas opções.
- Briga? Você arrumando briga comigo? Só se você fosse doida.
Eu revirei meus olhos. Machista.
- Se eu não estivesse com sono, eu brigaria com você. Mas aproveite minha boa vontade em não deixá-lo incapacitado tão cedo – murmurei, tirando os sapatos.
Ele riu.
- Ímpar ou par, então – decidiu.
Ele ficou frente a frente comigo e gritou:
- Ímpar!
- Ah, não! Eu quero o ímpar – reclamei.
- Mas eu sou o ímpar, você é par.
Eu suspirei e contei: Um, dois... Três! Eu abri três dedos da minha mão e Dean abriu dois.
- HÁ, HÁ – riu. – Eu fico com a cama de solteiro.
Eu respirei fundo e me deitei ao lado de Sam, me lembrando que escolher 'par' sempre me deu muito azar. Antes de me cobrir, eu tirei minha blusa – que estava me incomodando –, tirei minha calça jeans – que estava me machucando – e me enrolei no lençol branco.
