Capítulo III – The First Hours

Edward PoV

"Uma pessoa para compreender tem de se transformar."
(Saint-Exupéry)

Terminei o resto do suco, e Bella ficou me olhando feliz, animada, como se eu tivesse fazendo um grande favor a ela.

- Parabéns Bella, esse suco está uma delícia. Se eu pudesse, eu juro que experimentava os duzentos. – sorri.

- De repente você consegue. Meu pai disse que você vai ficar conosco por uns quinze dias, não é?

- Exato. Acho que sim, vai depender de muita coisa ainda, principalmente do trabalho do seu pai.

- Se depender dele, em pouco tempo você vai sair daqui. - ela disse orgulhosa.- Ele é o melhor mecânico da cidade!

- Ele não é o único? – brinquei.

- Sim. Mas mesmo assim ele é. Tenho certeza. – ela me olhou com cara de deboche e levou os copos e o liquidificador para a pia, lavando-os. – Assim que eu terminar aqui, a gente escolhe o seu quarto. Você prefere com vista para o pomar ou para a rua da frente?

- Tanto faz pra mim.

- Como assim tanto faz? Não pode! Se você dormir com vista para o pomar, você vai receber os primeiros raios de sol pela manhã. Se você dormir com vista para a rua da frente, você só verá o sol antes dele dormir. – ela falou como se tivesse feito a constatação do século. Mas eu realmente nunca tinha parado pra pensar nisso. Eu nunca tinha parado pra me importar com o sol.

- Eu quero o que tenha o sol pela manhã. – sorri brincando com um guardanapo que estava em cima da mesa. – Mas confesso que nunca tinha parado pra pensar que tipo de sol eu prefiro.

- Sua escolha foi ótima. – ela disse guardando o liquidificador no lugar onde estava. – Eu também prefiro o sol da manhã. Vamos pegar o quarto ao lado do meu então. – ela disse indo em minha direção e puxando minha mão. – Vamos lá.

Andamos pelo corredor da casa e fomos para os fundos. Haviam três cômodos. Um banheiro e dois quartos.

- Esse aqui é o meu quarto. – ela disse ajeitando a outra presilha do cabelo. - O seu vai ser aquele ali. – ela apontou. – Vamos ver sua roupa de cama.

- Sim, vamos. – falei atordoado pela cortesia da menina dos sorrisos. Bella era comunicativa e feliz. Era o tipo de personalidade que você não via em uma pessoa que morava no campo, e com poucos recursos. – Aqui pega celular?

- Olha. – ela parou suspirando. – Pegar, pega. Mas tem um lugar em especial, que eu e Emmett descobrimos. Ele fica logo no final da Escola Primária, se você sentar no banco de madeira que tem lá, perto do ponto de ônibus, e ligar o celular, ele pega rapidinho. – ela deu um sorriso esperto, mostrando quase todos os dentes. Ela não se cansava de sorrir?

- Vocês não têm celulares aqui? – perguntei enquanto entrávamos no que seria o meu quarto pelos próximos dias.

- Eu não tenho. Mas Emmett ganhou um, de um cliente que apareceu aqui, vindo da cidade grande, que estava com muita pressa. Deu como pagamento por uma troca de pneu. Rosalie também tem, ela juntou dinheiro e comprou, em um dia que fomos até Indiana. Eu não sei pra que ela comprou, aqui não pega direito, mas ela usa pra ficar vendo as horas. – ela revirou os olhos de forma engraçada.

- Você falou duas vezes nesse Emmett. Quem é? – perguntei curioso. Mas só o fato de pensar que ele poderia ser namorado dela, já me deixou com um sentimento parecido com ciúme. Quem eu pensava que era por ter ciúme de uma menina que acabei de conhecer? – Ele é seu namorado?

- Ahn? – Bella soltou uma gargalhada deliciosa, e nervosa ao mesmo tempo. – Que namorado o que! – ela continuou rindo. – Ele é meu vizinho, mora aqui em frente, fomos praticamente criados juntos. Charlie tá ensinando várias coisas de mecânica pra ele. – ela então se aproximou de mim, pegando no meu braço. – E eu bem acho que meu pai e a mãe de Emmett estão tendo alguma coisa.. então é bem provável que ele seja quase um irmão pra mim. – ela falou baixo.

- Huum, entendi. – falei ajudando-a a tirar as colchas pesadas do armário.

- Azul ou verde? – ela perguntou animada. Eu já nem ia discutir mais. Já vi que ela sempre me apresentaria questões parecidas, das quais eu nunca me importaria em pensar o porque.

- Azul.

Ela pegou toda a roupa de cama azul, incluindo as toalhas, e colocou em cima da cama. Eu me senti um inválido, que não ajudava a menina nem a fazer a cama. Por isso peguei os travesseiros e comecei a colocar as fronhas.

- Você não precisa fazer isso. – ela parou me olhando. – Você é nosso convidado. – ela sorriu.

- Eu sei, mas mesmo assim eu quero ajudar. E qualquer coisa aqui dentro, eu quero que você aceite que eu te ajude, ok? Senão vou me sentir mal.

- Tá. Tudo bem. – ela falou baixo.

- Aqui faz frio à noite? – falei apontando para as tais colchas pesadas que tínhamos tirado do armário. De dia era um calor absurdo, impossível me cobrir com aquilo.

- Muito frio. Ainda mais quando todo mundo desliga as luzes. A impressão é de que fica mais frio ainda. – ela levantou uma sobrancelha, e terminou de arrumar a cama. – Vou te deixar sozinho, pode tomar um banho se quiser, tenho que fazer uns exercícios de matemática. – ela deu um riso debochado. Sabia. Ela odiava matemática. Tava escrito em sua testa. Não pude deixar de rir.

- O que foi que você tá rindo? – ela disse rindo também.

- Nada. Vou tomar meu banho. Obrigado por tudo, Bella.

- De nada. – ela abriu a porta e saiu. – Qualquer coisa pode gritar.

Escutei os passos dela diminuindo de intensidade e então sentei na cama. Que garota absurdamente fantástica. Descansei um pouco minhas costas no colchão, e fiquei olhando pro teto. Agora que estava sozinho, sem a companhia de Bella, pude voltar a pensar em tudo que deixei pra trás. Aqui parecia um mundo paralelo, completamente diferente do que eu vivia, e estava gostando muito até agora. Claro que tinha um motivo. Uma pessoa que era o motivo. Ela estava fazendo tudo ficar mais fácil.

Eu tinha que me concentrar afinal ela não devia passar dos dezessete anos, e era um erro eu tentar alguma coisa. Mas era impossível não se encantar com Isabella Swan. Não tinha como. Ainda mais sendo tão completamente diferente de qualquer menina que eu tinha conhecido em minha vida. Ela era tão simples e tão cheia de vida ao mesmo tempo. Ela passava uma calma, uma certeza de que tudo ficaria bem, e da melhor forma possível. Sua presença chegava a ser viciante, como uma droga.

Me levantei e fui até o banheiro, que ficava ao lado do meu quarto, levando a toalha e minha mochila. O resto de minhas roupas havia ficado dentro da mala do carro, e só as teria quando Charlie chegasse. Tranquei a porta, me desfiz de minhas roupas que ainda cheiravam a faculdade, e entrei no chuveiro gelado. Respirei fundo, tentando mais uma vez pensar no que fazer, mas simplesmente eu não conseguia nem ficar nervoso e preocupado quando Isabella estava por perto. Parecia que ela tinha um poder especial, de acalmar as pessoas. De manipular as emoções.

Mais um ponto para a menina dos sorrisos.

O único shampoo que vi foi um de pêssego, que devia ser de Bella. Até no shampoo ela dava ênfase na existência das frutas. Lavei meu cabelo apenas com água para não gastar seu shampoo, mas assim que pudesse, pediria para que ela me indicasse onde ficava a farmácia.

Saí do banho renovado, e me sequei. Coloquei uma calça jeans e uma blusa sem manga, devido ao grande calor. Já dava pra sentir o suor querendo escorrer mesmo saindo de um banho gelado. Saí do banheiro e voltei para o quarto, colocando minhas roupas sujas em um cesto que tinha ao lado do armário. Porém nunca que eu deixaria Bella lavar minhas roupas.

Coloquei meu celular e minha carteira no bolso da calça e fui até a sala, onde encontrei Bella sentada no chão, com o corpo apoiado na mesa de centro entre o sofá e a lareira, resolvendo os mesmos problemas que eu estava olhando. Me sentei na poltrona perto, e fiquei olhando. A minha vontade era de pegar o papel e resolver todos de uma vez, mas ela tinha que aprender, então apenas fiquei na minha.

- Argh, eu não entendo essas coisas, elas simplesmente não conseguem entrar em minha cabeça. Isso me frustra! – ela disse dando um tapa no papel.

- Você não tem um professor, ou professora? Charlie me disse que você estudava em casa.

- Tenho uma professora, mas ela acabou de ter gêmeos e está em licença-maternidade, daí tenho que fazer todos os problemas e levar as dúvidas pra ela. Mas até agora o que tenho são muitas dúvidas e zero soluções. – ela suspirou e fez uma cara triste. Pela primeira vez eu estava vendo uma cara triste em Bella. E mesmo assim estava sendo encantador.

- Não fica assim. Quer ajuda?

- Você sabe matemática? – ela perguntou me olhando.

- Eu estudo engenharia. Adoro matemática e química. Eu posso te ajudar. – sorri.

- Você não tem cara que gosta disso. – ela riu. – Me desculpa, mas é. Você tem cara de quem faz Educação Física, ou... sei lá, música.

- Eu adoraria fazer música. Seria uma segunda opção. – sorri apontando para o espaço ao seu lado. – Posso me sentar?

- Claro! – ela sorriu.

Me sentei ao lado dela e começamos a fazer os problemas de matemática. Contei a ela que já tinha feito alguns antes de ela chegar, e ela disse que tinha visto, mas que não se importava. Afinal, se alguém sabia resolver aquilo, que resolvesse. Ela ficava tão brabinha quando não conseguia fazer os cálculos, que me encantava e me fazia sorrir. Dava vontade de afagar suas bochechas e falar que ela ia conseguir aprender.

Era fácil se relacionar com ela. Eu estava aqui a umas duas horas e parecia que nos conhecíamos por anos. Ela ria toda vez que eu passava a borracha em algum cálculo errado, e bufava quando tinha que refazer. Mas decidi que eu não faria por ela. Ela tinha que conseguir sozinha. Nem que eu passasse o dia inteiro aqui explicando. O que não seria nada ruim. Ficar em sua companhia era muito bom.

Fiquei embasbacado. Eu só conseguia olhar o jeito que ela olhava para o papel, como seus lábios eram mordidos enquanto ela pensava, seus olhos semicerravam com a complexidade do problema. Meu coração se preenchia, e passei a ter medo de começar a sentir coisas que nem eu mesmo aprovaria. Ela era uma criança, pelo amor de Deus!

- Olha, vejo que as crianças já estão se dando bem. – Charlie chegou, dando um susto nos dois. Bella deu um pulinho involuntário.

- Pai, pára de ser silencioso! – ela riu com a respiração ofegante.

- Edward, seu carro já está aqui na garagem. – ele falou, ignorando a recepção de Bella. - Pode pegar suas coisas e colocar lá em cima. Realmente, olhei com Sam, é o motor que fundiu. Duas semanas no mínimo, meu filho.

- É, eu já esperava. – falei me levantando e colocando o lápis em cima da mesa. – Vou lá fora pegar minhas coisas.

Fui rapidamente até meu carro e peguei todas as minhas coisas, levando para meu quarto. Assim que coloquei a mala no chão e me levantei, vi Bella parada na porta sorrindo.

- Finalmente vou ter companhia por duas semanas. Geralmente passo a tarde inteira sozinha.. Charlie sempre só volta oito, nove da noite.

Se fosse da onde eu vinha, eu poderia interpretar isso como um sinal de que ficaríamos sozinhos, e que Bella realmente torcia pra isso. Tanya era assim. Toda a vez que Angela, sua amiga de quarto, ia passar uns dias com a família, era justamente o que ela me falava. Mas esse tipo de coisa não era de Bella. Não era de seu feitio. Ela realmente deveria estar falando de companhia, de poder resolver problemas de matemática ou experimentar seus sucos. De ter um amigo. Um amigo diferente, do qual ela pudesse aprender coisas novas com ele. E eu também estava adorando ter uma amiga assim.

E eu não podia decepcioná-la. Mesmo pelo pouco tempo, eu já me sentia ligado a ela em proporções imensuráveis.

- Agora posso falar com certeza absoluta que você vai aprender Equação de 2º grau. – devolvi o sorriso, e Bella revirou os olhos bufando. Linda.

- Você quer fazer alguma coisa? Conhecer a cidade? Posso te mostrar. – ela falou estalando os dedos e mordendo o lábio inferior.

- Você tem tempo livre? – perguntei abrindo minha mochila e tirando algumas coisas de dentro, procurando um lugar para colocar.

- Claro. – ela riu. – Não tenho nada para fazer, já estudei, estou louca para ir até a livraria da rua principal e ver se meu livro chegou, e poderia te mostrar a cidade. Não vai demorar. Garanto que você conhecerá tudo em menos de uma hora. Aqui é muito pequeno. – ela riu novamente.

- Eu topo. Vou aproveitar e comprar algumas coisas. E ver se meu celular pega no tal banquinho do ponto de ônibus. – sorri.

- Isso! – ela falou animada. – Vamos! Até a hora que voltarmos, já vai estar na hora do almoço.

- Posso te ajudar com isso.

- Claro que não! – ela rebateu rindo, enquanto íamos de encontro a rua.

- Bella, eu já falei que eu quero ajudar.

- Sim, mas quem manda no almoço sou eu. – ela soltou as presilhas do cabelo e fez um rabo de cavalo. Nossa proximidade era tanta que pude sentir o cheiro de seus cabelos.

Realmente, o shampoo de pêssego era dela.


:)

Obrigada pelas reviews lindas meninas!!! S2

Sexta que vem, mais um capítulo! :)