CAPÍTULO IV


Um novo dia raiou sob Kyoto. Petrificada como uma estátua de pedra, Chiyo olhava para a janela. O Inverno já havia ido á muito mas a respiração da bela moça fazia prever a temperatura baixa da manhã, contudo ela apenas vestia uma fina yukata de seda lilás com um dragão bordado a fio de ouro e fio vermelho.

Os olhos avermelhados e húmidos faziam prever as lágrimas decentes que haviam debotado deles. As olheiras e os olhos inchados revelavam a noite que passaram sem dormir. Com um nó da garganta, ainda não acreditava no que lhe tinha acontecido na noite anterior em que o seu pai querido lhe revelou que estava noiva.

- Já está acordada, Chiyo-dono?

Uma voz masculina perguntou atrás dela, assustando-a. Limpando as lágrimas dos olhos com rapidez, Chiyo fingiu um sorriso e virou-se para Gackt, que estava deitado ao lado dela no seu futon, com os louros cabelos desalinhados e os olhos verdes com uma interrogação.

- Sim, eu levanto-me cedo. – mentiu Chiyo, com um sorriso fingido.

- A mim parece-me mais que não dormiu nada! – disse Gackt reparando nas olheiras dela.

- Eu fico sempre com esta cara horrível de manhã! – riu-se Chiyo, tentando disfarçar o seu coração destroçado.

- A sua cara nunca é horrível. – sorriu Gackt, levantando o tronco, olhando o rosto dela. A mão do jovem militar tocou a pele delicada do rosto dela. Sorriu como scannizando com os olhos o corpo dela. – É tão bonita …

Chiyo sorriu como agradecimento, mas Gackt olhou os lábios carnudos dela e a bela moça percebeu as intenções que ele tinha. Ainda tentou virar a face mas a mão dele prendia o seu queixo e os lábios de ambos juntaram-se.

Chiyo forçava os lábios para que Gackt não conseguisse entrar na sua boca. Aquele beijo mortífero parecia não ter fim. E quando o jovem percebeu que ela não lhe iria dar permissão para intensificar o beijo, desistiu, mas separou-se dela com um sorriso.

- Percebo que seja muito cedo para uma jovem tão pura como você, Chiyo-dono!

A moça corou ao perceber que o noivo até da sua virgindade tinha conhecimento e isso deixava-a embaraçada. Sentiu uma raiva pelo pai por ter negociado até a sua vida íntima que só a ela lhe diz respeito. O seu maior receio era ter de perder a sua pureza para aquele militar que apesar de muito atraente ela não o amava.

- Mas, mais tarde ou mais cedo terá de ceder!

Esta frase assustou ainda mais Chiyo e ver Gackt a fazer pressão sob ela com o seu corpo musculado ainda mais. O jovem empurrou-a para o futon e deitou-se sobre ela, com todo o seu peso apoiado no frágil corpo da bela moça, que estava assustada.

Gackt afastou a seda da yukata, revelando os ombros brancos de Chiyo, que tentava empurra-lo, mas não a falta de força física impedia-a de cumprir o seu objectivo.

- Por favor não! Pare!

Gackt sorriu e beijou-lhe o pescoço, o que fez com que lágrimas se começassem a formar nos olhos de Chiyo, que só desejava que alguém o fizesse parar.

- Não se preocupe, não vai doer nada!

- Mas eu não quero! Pare! – implorou num fio de voz a jovem.

Mas o jovem militar não parou. A mão perspicaz dele desceu para o nó da yukata dela e desfê-la; em pânico Chiyo batalhou por baixo do robusto corpo dele, para se libertar. Agarrou com força a seda da yukata para evitar que Gackt visse as suas partes íntimas.

- Porque é tão difícil? – perguntou Gackt. – Você é a minha noiva!

- Por favor … pare! – implorava repentinamente Chiyo, com lágrimas a marchar-lhe o belo rosto de porcelana – Eu não quero isto! Pare!

- Não há mal nenhum nisto! – repetia Gackt, despindo-se ao mesmo tempo – Eu apenas vou unir-me a si!

- Pare! Por favor … - a voz chorosa de Chiyo estava fraca e a jovem estava muito cansada para continuar a batalhar com o hirto corpo do noivo.

Sentindo que o corpo da noiva parou com os bruscos movimentos, Gackt despiu-se completamente e revelou o seu órgão íntimo para ela, já erecto. Ao vê-lo, os olhos virgens de Chiyo arregalaram-se com pavor e o peito da jovem começou a arfar de pânico. Sacudindo os braços dela para os lados, brutamente o jovem militar arrancou a yukata de seda do corpo fino da moça, revelando a nudez pura para si.

- Vénus de porcelana … - murmurou ele.

Chiyo abanava a cabeça em sinal de negação e numa imploração muda. O pânico e o choque tinham-lhe congelado o corpo, impedindo-a de fugir ou gritar. Ao sentir as mãos de Gackt tocarem no seu corpo as lágrimas silenciosas começaram a cair dos seus olhos com mais intensidade. Sentia os calos ásperos a raspar na sua pele delicada. Mas não era a dor física que a fazia chorar, mas sim o choque psicológico. Pensou em Okita! Sonhou que o seu amado a viesse resgatar das garras daquele malvado vilão!

Os seus olhos abriram-se quando sentiu algo duro a pressionar no meio das suas coxas. Olhou para baixo e aterrorizada viu Gackt a tentar forçar-se no seu interior, segurando na mão o seu órgão íntimo. No rosto dele estava estampada uma imagem de esforço.

- Tão … apertada …! – rugia Gackt entre dentes, fazendo mais força.

- Pare com isso! – implorou Chiyo, sentindo a pressão da dureza contra a sua zona sensível – Isso dói!

- Relaxe os músculos! – ordenou Gackt.

- Não! Pare, por favor!

Gackt continuou a tentar forçar-se no interior da sua noiva, de dentes cerrados e expressão de esforço máximo, mas quando aplicou a sua força suprema o topo do seu membro escorregou para o exterior.

- Não consigo penetra-la! - murmurou Gackt, espantado com tal situação.

Acabando por desistir o noivo levantou-se da cama e dirigiu-se ao seu armário para vestir o seu uniforme militar.

Chiyo abraçou o seu corpo nu com lágrimas a escorrerem-lhe pelo rosto. Ouviu os passos do seu noivo, ele a abrir portas. O seu corpo ainda estava paralisado com o choque. O som do tecido a raspar na pele dele era claro nos seus ouvidos. Mas a sua visão estava turva. Ouviu os passos a aproximarem-se de novo e sentiu o peso de Gackt a cair no futon. As mãos dele acariciaram o braço dela e os lábios deram um beijo na face da bela moça.

- Desculpa. Para a próxima irá correr bem!

- Não quero próxima! – pensou Chiyo, ouvindo novamente os passos do noivo e uma shoji a deslizar em sinal de fecho.

Quando sentiu que Gackt estava demasiado longe para ouvir, dos seus olhos começaram a debotar lágrimas e soluços de tristeza saíram da sua garganta. Com apenas uma pessoa em mente.

Okita Souji …


Ayu-nee observava a partir da janela da cozinha o rosto pensativo e de olhar perdido do capitão do primeiro esquadrão dos Shinsengumi. Reparara como ele andava estranho. Muito estranho! Sempre pensativo e com aquele olhar vazio, sem expressão. Nem sequer ia comprar doces! Algo se passava com ele. Mas por mais voltas que a jovem cozinheira desse á cabeça não conseguia decifrar o que seria.

Abandonou o seu posto de trabalho e dirigiu-se ao jovem capitão. Lá estava ele, sentado na passadeira de madeira do Dojo que dava acesso aos aposentos dos capitães.

- Olá Souji-kun! – sorriu a jovem cozinheira, fazendo Okita sair do seu 'adormecimento'.

- Ayu-nee-san! – exclamou ele ao vê-la. – Olá!

- Está tudo bem? – perguntou Ayu-nee – Parece-me que tem estado triste nestes dias.

- Não se preocupe! É apenas depressão sazonal!

- Depressão sazonal com estes maravilhosos dias de sol que têm havido? – riu-se a cozinheira, sentando-se ao lado dele – Pode falar a verdade. Até parece que lhe sou de confiança …

- Não me leve a mal! – sorriu gentilmente Okita, olhando para ela – Mas há coisas que preferimos guardar só para nós.

- Está assim tão apaixonado?

- O quê?! – Okita sobressaltou-se e olhou para ela.

- Eu sou mulher eu percebo!

- Mas eu não sou uma mulher!

Este comentário repentino de Okita causou uma gargalhada em Ayu-nee.

- Não estava a dizer que eu percebia porque somos do mesmo sexo! – riu-se ela – Eu apenas estava a dizer que conseguia ver que estás apaixonado. E tenho uma pequena ideia de quem seja …

- Porque é que vocês as mulheres pensam que sabem sempre tudo? – reclamou Okita, com olhar fixo – Ayu-nee-san, não me leve a mal, mas você pouco sabe da minha vida!

- É aquela rapariga que tu trouxeste cá ao Dojo, não é?

Okita olhou Ayu-nee com ar surpreendido, a jovem cozinheiro sorriu em retorno. Okita deixou a cabeça cair e deu um alto suspiro e fez sinal positivo com a cabeça.

- EU SABIA! – gritou histericamente Ayu-nee, abraçando o capitão.

- Porque essa festa toda?! – resmungou Okita – Nem sei se ela sente o mesmo …

- Mas que raio? – a cozinheira levantou-se num salto e levou as mãos á cintura – Onde está o Okita Souji alegre e bem-disposto que eu conheço?

- Algures chegado aqui dentro! – filosofou Okita, batendo na cabeça levemente com um dedo.

Ayu-nee suspirou em desanimo e ajoelhou-se em frente a ele, olhando nos olhos violeta do jovem.

-Queres um conselho? – ele acenou positivamente com a cabeça – Se ficares aqui fechado não vais resolver nada! Se está certo que estás mesmo apaixonado por essa rapariga, vai ter com ela e diz o que sentes!

- Mas e se ela negar-me?

- Se não falares com ela nunca irás saber!

- Tem razão, Ayu-nee-san! – sorriu Okita levantando e dirigindo-se á saída do Dojo – Volto logo!

- FORÇA NISSO! – gritou, histericamente, Ayu-nee.


Aquela tortura silenciosa parecia não ter fim para Chiyo. A bela moça trocara a yukata para uma seda cinza. Novamente estava sentada no futon, ainda com os lençóis desordenados. Os seus olhos estavam vermelhos e inchados do choro. Ouviu alguém bater á shoji.

- Chiyo-bochan? – uma voz familiar e feminina soou do outra lado da shoji.

- Pode entrar, Fey-san – a voz dela era sem vida, como se estivesse a entrar em estado vegetativo.

Ouviu-se a shoji a ser deslizada para o lado e um vulto entrou mas permaneceu á entrada.

- Está lá em baixo uma pessoa que a quer ver. – informou.

- Quem?

- Aquele rapaz do outro dia. - respondeu Fey.

Esta frase acordou imediatamente Chiyo, que se virou para trás e encarou a empregada do Inn.

- Okita-san está aqui?

- Sim, Chiyo-bochan. – assentiu positivamente – Está no andar de baixo. Irá ter com ele ou peço para ele subir?

Chiyo pensou sobre o que seria melhor, mas encontrava-se de yukata nocturna e talvez não lhe desse uma boa imagem andar a passear-se por um Inn cheio de homens de média idade e tarados naqueles trajes.

- Mande-o subir.

Fey lançou-lhe um ar admirado de que 'não era de boa rapariga ficar sozinha num quarto com um rapaz' mas Chiyo apenas a ignorou. Ao ouvir a shoji fechar-se, correu para o banheiro a lavar seus olhos com água fria.

Ao regressar ao seu quarto, ouvi as vozes no corredor e seu coração começou a acelerar ao perceber que ia ficar a sós com Okita, contudo a felicidade não conseguia invadi-la devido aos acontecimentos recentes. A shoji deslizou e ele apareceu á sua vista. Okita estava nervoso. Os olhares de ambos cruzaram-se. Ao ver esta troca de olhares silenciosa, Fey soube que estava na altura certa de abandonar o quarto e fechou a shoji atrás de si e correu para Nakiwazi.

- Tudo bem com você, Chiyo-san? – foi a pergunta que escapou da garganta de Okita.

Chiyo limitou-se a acenar positivamente com a cabeça.

- Peço desculpa, aparecer aqui sem lhe pedir permissão.

- Amigos são sempre bem-vindos! – sorriu Chiyo.

- Pois … amigos …! – suspirou Okita – Eu precisava mesmo falar com você!

- Sobre?

Okita baixou a cabeça, desviando o seu olhar para o lado, suspirou, procurando inspiração.


CONTINUA ...