Capítulo Três: As Aulas de Dança
Gina.
Era esse nome que assombrava os pensamentos do agente quando Harry largou o pesado casaco de inverno no chão de seu quarto e se jogou sobre a enorme e solitária cama de casal, não muito preocupado em trocar suas roupas por um pijama - ou seus velhos moletons, no caso.
Soltando um profundo suspiro, o homem ficou com o olhar preso ao teto, os braços esticados como se indo à cruz. Contudo, diferentemente de Jesus Cristo, Harry não era nenhum santo salvando a humanidade. Na verdade, o homem era um pecador sem igual, assim como todo ser humano, pequeno e inconstante.
E, em seus pensamentos pecaminosos, apenas uma única coisa passava por sua mente ao se tratar da tal Gina: Queria matar aquela mulher.
Franzindo o cenho para o teto branco, xingou a ruiva dos mais variados nomes que foi capaz de se lembrar, ainda inconformado com o choque que recebera com aquelas palavras.
"O senhor deve ser um homem bastante infeliz"
Ora, quem ela pensava que era?
Bufando, Harry virou-se na cama, enterrando o travesseiro sobre sua cabeça e resmungando coisas ininteligíveis. Ao fechar os olhos, conseguiu ver com clareza absurda cada traço bonito das feições da mulher; olhos grandes olhos castanhos, os lábios cor de cereja, o cenho franzido, as delicadas sardas cobrindo seu nariz e maçãs do rosto.
E, em seguida, as palavras.
Filha da puta.
Grunhindo, Harry se levantou e cambaleou até a sala e indo até o bar que mantinha, procurando por alguma bebida alcoólica forte o suficiente para nocauteá-lo por uma noite inteira, que o fizesse acordar com uma ressaca desgraçada no dia seguinte e que fosse capaz de arrancar aquela mulher de cabelos vermelhos de sua mente já perturbada o suficiente. Ao perceber que todo o seu arsenal estava vazio - onde diabos fora parar toda a sua bebida? - Harry praguejou alto e sentiu vontade de chutar alguma coisa.
"Sinto pena do senhor"
Ele não precisava de pena alguma, muito menos dela - a desconhecida intrometida, ele pensou, jogando-se no confortável e elegante sofá de sua casa de modo brusco, caçando o controle remoto e ligando a televisão. Seus dedos mudaram ágeis os canais, passando desde programas culinários a filmes mais velhos que sua antiga professora de Geografia, Minerva McGonnagall.
Droga - quem ela pensava que era para dizer aquelas coisas?
Os gritos de torcida o fizeram parar de trocar de canal, e ele pareceu brevemente interessado no jogo de rúgbi que acontecia do outro lado da tela. Contudo, nem ao menos os esportes foram capazes de manter Harry distraído de seus pensamentos - aquela mulher, aquela maldita mulher vinha atormentá-lo a cada momento, com suas palavras dolorosas e secas.
"covarde o suficiente de reparar apenas nos defeitos alheios"
Desta vez xingando os piores palavrões possíveis em um tom furioso e alto, Harry se levantou e chutou a mesinha de centro de sua sala, como se aquilo pudesse aplacar sua raiva. Seu dedão do pé imediatamente gritou em dor, e sentindo a fisgada incomodá-lo tanto quanto aqueles pensamentos faziam, ele praguejou mais uma vez:
- Filha da puta!
Ele continuou repetindo tais palavras, como um mantra, até que a raiva se transformasse em cansaço, e Harry se atirasse no sofá mais uma vez, desta vez de modo derrotado e submisso a tudo aquilo.
Descansando os braços nas pernas e inclinando o corpo, o agente fechou os olhos e suspirou mais uma vez, absorvendo mais uma vez aquela frase frustrante.
Ela estava certa - e aquilo era o pior de tudo, em sua opinião.
Deitando-se no sofá, ele tornou a encarar o teto, desta vez de sua sala - e agora sem a fúria o incomodando. As íris verdes mostraram o quanto seu dono estava perdido enquanto Harry pensava em tudo o que já havia acontecido em sua vida, e quanto o desgosto e a desilusão já haviam tomado conta de seu ser; ele era praticamente como um velho cheio de amargura.
As palavras de Gina ainda estavam fixas em sua mente quando o homem abriu os olhos pela primeira vez na segunda-feira, às oito e quinze da manhã. Resmungando, esfregou o rosto com uma mão, tentando se livrar da horrível sensação de sono que sentia e compreendendo, ainda que remotamente, que precisava fazer a barba.
Bocejando ruidosamente, girou o corpo e olhou para a cabeceira da cama, procurando saber que horas eram. Ainda com o semblante marcado pelo sono, notou que a luz da caixa postal de seu telefone estava aceso, e franziu o cenho levemente em confusão. Não se lembrava de ter visto aquela luz acesa antes de ir se deitar...
De qualquer modo, ele não poderia afirmar nada. Estava bêbado quando finalmente alcançara sua cama na noite anterior, após finalmente ter encontrado suas bebidas - ou o que restara delas nas mãos de Sirius, aliás.
- Mas que diabos... - ele murmurou, a voz rouca. Contudo, apesar da pequena curiosidade que sentia, não apertou o botão para saber quem lhe deixara mensagem; estava com uma preguiça - e uma dor de cabeça - dos infernos para sequer pensar em erguer o braço.
Demorou até que Harry pudesse realmente acordar. Quando isto aconteceu, as lembranças de seu final de semana e das obrigações que teria para aquele dia o invadiram com uma força sobrenatural, o suficiente para que ele imediatamente se levantasse e se arrastasse até o banheiro, pronto para sua higiene matinal. Feito isso, retornou ao quarto e apertou o botão da secretária eletrônica, esperando ouvir a mensagem enquanto procurava por uma muda de roupas limpa.
- Harry, aqui é Marlene. - a suave voz feminina ecoou do outro lado da linha, fazendo com que Harry erguesse um pouco o canto de seus lábios ao escutá-la - São três e meia da manhã, onde é que você está? - ela soou irritada e preocupada, como toda mãe faria, e em seguida suspirou - Deixa para lá. Não é como se você fosse realmente me responder... De qualquer modo, não poderei ir com você até a instituição.
Houve uma pausa, em que Marlene ficou silenciosamente tensa do outro lado da linha, ao mesmo tempo em que um tenso e cansado Harry parava sua procura por uma camiseta limpa para lançar um breve olhar ao aparelho.
Quando ela tornou a falar, o tom de sua voz expressava ansiedade:
- Eu sei que é um dia... Bem, importante - ela concluiu, incerta - Mas meu chefe marcou a reunião para as dez horas. De qualquer modo, prometo que irei ver Emily ainda hoje... Só não poderei ir com você. Provavelmente irei com Sirius após o trabalho. Caso queira ir conosco, por favor, me ligue lá pelas três horas. - houve mais silêncio do outro lado da linha, como se a promotora estivesse pensativa - Oh. Hoje é seu primeiro dia na escola de danças, não é? Provavelmente você vai estar lá a essa hora... Bem, nos falamos mais tarde, então. Amo você, querido.
Houve um pequeno bip, e o quarto entrou mais uma vez em silêncio. Harry continuou estático, ainda encarando o telefone.
Ele teria que visitar Emily. Sozinho.
Há quanto tempo não tinha forças o suficiente para fazer isso - especialmente num dia como aquele?
"O senhor deve ser um homem bastante infeliz"
Fechando os olhos, Harry suspirou e retornou a sua procura por camisetas limpas.
Eram nove e meia da manhã quando Harry entrou no elevador de seu prédio e apertou o botão para que fosse até o subsolo. Encostando-se a uma das paredes, ele colocou as mãos no bolso do jeans e relaxou o corpo, observando tediosamente os números eletrônicos diminuírem conforme ele descia ao térreo.
Quando o elevador parou no quinto andar, sete andares antes do seu, Harry estava ponderando entre orquídeas ou margaridas para levar à Emily aquele ano. As portas se abriram enquanto o agente se lembrava que já havia levado margaridas no ano anterior e que, com certeza, a mulher apreciaria muito mais as orquídeas. Emily nunca fora muito fã de flores, no final das contas.
Definitivamente, ele levaria orquídeas.
- Harry!
Ele ergueu o rosto, deparando-se com o sorriso largo e simpático de Hermione Granger. Os cabelos cheios e encaracolados da médica cirurgiã faziam um contraste bonito com os traços de seu rosto feliz e sorridente, rosto este que Harry conhecia há anos, praticamente desde o jardim de infância. Hermione era, em termos gerais, sua melhor amiga - até que a vida profissional de ambos os tivessem engolido e feito com que ficassem mais afastados do que realmente gostariam.
- Bom dia. - ele respondeu com um aceno casual, enquanto a médica ficava na ponta dos pés e beijava sua bochecha com um carinho de irmã. Alegremente, ela se colocou ao lado de Harry.
- Bom dia! Tenho boas noticias. Na verdade, são ótimas notícias!
Harry ergueu uma sobrancelha, seu humor apático contrastando com a alegria contagiante e quase infantil da doutora. Hermione deu uma risadinha que não era sua, e suas bochechas coraram enquanto ela erguia as mãos para que Harry as observasse.
- E então? - seu tom estava elevado, quase eufórico - O que acha? O que acha? Hum?
- Não sei, suas mãos estão praticamente na minha cara! - o agente reclamou, segurando as mãos de Hermione e as afastando de si, para encará-las a uma distância melhor e segura - O que foi? Você pintou as unhas de uma cor esquisita ou o quê? Porque, sério, você não espera sinceramente que um homem vá notar em -.
E então ele se calou, ao perceber a delicada aliança que adornava o anelar de sua amiga; o anel era do tom dourado tradicional, mas possuía uma camada de pequenos diamantes sobre a superfície.
O queixo do agente caiu. Hermione gargalhou alegremente, enquanto as portas do elevador se abriam e ela saia praticamente saltitante do cubículo de metal. Harry a acompanhou, mas em passos lentos e ainda com a expressão inconformada em suas feições.
- Eu vou me casar! - ela exclamou aos risos.
- Mas - c-como - quem?
Ela riu ainda mais da reação do amigo.
- Rony Weasley. Você se lembra dele, não se lembra? Eu o apresentei naquela festa de final de ano, na casa de minha mãe. Vocês ficaram por horas conversando!
Harry franziu o cenho, procurando se lembrar de algum jantar de final de ano. Fazia pelo menos dois anos desde que Harry fora jantar com os Granger, e geralmente ele sempre terminava bêbado em tais jantares tamanha a chatice dos parentes da amiga- na verdade, ele ia apenas para não entristecer Hermione.
Qual a probabilidade de que o tal Ron Weasley tivesse conversado com ele enquanto ele fingia sobriedade?
- Ah. - Harry murmurou, fingindo compreensão. Hermione franziu o cenho.
- Você não se lembra.
O homem suspirou, derrotado.
- Não, não me lembro.
Ela balançou a cabeça.
- O ruivo, que conversou com você a noite toda - ela insistiu.
- Acho mais fácil encontrá-lo outro dia, novamente, Mione. - o agente se desculpou, soltando um pequeno sorriso embaraçado - Não acho que vou conseguir me lembrar agora e... -.
- Ótimo! Então você vai à festa de noivado hoje à noite! - ela exclamou, pouco se importando com o resto da explicação dele.
-... As coisas têm sido complicadas e - espere um pouco, o quê? - Harry balançou a cabeça, confuso.
- Minha festa de noivado será hoje à noite. - Hermione repetiu, agora um pouco mais controlada - Às sete e meia. Quero que você vá - ela disse num tom mandão, mas sorriu em seguida - Afinal - seu sorriso alargou - quero você como um dos padrinhos.
Harry arregalou os olhos.
- Hermione - ele disse num tom sério e surpreso - Você sabe como eu sou, sabe como não sou muito o tipo de -.
Ele se calou quando ela o abraçou.
- E, mesmo assim, você é como o irmão que eu nunca tive. - ela sussurrou - Você sabe como isso é importante para mim Harry, por favor.
Harry sabia que nunca seria capaz de dizer não aos pedidos de Hermione, especialmente os feitos com tanto carinho. Além de Marlene, que conseguia lê-lo com uma facilidade absurda, Hermione era a única que conseguia perfurar sua carapaça de frieza e despertar grande parte de seus sentimentos adormecidos.
Suspirou.
- Tudo bem, tudo bem. Se você me chamar para ser padrinho, eu serei - e, sobre sua festa de noivado, eu irei, mas chegarei um pouco mais tarde por causa da - er, por causa do trabalho.
Ele quase dissera aulas de dança. Jesus, ela iria rir de sua cara por toda a eternidade se ele tivesse dito!
Ela o apertou em seu abraço, agradecendo-o horrores por sua decisão. Por fim, disse que precisava ir trabalhar e despediu-se com a promessa que colocariam todo o assunto em dia hoje à noite.
Quando Harry entrou no carro e deu a partida, ele já não sorria mais, mas mantinha um cenho franzido e um semblante completamente fechado.
Hora de retornar à sua própria vida.
Hora de retornar à sua realidade.
Ele rumou em direção à instituição regional, pronto para se encontrar com Emily.
Era quase o horário do almoço quando Harry decidiu finalmente sair da instituição, as mãos agora sem o buquê de flores que trouxera à Emily. Com as mãos no bolso do jeans e a postura levemente inclinada para frente, ele caminhava de cabeça baixa, distraído - não era como se ele realmente precisasse prestar muita atenção no caminho que fazia em direção a saída, afinal; há quantos anos já fazia o mesmo percurso?
Ao sentir os primeiros raios de sol daquele dia frio bater contra seu corpo ao finalmente sair do prédio, ergueu o rosto e franziu levemente o cenho, perdido em pensamentos e lembranças de um tempo longínquo e feliz. Observou enfermeiras caminharem lado a lado com figuras vestidas de branco, idosos e pessoas que mal sabiam seus nomes conversando alegremente sobre o dia bonito, sobre os pássaros, qualquer banalidade do tipo.
Imaginou se Emily gostaria de ver tudo aquilo - não, ele sabia que ela gostaria. Ela sempre via beleza em tudo, até nas coisas mais feias.
Sentia saudade dos largos sorrisos dela, bem como de sua risada desafinada.
Por fim, balançou a cabeça e retornou à caminhada, até alguém o impediu, chamando-o:
- Harry!
Pela segunda vez no dia, o homem encarou uma figura feminina de jaleco branco vindo em sua direção. Contudo, diferentemente de sua reação para com Hermione, o cenho do homem se aprofundara ainda mais. Pelo ar tenso nas feições da mulher, ele sabia exatamente o que ela iria conversar com ele.
E, exatamente por saber, dera-lhe as costas e continuara sua caminhada.
- Harry, por favor - Harry, espere!
Ela o alcançou após uma boa corrida. Fora preciso colocar sua mão sobre o ombro do homem para que ele finalmente parasse de caminhar e tivesse a dignidade de se virar para encará-la. Ao fazê-lo, a jovem doutora percebeu o tom de desgosto que ele possuía em seus olhos e expressões faciais.
A doutora Padma Patil sabia o quanto Harry Potter a detestava.
- Doutora Patil. - Harry a cumprimentou friamente com um aceno breve. A mulher engoliu em seco, em pura tensão, antes de começar:
- Harry - eu, nós, bem - precisamos conversar e -.
- Precisamos? - ele perguntou secamente, medindo-a com o olhar. Se existia algo de realmente intimidador em Harry Potter, esse era seu olhar; o homem era capaz de derrubar um gigante apenas com um olhar de profundo desgosto. E a reação que seus olhares causavam não foi diferente com Padma.
Afastando sua mão do ombro dele, como se tivesse levado um choque, ela começou a brincar com uma das mechas de seu cabelo incrivelmente negro, deslizando-o entre os dedos femininos, embaraçada.
- Bem, sim, você sabe. A respeito de Emily. - disse a última frase num tom tão baixo que Harry poderia fingir que não havia a escutado. Mas ele não fingiu. Na verdade, torceu o nariz como se tivesse cheirado algo extremamente ruim.
- Já sabe minha decisão. - ele respondeu brusco, antes de dar as costas àquela criatura impertinente e retornar sua caminhada. Padma pareceu recuperar um pouco sua força.
- Você não pode fazer isso! - ela exclamou, inconformada - Você deveria ter um pouco mais de consideração pela sua -.
- Não! - Harry a interrompeu, o tom de sua voz alto e ameaçador. O silêncio caiu entre os dois, e a tensão tinha suas interrupções apenas graças aos sons dos pássaros em todo aquele ambiente branco e florido - Não se atreva a dizer que não possuo consideração a ela... Não se atreva a dizer isso. Ela ainda... Ela ainda pode voltar. Tudo ainda pode mudar.
Mas, quando ele deu as costas a Padma e tornou a se afastar, ele não tinha certeza de suas próprias palavras; a única coisa que sabia, entretanto, era que não conseguiria deixar que Emily se fosse.
Não ainda. Talvez nunca.
E Harry sabia o quanto era egoísta a respeito daquele assunto tão delicado.
"Sinto pena do senhor"
Às quatro horas, Harry finalmente parou à porta da escola de danças, o humor já totalmente destruído pelo dia - e, especialmente, por aquele momento em que seria obrigado a passar por uma das maiores humilhações de sua vida. Observando o prédio relativamente pequeno e muito bem arrumado, fez uma careta desgostosa antes de abrir a porta e subir as escadas.
Não demorou muito para que ele se encontrasse no primeiro andar, onde existia uma recepcionista oriental e de longos cabelos negros. A mulher, identificada como Cho Chang no crachá preso em sua camisa branca, abriu um largo e empolgado sorriso ao vê-lo.
- Boa tarde. - ela disse com o mesmo sorriso, sua voz soando em um tom melodioso e sensual, apoiando os braços sobre o seu balcão e se inclinando um pouco. Harry sabia que, se quisesse, poderia espiar com facilidade por entre os botões abertos daquela camisa, mas não o fez.
- Boa tarde. - retribuiu o cumprimento, colocando as mãos no bolso do jeans - Minhas... Aulas, elas começam hoje. - disse num tom forçadamente calmo, procurando a todo o custo evitar demonstrar qualquer expressão negativa.
Cho soltou um pequeno "oh", compreendendo-o, antes de dizer:
- Ah, sim, o senhor deve ser o senhor Harry Potter, certo? O senhor Sirius Black disse que suas aulas começariam hoje.
Ao observá-la soltar uma pequena risadinha, Harry ergueu a sobrancelha. Não me diga que você deu toques para que ela tentasse flertar comigo, Black, ele pensou entediado.
- É, elas começam hoje. - ele respondeu, procurando manter o tom educado a todo o custo. Cho se ergueu de sua cadeira e contornou o balcão, abrindo outra porta, que levava a um corredor branco e bem iluminado, cercado de figuras de dançarinas.
- Por favor, acompanhe-me, senhor Potter. - ela disse com seu tom melodioso - Vou levá-lo até sua primeira aula, e apresentar-lhe o caminho para que se familiarize com o local.
E Harry a acompanhou, reparando no tamanho ridículo da saia social da recepcionista e na forma como ela forçava um rebolar ao caminhar. Definitivamente, Sirius deveria ter falado muito bem de sua pessoa para que ela estivesse tão empenhada em fazê-lo repará-la.
Finalmente, chegaram a uma porta recém-pintada de branco, onde uma musica antiga e relaxante ecoava do outro lado. Cho sorriu.
- Eles devem ter acabado de começar o alongamento. - ela pensou em voz alta, abrindo a porta - Mas não tem problema, não acredito que Gina vá se incomodar.
Espere um pouco. Gina? Não pode ser -
Mas era, e foi a primeira coisa que Harry percebeu ao pisar dentro daquele recinto, ignorando pela primeira vez na vida todos os olhares curiosos que as pessoas lançavam em direção. Seu olhar estava única e exclusivamente focado na mulher ruiva de grandes olhos castanhos, que parava de se alongar e o encarava com uma expressão igualmente indignada.
- Gina, esse é seu novo aluno. - Cho disse alegremente - O sobrinho de Sirius Black, lembra-se? Ele veio aqui na semana passada.
A tal Gina parecia incapaz de se recompor, enquanto seus olhos inconformados perscrutavam a figura de Harry, que se enchia de uma sensação de desgosto e incredulidade.
Por fim, ela pareceu se recompor, pois colocou um forçado sorriso educado em suas belas feições, e se adiantou em direção a ele.
- Ah, sim, eu me lembro. - ela disse, como aquele tom aveludado de voz. O mesmo tom que era capaz de cutucar os desejos de Harry e, ao mesmo tempo, de espetar suas próprias feridas. Gina estendeu a mão em direção a Harry, obrigando-se a ser educada - Seja benvindo, senhor Potter.
Harry batalhou durante segundos com seu eu sobre aceitar ou não aquela mão. Por fim, apertou-a, por mais que seu maior desejo fosse dar as costas e sumir dali no exato instante - ainda que parte de si quisesse, de uma forma muito imbecil ao seu ver, estar próximo à ela.
Que masoquista ele era.
- Muito obrigado, er -.
- Gina Weasley.
- Certo. Muito obrigado.
Espere um pouco, Harry pensou pela segunda vez naquele dia. WEASLEY?
Não, Deus, por favor, não faça com que esse sobrenome esteja relacionado a Rony Weasley. Por tudo o que é mais sagrado!
- Bem, vamos dar inicio às aulas de hoje. - Gina disse, dando-lhe finalmente as costas. Mas, Harry percebeu, seus olhares ainda se encontravam pelo enorme espelho preso à parede.
- Senhor Potter, o senhor está fazendo o movimento errado.
Crucifique-me por isso, Harry pensou entediado e irritado quando escutou a voz de Gina dizer aquela frase já tão conhecia ao agente mais uma vez. Inspirando profundamente e soltando a sua parceira - uma simpática senhora perto dos cinqüenta anos, que adorava contar sobre os grandes feitos empresariais de seus filhos - Harry se virou, cruzando os braços e encarando, exasperado, a bela figura de sua professora.
Gina se aproximou, as íris castanhas demonstrando confusão entre a raiva que nutria pelo homem e o senso de ensino que sentia por cada aluno - e que não seria diferente com ele.
- O senhor precisa soltar mais seu corpo. - ela o instruiu, lançando um olhar para ele e para a senhora risonha - Desse jeito a senhora Thompson terminará a aula com menos dedos nos pés.
O cenho de Harry se aprofundou enquanto sua parceira ria graciosamente do comentário da professora.
- Oh, querida - a senhora Thompson sorriu - O senhor Potter está muito bem para uma primeira aula.
Fora a vez de Gina franzir o cenho, enquanto as íris esverdeadas e Harry brilhavam silencioso triunfo.
- Não, não está. - Gina murmurou frustrada, escondendo-o através de um bufo. Em seguida, pareceu magicamente ter recuperado o controle, pois sorriu para a senhora e disse: - Importa-se de esperar um pouco, Isabel? Tentarei concertar os erros do senhor Potter.
Isabel se afastou alegremente, enquanto Harry não fez menção alguma de cooperar com a ruiva. Na verdade, Harry demonstrou que sequer estava interessado em descruzar os braços e se aproximar de Gina - e aquilo não passou despercebido à professora.
- Senhor Potter, se o senhor não se incomoda. - ela indicou a posição do homem com a cabeça, os dentes cerrados. Harry apenas ergueu uma sobrancelha, expressando total indiferença para com a mulher.
- Na verdade, eu me incomodo. - respondeu grosseiramente com seu tom faustoso. Gina inspirou o ar com força, segurando-o em seus pulmões e procurando controlar toda sua crescente irritação.
Antes que ele pudesse falar mais alguma coisa, a música tornou a soar, e Gina imediatamente se aproximou dele, descruzando seus braços e obrigando-o a colocar uma das mãos em sua cintura, enquanto a outra ela segurava firmemente em mãos. Ela ergueu o queixo, para que pudesse encará-lo nos olhos, e ele viu determinação e teimosia em seu olhar.
Por parte de Harry, aquela atitude o fez presenciar uma situação e uma sensação completamente nova; ao mesmo tempo em que sabia que poderia imediatamente se afastar daquela abusada e deixá-la envergonhada por sua atitude, não conseguiu mover um músculo de seu corpo que não concordasse com o gesto de Gina. Ao mesmo tempo, seu ombro pareceu queimar quando aquela mão pequena pousou em seu ombro, e sua própria mão formigou ao contornar aquela cintura pequena. Seus olhos não conseguiram desgrudar dos intensos castanhos dela, e sentiu-se surpreso ao constatar seus lábios e garganta imediatamente secos.
Foi com incredulidade que ele constatou o súbito e intenso desejo que sentia pela mesma mulher que tanto lhe irritara em pensamento no resto do final de semana.
Pelo amor de Deus.
- Solte mais esses quadris.
- Você não pode estar falando sério. - Harry reclamou, procurando esquecer todas as constatações de segundos atrás.
- Sim, senhor Potter, estou falando sério. Você está tão duro quanto uma madeira. - quando percebeu que Harry não fazia nenhum esforço para melhorar, Gina não conseguiu segurar o grunhido frustrado - pelo amor de Deus, senhor Potter -.
- Escuta, dona, não vou ficar rebolando apenas porque você está mandando. - ele retrucou, erguendo uma sobrancelha. Harry viu claramente a resposta da ruiva ficar acumulada em sua garganta de modo doloroso. Ele imaginava o quanto ela desejava xingá-lo.
Novamente.
- Tudo bem. - Gina disse repentinamente, atraindo a atenção de homem para suas feições delicadas e endurecidas pela raiva - Sei por que está fazendo isso. - Harry fez uma careta indiferente, esperando que ela se explicasse - Foi por causa de sábado, certo? Começamos com o pé esquerdo, admito. Então, acredito que seria bom se nós -.
- Acha que estou agindo dessa forma apenas porque você foi mal educada? - ele a interrompeu sarcástico, tentando se afastar. Gina não permitiu. Na verdade, Harry sentiu a mão dela apertar seu ombro ainda mais, como se aquilo aplacasse sua raiva.
Ele a chamara de mal educada. Pelas feições da ruiva, Gina não conseguia acreditar em tamanha audácia.
Procurando se concentrar em seu trabalho - ou acabaria matando aquele infeliz - Gina colocou as duas mãos na lateral do tronco de Harry, tentando obrigá-lo a se mexer um pouco.
- De qualquer modo - ela retrucou com a voz baixa, os dentes cerrados - quero lhe pedir desculpas pela minha indelicadeza àquele dia e -.
- Suas palavras não me incomodaram. - ele retrucou com um tom blasé, surpreso com a convicção de sua mentira - Não é como se eu realmente fosse levar em consideração o que você disse, naquele dia. Afinal, você era apenas uma desconhecida. Ainda é.
Harry sentiu vontade de sorrir ao perceber que ela o havia soltado, e agora o encarava pronta para uma briga.
- Então, senhor Potter, que o senhor é uma criatura dotada de uma sensibilidade imbecil e bestial e que, portanto, não se incomoda com a opinião alheia?
Aquilo apenas alargou sua vontade de rir. Por alguma razão incompreensível, era legal ver aquela mulher irritada.
- Deveria ser mais educada. Não é gentil chamar alguém de imbecil.
- Ah! - vários alunos viraram suas cabeças, observando pela primeira vez na vida sua professora perder a calma. Como estavam completamente alheios à discussão entre os dois, acreditavam que Gina havia se irritado com a falta de jeito de Harry.
Ah, se eles soubessem.
- O senhor é patético, com toda essa sua atitude arrogante e grosseira! - Gina exclamou, o tom inconformado em sua voz - Por que diabos está aqui se não está nem um pouco interessado em aprender?
Harry não se abalou com aquele ataque.
- Meu trabalho depende dessas suas aulas idiotas. - comentou com indiferença. Gina inspirou com força, não exalando o ar em seguida.
- Então que o senhor vá procurar aulas idiotas com outra pessoa, seu imbecil! - gritou, saindo da sala com uma velocidade impressionante.
Quando a porta se fechou num estrondo impressionante para uma criatura tão pequena, Harry começou a rir; ele apenas não sabia se aquele riso era sincero ou se era desespero por ter utilizado a raiva para comprimir o desejo primitivo que comia seu íntimo.
Continua
Notas: Capítulo dedicado à Patrícia Kayo, futura Delegada Federal e agente da Interpol que não me deixou não publicar esse capítulo, e que me deixa falar de PF por horas e horas a fio.
Agora sim, fics em hiatus até julho. :D
próximo capítulo: A Festa de Noivado
