Capítulo 4
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Enquanto Steve dirigia para casa, ele me olhava às vezes, de quanto de olho, com um leve sorriso nos lábios. Eu estava cantarolando Fidelity, de Regina Spektor, quando o celular do meu irmão tocou.
- Oi, pai. – Ele disse. Um momento ouvindo. – Sim, claro, estou chegando então. – Mais um instante de silêncio. – Ok, me espere.
Ele desligou o celular e o passou para mim.
- Lil, me faz um favor?
- Óbvio. O que você quer?
- Ligue para a mamãe, ela disse que ia estar na casa da tia Louise hoje. Peça pra ela ir até o escritório, papai precisa de nós.
Eu olhei pra ele, preocupado.
- O que foi que houve?
Ele me olhou nos olhos, e em seguida olhou significativamente para o celular na minha mão.
- Oh. – Eu disquei o número de mamãe e esperei um momento. – Oi, mãe. Steve pediu pra avisar que papai está precisando de nós no escritório. – Enquanto minha mãe me falava que já estava indo, eu ouvi Steve murmurar alguma coisa do meu lado. – Eu aviso, pode deixar. – Eu respondi a ela. – Uhum, também te amo. Beijo.
- O que foi que ela disse? – Ele me perguntou, assim que eu fechei o telefone.
- Hum, que está indo pra lá agora mesmo. Steve, o que está acontecendo?
Ele olhou para a rua através do pára-brisa e eu segui o olhar dele, enquanto esperava que ele me respondesse. E percebi que nós estávamos quase na frente de casa, indo bem devagar agora.
- O que estamos fazendo aqui? – Eu perguntei, olhando incrédula para ele. Papai precisava de nós no escritório, e não em casa. Parecia ser alguma coisa urgente. E nós estávamos em casa?
- Olha Lil, - Steve começou – eu sei que você vai odiar isso, mas eu não posso fazer nada. – Ele estacionou o carro na frente de casa e olhou para mim. – Você precisa entrar e descansar, eu não faço a mínima idéia do que você tem, mas você com certeza não está no seu estado normal de saúde.
- Uau, falando assim parece que eu posso morrer a qualquer instante. – Eu disse, revirando os olhos. – Ah, qual é, Steve? Eu já estou bem, meu mal-estar passou.
- Lily, colabore. Papai me pediu para deixar você em casa antes.
- Ah! – minha voz subindo alguns décimos. – Ele precisa de 'nós', mas eu não estou incluída?
Foi a vez dele revirar os olhos.
- Lily, você entra, toma um banho, pede para Carmen preparar alguma coisa pra você comer e liga para o médico pra marcar uma hora. – Eu fiz uma carranca. – Assim que eu souber o que está acontecendo eu te ligo, e aí volto pra casa assim que puder pra te levar no médico. – Ele destravou as portas.
- Tudo bem... Tudo bem! – Eu disse abrindo minha porta devagar. Eu me virei para ele novamente. – Me ligue assim que puder. – Eu disse enquanto dava um beijo estalado na bochecha dele. Ele abriu um sorriso lindo para mim e eu desci do carro, já me esquecendo que tinha sido excluída do problema familiar. Eu estava curiosa para saber o que era, mas eu ainda estava muito feliz pelo acontecido de alguns minutos atrás.
Eu cheguei em casa flutuando. A escada para o meu quarto era quase um caminho de nuvens, eu estava MUITO feliz. Eu já tinha chegado à conclusão de que, se James tinha feito o que tinha feito era porque estava com ciúmes, e isso era uma coisa boa. Eu podia dar um beijo nele, agora mesmo, sem me preocupar com qualquer outra coisa. Eu podia me atirar em cima dele e declarar todos esses anos de amor profundo, sem medo. Mesmo que 99% do meu cérebro tentassem me convencer de que ele só tinha me defendido porque ele me considerava sua irmã mais nova, assim como foi a vida toda. Mas eu não me importava. Porque James nunca havia se metido em confusões desse tipo. Fora Sirius, todos eles fogem dessas encrencas. Steve, Remus e James são garotos de paz, exemplares. Melhor do que isso. Eles são superiores. Porque eles não fogem de brigas porque eles têm medo. Eles evitam isso porque são bons demais para se rebaixar à brutalidade física. E, no entanto, James tinha acabado com Dênis hoje, no meio do colégio lotado, só por minha causa.
Eu cheguei ao andar de cima, eu fui para o banheiro. Lavei minhas mãos, meu rosto e aproveitei pra deixar meu casaco no cesto de roupa suja. Eu não queria tomar banho agora. Eu queria ir para o meu quarto e ligar para Lene e Alice. Eu não estava me sentindo mal, eu podia até estar voando. Me olhei no espelho, meus olhos brilhando de felicidade. Corri para o quarto, e quando entrei, foi como se tivesse batido com a cara numa parede imensa e muito dura. A parede da desilusão.
E, meio segundo depois, meu coração se partiu em bilhões de pedaços. Mas embora ele estivesse totalmente despedaçado, ele não tinha evaporado, porque eu podia o sentir ali, latejando de dor.
Isabelli Pandmurf estava em cima de James. Os dois deitados na minha cama. Os dois se agarrando. Os dois na minha cama. Na minha cama. Agarrados e se beijando vorazmente, enquanto eu simplesmente penetrava numa densa vontade de morrer. Eu estivera tão feliz até ali, como isso era possível? Como era possível que uma pessoa pudesse experimentar dois sentimentos tão profundos e extremamente diferentes em um período de tempo tão curto?
Era realmente uma vida muito, muito injusta. Eu balancei a cabeça para me livrar das súbitas lágrimas que me impediam de enxergar e dei as costas para aquilo. Era demais pra mim. Demais, eu já tinha agüentado tudo o que podia. Eu bati a porta com toda a minha força, tentando dar um fim àquela palhaçada sem tamanho. O que eles estavam pensando? Além de dor, eu sentia ódio. Um profundo ódio por ela. E por ele. Como ele se atrevia a ser tão desalmado? Eu o amei desde que me conheço por gente! Ele era meu exemplo, meu herói, minha vida. Eu o amei em silêncio, com medo de perdê-lo caso ele descobrisse que tinha uma 'irmã' apaixonada, totalmente insana. Eu o amava tanto que doía, porque eu nunca seria correspondida do jeito certo. E mesmo assim, eu estava feliz. Feliz porque, mesmo sendo considerada uma irmã, eu o tinha sempre por perto, sempre me abraçando, me protegendo. E agora ele estava se comendo com a pessoa que eu mais odiava no mundo no meu quarto. Na minha casa. Na minha cama.
Eu desci as escadas correndo, sacudindo minha cabeça com força, e eu nem sabia mais se era para me livrar das lágrimas ou se era pra conseguir organizar meus pensamentos. Ou para tirar aquela cena da minha cabeça. Eu enxuguei as lágrimas com as costas da mão quando cheguei ao hall. Carmen estava parada entre a cozinha e a sala, olhando para mim, parada ao pé da escada. Ela veio caminhando na minha direção, mas eu balancei a cabeça para ela. Carmen não precisava me ver naquele estado tão de perto. Eu não queria que ninguém sentisse pena de mim. Eu estava com raiva e dor, mas eu podia enfrentar isso sozinha. E eu ia. Mas não antes de tirar aquela vadia da minha casa. E James também.
Ela parou onde estava, com o pano de prato nas mãos, me olhando com preocupação. Eu a olhei pedindo desculpas e fui para o escritório, quando ouvi a porta do meu quarto se abrindo e James gritando xingamentos.
Eu entrei no escritório do meu pai, e nem me dei o trabalho de fechar as portas. Eu me aproximei da mesa e me escorei nela. Respirei fundo umas duas vezes. Limpei meu rosto e me endireitei, ainda de costas para a porta.
- Lily! – James entrou no cômodo, correndo e parando perto de mim. Ele colocou a mão no meu ombro, me virando para ele.
Eu tirei a mão dele de cima de mim, indo para a outra ponta do escritório.
- Fique longe de mim. – Eu disse, com a voz embargada.
Isabelli tinha chegado e estava na porta. Eu olhei para ela, incrédula. Ela ainda não tinha ido embora? Como ela podia ser tão cínica?
Nós dois olhamos ao mesmo tempo para ela.
- Argh, estou me retirando. – Ela falou revirando os olhos, e eu fiquei espantada por ela ter conhecimento da palavra 'retirar'.
Assim que ela saiu do cômodo, eu me virei de volta para James.
- Isso é patético. – Eu cuspi. Eu estava com tanta dor e raiva ao mesmo tempo. Por que essa idiota tinha que existir? Por que ela tinha que sempre estragar minha vida? E por que eu tinha que ser tão extremamente louca por James? Por quê?
Ele voltou a olhar pra mim, um olhar de indagação no rosto. E... dor? Por que ele sentiria dor? Ele não estava feliz? De ferir os sentimentos de uma guriazinha idiota que tinha esperanças de ficar com o garoto que ela amava?
- Você. – Eu respondi sua pergunta muda, fechando os olhos. ERA POSSÍVEL que eu ainda pudesse continuar de pé? Eu queria morrer. - Você fazer tudo o que fez, aquele escândalo todo, e depois vir para a MINHA casa e se atracar com essa vadia. No MEU quarto.
- Ei, ei! – Ela se manifestou, protestando o 'vadia'. Ela ainda estava na minha casa. Parada a poucos passos da porta do escritório.
Eu lancei um olhar mortal pra ela. Mas no momento eu estava tão despedaçada que acho que o olhar que ela recebeu foi mais um 'me mate, por favor' do que o 'morra, vadia' que eu queria ter dado.
- Own, - Ela começou, olhando pra mim com uma faceta de pena cruel. – você pensou que ele tinha batido no Dênis porque ele gosta de você? Gosta de você como mulher? – Ela levantou as sobrancelhas em falsa descrença. Eu poderia voar pra cima dela e arrancar os olhos dela com as mãos. Ou não, mas eu queria. – Oh, James! – Ela virou o rosto na direção dele, como se quisesse repreendê-lo. – Você não deveria ter feito isso com a pobrezinha! – Ela disse, virando-se pra mim novamente e soltado mais um 'own' bem cruel, enquanto fazia beiçinho.
Eu avancei para ela.
James deu um passo na minha direção, estendendo o a mão para me segurar.
- Não me toque. – Eu repeti, voltando uns três passos para trás, sentindo a repugnância na minha própria voz. Cada palavra me queimava ao sair da minha boca. Eu o amava tanto, e apesar disso, não conseguia NÃO sentir nojo agora.
- Lily! – Ele arregalou os olhos, protestando. – Você realmente vai acreditar nela?
- Eu não estou acreditando em ninguém, James! Eu VI vocês dois.
- Lily, por favor. – Ele meio que sussurrou. Ele se virou para mim, estendendo a mão novamente. Eu olhei para a mão dele, e voltei a olhar para seu rosto, cruzando os braços no meu peito. – Lily, você nunca caiu nessas armações. Vai cair agora? – Ele perguntou, o olhar profundo me queimando.
Ok, eu ainda não tinha sequer considerado as 'armações' de Isabelli, mas realmente não tinha dado tempo. Eu tinha entrado no quarto e me deparado com James deitado na minha cama e Isabelli em cima dele, numa espécie de luta horizontal, só que sem nenhuma agressão, afinal. Eu tinha visto e SENTIDO aquilo, não precisava de explicações. Eu tinha visto eles se beijando, os lábios envolvidos, em movimento. Eu tinha visto a mão dela no cós da calça dele, e a mão dele nos ombros dela...
Ei, peraí. Nos ombros dela. Ombros. HUM. Ombros não são lá grande coisa. Você pode empurrar uma pessoa pelos ombros. Será que James estava tentando empurrar Isabelli de cima dele quando eu bati a porta com tudo e vim para a sala? James merecia esse voto de confiança? Oras, é óbvio que ele merecia. Afinal, ele sempre me disse que odiava Isabelli tanto quando eu. Que tinha repulsa do seu jeito vulgar e sua voz de taquara rachada. Mas e se... E se ela tivesse o seduzido? James é homem, afinal de contas. Um homem que até então eu julgava perfeito, mas que depois da minha visão, ele tinha se tornado um cruel sem coração. Mas pensando melhor agora, eu realmente deveria dar uma chance a ele. É, afinal, bem a cara da Pandmurf, fazer simulações profanas desse tipo. Ai, que droga, o que é que eu faço? O que é certo pra se pensar?
- Lily... – James começou de novo, me tirando dos meus devaneios problemáticos e confusos. – E tudo o que eu já te disse sobre isso? E tudo o que eu te falei sobre ter nojo das atitudes dela? – Ele perguntou, apontando com a mão, o cômodo onde ela estava. – E tudo o que eu já te falei sobre como eu não gosto de garotas assim, que eu não dou a mínima para os esforços dela, que ela nunca ia conseguir me atrair, não importa o que fizesse. O que você entendeu disso tudo, Lily, se não foi o que eu queria que você entedesse?
Eu tentei pensar. Meus olhos tão confusos e meu rosto tão congelado numa expressão torturada que eu estava com medo de olhar novamente para ele. Eu não conseguia entender. Eu não queria entender. E se fosse só uma brincadeirinha de mau gosto? E se ele estivesse junto com Isabelli nisso? É óbvio que ele não estava! Que idiotice a minha, pensar essas coisas do garoto que era meu ídolo desde sempre. Não só pela sua beleza incomparável, mas pelo seu caráter maravilhoso, pela pessoa maravilhosa que ele é.
- Eu não... Eu não entendo... – Eu tentei colocar meus pensamentos em ordem, olhando para ele, cautelosamente, para ver em seus olhos uma expressão indescritível. Eu não sabia o que estava se passando pela cabeça dele.
- Claro que não. Como poderia...? – A voz da vadia interrompendo meu raciocínio, tirando sarro de mim. Ela estava sentada no braço da poltrona da sala de estar, olhando para as unhas, mas prestando total atenção à conversa.
- Eu já te disse pra ficar fora disso, Isabelli. – James falou com uma voz cortante. – Eu pensei que você tinha dito que ia se retirar. – Ele falou, sem tirar os olhos de mim.
- Pois é, mas com essa chuva lá fora, nem pensar. – Ela disse, dando de ombros sem tirar os olhos da mão.
- Chega. – Eu disse, meus olhos se fechando. Eu estava enfrentando problemas seríssimos com o meu subconsciente. Meu 'eu racional' me dizia para pedir pra falar com James às sós, enquanto um 'eu bem orgulhoso' não queria deixar Isabelli sozinha na sala da minha casa, podendo escutar nossa conversa atrás da porta. E como se não bastasse, um 'eu confuso e despedaçado' pedia para eu me retirar dali, sair correndo e me trancar no meu quarto, pra pensar no absurdo que saía da boca de James, enquanto um 'eu bem legal e tentador' me fazia querer voar pra cima daquela vadia e bater nela até ela morrer. Ou desmaiar. Ou no mínimo, pedir pra eu parar. – Você está na minha casa e vai fazer o que eu mandar.
Ela me olhou com descrença.
- Quem você pens- - Ela começou, mas eu não dei chance.
- A questão é quem é que VOCÊ pensa que é. Não passa de uma vadiazinha e fica aí, se gabando por ter homens aos seus pés, mesmo que você saiba que nunca nenhum garoto ficaria com você se não fosse pelo seu corpo, seu rostinho bonito, e o seu jeito vulgar e fácil. – Ela me olhou com cara de indignada e começou a levantar do braço do sofá. Eu dei um passo para frente. - Não me diga que você também sabe usar as patas pra brigar? – Eu perguntei, levantando as sobrancelhas. - Desculpe, Pandmurf, mas eu não coloco minhas mãos em lixo. Agora, escute bem – Eu dei mais um passo na direção dela. – Saia. Da. Minha. Casa.
Ela olhou para James, esperando sei lá, que ele a defendesse.
- Qual parte do 'saia da minha casa' você não entendeu? – Ele perguntou, erguendo as sobrancelhas.
- Você me paga, Lily. E você, Jamezinho... Bom, nós nos vemos por aí. – Ela disse, com um sorriso falso e podre no rosto. Ela deixou a porta aberta quando passou por ela.
E eu não tive culpa de me descontrolar. COMO ELA SE ATREVE A SER TÃO FOLGADA E CÍNICA? Eu ia tirar aquele sorriso falso daquele rosto sem graça. Ah, se ia.
Eu olhei da porta para James, meu coração latejando de dor. Eu queria simplesmente sumir. Mas eu não consegui evitar sair correndo atrás daquela vaca.
Eu corri até a porta, esquecendo toda a dor. O que eu sentia era vontade de matá-la. James foi atrás de mim, hesitante. Eu parei por um segundo, pensando em gritar, mas saí correndo atrás dela, na chuva torrencial. Ela estava correndo, de um jeito bem estranho, pela rua, por causa da chuva. Eu a alcancei rapidamente, porque eu não estava de scarpins e sim de tênis. E sem pensar em nada, eu a agarrei pelos cabelos, virando-a e a conduzindo na direção da minha casa novamente.
Ela soltou um guincho de horror.
- Me solte, sua maluca! Ai, meu cabe- JAMES! Você vai deixar que ela aja assim? ELA PRECISA SER INTERNAD- AI MEU CABELO! ME SOLTE, SUA DOI-
- Ah, cala essa boca, sua idiota. – Eu cuspi as palavras enquanto olhava pra James.
Eu não sabia o que ele estava pensando de mim. Ele estava paralisado no primeiro degrau perto da porta, com a boca semi-aberta. Ou era surpresa pela minha reação, ou era espanto pelo meu descontrole. Que seja, eu não me importava quando tinha minha mão totalmente entrelaçada no cabelo de Isabelli. Eu podia fazer qualquer coisa, até mesmo empurrá-la de cara no chão e ficar batendo várias vezes, mas eu não faria isso. Porque eu podia acabar matando a garota, na minha fúria descontrolada. E apesar de eu realmente querer que ela morresse, eu não queria ter um assassinato na minha ficha.
– Se você não entendeu da primeira vez, Pandmurf, não me deixa outra escolha. – Eu disse por entre os dentes, um sorrisinho escapando dos meus lábios. Vingança. Por todos aqueles anos aturando suas investidas promíscuas pra cima do meu garoto. Por anos de tentativas de humilhação, por anos de intrigas e joguinhos. Pela cena terrível que eu tinha acabado de presenciar. Por agarrar o MEU James, no MEU quarto, NA MINHA CAMA. – Agora estique essa mão imunda e feche a porta. – Eu terminei, puxando um pouco mais os seus cabelos, a cabeça dela indo um pouco mais para trás. Nós passamos por James ali, há um passo da porta. Ele virou a cabeça para olhar, ainda meio sem expressão.
Pandmurf continuava fazendo caretas feias e me xingando. Devia ser língua das vadias, porque eu realmente não conseguia distinguir nenhuma palavra. Ela esticou o braço, a cabeça ainda estava inclinada para trás, minha mão puxando seus cabelos com força, e fechou a porta, batendo.
Ela abriu a boca e eu me pronunciei, antes de qualquer palavra dela.
– Tsc, tsc. Será que você AINDA não entendeu, Pandmurf? – Eu puxei mais ainda, ela se entortando tanto que ela podia me ver, de ponta cabeça.
- Ah, não. – Ela gemeu. - Ok, você quer o quê? Que eu implore? VOCÊ ESTÁ ACABANDO COM O MEU CABELO! E MINHAS COSTAS! ME SOLTE AGORA, LILY EVANS.
- Hum, na verdade, primeiro você vai abrir e fechar a porta de volta. Sem bater, dessa vez. Depois, você implora, e por último, você pode sair correndo daqui.
Ok, eu sabia que aquilo já estava ficando ridículo e tal, e que James devia estar me achando uma imbecil total, além de um ser totalmente repugnante. Mas eu não estava ligando, no momento. Não quando eu podia sentir minhas unhas fincadas em alguma coisa meio mole, que era o coro cabeludo de Pandmurf. Ela ia fazer o que eu estava mandando, e depois eu ia cuidar do meu coração. No momento, eu achei meio difícil localizar esse meu órgão. Ao que parecia, ele estava fazendo uma visitinha ao meu pé, e parecia ter levado o estômago junto com ele.
Ela deu uma risadinha de descrença. Mas quando percebeu que eu realmente não ia soltar, e que ela não conseguiria me acertar, porque estava curvada demais, ela me xingou alto mais uma vez, e eu puxei um pouco mais o cabelo dela, em resposta. Ela já estava tão dobrada para trás que se esticou bastante pra abrir a porta, depois fechou de volta, com um mero click.
Eu dei uma risada. Sério, foi incontrolável, mas soou bem malvado. O silêncio sobreveio. Eu não me atrevi a olhar para James, eu focava a porta, esperando.
- Oh. – Ela reclamou, relaxando os ombros e me dando a impressão de estar carregando uma boneca de pano pelos cabelos. – Você está mesmo esperando que eu te implore? – Ela perguntou, com um quê de derrota na voz, se virando um pouco mais pra trás, pra me olhar nos olhos.
Eu ergui uma sobrancelha.
Ela xingou mais umas dez vezes, respirou fundo, xingou mais, reclamou da dor nas costas, da dor na cabeça, mandou eu cortar minhas unhas, xingou mais, respirou mais uma vez, implorou ajuda à James – que nem se mexeu – e por fim, mas não antes de me xingar mais uma vez, ela me pediu:
- Ok, vou me arrepender pelo resto da minha vida, eu sei disso, mas por favor, Lily, POR FAVOR, me solte. Eu vou embora correndo se você quiser, contanto que me solte logo, porque eu te odeio tanto e quero sair de perto de você logo.
Eu afrouxei o aperto e empurrei com toda a minha força a cabeça dela de volta pra cima. Ela cambaleou e massageou a cabeça, pingando água da cabeça aos pés. Eu devia estar igualmente ensopada. Ela me olhou com cara de quem me mataria, se não estivesse preocupada demais com o cabelo.
- Vai. – Eu disse, indicando a rua com a cabeça. – Suma daqui.
Ela olhou para James, com cara de choro misturada com ressentimento.
Será que Isabelli Pandmurf poderia mesmo estar magoada? PFF, óbvio que não. Era só mais uma de suas tentativas de enganar alguém.
- Isso não vai ficar assim. – Ela falou, o olhar indo de James para mim, e de mim para ele de novo.
- AGORA! – Eu gritei na cara dela, tipo aquelas criançinhas de segunda série. Ou aquelas doidas varridas de filme, totalmente descontroladas.
Ela fez cara de nojo e saiu andando rápido, mas nunca deixando de rebolar.
Eu não esperei nem um segundo, entrei em casa e fui correndo para o sofá, minhas pernas cedendo imediatamente. Eu apoiei meus cotovelos na perna e enterrei a cabeça nas mãos. Eu queria tanto poder chorar, chorar e chorar, e gritar de raiva. E de vitória, por Pandmurf. Eu queria poder sair correndo e nunca mais ter que olhar para James, porque depois de ter passado, eu me sentia meio ridícula e infantil pelo que tinha acabado de fazer. Afinal, eu tinha me rebaixado a isso. Eu tinha descido até o nível dela. Mas, principalmente, eu não queria ter que encarar aqueles olhos de volta. Os olhos que não me deixavam há algum tempo, que tentavam me dizer uma coisa que eu esperava mais do que qualquer outra coisa no mundo. Olhos que tentavam me convencer de que o que eu via era a realidade, e não só ilusão. Olhos que queimavam nos meus, me fazendo ficar da cor dos meus cabelos. Olhos que a todo o custo tentavam me provar que eu não tinha motivos para ter medo, porque eu não ia me machucar, porque o que eu queria que acontecesse só dependia de mim. Porque ele estava ali, e eu não tinha motivos para pensar que era só uma ilusão, não tinha motivos para chorar de amor.
Mas eu temia, de todo o meu coração, que fossem olhos mentirosos. Mesmo que não mentissem de propósito. Mas que estivessem enganados. Que fossem me iludir ainda mais, na esperança de ver o que eu mais queria no mundo, há muito tempo.
De repente, um braço em volta de mim me tirou dos meus devaneios. Ele me puxou para seu peito, e, sem permissão, as lágrimas escaparam.
N/A: HÁÁ, cá estou eu again. :D bom, esse capítulo ééé... tenso. :x foi ótimo de escrever, porque deu pra colocar um montão de emoções ao mesmo tempo :O e me dá uma verdadeira dó de Lils agora no fim, mas Jay tá lá com ela, então... *-* espero que gostem.
Respondendo as reviews:
Blackforever: Uau, desculpa a demora! Bom, a festa promete...com certeza!
Anggie: Foi mal a demora... :x que bom que gostou *--* néé, um super-herói que OME, eu quero, fatão.
Reezitxa: Há, que linda *--* obg rê, te amo. (L)
Fay Li: Own, obrigada! :D
