Título: Jardim do Sol
Autora: Dana Norram
Gênero: Pré-Slash / PG
Casal: Harry Potter e Draco Malfoy
Sumário: Série de fanfics Harry/Draco. Tema da one-shot nº04: Encontro no imediato pós-guerra. "E quanto a você? Por que você voltou?"
Spoilers: Deathly Hallows
Projeto Sectumsempra de Amor Não Dói (2ª Edição)
(Tema: 46. Encontro no imediato pós-guerra)
Jardim do Sol
por Dana Norram
Encontraram-se no começo da manhã. Foi Harry quem viu Draco primeiro e a verdade é que até cogitou dar as costas e sair pelo outro lado, mas, sem entender porque, ele hesitou. E naquele segundo, o loiro, sentindo a sua presença, quem sabe, ergueu a cabeça, encarando-o de longe.
Nem por um instante ele pensou que se enganara a respeito do outro. Talvez parecesse bobagem, mas Harry sentia que jamais poderia esquecer ou mesmo confundir o rosto pontudo e o tom do cabelo claro que, dependendo do jeito que a luz do sol batia, era quase branco. Foram muitos anos olhando por cima do seu ombro, se perguntando o que Malfoy aprontaria daquela vez.
E a verdade é que Draco também pensou em dar as costas e ir embora no momento em que divisou Potter a alguns metros de distância. Ele não soube porque não o fez. Talvez por achar que não tinha mesmo mais nada a temer. Talvez porque estivesse curioso. Talvez porque esperasse por aquilo. Mesmo que não soubesse exatamente o que esperar.
Harry se aproximou, sem pressa, como quem está só passando por ali, apreciando a paisagem e o ar limpo da manhã. Mas ele não mirou nenhum dos monumentos de mármore branco por mais de dois segundos enquanto atravessava a longa alameda que o separava do loiro. Harry pensou consigo que não tinha mesmo a menor intenção de decorar quem estava onde naquele lugar. Algo lhe dizia que esse conhecimento acabaria inerente a ele. Uma coisa natural, daquelas que vêm com o tempo. Tempo que ele tinha de sobra para tentar absorver tudo que havia se passado.
"Por que você está aqui?"
Draco surpreendeu-se por não haver qualquer vestígio de raiva na pergunta. Nem mesmo segundas intenções escondidas entre as palavras. Apenas uma leve e perfeitamente natural curiosidade. Ele mexeu o corpo do banco onde estivera sentado na última meia hora. Talvez fosse o único em todo o cemitério que não desse diretamente de frente para uma sepultura, mas sim para um pequeno canteiro de flores. Eram tão pequenas, de um amarelo ocre que quase se confundia com as folhas verdes.
Não havia estátuas ou pedras para atrapalhar sua composição. Harry percebeu que nunca reparara nelas.
"Malfoy?" Harry chamou de novo diante da falta de respostas do outro. "Você está bem?"
"Estou." Respondeu Draco uma voz quase cansada. "E eu ouvi da primeira vez, Potter. Eu só não sei o que você quer ouvir como resposta," disse, finalmente, não querendo ser mordaz, mas sem poder evitar.
Com um suspiro meio irritado, meio cansado, meio feliz de certas coisas não mudarem, Harry sentou-se no banco ao lado do loiro − que até pensou em se levantar e ir embora, mas não o fez. A atitude do outro o deixava mais curioso do que ameaçado.
"Soube que agendaram o julgamento para agosto" disse Harry, sem realmente ter muito que falar, só querendo dizer alguma coisa. Qualquer coisa. Mesmo que algo como aquilo não fosse exatamente o melhor jeito de se começar uma conversa.
Draco olhou de soslaio, mas não respondeu.
"Não acho que terão problemas. Assim, não muitos. Eu devo bastante à sua mãe, sabe. Eu vou dizer isso para eles." Continuou, olhando para cima, o sol claro, quase branco, obrigando-o a manter os olhos semicerrados.
"Vincent." Falou Draco de repente, em voz baixa, torcendo as mãos no colo antes de apoiá-las no banco de pedra, procurando não tocar em Harry, relativamente próximo dele. O loiro esticou o corpo para olhar para cima também.
"Como?" Harry franziu o cenho, voltando-se para o outro.
"Crabbe." Ele disse. "Estou aqui por causa dele."
"Ah."
Sem saber o que falar, Harry desconversou.
"Mas que bela maneira de mudar de assunto."
"Só estou respondendo a sua pergunta" tornou Draco, sem mexer o corpo.
Harry segurou uma risada e balançou a cabeça, descrente. Mas não queria se zangar com Malfoy. Diabos, ele não tinha nem mais motivos para isso. Mas não se conteve. Dificilmente conseguia.
"Sabe, eu nunca entendi porque você quis salvá-lo."
O comentário fez Draco engolir em seco e recolher as mãos que mantinha no banco para aproximá-las do próprio rosto. Também aproveitou para trocar de posição, ajeitando as pernas debaixo do corpo e apoiando os cotovelos nos joelhos, a face enfiada em uma das mãos. Harry não se deu ao trabalho de se mexer quando a perna dele raspou na sua, antes de se afastar novamente.
"Ele era meu amigo" respondeu Draco simplesmente. Sem rodeios ou espaços para outras interpretações.
Harry não podia fingir que acreditava naquilo, mas não achou que seria uma boa idéia contestar o comentário. Sua expressão de descrença, porém, foi o bastante.
"É, eu sei. Nós estávamos discutindo. Feio. Ele falou um monte de merda. Eu deveria mesmo jogar anos e anos pela janela por causa de um momento de estupidez."
Harry não tinha problemas em admitir para si mesmo o quanto duvidava daquilo que Malfoy chamava de amizade. Ele sempre acreditou piamente que a relação de Malfoy com seus ditos 'amigos' não passava de uma troca de interesses. Apesar disso, a sua resposta foi evasiva, sem comprometimentos.
"Eu não disse nada."
Draco fungou uma risada mal-disfarçada. Virou-se para Harry, o rosto ainda apoiado numa das mãos, os olhos apertados para enxergar o rosto do outro, entrecortado pela luz.
"Não que ache que eu lhe deva explicações, Potter, mas digamos que estou bem curioso com o rumo dessa conversa."
Harry soltou uma risada baixa e voltou-se para Malfoy, também o encarando. Sentiu uma sensação engraçada ao divisar seus olhos cinzas apertados.
"Você não precisa me explicar nada."
Draco sorriu antes de falar. "E quanto a você? Por que você voltou?"
Harry não tinha dúvidas a respeito da pergunta. Da mesma forma que não tinha idéia de como respondê-la. Do que responder. Lógico que já tinha pensando a respeito. Algumas vezes. Sem chegar à conclusão alguma além do 'eu não podia deixar ninguém morrer daquele jeito horrível'.
E foi o que ele respondeu a Malfoy. O loiro, porém, esboçou uma expressão incrédula.
"Você não precisa acreditar, se não quiser." Harry deu de ombros, pensando ir embora.
Draco ficou parado, mas suspirou fundo, fazendo uma careta ao torcer o canto dos lábios. Harry, que nunca havia visto o loiro fazer aquilo, pensou que era até engraçado o ar infantil que aquele gesto emprestava ao outro.
"Não tem nada a ver com acreditar" disse Draco depois de alguns instantes. "É mais com entender."
"Entender?"
"É. Eu não tinha nenhuma serventia para você. Você poderia ter morrido. Você quase morreu. Foi bem estúpido" disse, quase como uma crítica. "E a troco de nada" acrescentou, a voz mais baixa.
Harry virou o corpo, uma de suas mãos seguras contra a pedra gelada. Malfoy ainda estava na mesma posição, as pernas dobradas, o rosto apoiado entre os dedos. Eles se encararam. Foi vez de o moreno fazer uma careta.
"Nada? Você se tem em tão baixa conta assim?"
Draco revirou os olhos, que então se revelaram, tão de perto e àquela hora da manhã, sob outro prisma da luz, esquisitos demais para terem uma só cor.
"Sabe, seria bem mais fácil se você dissesse que voltou porque, sei lá, eu não te entreguei quando vocês foram levados para a minha casa. Se você fosse quem sabe tentar me usar como objeto de troca para conseguir uma trégua ou... sei lá. Só não acho que 'não podia deixar ninguém morrer assim' seja a melhor das respostas" disse e acrescentou sem pensar. "Você me odeia."
Aquela última afirmação incomodou Harry mais do que todas as outras juntas. Simplesmente não era verdade, ele percebeu de repente.
"Não, não odeio" disse com toda sinceridade.
O loiro piscou confuso.
"Por que não? Você tem todos os motivos."
Harry balançou a cabeça e o sorriso nos seus lábios não tinha nada de mais. Mas fez Draco se sentir leve pela primeira vez naquele dia.
"Da mesma forma que você tinha motivos para matar Dumbledore e não matou. Do mesmo jeito que você podia ter dito que aquele cara lá era eu sim, mas não disse" disse antes de acrescentar, incerto. "Por que fez aquilo, aliás?"
Draco mexeu-se nervosamente no banco, voltando olhar para frente. Harry preferiu não insistir.
"Eu nunca tinha reparado nesse jardim aí" comentou, depois de quase cinco minutos de ambos no mais completo silêncio. Já era perto das oito horas e logo aquele lugar estaria cheio de gente carregando arranjos e lágrimas e saudades. "Além dessas que o pessoal traz, não há muitas flores por aqui."
"Fui eu quem fez." Draco respondeu, com uma pontada de orgulho. "Não achei que me deixariam fazer uma placa para o Vincent. O pai dele foi morto e a mãe fugiu e eu não sei dela. Acho que eu e Gregory somos os únicos que se importam que ele tenha morrido."
Harry não soube o que responder. Ele não poderia dizer que se importava com a morte de Crabbe, porque não se importava, embora, provavelmente o tivesse o salvado, caso pudesse, também. Então, sem querer, pensou no que teria acontecido se não tivesse conseguido salvar Malfoy. Ele, Harry, se importaria agora?
Sentiu o loiro se mexer e viu que ele se levantava com alguma dificuldade, possivelmente devido ao tempo que passara com as pernas na mesma posição. Ele mesmo sentia alguma dormência na parte inferior do corpo.
"Melhor eu ir. Antes que meus pais acordem e descubram que não estou em casa." Draco disse, sem olhar para o outro.
Harry balançou a cabeça, sem entender porque o outro estava se explicando.
"É, é melhor. Só não digo para você mandar minhas lembranças, porque, bem, a quem eu estaria tentando enganar?"
Draco abriu um sorriso da cor do sol diante daquela tentativa de piada por parte de Harry. Quase espontâneo e meio sincero. Era a primeira vez que Harry via Draco sorrir assim, sem artifícios, e percebeu que adoraria vê-lo sorrir daquele jeito de novo. Algum dia.
"Acho que já está dando minha hora também..." comentou então, distraído, fazendo menção de se pôr de pé.
Harry não só não esperava que o outro estendesse o braço na sua direção, para ajudá-lo a se levantar.
Ele hesitou, encarando Malfoy como quem pergunta porque e não tem certeza se quer mesmo saber a resposta. Ele não tinha como saber se aquele gesto foi premeditado ou se Malfoy estava apenas tentando ser gentil ou até se só agia por impulso.
Mas simplesmente não havia porque não aceitá-lo desta vez.
O aperto da mão de Draco era quente e firme e eles demoraram alguns segundos a mais do que o estritamente necessário para se soltarem. Harry já tinha se erguido e os dois já tinham balançado as mãos em cumprimento, mas parecia que nenhum deles sabia bem o que deveria vir depois.
Draco, constrangido quando o olhar de Harry encontrou o seu, soltou primeiro e engoliu em seco, enquanto dava as costas e se afastava. E Harry percebeu que estava realmente satisfeito consigo quando o imitou, caminhando na direção oposta.
Harry não entendeu muito bem o que se passara ali. Mas tinha de admitir que era como se algo novo e até bom se desenhasse à sua frente. A sensação de que ele só precisava continuar andando para chegar até lá.
Ainda que, o que Harry tenha feito, após alguns passos, na verdade foi parar e olhar para trás.
E então sorrir e acenar em despedida, ao ver que Draco fizera exatamente o mesmo.
Fim
Fanfic dedicada à Mary Sullivan/Enfermeira-chan, pelo layout mais lindo do Reino do Live Journal.
Nota da Autora: É, eu voltei a escrever Harry/Draco após um tempão só metida (opa!) com os puppies. Na verdade, tem mais pinhão aí para eu postar, mas preciso revisar antes. Sem mais, apesar de simples e não ter "ação" propriamente dita, eu espero que vocês gostem.
Agradecimentos: A N. Shibboleth, beta coração que arruma meus verbos dicendi. XD
