Uma semana já havia se passado desde que Kagome instalara-se na casa de Kaede. Depois de estabelecer uma rotina para si mesma, havia matriculado-se na tal escola – que coincidentemente não passava de algumas quadras de distância dali - e alegremente começado seus estudos como uma garota - ou garoto - normal.

Desde que haviam descoberto seu talento, aos 5 anos de idade, não pudera mais usufruir de recursos que uma garota normal teria. Sua mãe e seu irmão haviam morrido no ano anterior, quando ainda tinha 4 anos, então todas e quaisquer decisões tomadas em relação a ela foram feitas por seu pai. Desde criança, tinha estudado em casa com professores particulares - que mudavam constantemente, pois seu pai raramente encontrava um com quem se identificasse. Nunca havia realmente conhecido uma escola, nunca havia estudado em uma sala de aula normal.

Por isso, em seu primeiro dia de aula, Kagome não soubera dizer qual sensação era mais forte: o receio ou a ansiedade. Enquanto esperava pelo professor anunciar seu nome para a pequena classe de estudantes, ocupava suas mãos com alguma coisa. Torcia a camisa masculina, arrumava o uniforme, checava a mochila, abria um botão de seu casaco, decidia que o botão ficava melhor do jeito anterior e o fechava de novo. Quando o professor finalmente mandou-a entrar, inspirou fundo e dirigiu-se à classe.

- Este é Aoi Higashi - anunciou o professor, enquanto Kagome escrevia seu nome no quadro negro. - Foi transferido para cá e pretende estudar com vocês até o final do colegial.

Ninguém falava nada. Não eram muitas pessoas, mas ainda assim Kagome perguntou-se se havia algo errado.

- P-Prazer - gaguejou ela nervosamente, em seguida fazendo uma reverência.

Um zumzumzum de conversa começou a tomar forma, até que a classe explodiu em comentários e perguntas. De onde era? Por que tinha se transferido? Quantos anos tinha? - E o mais freqüente entre as garotas: tem namorada?

- Pode sentar-se ali na carteira vazia ao lado de Sango - disse o professor um tanto quanto alto, fazendo-se ouvir entre o barulho da conversa repentina. - A garota de rabo-de-cavalo alto.

Kagome assentiu e dirigiu-se ao seu lugar, sendo seguida por olhares e suspiros das garotas e muxoxos dos garotos. Ignorando-os, ela sentou-se e cruzou as mãos sobre a carteira.

- Aoi, não é? - ela ouviu a garota ao seu lado dizer. Kagome fitou-a com seus olhos azul-turquesa, fazendo a garota enrubescer de um tanto que parecia que estava com febre. - S-s-s-sou Sango - ela gaguejou, em seguida deu uma risadinha nervosa - Pode me perguntar se tiver alguma dúvida.

- Muito obrigado. - Kagome sorriu gentilmente para ela e voltou sua atenção para o professor, que havia começado a dar sua aula.

Sango, o coração a mil, recostou-se na cadeira. Por Deus, mas que rapaz! Além de ser extremamente lindo, ainda era educado. Para quem estava acostumada a andar com moleques tipo Kouga, Inu-Yasha e Miroku, Aoi era um deus grego. Tudo bem que os três amigos não eram feios, muito pelo contrário - eram os mais populares de escola, e ela sempre recebia olhares feios de outras garotas por sempre estar com eles. Mas mesmo assim...

Kagome suspirou lenta e profundamente. Havia passado do primeiro obstáculo. Ainda não sabia bem quais seriam a opinião de todos quando realmente passassem a conhecê-la, mas pelo menos havia começado bem. Não havia sentido muitos olhares de aprovação por parte dos garotos, sabe-se lá o porquê, mas sentia-se bem. E, claro, um pouco ansiosa. Era sua primeira vez em uma escola comum, com gente comum e aulas comuns. Nada de tutor particular, nada de lições de casa enfadonhas sob a supervisão de seus antigos guarda-costas, nada de ficar trancafiada em seu quarto por mais de 8 horas apenas ouvindo alguém falar sobre seus deveres para com a sociedade.

Ao seu lado, Sango olhou novamente de relance para Aoi, que aparentemente parecia interessado na aula de Física. Quase que imediatamente, o ar pareceu faltar em seus pulmões e ela abanou o caderno em seu rosto, a fim de conseguir respirar direito.

Seria isso o que chamavam de amor à primeira vista?


Apenas Miroku parecia notar o quanto Sango estava avoada. Tomava seu leite distraidamente, fitando o nada, claramente absorta em seus pensamentos. Soltava um suspiro uma ou outra vez e voltava ao seu estado de transe, sem nem ao menos reparar o que passava à sua volta. Nem pareceu incomodar-se quando Inu-Yasha e Kouga começaram a discutir bem à sua frente, sendo que sempre era a primeira a apartar a briga.

Miroku franziu o cenho, perguntando-se o que possivelmente poderia ter acontecido para Sango estar daquele jeito.

- É mesmo – ele ouviu Kouga dizer – Fiquei sabendo que há um aluno novo no pedaço.

- Teriam conhecido ele se não tivessem cabulado as primeiras aulas. – retrucou Sango friamente.

- Eeeeeh... Mas o professor de Matemática é tão chato...

- E depois ainda pergunta o porquê de ir mal nas provas... – disse Miroku, olhando para Kouga, que agora estufava sua boca com comida.

- Ah, mas isso é porque ele é burro mesmo – falou Inu-Yasha, roubando um pedaço de salsicha do almoço de Kouga.

- Como é que é? – Kouga apertou os olhos, olhando seriamente para Inu-Yasha. – E me devolve esse maldito pedaço de salsicha! - Em poucos segundos, já discutiam novamente.

- Mas e aí, Sango – Miroku fitou-a, tentando puxar conversa – Como é o aluno novo?

Ela suspirou longamente. Miroku arqueou uma sobrancelha.

- Aoi é-...

Naquele momento, a porta do terraço abriu-se e Kagome saiu do prédio. Ela notou os quatro amigos sentados, agora fitando-a silenciosamente. Kouga ainda tentava recuperar o pedaço roubado de salsicha, enquanto Inu-Yasha o tinha metade para fora da boca. Kagome corou ligeiramente. Sango achou adorável o fato de suas bochechas estarem rosadas.

Kagome xingou-se mentalmente. Desde que era pequena, havia visto em animes e séries de televisão japonesas que o terraço era o lugar onde sempre estaria vazio. Seguindo essa lógica, havia planejado esconder-se ali durante o horário do almoço. Por alguma razão que ela desconhecia, inúmeras garotas haviam ido falar com ela no término do primeiro período. Não se importava em conversar, nem um pouco; mas ser cercada e bombardeada de perguntas e abraçada e assediada por estudantes colegiais loucas? Não, muito obrigada.

- Ah... Desculpem-me, achei que não houvesse ninguém aqui em cima... – disse Kagome finalmente, virando-se para ir embora. Já contava que teria que encarar aquelas garotas novamente quando Sango levantou-se de um salto e agarrou seu braço, puxando-a em direção a Miroku, Kouga e Inu-Yasha.

- Não, que isso, por que não vem comer com a gente? Só estávamos conversando, só isso. Nada de interessante. – ela fez Kagome sentar-se e ocupou o lugar ao seu lado.

- Tem certeza? Posso ir a outro lugar se estiver atrapalhando...

- Não está atrapalhando, de jeito nenhum! Pode comer com a gente todos os dias se quiser, eles não se importam.

- Hm... Ok então. Muito obrigado. – Kagome sorriu gentilmente para Sango, que corou furiosamente.

- Oooh, então você é o cara novo... – disse Kouga, finalmente esquecendo a salsicha e voltando-se para o resto do seu almoço. Ele cumprimentou Kagome com um aceno dos hashis que segurava. – Sou Kouga. Aquele é o Miroku, e este aqui tentando roubar minha comida é o vira-lata do grupo, Inu-Yasha.

- O que foi que disse, seu lobo fedido? – rosnou Inu-Yasha, olhando furiosamente para Kouga.

- Isso mesmo que você ouviu. Vira-lata.

Kagome não pôde evitar sorrir quando os dois começaram novamente a discutir, esquecendo-se completamente dela. Pareciam ser tão amigos... Devia ser agradável ter alguém assim com quem pudesse contar.

Miroku, de braços cruzados, analisou Kagome de cima a baixo.

Olhos azul turquesa. Pele branca como leite e macia como seda. Cabelos longos, negros como a noite, presos em um rabo-de-cavalo baixo. Estatura um tanto quanto baixa para um rapaz, mas nada que parecesse incomodar as garotas. Observava Kouga e Inu-Yasha com um pequeno sorriso tocando-lhe os lábios, em sinal de divertimento.

Não podia negar, o cara era bonitão. Se bobeasse, poderia até passar-se por mulher. Mas e daí?

Ele olhou de relance para Sango que, por sua vez, não tirava os olhos do novato. Ela prendeu a respiração quando ele riu de algo que Kouga disse.

Miroku bufou. O que, afinal, aquele cara tinha de tão extraordinário?

- Mas e aí – começou Inu-Yasha, de boca cheia – veio d'onde?

- Ah, uma cidadezinha pequena por aí - Kagome engoliu um pedaço de pão (quase engasgando no processo) e desviou o olhar rapidamente. – Vocês não iriam reconhecer o nome.

- Menor do que esta? HAH. Deve ser bem fundinho de quintal, entã-UFF – arfou Inu-Yasha ao receber uma cotovelada de Sango em meio a suas costelas – POR QUE FEZ ISSO, SANGO?

- Aprenda a ter boas maneiras, Inu-Yasha! – e em seguida, virou-se para Kagome, a expressão sonhadora – Não preste atenção nele, Inu-Yasha não sabe engolir comentários impróprios.

Kagome sorriu.

- Não me importo. Porém, agradeço a consideração.

Sango corou furiosamente e virou as costas para os outros quatro, o coração martelando furiosamente em seu peito. Acalme-se, dizia ela para si mesma. Foi só um sorriso, nada mais. Apenas um sorriso.

Um bom tempo se passou ali no terraço. Inu-Yasha e Kouga não pararam de brigar um minuto sequer, e Sango não conseguia desviar o olhar de Kagome, que sorria discretamente toda vez que os dois recomeçavam a brigar. Miroku, cada vez mais emburrado e com ciúmes, não dizia uma palavra.

- Bem – Sango ouviu Kagome dizer e acompanhou-a com os olhos enquanto se levantava e espanava a poeira das calças – Tenho que passar na biblioteca ainda hoje. Agradeço a companhia de vocês – ela sorriu.

- Que isso, cara. Volta aí quando der na telha – Kouga cumprimentou-o com a latinha de suco em suas mãos, o peso do corpo apoiado no outro braço, atrás. – 'Cê é gente boa.

- Aí, eu vou com você – disse Inu-Yasha de repente, levantando-se também e espanando a poeira da calça. – Tenho que ir pra lá também.

Miroku, Sango e Kouga olharam para ele, surpresos.

- O quê?

- É, tinha esquecido que tenho que passar na sala da diretoria. É ali perto. Me pegaram colando na prova de Biologia. A velha Tsubaki vai me dar o maior esporro de novo.

Silêncio.

- Seria muito improvável ver o Inu-Yasha na biblioteca. – Miroku franziu o cenho.

- Acho que o mundo acabaria antes disso.

- É... Nem sabia que ele sabia ler. – retrucou Kouga, sorrindo maldosamente. Como resposta, ganhou um belo galo em sua testa.

- Enfim, vejo vocês na sala. Vam'bora, novato.

Ao saírem, outra onda de silêncio pairou sobre Kouga, Miroku e Sango.

- Sango – começou Kouga, abrindo um sorriso malicioso – Cê tá caidinha por ele, tá não?

O rosto da garota enrubesceu furiosamente. Abaixou a cabeça, a franja cobrindo seus olhos, e murmurou quase que inaudivelmente um "não". Miroku bufou mais uma vez.


Kagome esperava por Inu-Yasha sentada em um banco em frente à sala da diretora. Segundo ele, não tomaria mais do que alguns minutos; depois disso, iria guiá-la até a biblioteca.

Nada mal para o primeiro dia de aula, pensou ela. Havia conhecido pessoas simpáticas, possivelmente seus primeiros amigos naquela escola. Ou mesmo primeiros amigos, corrigiu ela. Só havia tido um amigo em toda sua vida, e por um curto período de tempo. Nunca iria se esquecer daquela pessoa, tão preciosa para ela.

Havia conhecido-o em uma de suas viagens para o exterior. Não tinha nem atingido a puberdade ainda e já fazia tours na Europa e Ásia, cantando para mais de 20 mil pessoas a cada show. Em um desses tours, Jakotsu, ávido fã seu, havia conseguido enganar os seguranças que guardavam seus aposentos e entrar em seu camarim.

"O que faz aqui? Como conseguiu entrar?" perguntara ela, surpresa.

"KAGOME-SAMA!" dissera ele, estendendo-lhe um pequeno bloquinho. "PORFAVORMEDÁUMAUTÓGRAFO!"

E foi assim que tudo havia começado. Mal haviam conseguido conversar por alguns minutos antes de Jakotsu ser encontrado e expulsado dali, e Kagome realmente gostara daquele pessoa. Talvez por ser o primeiro a desafiar seus seguranças, talvez por ter demonstrado a ela que era um grande fã seu sem vergonha de admiti-lo.

Esse episódio repetiu-se mais algumas vezes, até que Jakotsu foi ameaçado de receber um processo judicial para manter-se longe dela. Mas os danos já haviam sido permanentes: Kagome e Jakotsu haviam secretamente trocado endereços de e-mail, e comunicavam-se quando conseguiam. Acabaram tornando-se grandes amigos, mas seu pai descobrira o fato e fizera de tudo para separá-los. A partir daquele dia, Kagome tinha apenas um remoto acesso ao computador e em seus shows a porta de seu camarim vivia trancada.

Assim, haviam perdido contato. Não haviam se falado por 6 ou 7 anos.

Kagome suspirou tristemente. Perguntava-se o que tinha acontecido com Jakotsu. Sentia falta de alguém com quem conversar…

- Novato?

Ela olhou para cima, deparando-se com Inu-Yasha, que fitava-a curiosamente.

- Desculpe, não estava prestando atenção. - ela levantou-se. – Já acabou de falar com a diretora?

- Feh. Aquela VELHA – ele enfatizou a última palavra, como se quisesse ser ouvido – só me deu o maior sermão. Nada que eu não esteja acostumado.

- Eu ouvi isso, Inu-Yasha – uma voz veio de dentro do aposento com a porta fechada. Ele sorriu maldosamente.

- Vamos, tenho que levar você até a biblioteca antes do começo das aulas da tarde. – ele colocou as mãos no bolso distraidamente e começou a andar, guiando-a por entre corredores e salas de aula.

Kagome manteve-se quieta por todo o percurso. Não sabia por quê, mas sentia-se nervosa. Nunca havia estado sozinha com um garoto antes, não sabia como agir. Aliás, nunca vira-se sozinha com ninguém. Havia sempre alguém a seu lado, como por exemplo seus guarda-costas ou seu pai. Nunca a deixavam fora de vista, a não ser dentro de casa. E, ainda assim, não tinha toda a liberdade que desejava. Seus tutores particulares eram trocados pelo menos uma vez ao mês, assim como empregadas e ajudantes da cozinha. Os únicos que escapavam desse terrível destino eram aqueles que já trabalhavam para a família há tempos, como o mordomo Bóris ou sua ajudante Josefina.

Deveria começar uma conversa? Se o fizesse, sobre o que falaria? Havia preparado-se para agir como garoto, mas não achava que tivesse que realmente falar com outro. Seu plano inicial era ver-se longe de qualquer aproximação inadequada e íntima com qualquer indivíduo da escola. Não podia ser descoberta de jeito nenhum.

- Mas e aí – começou Inu-Yasha depois de um tempo, quebrando o silêncio – Vai fazer o que na biblioteca?

- Ah – respondeu ela, saindo de seu transe – Queria ver se há alguns livros de música que eu podia pegar emprestado.

- Música, é... – ele mostrou-se interessado – Toca alguma coisa, novato?

- Hm... Alguns instrumentos, mas é só.

- Tipo o quê?

- Vamos ver… Piano, guitarra, violão, teclado, violino, gaita, bateria, baixo, flauta, mandolim, violoncelo... Quando era pequeno, tentaram me fazer aprender vários instrumentos, mas a carga horária era demais.

Inu-Yasha arregalou os olhos.

- Sabe tocar tudo isso? – ele soltou um muxoxo. - E eu que achava que era bom…

- Sabe tocar alguma coisa?

- Piano, violão, guitarra e baixo. O básico, mesmo. Eu, Miroku, Kouga e Sango temos uma banda. Eu sou o quebra-galho, mas geralmente fico na guitarra e no vocal.

- Wah! Uma banda! – o coração de Kagome palpitou. Não gostava de admitir, mas sentia falta de poder cantar na frente de inúmeras pessoas. Todas que estavam ali apenas para vê-la, que estavam ali porque gostavam de suas músicas. Sentia falta da adrenalina, daquele gostoso frio na barriga toda vez que estava prestes a cantar. Mas provavelmente nunca voltaria a entrar no palco outra vez…

Inu-Yasha dobrou à direita no corredor e parou em frente a uma porta dupla com pequenas janelas de vidro. Ela seguiu o seu exemplo.

- Bem, aqui estamos. – ele disse, abrindo a porta para deixá-la entrar. Ela agradeceu e assim o fez.

O interior da biblioteca era aconchegante. Poucas pessoas freqüentavam-na naquele momento, mas havia diversos livros e revistas separados em dezenas de estantes. Algumas poucas mesas espalhavam-se pelo aposento, assim como sofás e mesmo cadeiras isoladas. Enquanto analisavam o lugar, ela notou como o ar dali era diferente. De um lado, um garoto afundava-se em uma pilha interminável de livros sobre astronomia; de outro,duas garotas discutiam qual ator na revista que estavam olhando era mais bonito. Kagome maravilhou-se com toda aquela diversidade, tanto de livros quanto de pessoas.

- Não tem muita gente que vem aqui – disse Inu-Yasha, acompanhando seu olhar. – Todo mundo só usa internet agora. Google salva vidas.

- Onde é a seção de música?

- Eu te mostro. Vem cá.

Ele guiou-a por entre algumas estantes, em direção ao fundo, e parou em frente a uma prateleira.

- Aqui. Essa seção é pra gente que gosta de artes e coisas desses tipo. Teatro, música, pintura.

Kagome apoiou-se cuidadosamente em uma estante, pegou um livro e folheou-o, parando em uma página ou outra para analisar seu conteúdo. Inu-Yasha observou-a enquanto seus olhos corriam as páginas.

Inu-Yasha fitou o rosto do novato. Seus olhos azuis moviam-se com interesse pela página, tentando registrar tudo o que havia ali escrito. Uma mecha dos cabelos negros desprendeu-se do rabo de cavalo baixo e um pedaço da franja cobriu-lhe ligeiramente seus olhos. Ele afastou-o com a mão livre, nem levantando os olhos da página que analisava com tanto ardor.

Havia algo de familiar naquelas feições, disso Inu-Yasha tinha certeza. Seria um conhecido seu? Talvez um amigo de infância, ou mesmo alguém da vizinhança? Não sabia de onde, mas sentia que o conhecia de algum lugar.

Inconscientemente, ele notou como Aoi tinha as feições um tanto quanto femininas. As maçãs altas de seu rosto encontravam-se ligeiramente rosadas de ansiosidade. Os cílios eram longos e curvos. Seus dedos moviam-se graciosamente pelas linhas na folha de papel, o pulso movendo-se de um jeito elegante ao virar uma página. Era um rapaz muito bonito, isso não tinha como negar.

Os olhos turquesa levantaram-se e fitaram os olhos dourados de Inu-Yasha curiosamente. Os lábios cheios e rosados abriram-se convidativos, formando um meio-sorriso.

- Posso pegar emprestado mais de um livro de uma vez?

- S-sim, até 5 livros. - Seu coração palpitou mais forte por um segundo.

As íris azuladas abaixaram-se para as folhas de papel mais uma vez. Inu-Yasha fechou os olhos e levou a mão à testa, esfregando as têmporas. O que diabos tinha sido aquilo? Se fosse uma garota até endenderia... Mas por Deus, eram ambos do mesmo sexo! Queria esmurrar-se por tido pensamentos estranhos e impróprios, mesmo que tivesse sido por uma mera fração de segundo.

Tinha que afastar aquilo de sua cabeça. Procurou desesperadamente um livro pelo qual se interessasse – acabou encontrando um sobre guitarras bem atrás de Kagome - e esticou o braço para pegá-lo.

Kagome, notando um leve movimento, levantou o olhar e viu Inu-Yasha levantar a mão.

Seus dedos fecharam-se violentamente em seu antebraço. Ele sacudiu-a com força,gritando com ela, para logo empurrá-la em direção à estante repleta de copos de cristal bem à suas costas.

Kagome atingiu o móvel, estilhaçando tanto o vidro quanto os objetos que estavam dispostos entre as prateleiras. Sua blusa rasgou-se em inúmeros pontos, assim como a pele de suas costas. Ela sentiu um líquido quente escorrer-lhe pela parte de trás do corpo e logo deduziu que era seu próprio sangue.

A visão tornou-se embaçada e foi escurecendo cada vez mais, até que-...

- NÃO!

Kagome deu um safanão na mão de Inu-Yasha e recuou até onde a estante de livros a permitia. Ele olhou-a incrédulo, a expressão confusa.

Foi então que ela notou o que havia feito. Desculpou-se várias vezes, curvando-se em uma reverência, e saiu apressada da biblioteca, agarrando com tanta força o livro que carregava que os nós de seus dedos tornaram-se brancos.

Inu-Yasha, a expressão ainda abobalhada, fitou a mão ainda erguida no ar. Algo lhe apertava o peito.

O que quer que fosse que aquele novato carregava em seu passado, não podia ser algo bom.