O Gato e a Fênix
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O cavalo se move na direção do meu campo com a lentidão leve e distante de um sonho, seu arrastar sobre o tabuleiro soando aos meus ouvidos junto com meus próprios batimentos cardíacos, pesados e dolorosos. Assim, imóvel e em silêncio, eu sofro.
O mais doce dos tormentos, a mais serena das angústias, o mais pacífico dos desesperos. Amor. Contraditório, intenso e irremediável. Outra vez ele vem e me atira ao chão.
Cheguei tarde, demorei-me tanto em percebê-lo que quando dei por mim já estava fora de meu alcance, e talvez na verdade jamais tenha estado. E, mesmo assim, o mais terrível disso é reconhecer que não há esperança. Compreendo que não há o que fazer exceto me calar e procurar conforto nessa forte amizade que nos une há tanto tempo, mas meu coração não. Ele se revolta e inquieta e me lança um gosto amargo na boca.
– Quem é ele, Minerva? – tento não soar desesperado nem acusatório, mas a voz me sai grave e áspera demais da garganta para que essa pergunta possa ser equiparada com as tantas outras que fiz ainda esta noite.
Parece relutante, como se travasse um conflito interior. Teria receio de contar-me, medo de me magoar? E se fosse eu não ficaria surpreso. Sempre tão sensível, tão correta.
– Eu... não sei se devo... Entenda, isso é muito...
Morde de leve o lábio e respira lenta e profundamente. Será que faz ideia do quanto é bonita? Não me atreveria a sequer piscar agora. E quando me olha assim, com franqueza, eu posso ver quem realmente é. Não a aparência rígida e séria da mui respeitável professora McGonagall, mas a pessoa sensível e delicada, e às vezes até mesmo frágil, que com os anos foi tomando um lugar cada vez maior em minha vida e em meu coração. Como eu gostaria de abraçá-la agora e mandar para longe todos os seus receios!
Tento sorrir para incentivá-la, mas temo que mesmo meu sorriso tenha sido melancólico na melhor das hipóteses.
– É alguém que... não me corresponde. – sua expressão é grave e os olhos pensativos parecem procurar em mim por algo. Espero que não seja aprovação, porque nem mesmo eu saberia dissimular tão bem assim. – De quem tenho somente a amizade. Mas que me é tão importante que... me faz sentir saudades quando estou longe, preocupação quando não me dá notícias e que me faz sorrir sempre que está próximo. Eu tenho somente a sua amizade, mas... isso já é tanto e já me faz tão bem que... eu não... eu não poderia arriscar o que já temos na esperança de algo além, algo que não virá.
Cala-se aos poucos, como se tivesse muito mais a dizer e pouca vontade de continuar a fazê-lo. Então suspira e rompe o olhar, deixando-me só e confuso com tantas informações. Não lhe corresponde! Não consigo nem mesmo ficar completamente feliz com isto, visto que lhe causa tanta tristeza. Porque agora sei que padecemos do mesmo mal. Na verdade parecem os mesmos efeitos e as mesmas causas, como se de sua boca saíssem as minhas palavras. A menos que... Não, não seria possível. Ou seria? Quer dizer, eu conheço todos os seus amigos e não me lembro de que tenha mencionado alguém importante assim, tampouco é de seu feitio se apaixonar rapidamente por alguém que acaba de conhecer. Resta então somente...
Uma esperança incandescente, uma ideia desvairada e maravilhosa guia minha varinha a afastar a mesinha com o tabuleiro para o lado e aproximar nossas poltronas, frente a frente. Porque não estou com cabeça para jogos, de nenhum tipo. Mas eu cá estou travando uma batalha muito diferente. Luto contra mim mesmo, coragem versus bom-senso.
As palavras enchem minha boca, difíceis de conter. Já seria um alívio imenso simplesmente dizer, não como uma cobrança ou mesmo pedido por reciprocidade, apenas uma declaração. Dizer que a amo só por sentir o peso das palavras na boca. Mas assim, sob hipótese que eu acabo de vislumbrar, é completamente irresistível.
– Este homem deve ser louco para não correspondê-la – confidencio baixinho, forçando-me a não pensar agora em meu gesto impensado nem no tamanho do risco a que estou me propondo. Apenas olho-a nos olhos e estico meu braço para alcançar sua mão, como queria há muito, muito tempo. Tem a mão quente ou a minha deve estar muito fria de nervosismo, e estamos tão perto que eu não consigo me impedir de inspirar profundamente, buscando o seu perfume e um pouco de calma. – Ou talvez um imenso tolo em deixar que pensasse o contrário.
Suspira e se inclina em minha direção, até que estejamos incrivelmente próximos. E não falo só de proximidade física. Eu mal me atrevo a respirar, com medo que se quebre esse encanto.
– Ele é um tantinho louco sim. Dizem ser o mal dos gênios. Pessoalmente, acho muito charmoso que assim o seja.
Deixa-me completamente indefeso contra o verde infinito desses olhos e aperta minhas mãos trêmulas nas suas, tão macias e suaves como eu poderia desejar que fossem. Elevo-as a altura do rosto e as beijo devagar, então olho de relance em volta e vejo que os quadros nas paredes, todos eles, estão vazios. Isso é coisa de Armando, estou certo. Mesmo depois de todos esses anos ele continua sendo um bom amigo.
– Diga que estou enganada. Diga que estive enganada por anos. Diga que pode ser. Eu e você. Diga que não precisa acontecer somente em meus sonhos. Me diga sim, que lhe direi... que te amo. Perdidamente. Há anos. Em silêncio. Sempre em silêncio.
Sim, ela disse. Com todas as palavras. Afirmou que me quer tanto quanto eu a quero, disse que me ama... Ela verdadeiramente me ama! Ama a mim.
Não posso deixar de sorrir. Na verdade mal consigo impedir-me de gritar. Poderia dizer que estou perplexo ou até estarrecido, mas creio que maravilhado seja a palavra que definiria melhor a situação. E emocionado, exultante e ligeiramente incrédulo. Pois de todas as coisas que eu poderia imaginar, nunca seria capaz de prever uma declaração de amor vinda dela. Esse é o tipo de coisa com que se fantasia sozinho à noite, aos suspiros, mas não o tipo de coisa que realmente acontece. Mas, meu Deus, aconteceu!
– Ouvi dizer em algum lugar que amizade é amor sem desejo, então creio que tenho feito confusão com os nomes por todo esse tempo. E, perdoe-me por isso, mas se for assim talvez eu nunca tenha sido seu amigo de verdade – confidencio-lhe, tão sincero que pego a mim mesmo de surpresa. Como nunca havia notado isso antes?
Continuo segurando suas mãos com uma das minhas e subo a outra para tocar o seu rosto, acariciando-a delicadamente ao longo da bochecha. Deixo que se fixe entre a orelha e o pescoço, as pontas dos dedos afundando na maciez do cabelo negro, e aproximo-me ainda mais, até que tudo que posso ver é o seu rosto. Sua expressão denuncia uma concentração exagerada, excesso de pensamentos intensos. Mas é a boca que me chama a atenção: entreaberta, tão próxima e convidativa que torna difícil continuar a raciocinar.
– O que sinto, e hoje sei disso, vai muito além do sim que você me pediu. Além do teu silêncio e da minha cegueira. O que sinto é amor – sem saber dizer o porque, essa última frase sai baixa, sussurrada como se fosse um segredo. Mas é tolice tratar como segredo algo que está escrito em meu rosto, que é gritado a cada um de meus gestos.
Por fim acabo com toda a distância, mantendo o contato com os olhos como quem pede permissão, e pouso meus lábios sobre os seus, sentindo o aroma inebriante de cereja e de promessas que anseiam por serem ditas.
Ela me corresponde o beijo com igual vontade, até roubar-me todo o fôlego. Então se afasta por um breve momento, apenas o suficiente para reafirmar o poder de seus olhos sobre mim, abre um sorriso tão amplo que poderia explodir o meu coração e volta e me beijar. Mantenho-a ainda mais perto, sentindo junto a mim seu coração acelerado como o de um passarinho, e logo começo a nutrir pensamentos ainda mais audaciosos. No entanto, infelizmente sou salvo de acabar me excedendo por um mirrado pigarreio vindo de algum lugar próximo.
Procuro em volta, abobalhado, e dou de cara com orelhas baixas e olhos imensos e temerosos que apagam qualquer fagulha de raiva que poderia ter se formado em mim por ter sido interrompido num momento tão importante. Trata-se de um elfo. Criaturinhas curiosas essas, conseguem ir onde querem e quando querem, tão furtivamente que muitas vezes nem chegam a serem notados... Especialmente quando se está tão maravilhosamente distraído como eu estava um segundo atrás.
Quando volto o olhar para Minerva, ela já reassumiu sua costumeira pose digna e implacável, muito diferente da mulher que há pouco se derretia nos meus braços. Se não estivesse tão tensa e de lábios inchados eu poderia crer que tudo não passou de um devaneio excepcionalmente vívido da minha cabeça. E tenho vontade de agarrá-la novamente para comprovar a verdade.
– Mestre Dumbledore, com licença, senhor. Bucky pede desculpas por interromper. Bucky foi enviado a lembrá-lo que vossa presença se faz necessária no Salão Principal. – Claro, o jantar! Tinha me esquecido completamente. Mais um instante e teria sido capaz de esquecer até mesmo meu próprio nome. – Mestre Slughorn manda Bucky dizer que todos estão com fome, senhor.
Ela volta a me olhar, dessa vez de um jeito sério que demonstra que é com minha vice que estou falando agora, e não com minha... bem, ainda não sei como nomear o que temos... É minha Minerva, pronto.
– Parece que... perdemos a hora, professor Dumbledore. – A sombra sutil de um sorriso apontando no rosto ainda corado me faz lembrar que, sob a inexpugnável fachada da professora McGonagall, ela ainda está lá.
– De fato. Agradeço imensamente por vir nos chamar, Bucky, e peço que retorne ao Salão para avisar os demais funcionários que já estou a caminho – falo ao pequenino elfo com um sorriso tranquilizador e me levanto enquanto ele humildemente se despede com uma reverência e depois some no ar. – Gostaria de acompanhar-me, Minerva?
Ofereço-lhe o braço, tranquilo e sorridente. Estou plenamente ciente de minhas responsabilidades e de que por conta disso deveria me apressar na direção do Salão Principal imediatamente, mas simplesmente não consigo ficar assim tão preocupado com o apetite irrefreável de Horace quando tenho tão formidável dama ao meu lado. E ninguém há de morrer de fome por mais alguns minutinhos que eu possa roubar de sua companhia.
Já estamos próximos da porta quando ela estaca no lugar e pede que eu pare. Então se acerca mais e afunda os dedos na minha barba, provocante. Encara-me sorridente, os olhos doces de quem é mais que amiga e deseja mais do que companhia numa caminhada pelo castelo. Eu ensaio uma maneira de pedir-lhe outro beijo, mas ela me antecipa. Obedeço-a de modo cortês, refreando a ousadia que borbulha em mim agora. Ainda é muito cedo na relação, e muito tarde no relógio.
Quando dou por mim já voltou ao olhar severo e o queixo erguido, o cabelo preso com tamanha perfeição e rapidez que só pode ter sido feito por meio dum excelente feitiço. Agora está segurando meu braço como sempre o fez, mas hoje o sinto infinitamente diferente. E também é engraçado voltar a encarar a multidão de alunos como se esse fosse um dia como todos os outros, e não o mais extraordinário de que me recordo em décadas. Estranho que olhem para mim (esperando apenas que lhes mande servir o jantar, claro, não com verdadeira atenção) e não sejam capazes de notar as emoções que se agitam em meu peito. Estranho não poder demonstrá-las, exceto por um mui discreto toque de mãos por sob a mesa.
Não tenho fome. Não de comida, ao menos. Então como pouco e penso muitíssimo, a olhar apenas de canto de olho e tentar não olhar nem assim. Depois me alongo numa conversa qualquer com Filius apenas o suficiente para não me mostrar ansioso como realmente estou até que possa me oferecer para novamente acompanhá-la até seus aposentos.
Não conversamos muito pelo caminho, mas o silêncio fica pesado dos resquícios das revelações feitas mais cedo e daquilo que na pressa deixamos ficar implícito. Tanta coisa que queria ter dito e espero ainda por dizer! E essas borboletas no estômago são tão agradáveis que me fazem desejar que o percurso seja mais longo ou que possa arranjar um bom motivo qualquer para estender meu tempo com ela. Mas cedo demais alcançamos sua porta e paramos, meio sem jeito. Eu me pego olhando em volta para certificar-me de nossa privacidade enquanto tento me decidir se me despeço ou insinuo minha vontade de não ir embora esta noite, não ir embora nunca. Para tanto não me falta coragem nem vontade, mas sobra-me respeito e zelo para com o que já temos. Porém, mesmo que o bom-senso triunfe, não tenho como me privar de mais um pouco dessa felicidade que descobri tão recentemente e a beijo de novo. Dessa vez um pouco mais atrevido, explorando sua boca mais detalhadamente, as mãos segurando-a pela cintura delgada.
Mas aí um ruído qualquer em algum lugar no andar de cima me traz de volta à realidade do quanto é inapropriado esse tipo de demonstrações de carinho pelos corredores, ainda mais vinda de nós dois. Mesmo assim, é preciso muita força de vontade para conseguir me afastar.
– Boa noite, minha querida. Aguardo impaciente pelo nosso encontro de amanhã – então tomo um momento para beijar-lhe a mão, um pouco mais demoradamente que de costume. – Até lá peço que visite os meus sonhos, porque nos pensamentos que tenho desperto lhe garanto que estará sempre presente.
– Encontramo-nos em sonhos, então. Ficaria surpreso ao saber quão fácil me é sonhar com você. – Conta-me isso sorrindo, sem parecer se importar com o quão surpreso realmente me deixou. – Boa noite.
Observo-a abrir a porta com e ensaio ir embora, receoso de estar prolongando demais essa despedida.
– Albus... – me chama, e me detenho enquanto ela parece ponderar por um breve instante – eu amo você. Durma bem.
Então vai fechando a porta e eu fico momentaneamente atordoado com a partida, levando um segundo ou dois para conseguir reagir.
– E eu amo você! – sussurro em resposta, as mãos em concha em torno da boca como se gritasse, o corpo comicamente inclinado de lado para continuar a vê-la através da fresta que vai se afinando devagar.
Repasso mentalmente cada palavra dita, cada sorriso, cada olhar. Uma ou duas vezes dou por mim murmurando nossas juras de amor, de modo a gravar bem fundo na memória o modo e o contexto em que foi dito. Difícil é não fazê-lo em voz alta ou percorrer os lábios com as pontas dos dedos para tentar relembrar os seus beijos. Ou pior, dar meia volta e ir até implorar por mais um para aquietar o meu coração.
Já estou subindo a escada giratória quando me dou conta que fiz todo o caminho de volta, tão distraído que não me lembro de ter passado por corredor algum. Abro a porta devagar, tentando não chamar a atenção, mas meus esforços são em vão: dezenas de olhos pintados a óleo me aguardam, certamente na expectativa de descobrir o que se passou enquanto estavam ausentes. Mesmo depois que entro eles continuam a olhar por sobre meu ombro, como se esperassem que alguém viesse logo atrás de mim.
Ah, adoraria que assim fosse.
– Lamento desapontá-los, mas ainda não tenho companhia para esta noite. Embora fique contente em poder dizer que Minerva e eu estamos muito melhor do que poderia sonhar.
– E como exatamente vocês estão, Albus? – Pergunta-me Armando, benevolente.
– Apaixonados, meu caro amigo. Apaixonados.
Deixo a sala sob uma onda de congratulações, os aplausos entusiasmados de Dilys e o "Não vai durar" agourento murmurado por Phineas. Na estimada privacidade de meu quarto, atiro os óculos sobre a primeira cômoda que vejo e as roupas ao longo do caminho para o banheiro. Antes de vestir o pijama passo algum tempo a procurar no espelho o que ela poderia ter visto de interessante em mim, e sinceramente não encontro nada de especial. Justamente ao contrário. No entanto não posso deixar de agradecer minha estrela da sorte por isso.
Andy: Como eu consigo escrever tão bem? Simples: magia das trevas *risada diabólica*. 3:) Todos os dias eu me banho em sangue de unicórnio bebê para manter a beleza e juventude eternas, juntamente com o dom magistral da escrita sublime de ADMM. Mas, falando sério, tudo que a gente se empenha e faz com carinho fica bem feito, e esse aqui é um bom exemplo disso ^^
Uhura: Totalmente empolgante é realmente a melhor descrição para essa pequena maravilha que estamos escrevendo aqui, guria. Me deixa dando pulinhos de alegria na cadeira a cada nova linha e parágrafo... ah, nós temos que escrever mais. Isso vicia!
Mellie E: Muito obrigada, esse está sendo um trabalho divertidíssimo, então vale muito a pena. Concordo contigo que o Dumby tava comendo mosca, mas o bofe ser tão tímido faz parte de seu charme.
SonnySantler: Greg, meu caro, se eu pudesse eu juro que te dava a Minerva... e ficava com o Albus pra mim, claro ;)
Mamma: Hey, que bom que vc ta gostando tanto da fic! Só faltava mesmo vc por aqui, guria, pra festa ficar completa! E espero que tenha gostado desse belo avanço do nosso casal, com direito e beijos e declarações de amor cuti-cutis :D
Nan3da: Sim, ele é mesmo o homem mais encantador de todo o planeta. Uma pena que não existe, né?
