Três Velhas Senhoras Tricotam as Meias da Morte.

A garota morena, Hazel pegou o livro e levantou olhando para todos os campistas com um sorriso.

— Então, quem vai ler agora? - ela perguntou virando o livro nas mãos. - Ou Percy vai ter que sortear alguém?

Annabeth, na mesa de Atena, respirou fundo e levantou se dirigindo à mesa principal e pegando o livro, abrindo-o no segundo capítulo.

— Três velhas senhoras tricotam as meias da morte. - ela leu.

— As Parcas? - Poseidon franziu as sobrancelhas.

Eu estava acostumado a uma ou outra experiência esquisita, mas normalmente elas passavam depressa. Aquela alucinação 24 horas por dia e sete dias por semana era mais do que eu podia encarar. Durante o resto do ano escolar o campus inteiro parecia me pregando algum tipo de peça. Os alunos agiam como se estivessem completa e totalmente convencidos de que a Sra. Kerr – uma loira alegre que eu nunca tinha visto na vida até o momento em que ela entrou no nosso ônibus no fim da excursão – era nossa professora de iniciação à álgebra desde o Natal.

— Ele está começando a perceber quem é. - Hermes disse baixinho. - Isso é ruim.

De vez em quando eu soltava uma referência a Sra. Dodds para cima de alguém, só para ver se conseguia fazê-los titubear, mas eles me olhavam como se eu fosse louco.

E não é? - Ares perguntou com um sorriso cruel.

Os deuses reviraram os olhos para o deus da Guerra e Percy, na mesa principal, estreitou os olhos verdes para ele.

Acabei quase acreditando neles: a Sra. Dodds nunca tinha existido. Quase.

Mas Grover não conseguiu me enganar. Quando eu mencionava o nome Dodds ele hesitava, depois alegava que ela não existia. Mas eu sabia que ele estava mentindo.

Alguma coisa estava acontecendo. Alguma coisa havia acontecido no museu.

Eu não tinha muito tempo para pensar no assunto durante o dia, mas, à noite, visões da Sra. Dodds com garras e asas de couro me faziam acordar suando frio.

— Não vale a pena se incomodar garoto. - Dionísio disse abrindo uma lata de Diet Coke.– Não tenha pesadelos por causa disso.

O tempo maluco continuou, o que não ajudava meu humor. Certa noite, uma tempestade de raios arrebentou a janela do meu dormitório. Alguns dias depois, o maior tornado jamais visto no vale do Hudson tocou o chão a apenas oitenta quilômetros da Academia Yancy. Um dos eventos correntes que aprendemos na aula de estudos sociais era o número inusitado de pequenos aviões que caíram em súbitos vendavais no Atlântico naquele ano.

—Zeus está muito brabo. - Annabeth comentou observando o senhor dos céus, que encarava o irmão do mar.

Comecei a me sentir mal-humorado e irritado a maior parte do tempo. Minhas notas caíram de D para F. entrei em mais atritos com Nancy Bobofit e suas amigas. Era posto para fora da sala e tinha de ficar no corredor em quase todas as aulas.

— Filho de peixe peixinho é – Annabeth comentou baixinho pegando a mão de Percy na mesa principal, um sorriso carinhoso nos lábios.

Finalmente, quando nosso professor de inglês, o Sr. Nicoll, me perguntou pela milionésima vez por que eu tinha tanta preguiça de estudar para as provas de ortografia, eu explodi. Chamei-o de velho dipsomaníaco. Não sabia direito o que aquilo queria dizer, mas soou bem.

— O garoto é briguento. - Ares disse com um sorriso.

O diretor mandou uma carta para minha mãe na semana seguinte, tornando oficial: eu não seria convidado a voltar para a Academia Yancy no ano seguinte.

Ótimo, disse a mim mesmo. Simplesmente ótimo. Eu estava com saudades de casa. Queria ficar com minha mãe no nosso pequeno apartamento no Upper East Side, mesmo que tivesse de frequentar uma escola pública e aturar meu padrasto detestável e seus jogos de pôquer estúpidos.

— Ele me lembra alguém. - Atena comentou encarando o tio do mar.

E, no entanto… havia coisas em Yancy de que eu sentiria falta. A vista da minha janela para os bosques, o Rio Hudson à distância, o cheiro dos pinheiros. Sentiria falta de Grover, que tinha sido bom amigo, mesmo com seu jeito meio estranho. Fiquei pensando como ele iria sobreviver ao próximo ano sem mim.

—Ele está seguro, no Acampamento. - um filho de Hefesto disse revirando os olhos.

Também sentiria falta da aula de latim – os dias malucos de torneio do Sr. Brunner e sua confiança em que eu poderia me sair bem.

Quando a semana de exames foi se aproximando, latim era a única prova para a qual eu estudava. Não tinha me esquecido que o Sr. Brunner falara, sobre essa matéria ser questão de vida ou morte para mim. Não sabia muito bem por que, mas acreditei nele.

—Fez bem. Quíron geralmente está certo. - Ártemis disse.

Na noite anterior ao meu exame final, fiquei tão frustrado que joguei o Guia Cambridge de mitologia grega do outro lado do dormitório. As palavras tinham começado a flutuar para fora da página, dando voltas na minha cabeça, as letras fazendo manobras radicais como se estivessem andando de skate. Não havia jeito de eu me lembrar da diferença entre Quíron e Caronte, ou Polidectes e Polideuces. E conjugar aqueles verbos em latim?

— Não sabe a diferença entre Quiron e Caronte? - Travis perguntou com um sorriso divertido. - É bem fácil..

— Caronte serve aos mortos e Quiron dá aulas aos vivos. - o irmão gemeo completou, o sorriso idêntico ao do irmão.

Annabeth revirou os olhos e voltou sua atenção ao livro

Nem pensar.

Fiquei indo de um lado para outro no quarto, com a sensação de que havia formigas andando por dentro da minha camisa.

Lembrei a expressão séria do Sr. Brunner, de seus olhos de mil anos. De você, aceitarei apenas o melhor, Percy Jackson.

Respirei fundo. Peguei o livro de mitologia.

Eu nunca havia pedido ajuda a um professor antes. Se falasse com o Sr. Brunner, quem sabe ele me daria algumas dicas. Poderia, pelo menos, pedir desculpas pelo grande F que ia tirar na prova. Não queria sair da Academia Yancy deixando-o pensar que eu não tinha me esforçado.

— Ele não pensaria isso. - Poseidon disse

Desci a escada para os gabinetes dos professores. A maioria estava vazia e escura, mas a porta do Sr. Brunner estava entreaberta e a luz que vinha da sua janela se estendia ao longo do piso do corredor.

Eu estava a três passos da maçaneta da porta quando ouvi vozes dentro da sala. O Sr. Brunner tinha feito uma pergunta. Uma voz que, sem sombra de dúvida, era a de Grover disse: "…preocupado com Percy, senhor."

Eu gelei.

— E agora ele vai saber mais ainda. - Atena disse.

Normalmente não sou bisbilhoteiro, mas desafio alguém a não tentar ouvir quando seu melhor amigo está falando sobre você com um adulto.

— Ninguém conseguiria. - Silena disse da mesa de Afrodite.

Cheguei um pouquinho mais perto.

— …sozinho nesse verão – Grover estava dizendo. – Quer dizer, uma benevolente na escola! Agora que sabemos com certeza, e eles também sabem…

Só vamos piorar as coisas se o apressarmos – disse o Sr. Brunner. – Precisamos que o menino amadureça mais.

Mas ele pode não ter tempo. O prazo final do solstício de verão…

Terá de ser resolvido sem ele, Grover. Deixe-o desfrutar sua ignorância enquanto ainda pode.

Senhor, ele a viu…

Imaginação dele – insistiu o Sr. Brunner. – A Névoa sobre os alunos e a equipe será suficiente para convencê-lo disso.

— Mais um elemento de percepção. E ninguém percebe que o garoto está escutando. - Atena revirou os olhos.

Senhor, eu… eu não posso fracassar nas minhas tarefas de novo – a voz de Grover estava embargada de emoção – sabe o que isso significaria.

Você não fracassou, Grover – disse o Sr. Brunner gentilmente. – Eu deveria tê-la visto como ela era. Agora vamos apenas nos preocupar em manter Percy vivo até o próximo outono…

O livro de mitologia caiu da minha mão e bateu no chão com um ruído surdo.

O Sr. Brunner silenciou.

Com o coração disparado, peguei o livro e voltei pelo corredor. Uma sombra deslizou pelo vidro iluminado da porta de Brunner, a sombra de algo muito mais alto do que meu professor de cadeira de rodas, segurando alguma coisa suspeitamente parecida com o arco de um arqueiro.

— É por que Quíron é um arqueiro. - Clarisse revirou os olhos., - Babaca.

— Eu não sabia. - Percy respondeu com raiva.

Abri a porta mais próxima e me esgueirei para dentro.

Alguns segundos depois ouvi um lento clop-clop-clop, como blocos de madeira abafados, depois um som como o de um animal farejando bem na frente da minha porta.

Um grande vulto escuro parou diante do vidro e depois seguiu adiante.

Uma gota de suor escorreu por meu pescoço.

— Quíron! - um filho de Hermes gritou entusiasmado, fazendo os outros rirem.

Em algum lugar no corredor, o Sr. Brunner falou.

Nada – murmurou ele. – Meus nervos não andam tão bons desde o solstício de inverno.

Nem os meus – disse Grover. – Mas eu podia ter jurado…

Volte para o dormitório – disse-lhe o Sr. Brunner. – Tem um longo dia de provas amanhã.

Nem me lembre.

As luzes se apagaram na sala do Sr. Brunner.

Aguardei no escuro pelo que pareceu uma eternidade. Por fim, me esgueirei para o corredor e subi de volta para o dormitório. Grover estava deitado na cama, estudando as anotações para a prova de latim como se tivesse estado lá a noite inteira.

Ei! – disse ele, com olhar de sono. – Vai estar preparado para a prova?

Não respondi.

Está com uma cara horrível. – Ele franziu a testa. – Tudo bem?

Só estou cansado.

Virei-me para que ele não pudesse perceber minha expressão e comecei a me preparar para dormir.

— É melhor não mentir para um sátiro, a gente sabe farejar a mentira. - um dos sátiros disse.

Não entendi o que tinha ouvido lá embaixo. Queria acreditar que havia imaginado aquilo tudo. Mas uma coisa estava clara: Grover e o Sr. Brunner estavam falando de mim pelas costas. Achavam que eu corria algum tipo de perigo.

— É por que você corre perigo babaca. - Clarisse resmungou revirando os olhos.

Na tarde seguinte, quando estava saindo da prova de latim de três horas, atordoado com todos os nomes gregos e romanos que tinha escrito errado, o Sr. Brunner me chamou de volta.

Por um momento, fiquei preocupado achando que ele descobrira minha bisbilhotice na noite anterior, mas não parecia ser esse o problema.

Percy – disse ele. – Não fique desanimado por deixar Yancy. É… é para o seu bem.

Seu tom era gentil, mas, ainda assim, as palavras me deixaram sem graça. Embora ele estivesse falando baixo, os que terminavam a prova podiam ouvir. Nancy Bobofit me lançou um sorriso falso e fez pequenos movimentos de beijo com os lábios.

Eu murmurei:

Está bem, senhor.

Quer dizer… – O Sr. Brunner andou com a cadeira para trás e para frente, como se não tivesse certeza do que falar. – Este não é o lugar certo para você. Era apenas uma questão de tempo.

— Momento errado Quíron. - annabeth murmurou antes de voltar para a leitura

Meus olhos ardiam.

— Não vai chorar Persiana— Clarisse disse com um sorriso maldoso, encarando o garoto na mesa de Hermes.

Percy olhou feio para ela

Ali estava meu professor favorito, na frente da classe, me dizendo que eu não era capaz. Depois de falar o ano todo que acreditava em mim, agora me dizia que eu estava destinado a ser expulso.

Certo – falei, tremendo.

Não, não – disse o Sr. Brunner. – Ah, que droga. O que eu estava tentando dizer… é que você não é normal, Percy. Não é nada…

Obrigado – soltei. – Muito obrigado, senhor, por me lembrar.

Percy…

Mas eu já tinha ido.

— Não é legal fugir. - Annabeth comentou levantando os olhos para Percy.

No último dia de aulas, enfiei minhas roupas na mala.

Os outros garotos estavam fazendo piadas, falando sobre os planos para as férias. Um deles ia fazer trilha na Suíça. Outro faria um cruzeiro de um mês pelo Caribe. Eram delinquentes juvenis como eu, mas delinquentes juvenis ricos. Os papais eram executivos, embaixadores ou celebridades. Eu era um joão-ninguém, de uma família de joões-ninguém.

Eles me perguntaram o que ia fazer no verão, e eu disse que voltaria para a cidade.

O que não lhes contei foi que ia arranjar um trabalho de verão passeando com cachorros ou vendendo assinaturas de revistas, e passar o tempo livre pensando em onde iria estudar no outono.

Ah – respondeu um dos garotos. – Legal.

— Belos companheiros de quarto. - Ares revirou os olhos irritado.

Eles voltaram à conversa como se eu não existisse. A única pessoa de quem tinha medo de me despedir era Grover, mas do jeito como as coisas aconteceram, eu nem precisei. Ele havia comprado uma passagem para Manhattan no mesmo ônibus Greyhound que eu, então lá estávamos nós, juntos outra vez, indo para a cidade.

— Ele tem que te proteger. - Silena disse confirmando com a cabeça.

Durante toda a viagem de ônibus, Grover olhava nervoso para o corredor, observando os outros passageiros. Ocorreu-me que ele sempre agia de modo nervoso e inquieto quando saíamos de Yancy, como se esperasse que algo ruim fosse acontecer. Antes, eu achava que ele tinha medo de que o provocassem. Mas não havia ninguém para fazer isso no ônibus.

Finalmente, não pude mais aguentar.

Procurando Benevolentes?

— Grover não sabe fingir. - Luke disse revirando os olhos. - Fique quieto sátiro.

Grover quase pulou do assento.

O que… o que você quer dizer?

Confessei ter ouvido a conversa dele com o Sr. Brunner na noite anterior ao dia da prova.

O olho de Grover estremeceu.

Quanto você ouviu?

Ah… não muito. O que é o prazo final do solstício de verão?

Ele se esquivou.

Olhe Percy… Eu só estava preocupado com você, entende? Quer dizer, tendo alucinações com professoras de matemática demoníacas…

Grover…

E eu estava dizendo ao Sr. Brunner que talvez você estivesse muito estressado, ou coisa assim, porque não havia uma pessoa chamada Sra. Dodds e…

Grover, você mente muito mal mesmo.

As orelhas dele ficaram cor-de-rosa. Do bolso da camisa, ele pescou um cartão de visitas encardido.

Pegue isto, certo? Para o caso de você precisar de mim este verão.

— Por que ele vai precisar obviamente. - Travis sorriu largamente para seu irmão que revirou is olhos.

O cartão tinha uma escrita floreada, que era um terror para os meus olhos disléxicos, mas, por fim, consegui identificar alguma coisa como:

Grover Underwood

Guardião

Colina Meio-Sangue

Long Island, Nova York

(800) 009-0009

O que é Colina Meio…

— Não fale alto garoto. - Ares berrou assustando seus filhos que arregalaram os olhos.

Não fale alto! – ganiu. – É meu, ah… endereço de verão.

Meu coração desabou. Grover tinha uma casa de veraneio. Eu nunca imaginara que a família dele poderia ser tão rica quanto as dos outros em Yancy.

Certo – falei, mal-humorado. – Tá, se eu quiser uma visita à sua mansão.

— Ares e Grover estão pensando igual. - Connor sussurrou para o irmão, divertido.

Ele assentiu.

Ou… ou se você precisar de mim.

Por que iria precisar de você?

— Essa doeu. - Grover sorriu para Percy. O moreno retribuiu o sorriso.

Saiu mais rude do que eu pretendia.

— Isso é verdade Cabeça de Alga. - Annabeth sussurrou par aPercy que assentiu, os olhos passando por todos os campistas.

Grover ficou com a cara toda vermelha.

Olhe, Percy, a verdade é que eu… eu tenho, de certo modo, que proteger você.

Olhei fixamente para ele. Durante o ano inteiro me meti em brigas para manter os valentões longe dele. Perdi o sono temendo que, sem mim, ele fosse apanhar no ano que vem. E ali estava Grover agindo como se fosse ele a me defender.

— Ele defendeu. - Anabbeth defendeu o sátiro.

Grover – disse eu – do que exatamente você está me protegendo?

Houve um tremendo barulho de algo sendo triturado embaixo dos nossos pés. Uma fumaça preta saiu do painel e o ônibus inteiro foi tomado por um cheiro de ovo podre. O motorista praguejou e levou o ônibus com dificuldade até o de alguns minutos fazendo alguns sons metálicos no compartimento do motor, o motorista anunciou que teríamos de descer. Grover e eu saímos em fila com todos os outros.

— Organizados.- Will Solace debochou divertido.

Estávamos em um trecho de estrada rural – um lugar que a gente nem notaria se não tivesse enguiçado lá. Do nosso lado da estrada não havia nada além de bordos e lixo jogado pelos carros que passavam. Do outro lado, depois de atravessar quatro pistas de asfalto que refletiam uma claridade trêmula com o calor da tarde, havia uma banca de frutas como as de antigamente.

As coisas à venda pareciam realmente boas: caixas transbordando de cerejas e maçãs vermelhas como sangue, nozes e damascos, jarros de sidra dentro de uma tina com pés em forma de patas, cheias de gelo. Não havia fregueses, só três velhas senhoras sentadas em cadeiras de balanço à sombra de um bordo, tricotando o maior par de meias que eu já tinha visto.

— Será que elas estavam fazendo a meia para um certo ciclope cego? - Percy perguntou baixinho para Annabeth que apenas deu de ombros.

Quer dizer, aquelas meias eram do tamanho de suéteres, mas eram obviamente meias. A senhora da direita tricotava uma delas. A da esquerda a outra. A do meio segurava uma enorme cesta de lã azul brilhante.

As três mulheres pareciam muito velhas, com o rosto pálido e enrugado como fruta seca, cabelo prateado preso atrás com lenço branco, braços ossudos espetados para fora de vestidos de algodão pálido.

— As Parcas. - Hermes sussurrou amargo.

A coisa mais esquisita era que elas pareciam olhar diretamente para mim. Encarei Grover para comentar isso e vi que seu rosto tinha ficado branco. O nariz tremia.

Grover? – chamei. – Ei, cara…

Diga que elas não estão olhando para você. Estão, não é?

Estão. Esquisito, não? Você acha que aquelas meias serviriam em mim?

Não tem graça, Percy. Não tem graça nenhuma.

A velha do meio pegou uma tesoura imensa – dourada e prateada, de lâminas longas, como uma tosquiadeira. Ouvi Grover tomar fôlego.

Vamos entrar no ônibus – ele me disse. – Venha.

O quê? Lá dentro está fazendo quinhentos graus.

Venha!

Ele forçou a porta e subiu, mas eu fiquei embaixo.

Do outro lado da estrada, as velhas ainda olhavam para mim. A do meio cortou o fio de lã, e posso jurar que ouvi aquele ruído cruzar as quatro pistas de trânsito. As duas amigas dela enrolaram as meias azuis e me fizeram imaginar para quem seria aquilo – o Pé Grande ou o Godzilla.

— Que fio é esse? - um filho de Hermes perguntou confuso.

— Um aviso. - Hermes disse baixinho, os olhos passando por Luke e se prendendo à mesa. - Alguém vai morrer. - ele terminou com a voz embargada.

Na traseira do ônibus, o motorista arrancou um grande pedaço de metal fumegante do compartimento do motor. O ônibus estremeceu e o motor voltou à vida, roncando.

Os passageiros aplaudiram.

Tudo em ordem! – gritou o motorista. Ele bateu no ônibus com o chapéu. – Todo mundo para dentro!

— Pararam apenas para ele ver o fio sendo cortado. - Deméter disse espantada.

Quando já estávamos a caminho, comecei a me sentir como se tivesse pego uma gripe.

Grover não parecia muito melhor. Estava tremendo e batendo os dentes.

Grover?

Sim?

O que me diz?

Ele enxugou a manga da camisa.

Percy, o que você viu lá atrás, na banca de frutas?

Você quer dizer, aquelas velhas? O que há com elas, cara? Elas não são como… a Sra. Dodds, são?

A expressão dele era difícil de interpretar, mas tive a sensação de que as velhas da banca de frutas eram algo muito, muito pior do que a Sra. Dodds. Grover disse:

Só me diga o que você viu.

A do meio pegou uma tesoura e cortou o fio.

— Espero que não seja o que estou pensando. - Hermes resmungou, Luke olhou para ele de canto.

Ele fechou os olhos e fez um gesto com os dedos parecido com o sinal-da-cruz, mas não era isso. Era outra coisa, algo um tanto… mais antigo.

Ele disse:

Você a viu cortar o fio?

Sim. E daí? – Mas mesmo enquanto dizia isso, já sabia que era algo importante.

Isso não está acontecendo – murmurou Grover. Ele começou a morder o dedão. – Não quero que seja como na última vez.

Que última vez?

Sempre na sexta série. Eles nunca passam da sexta.

— Esse vai passar – Poseidon disse para ninguém em particular, os olhos desfocados.

Grover – chamei, porque ele estava realmente começando a me assustar – do que você está falando.

Deixe que eu vá com você da estação do ônibus até sua casa. Prometa.

Aquele me pareceu um pedido estranho, mas prometi.

É uma superstição ou coisa assim? – perguntei.

Nenhuma resposta.

— Grover… aquele corte no fio. Significa que alguém vai morrer?

Ele olhou para mim com tristeza, como se já estivesse escolhendo o tipo de flores que eu gostaria de ter em meu caixão.

Annabeth respirou fundo e fechou o livro, erguendo os olhos para o garoto loiro que parara ao seu lado, um dos garotos do futuro, estava sorrindo para ela. Annabeth entregou o livro para ele e foi para a sua mesa.

— Acho que seria uma boa opção nós comermos alguma coisa. - o garoto disse sorrindo para os campistas. - Vocês estão com uma cara de fome. Vocês estão liberados por agora. O almoço sai em uma hora.

— Conversem sobre esses capítulos, façam suas perguntas, nós estaremos aqui se vocês tiveram alguma pergunta. - Hazel disse.

— Lembramos apenas para vocês não matarem os Romanos, eles são campistas como vocês. - Annabeth disse levantando de seu lugar. - Romanos, a mesma coisa para vocês. Deem uma volta, conheçam o Acampamento. Se divirtam crianças.

Os campistas levantaram e esvaziaram o Pavilhão, os deuses continuaram por ali e os jovens do futuro se reuniram para conversar.

— O que a gente faz com a Senhora Jackson? - Piper perguntou. - Ela não pode ficar no mundo inferior para sempre.

— Eu mandei os primeiros capítulos para Hades e Perséfone, eles virão na hora certa com a Senhora Jackson. - Leo disse mexendo em seu cinto de ferramentas.

— Ótimo. - Percy encerrou o assunto. - Vamos curtir essa pequena folga, enquanto podemos. Annabeth e eu iremos até o lago de canoagem. - ele se afastou com a loira, as mãos unidas.

Cada um dos semideuses foi com seu par para algum lugar do Acampamento, Leo foi se aventurar um pouco no Bosque. Os deuses observaram eles se dispersarem em silêncio.

Então Zeus levantou e com um olhar irritado para o irmão ele se afastou. Ainda aguardava um pedido de desculpas pelo seu raio e a devolução do mesmo.

Poseidon suspirou se dirigindo ao seu chalé. Deveria reclamar seu filho, o mais rápido possível. Teria que enfrentar a fúria de Zeus pelo seu filho.