A Maldição – O Começo

Boa viagem

Aquela era a terceira ou quarta vez apenas aquele ano que se mudavam, como adoraria ser um humano normal e comum como sua irmão Renata, seria menos trabalhoso e com certeza menos turbulento. Quando o cabelo ruivo caiu sobre os olhos verdes percebeu que estava profundamente entediada e aborrecida, a viagem de trem até uma pequena cidade no interior da Itália já durava horas, mas sentia-se bem em finalmente poder retornar ao seu país.

Haviam passado uma longa temporada fugindo da própria sombra, será que seus pais finalmente lhe diriam o que ela tanto queria saber sobre o passado? Ou continuariam a fugir para sempre? Uma rápida olha na irmã que já estava adormecida no banco atrás do seu lhe indicava que ela não era a única a estar entediada ali, por fim pegou um dos livros de magia de sua mãe e recomeçou sua leitura.

Se você perguntasse a alguém se escolheria ser de outra espécie se pudesse, muitas pessoas diriam que sim, seria fascinante não ser um humano. Mas se fizer essa mesma pergunta a Nádia Callegari, provavelmente vai ouvir o contrário. Ser um herdeiro do ovo, como eram conhecidos os descendentes dos remanescentes, não era exatamente a coisa mais fácil do mundo, ainda mais quando não se tinha todas as respostas as quais tanto necessitava.

Se humanos eram criaturas desejosas de respostas sobre sua existência e o que viria depois dela, os herdeiros eram ainda mais. Principalmente aqueles que optavam por seguir caminhos diferentes aos de seus antepassados, como a família Callegari. Os Callegari eram descendentes de magos, uma raça da quarta era especializada em magia elemental, segundo o diário de seu tataravô, o primeiro a descobrir sobre a herança, especializados no elemento ar.

Quando começou seu estudo sobre a arte, palavra comumente usada pelo avô para definir a relação de um mago com a magia, não havia imaginado que seria uma viagem de autodescoberta, naturalmente estava interessada em descobrir mais sobre suas habilidades e capacidades, mas não havia imaginado que tudo sobre si poderia ser descoberto ali. Como por exemplo a relação de seu nascimento com o elemento que controlavam. Havia nascido sobre a proteção da estrela de Castor, da constelação de Gêmeos, assim como seus pais eram de Libra e Aquário.

Olhando novamente para sua irmã mais nova podia compreender um pouco melhor o porquê de ela não ter herdado nenhum traço da magia, seu signo era sagitário e segundo seu avô e seus estudos assim como na natureza o fogo queima o ar – oxigênio – o calor da estrela guardiã de sua irmã também havia queimado sua magia. Isso lembrava muito aula de química, não era tão entediante quanto matemática, mas se perguntava se tudo no mundo humano tinha alguma coisa haver com os magos.

Olhou rapidamente para o pai, que parecia bem nervoso observando a todos os passageiros no vagão com um olhar desconfiado, havia um brilho estranho sobre os verdes dele que as vezes ela conseguia produzir: o olhar da águia era uma habilidade de rastreamento muito poderosa que poderia identificar determinados tipos de criaturas ou raças, se houvesse um objeto a ser comparado. Lembrou-se do ataque.

Havia ido a aula como todas as outras vezes, mesmo tendo terminado as aulas normais como qualquer outro adolescente de dezessete anos e tivessem um bom rendimento escolar, sabia perfeitamente bem que matemática não era o seu forte então ficava revisando o conteúdo com os professores além de ajudar alguns amigos que tinham problemas com o inglês ou gramática. Também podia ficar de olho em Renata que havia pegado recuperação em uma disciplina, mas ela mesma não havia ficado em cálculo por pouco, que direito tinha de culpar a irmã.

O tempo fora fechando conforme a tarde se iniciava, era inverno e o telejornal havia anunciado a possibilidade de chover granizo no inicio da tarde. Pretendia ficar até depois da chuva, ou até que sua mãe ligasse, quem sabe não conseguiria descolar uma carona com o pai e uma bota nova antes da temporada de inverno. Botas para patinar na neve eram sempre mais caros na temporada de inverno e queria muito trocar seu velho par, mesmo que ficassem melhores conforme os anos de uso, sua mãe já questionava o cheiro das meias por causa dos furos no solado da bota por onde entrava gelo.

Infelizmente, ou felizmente, Renata havia se aproximado dela na biblioteca. Achou estranho sua irmã sempre fora alegre e espontânea, se esgueirando pelos cantos da biblioteca custou a reconhecê-la se não fossem os cabelos pretos que custaram muitas semanas de dor de ouvido por causa das constantes brigas entre a mãe e a irmã. Achava sinceramente uma graça que ela estivesse passando por uma fase revoltada da melhor forma possível, bem diferente da sua, a qual lhe custara um pé quebrado e uma costela fraturada ao sair a noite para patinar.

Pensando bem, não se lembrava exatamente do dialogo que havia tido com a irmã aquela hora, na verdade desde que ela havia entrado na biblioteca era como se estivesse em uma espécie de transe hipnótico, ou andando muito lentamente. Sabe aquelas vezes em que você caminha pela rua e não se lembra de nada. Foi mais ou menos assim que se sentiu até chegar na esquina de casa. Quando finalmente sua vida foi colocada de cabeça para baixo e depois sacudida, como se um valentão de desenhos infantis tivesse pegado você pelo pé e esvaziado seus bolsos levando o dinheiro do lanche embora.

Sua casa ficava em um bairro bem antigo da cidade, rústico e pitoresco como dizia sua mãe, mas a verdade é que parecia mais um bairro de periferia antigo, provavelmente fora bem habitado quando construído, mas depois da segunda guerra muito provável que tivesse sido jogado a marginalidade. Graças a isso internet chegava a dez megas e de velocidade nos horários de pico. Como alguém poderia viver assim? Tinha de selecionar tudo com grandes avisos de urgência alto ou baixo para conseguir que seus arquivos fossem baixados. Tirando isso, adorava a casa.

A casa onde viviam era bem simples, tinha quatro pavimentos e um generoso jardim. Um sótão e um porão como qualquer outra casa da rua, parreiras que serpenteavam pelas colunas da varanda que sempre ficavam carregadas de uvas doces na estação certa. Também tinha um balanço de pneu que seu pai havia construído quando era ainda bem menina, e o famoso "balanço dos adultos" que não era mais que o lugar onde os pais passavam um tempo olhando as duas brincarem no jardim. E pensar que viviam arrumando um jeito de sentarem-se nele quando eram pequenas, quem sabe cresceriam mais rápido? Ou descobririam o segredo misterioso que ele guardava.

Os quartos ficavam no segundo andar, no primeiro um banheiro para visita e a sala ao lado do escritório. Uma cozinha que se ligava ao quintal por uma porta que tinha uma portinha de cachorro, mesmo que eles nunca tivessem tido qualquer bicho de estimação em casa. E que também se ligava a sala de jantar com por uma dupla portinhola branca a qual papai levara dias para instalar. Queria porque queria manter as origens italianas vivas, as portas de pizzarias antigas foram seu grande sonho de consumo durante a aproximação do baile de debutantes.

Já no segundo andar haviam apenas os três quartos, sempre havia a possibilidade de uma visita, mas para esses casos sempre ficavam alojados no porão, que era na verdade uma segunda sala com beliches e camas suficientes para nossos primos do interior, ou mesmo as festas de pijamas que nós fazíamos com nossas amigas. Pelo menos cada uma de nós tinha um quarto, mesmo que eu gostasse da Renatinha as vezes seu gosto rebelde por rock pesado era constrangedor.

Saudades de casa, da vida que eu achava que tinha, aquela cena fora traumática para mim de uma forma que eu ainda não sei saberia classificar ou se algum dia saberia como fazer isso adequadamente. Havia um grupo estranho de pelo menos seis homens encapuzados que cercaram nossos pais, eles usavam uma energia estranha a qual fez com que minha irmã desse um grito de medo, alertando-os para nossa presença. Não posso culpá-la, só não gritei porque havia congelado no lugar onde estava de tanto medo.

Quando nos viram um dos homens riu de forma estridente e assustadora, correu em nossa direção e eu pude ver parte de suas vestes. Era uma espécie de armadura, negra, com vários braços saindo de tantos lados que eu nem tinha certeza se ele poderia ser chamado de humano. Lembro-me de voltar a realidade e puxar Renata na direção de um beco, cidades antigas da Itália sempre escondiam passagens secretas, e aquela era uma das que eu conhecia, ela conectava os porões das casas do quarteirão em um conjunto de túneis.

Por sorte não precisamos nem mesmo de entrar na passagem, se tivéssemos feito provavelmente não estivéssemos vivas agora. O que mais me assustou quando descobri que minha mãe não era humana, foram os raios que eu vi saindo dos dedos dela e cortando aquela coisa em tantas partes que eu não sei dizer se algum dia o pobre homem seria capaz de recuperar todas as suas partes. Com o papai foi diferente, ele também havia invocado raios, mas eles caíram bem em cima dos outros homens e congelaram os corpos deles. Até que eles caíram no chão e se partiram.

Desde então temos fugido de tudo e de todos. Eu amo meus pais e minha família, mas com certeza gostaria de ter descoberto a verdade antes, ou pelo menos de outra forma. Durante o momento de choque o pouco que me lembro das explicações dos meus pais é que aqueles homens se tratavam de espectros e que deveriam estar sobre as ordens do Imperador Hades, mas ao julgar pela distância que se encontravam do foco da batalha, em Atenas, deveriam ser desertores ou traidores.

Nádia havia despertado de seus pensamentos quando seu pai viera a tocar seu ombro, novamente uma massa escura de nuvens cobria o céu, mas não havia nenhum aviso de granizo como no ano anterior e ela sabia perfeitamente bem que se tratava da habilidade familiar de controlar o ar. Da primeira vez havia ficado surpresa ao saber que podiam fazer aquilo, mas sempre que seus pais utilizavam é porque precisavam fugir. De certo modo era profundamente triste, não tão triste quanto ter abandonado sua casa e o único lugar que uma vez havia chamado de lar, mas a situação de viver sempre fugindo de um todo era triste, para não dizer nada pior.

O trem ainda estava em movimento, não havia entendido como ele queria fugir dali daquela forma, demonstraria algum poder novo, ou iriam apenas bancar os atores de filmes de ação que pulavam do trem em movimento para fugir dos bandidos. Esperava sinceramente que fosse a primeira opção, não gostaria de ter de ver a cara de nenhum outro espectro, ou coisas ainda mais perigosas tão cedo, mesmo que já se tivesse passado um ano, eram criaturas que lhe davam muito medo.

Viu quando a mãe acordou a irmã mais nova, fariam o que quer que fosse em pares, como sempre. Havia aprendido durante aquele ano que sua mãe era de longe a mais perigosa dos dois, seu pai era mais precavido e organizado então coordenava os movimentos de sua mãe sempre que podia. Por Renata ser o alvo mais fácil e a de temperamento mais forte, Nádia sempre estava com o pai, mesmo que soubesse internamente que era para o caso de fazer algo estranho acidentalmente.


Como prometido, uma personagem no capítulo ^^.

Eu pensei em criar um comentário bem grande sobre algumas coisas das aparições das personagens, mas acho que será melhor explicar mais na frente, porque quero ver como vocês reagem a isso de modo natural, sem estarem influenciadas pelas minhas observações.

Então esperando para ver se consegui criar em vocês o que eu queria com esse capítulo e que venham os próximos \o/.