PARTE II

O cheiro de sangue invadia suas narinas. Mesmo que tentasse negar, o sangue era dela. Uma de suas pernas estava úmida e uma dor forte vinha dali. Deslizou sua mão até o local onde sentia mais dor. Surpreendeu-se ao tocar em algo que não fazia parte de seu corpo. Era um objeto cilíndrico, frio, de superfície lisa. Era uma barra de ferro encravada em sua coxa. A tocar sua mão, mesmo de leve, o ferro movimentou e a dor aumentou. Fechou os olhos para impedir que as lágrimas escorressem. Tentou não pensar no ferimento. Mas a dor a impedia. Não sabia o que fazer. Sabia que tinha que arrancar aquilo. Mas doía só no toque, se tentasse algo mais extravagante a dor seria muito forte. Porém não havia outro jeito. Respirou fundo. E num impulso único tocou na barra de ferro e já puxara. A dor foi pior do imaginara. No entanto ao menos arrancara o pedaço de um dos apoiadores que outrora ficavam no teto do trem. Sentou-se para ver que situação estava o ferimento.

- Lumus! – Disse tirando a varinha das vestes.

Havia um corte fundo no lugar que a barra estava. Era tão profundo que se notava em um dos lados um risco branco no meio dos músculos. Por pouco a barra não atingira o osso. O corte, devido a profundidade, não sangrava muito, o que permitia uma visão limpa da incisão circular. Gina engoliu em seco ao olhar o ferimento. Por isso doía tanto. A barra quase atravessara sua perna.

Rasgou uma parte da manga das suas vestes e improvisou um curativo. Levantou-se ainda conservando a luz do feitiço. Estava rodeada por entulhos do que tinha sido há poucas horas o Expresso de Hogwarts. Caminhou com dificuldade por entre os destroços. Abaixou a varinha para enxergar melhor aonde ia. Estava tudo destruído e Gina não conseguiu disfarçar o desespero ao caminhar por alguns minutos e não encontrar ninguém.

Até que pisou em alguma coisa diferente dos destroços rígidos do trem. Era uma mão. Estava gelada. Agachou-se tirando com a mão os destroços mais leves.

- Vingardium Leviosa! – Gritou segurando firme a varinha nas mãos. Parte do teto do trem levitou sobre um corpo, dono da mão que Gina pisara, desacordado. Gina deixou o teto cair ao lado. Aproximou-se do corpo. Era uma garota loira, não devia ter mais que doze anos de idade, estava com o rosto coberto por uma grande massa de sangue. Encostou o ouvido no peito da menina. Não escutou nada. O coração estava parado. A menina estava morta. Gina afastou-se com enjôo. A menina parecia tão delicada. Tão nova. Tão inocente.

Usando novamente o feitiço de levitação, a ruiva retirou o corpo da garota, que pelas vestes era uma lufa, e o colocou sobre os destroços.

Voltou a andar por onde sua luz guiava. Receosa, caminhava apreensiva, o medo de estar pisado em cima de alguém a perturbava. Sabia que não podia ser feito muita coisa. Estava fraca demais para erguer toda aquela imensidão de ferro e aço retorcidos. O que podia fazer já estava fazendo. Tentando sair dali para chamar ajuda.

- Gi... na... – Uma voz fraca, próxima a um sussurro a chamou. – Gina...!
A ruiva olhou atenta para os lados. Alguém rastejava perto de seus pés.
- Me ajude! – Suplicou a voz.
A príncipio suas pernas não obedeceram a seu comando. Estava paralisada. Neville Longbotton tocava em seus pés. Gina engoliu em seco. O amigo estava mutilado. Estava sem pernas. E devido a maneira como se locomovia, seu corpo, o que restara dele, estava todo cortado. As mãos estavam banhadas de vermelho sangue e o rosto marcado por hematomas.

- Neville fique calmo amigo. Vou ajudá-lo. – Gina conjurou uma maca, ou parte dela, já que mal se concentrara para o feitiço. – Deite aqui. Espere eu ajudo.

Com um esforço fora do comum, e com receio de machucá-lo ainda mais, Gina o colocou na maca.

- Você sabe algum feitiço de cura Neville? – Perguntou, entre soluços derivados do choro.

- Por... favor... Luna! Ajude-a... – Neville deixou-se a cabeça tombar de lado. Uma grande quantidade de sangue escorreu de sua boca. Os olhos começaram a ficar sem foco. E sua face empalidecera-se.

- Neville não! Não me deixe aqui sozinha ...- A voz começara a falhar. – Por favor... – Gina segurava o pescoço do amigo, e apoiava com a outra mão a sua nuca. – Resista Neville... você consegue.

Mas Neville não conseguiu.

Morreu tentando indicar a Gina onde Luna estava.

A amiga endireitou a cabeça de Neville. Limpou com um outro pedaço de suas vestes o rosto do amigo. Levitou a maca e a colocou junto ao corpo da garotinha morta.

Olhou para o grifinório como se prestasse uma ultima homenagem ao garoto que certa vez confessara estar apaixonado por ela. Ele a tratava como uma princesa. E respeitou sua decisão ao contar-lhe que amava outro. Neville foi um amigo como poucos. Enxugou as lágrimas com as costas da mão. Respirou fundo. E repetiu para si mesma:

- Eu sobreviverei.

Virou as costas e voltou a andar. Sentiu uma fisgada na coxa ferida e mancando continuou patrulhando a montanha de entulho. Agora ela tinha um objetivo: procurar por Luna Lovegood.

Ainda torcendo que fosse somente um pesadelo Harry abriu os olhos com expectativa. Esperava sentir suas córneas irritarem-se com a iluminação da cabine. Mas isso não acontecera. De olhos fechados, ou abertos, o escuro era o mesmo. Tateou em suas vestes a procura da varinha. Não a encontrou. Levantou-se. Sentia fortes dores nas pernas, porém não havia quebrado nenhum osso ali. O que era muito bom, pois ao menos poderia andar.

Na tentativa de andar Harry descobrira estar gravemente ferido. Uma de suas costelas estava fraturada e perfurava seu pulmão direito. Com o movimento a lasca de osso dilacerava ainda mais as paredes de seu órgão. Além de uma dor quase insuportável Harry tinha dificuldades para respirar. E não conseguiria mover nem mais uma polegada se quer. Sem forças para continuar Harry rendera-se. Seu corpo caiu involuntariamente sobre vigas de metal.

Gina continuou andando. Foi próximo ao local onde encontrara Neville. Mas não havia nenhum sinal de vida ali. Pelos cortes no amigo dava-se a impressão que ele teria rastejado muito, o que significava que Luna poderia estar em qualquer lugar.

A angustia de enfrentar o desconhecido a atormentava. Estava com medo. Não dava pra negar. Estava escrito nos seus olhos. Porém uma chama de esperanças ascendeu em seu peito. A luz do seu feitiço alcançava os contornos de um garoto. Estava próximo. O suficiente para que ela notasse suas vestes. Conhecia as jeans e a camiseta larga. Conhecia a massa negra e rebeldes de cabelo. Conhecia os óculos caídos próximos dali. Conhecia aquela cicatriz.

- Harry! – Gritou com todas suas forças. – Harry!

Agachou-se colocando a mão na face de Harry. Levou os ouvidos ao peito do grifinório. Estava respirando. Sentiu-se aliviada.

- Acorde Harry...

Timidamente ele abriu os olhos esperando que a voz que o chamava fosse parte de uma alucinação causada pela forte dor. Mas não era. Viu os cabelos ruivos de Gina esparramado sobre seu peito. Gina não percebia, mas estava causando ainda mais dor nele. Gina apoiava-se com uma das mãos no peito de Harry, próximo ao local onde provavelmente estava a fratura.

- Gina, por favor... – Disse numa voz fraca e falha. – Minhas costelas.

- Oh! Desculpe Harry. – Disse ajudando Harry a se levantar. – Vamos! Precisamos sair daqui.

- Antes precisamos ajudar o resto do pessoal.

- Que resto Harry? Que pessoal? Você está vendo alguém aqui além de nós? Pois eu não vejo. Chega de bancar o herói sempre, precisamos arrumar um jeito de sair daqui. Você está muito ferido e precisa ser tratado o mais rápido possível.

- Mas...

- Mas? Não tem mas Harry. Eu andei essa montanha de entulho inteira e a única pessoa que encontrei VIVA foi você. Sinto muito. – Gina olhou nos olhos de Harry e não pôde impedir que uma lágrima solitária descesse pela sua face. – Pelo o que parece todos morreram no acidente!

Harry balançou negativamente a cabeça. Não podia acreditar nas palavras que Gina dizia.

- Rony, Mione, Neville, Luna, Dino, Simas e todo o resto estão aqui, em algum lugar. Precisam de nós. Remus e Tonks também. Todos eles são nossos amigos, não podemos deixá-los morrerem aqui!

- Neville está morto e Luna provavelmente também. Eu vi Neville morrer! – Agora as lágrimas já escorriam demasiadamente. – Não me diga o que fazer. Você não viu Neville sangrar até a morte. Você não viu a situação disso aqui. Você não viu os corpos mutilados. Você não sabe de nada Harry. Cansei de ser paciente. De fingir que está tudo bem. – Gina enxugou o rosto com as costas da mão. – Eu vou embora daqui. Vou voltar a Hogsmeade e trazer ajuda. Se quiser pode ficar. Eu vou sozinha.

- Não vou deixar que fique andando sozinha por ai. Provavelmente isso tudo é obra de Voldemort. Logo deve estar aqui para conferir se o trabalho deu certo.

- Mais um motivo para sairmos daqui, ou você se acha capaz de duelar desse jeito?

- Não consigo andar, quem dirá duelar.

- Então está decidido. Vamos!

Gina puxou Harry pelo braço e este se deixou levar pela garota. Não podia fazer nada para impedir. No fundo ele sabia que ela estava certa. Sair dali era o mais sensato a se fazer. Aos poucos foi se acostumando com a dor.

Enquanto caminhavam as mãos de Gina desceram do punho para a mão de Harry.
Juntos conseguiram sair dos destroços. Ficaram surpresos ao notar que o trem descarrilara próximo a um penhasco. Harry foi a frente até chegar na linha que separava o chão que pisava do abismo de queda fatal. Era muito fundo, mas mesmo assim o grifinório conseguiu ver. Harry vomitou. O cheiro vindo do abismo era forte demais. E com a mão na boca tentou impedir que Gina se aproximasse e visse o que ele viu. Não adiantou.

- Merlin! – Exclamou a garota. O cheiro de sangue putrefato atraía abutres ao local. A garganta de Gina se contorceu. Seu estômago revirava. E o pior nem era o cheiro. Era a carnificina. No fundo do penhasco estava boa parte do Expresso de Hogwarts. E nas rochas antes de chegar ao final da queda, havia partes mutiladas dos corpos dos alunos. Penduradas como se fossem carnes expostas em um açougue. O cheiro vinha delas. Era como o cheiro de animais mortos há dias. Aquele cheiro; de sangue putrefato e do pus dos cortes; junto com o barulho incessante dos bicos dos abutres perfurando a carne humana; fazia Gina desejar ter morrido junto.

Gina abraçou Harry.

- Tudo isso é horrível demais! – Disse chorando. – Vamos sair daqui.

- Tudo bem Gina. Fique calma. Hogsmeade fica naquela direção.

Andaram por vários minutos. Mas pouco avançaram em direção a Hogsmeade. Gina ainda sentia a perna e Harry as costelas. Pareciam que cada passo que davam o caminho aumentava. Contornaram os destroços, uma rocha, e alcançaram a orla de uma floresta. Por onde iam haviam marcas do fogo e até em alguns pontos ainda havia chamas queimando o resto da vegetação seca. Pedaços da lataria vermelha do trem também podiam ser vistos em toda parte. Harry e Gina escolheram cortar pela floresta. Uma vez que os trilhos do trem a rodeavam, se seguissem pelos trilhos dariam uma volta enorme. Já passando pela floresta ganhariam tempo. Era tudo que eles precisavam. Ganhar tempo. Mas para ganhar tempo, eles sem saberem, entraram no covil do Pescador de Almas. Era dali, da floresta escura, que o Ceifador assistia seu espetáculo.