Capítulo 4- Ativando antigos contatos

- Mamãe! Mamãe!

Èrica entrou no quarto correndo no exato momento em que Ana-Lucia revelara a mãe um dos maiores segredos de sua vida. Raquel ainda estava embasbacada com a notícia, queria dizer algo, mas a voz simplesmente não saía.

Ana-Lucia encarou a mãe com o olhar muito triste e pegou a menina nos braços, acalentando-a.

- Oi meu amor, bonequinha da mamãe!

Èrica sorriu para a mãe e passou os dedos gordinhos pelo rosto cheio de lágrimas dela e indagou com a voz doce, segurando um carneirinho de pelúcia.

- Mamãe, eu posso dar o Bill pro papai levar lá pro céu? Pra ele não esquecer de mim?

- È claro, baby, ele vai gostar da companhia!- ela respondeu com um soluço mal contido ante a inocência da criança.

Sentou-a em seu colo e colou seu rostinho ao dela. Raquel observou naquele momento cada detalhe da face da neta. Èrica era uma criança muito bonita, de aspecto saudável, faces coradas, os cabelos muito loiros e lisos cortados estilo "sorvete", os olhos azuis brilhantes e um sorriso sapeca que destacava as duas covinhas que ela tinha no rosto, uma de cada lado. Seria possível? Não, Raquel sempre achara que Èrica se parecia com Danny, tinha o mesmo olhar dele. Mas naquela hora essa certeza passou a diminuir com a revelação de Ana-Lucia, e de repente Èrica não lembrava em nada o falecido pai.

Ana-Lucia fechou os olhos, tremendo, uma vontade incontrolável de chorar mais a acometeu. Èrica a abraçou bem forte e disse: - Não chore mamãe, o Papai do céu precisou do papai agora, e ele teve que ir!

Ana balançou a cabeça assentindo e Raquel tirou a neta delicadamente do colo dela.

- Vem aqui com a vovó, cariño, vamos deixar a mamãe se arrumar.

- Mãe, por que ela está com esse vestido escuro?

- Estamos de luto querida.- respondeu Raquel.

- Eu não a quero com esse vestido, ponha o vermelho de lacinhos ou o azul de bolinhas brancas.

- O azul de bolinhas brancas!- opinou Èrica. – O papai gosta desse vestido!

- Certo, então será esse!- disse Ana.

- Tudo bem.- concordou Raquel.

- E as asas de fada!- acrescentou Èrica com o sorriso que marcava suas covinhas.

- Ah não, as asas de fada não, meu anjo nós iremos a um funeral e...

- O que é um funeral?- questionou Èrica.

Ana-Lucia interveio: - Sim querida, pode vestir as asas de fada também. Vá pedir a Lupita que arrume você.

Èrica abriu um largo sorriso e abraçou a mãe antes de sair correndo do quarto.

- Ana? Não deveria mimá-la desse jeito.- disse Raquel.

- Deixe-a mamãe, não quero que ela se torne uma pessoa amarga como eu.

- Querida, as coisas vão melhorar. Isso tudo vai passar, sempre passa!

- Não mãe, não passa! A senhora...- ela soluçou, sua voz assumindo um timbre de voz ainda mais rouco que o normal. – A senhora não faz idéia do que estou sentindo agora, eu não mereço ser feliz mãe. Tudo na minha vida só tem dado errado nos últimos anos, eu cometi tantas loucuras que...

- Como pode dizer isso Ana-Lucia? Hija, por Dios, você é uma mulher abençoada. Já escapou de morrer duas vezes, quando levou aquele tiro e quando sofreu o desastre aéreo. Mas você sobreviveu e mesmo tendo sido diagnosticada estéril você engravidou da Èrica. Como isso foi possível, hã? Foi um milagre de Deus.

Ana-Lucia deu um sorriso irônico: - Oh sim, foi um milagre!

- Ana, você acabou de me dizer que Daniel não era o pai da Èrica. Eu estou aqui confusa tentando entender. Se não era ele, quem é o pai de sua filha?

- Alguém que não vale a pena ser mencionado.- respondeu ela enxugando as lágrimas.

- Danny sabia sobre isso?

- Danny sabia o tempo todo, jamais escondi isso dele. Mesmo assim ele a amou como se fosse sua filha.

Raquel estava cada vez mais surpresa com as revelações da filha, jamais imaginaria uma coisa dessas. Caminhou até a porta do quarto disposta a sair para deixar Ana-Lucia se aprontar para o funeral, mas não resistiu perguntar antes que deixasse o aposento: - Ana?

- Yeah?

- Você o amava?

- Danny?

- Não, o pai da Èrica?

- Mãe, eu preciso me trocar, logo as pessoas estarão aqui e...

- Sim.- Raquel assentiu e deixou o quarto.

Ana-Lucia respirou fundo, pensando na pergunta da mãe, como poderia responder a isso se nem ela mesma tinha a resposta. Tudo o que sabia com certeza era que amou Danny e que ele a amou de volta, com todo seu coração.

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(Flashback)

- Daniel, o que é isso?- indagou Ana-Lucia nervosa, segurando a caixinha vermelha aveludada nas mãos, um anel de diamante brilhando dentro dela.

- Eu não sei, mas acho que parece com um anel.- ele respondeu com um gracejo.

- Eu sei que é um anel.- disse ela impaciente. – Só quero saber porque está me dando um?- ela já sabia a resposta, mas estava com medo de ouvi-la assim mesmo.

- Quero me casar com você!- Daniel sussurrou como se fosse um segredo.

- Assim, de repente?- ela questionou arrumando os cachos dos cabelos negros num gesto que denunciava sua tensão.

- Não foi de repente Ana. Nos conhecemos desde o High School, namoramos, moramos juntos, quase tivemos um filho e eu cometi a estupidez de deixar você. Daí você desapareceu naquele vôo e eu achei que nunca mais na minha vida ia vê-la outra vez. E de repente você volta, surge das cinzas, Ana-Lucia eu te amo, não quero correr o risco de perdê-la outra vez.

Ele segurou as mãos dela nas suas junto com o anel. Ana-Lucia puxou as mãos, largou a caixinha do anel em cima da mesa e saiu andando para fora do restaurante. Daniel pegou a caixinha de cima da mesa e foi atrás dela e a puxou pelo braço para o jardim de inverno e indagou sem entender:

- Por que quer ir embora? Eu fiz algo errado? Achei que me amasse.

- E amo, você não fez nada de errado eu só não posso aceitar sua proposta de casamento.

- E por que? Me dê um bom motivo Ana-Lucia Cortez.

- Eu estou grávida de outro homem.- ela respondeu sem delongas.

- Como é?

Ela tocou o ventre sobre o vestido escuro e solto e repetiu: - Eu vou ter um bebê!

- Mas o médico disse que você não podia ter mais filhos depois que levou o tiro. Quem é esse homem, como isso aconteceu?

- A identidade dele não importa agora, muito menos como isso aconteceu. – Se quer mesmo se casar comigo, vai ter de aceitar esse fato porque eu vou ter esse bebê de qualquer jeito!

Danny respirou fundo e abriu a caixinha do anel, colocou-o no dedo dela e puxou-a para si, dizendo: - Eu me caso com você e serei o pai do seu filho, não existe coisa que eu mais queira no mundo. Eu te amo, Ana-Lucia.

Beijaram-se e selaram ali o compromisso que os uniria por cinco anos.

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(Fim do Flashback)

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Jack ainda olhava a notícia no jornal completamente abismado. Não acreditava que Todd Jenkins pudesse estar morto. Lamentava profundamente a morte dele, Todd era um bom amigo e companheiro das corridas de carro ilícitas na calada da noite. No entanto, a morte dele não era a coisa mais surpreendente e sim o que a irresponsabilidade exacerbada de seu amigo causara, a morte de duas pessoas. A de uma mãe de apenas 32 anos e de um policial da mesma faixa etária pai de uma garotinha e marido de nada mais nada menos que Ana-Lucia Cortez, uma das pessoas com quem mais manteve contato dentro da ilha.

Sentiu muito pesar por ela e resolveu ir até o funeral que seria realizado aquela manhã no cemitério mais antigo da cidade. Colocou o terno azul marinho e saiu de casa disposto a dar-lhe os pêsames, porém decidiu omitir que conhecia o causador do acidente, se Jack bem se lembrava do gênio forte da amiga, certamente ela não reagiria muito bem a esse fato.

Já estava na porta quando o telefone tocou, mas resolveu deixar a secretária atender, não queria chegar atrasado ao funeral. O aparelho telefônico insistiu umas sete vezes, até que a mensagem da secretária eletrônica soou:

- Aqui é Jack Shephard, no momento não posso atender, por favor, deixe seu recado após o bip!

- Jack, aqui é Juliet Burke. Já faz muito tempo não é? Achei o seu telefone no catálogo de endereços e como estou me mudando de Miami pra Los Angeles eu pensei que pudéssemos sair pra tomar um café. Me liga, o número é 555-308-192415.

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Kate ressonava suavemente no ombro de James quando a aeromoça anunciou que a aeronave estava pousando. Ele tocou as mãos dela suavemente e disse, carinhoso:

- Acorda sardenta, nós já estamos chegando.

- Mas já?- ela indagou com um bocejo.

- Já, você pode não ter notado baby, mas dormiu a viagem inteira até babou no meu ombro.- gracejou.

- Seu mentiroso.- ela deu um tapinha no braço dele, se ajeitando na poltrona.

No momento seguinte estavam desembarcando. Enquanto esperavam o desembarque das malas Kate sentiu um enjôo incômodo por causa da gravidez e fez uma careta.

- O que foi amor?- perguntou James, preocupado.

- Eu estou enjoada de novo, preciso ir ao banheiro.- ela levou as mãos à boca tentando conter a ânsia de vômito.

- Quer que eu vá com você?

- Não, fica esperando pelas malas, eu vou até lá sozinha me recomponho e volto.

- Se recompor? Vomitar mudou de nome?

- Sawyer!- ela ralhou.

James calou-se, sabia que ela só o chamava assim quando estava zangada. No banheiro Kate vomitou tudo o que tinha comido no avião e se sentiu muito melhor. Lavou o rosto e já estava saindo do banheiro quando a imagem sinistra de um homem de olhos azuis esbugalhados apareceu diante do espelho.

- Ben!- ela exclamou fechando os olhos instintivamente e quando os abriu a imagem havia desaparecido. Saiu correndo do banheiro e abraçou James na fila da bagagem.

- O que foi?- ele perguntou abraçando-a de volta. – Ainda se sente mal?

- Já tá passando!- ela respondeu com a cabeça aninhada no peito dele.

- Não, não, nem pensar, eu não vou ficar num hotelzinho de quinta categoria!- disse uma voz feminina petulante se aproximando da fila de recebimento de bagagens.

- Shannon, não seja incompreensível!- respondeu um homem com indisfarçável sotaque iraquiano.

- Mas eu não estou sendo incompreensível habib, já basta a viagem que tivemos de fazer de segunda classe, você sabe que a asma do Jasper não agüenta e a Jade espirra muito por causa daqueles tapetes cheios de poeira.

- Mas Shannon...- ele protestou quando seus olhos escuros se depararam com o olhar irônico e debochado de James.

- Ora, mas se não é o meu amigo Mohamed e a minha amiga magrela?

Continua...