CAPÍTULO 4
Vazio conturbado (2306 palavras)
A semana estava sendo agitada, e Merlin estava exaurido, desligou o computador, vestiu o blazer, apanhou a capa e a pasta recheada de documentos para serem analisados em algum momento depois de comer algo, no sossego do seu flat.
Hoje ele tentara empregar todo o seu poder de concentração na reunião que estava por acontecer, Merlin passara a última semana averiguando dados para compartilhar com o conselho, era a primeira vez que ele estaria com o alto escalão da empresa e Gaius repetia incessantemente que Merlin tinha de se acostumar, pois ele estava velho e cansado, e em breve, Merlin teria de se virar sem ele.
Merlin rapidamente chegou até a rua, e respirou amplamente o ar fresco, uma fina chuva brindara a cidade alguns momentos antes, deixando aromas no ar, que fizeram Merlin suspirar melancolicamente ao se dirigir a estação de trem.
Por algum tempo ele empurrou para o fundo da mente todos os pensamentos sobre Arthur, e principalmente sobre o que acontecera dias antes, sua frustração e seus sentimentos conturbados. Ele tentou se esconder dentro do computador, evitou Arthur de todas as formas que foram possíveis, embora não tenha sido difícil ignorá-lo. Aparentemente Arthur estava longe de ser visto e não procurou Merlin, certamente cansou da brincadeira de gato e rato e agora era provável que teria outra presa em mente.
Um clarão de desgosto atravessou Merlin de maneira repentina, ele deveria saber que seria assim, por que diabos ele se sentia menosprezado era algo que Merlin não compreendia. Homens costumavam sair com os amigos, se divertir e... coisas... Merlin deveria se sentir privilegiado por ter estado com Arthur, afinal, o que ele esperava? Que passassem a noite juntos e dormissem abraçados? Deus, era patético!
Já no trem, indo direto para o aconchego do lar, Merlin tentava oprimir os debates internos, eles eram desgastantes e Merlin queria impedir que se formassem, mas era inevitável, uma vez que sua mente estivesse limpa, surgia o devaneio nefasto para derrubar toda a certeza que Merlin formara tão fragilmente.
Ele olhou monotonamente para o borrão de cenas que via através da janela do trem, pensando amargurado que era assim que ele sentia, como um borrão, sem uma imagem definida, uma mistura de coisas sem sentido exato. Percebeu sua estação e desceu rapidamente, tentando planejar um jantar mentalmente, tentando manter sua mente ocupada, tentando fugir.
Infelizmente ele fazia tudo mecanicamente, e passou tão rápido que quando viu estava alimentado, de banho tomado, guardou os documentos já analisados, e tinha um plano para a reunião da manhã seguinte.
Agora estava novamente sozinho com a incongruência dos seus pensamentos novamente, todas as emoções em um borrão. Tudo o que ele se esforçara para ignorar; a sensação de desolamento; o inegável desalento.
Ele observava o laptop sobre a mesa do quarto e avaliava a possibilidade de se logar no site pornô favorito; ele fugira de qualquer pornografia na internet e prometeu para si mesmo que não se masturbaria, nenhuma punheta do universo seria capaz de aplacar o calor fulgurante que ardia no seu âmago. Mas estava fraquejando vergonhosamente...
Merlin passou as mãos no cabelo em um gesto de frustração, fechou o laptop e foi para a cama, tentando afogar-se no edredom, colocou o travesseiro no rosto a fim de sufocar os pensamentos, as lembranças...
A boca ainda dolorida dos beijos que trocara com Arthur, o pescoço queimava onde o rastro quente da língua de Arthur estava memorizado, como que marcado a fogo em sua pele, o gosto de Arthur entorpecendo-o, deixando-o desejoso, em chamas, cada noite depois da primeira.
Ele ignorou todo o discurso interno e deixou que sua mão descesse de encontro ao pênis que latejava duro como ferro dentro do pijama, alisou os testículos suavemente e passou o polegar na cabeça úmida, Merlin fechou a mão ao redor do próprio membro, com a memória vívida dos beijos compartilhados, ele foi em busca de uma emoção que provara há pouco tempo, uma emoção que se tornara indispensável, com a mão livre apertou um mamilo rígido entre os dedos, pressionou sua masculinidade com força, as imagens de Arthur rodando incessantemente na sua cabeça, o hálito morno e a voz sussurrando incentivos, um calor se espalhou no peito de Merlin, um calor que teimava em aparecer quando ele pensava no loiro, Merlin acelerou os movimentos, tentando se livrar de sentimentos complicados e, em poucos golpes, teve um orgasmo brilhante.
E ineficaz.
Foda-se tudo, ele estava mais do que perdido!
- X –
Arthur olhava para o vazio da sua sala e sorria indolentemente. De repente ouviu um pigarrear alto, sacudiu a cabeça e desviou os olhos do teto, bufando de indignação. Olhos verdes o encaravam como se pudessem ler a sua alma, ela o conhecia tão bem, era improvável que ele pudesse manter para si aquele tipo de segredo, mas dizer o que para Morgana? Nem mesmo Arthur sabia o que estava acontecendo!
- Você é tão óbvio, Arthur... Mas se continuar a se distrair como vamos trabalhar? A reunião é em alguns minutos e você está tão absorto e bipolar que é irritante. – Morgana disse, uma dica de frustração na sua voz contida, os olhos que lançavam uma onda de frieza, nunca abandonando Arthur, o avaliando com vivacidade, o tempo inteiro.
- Não comece, Morgana. Não há nada de errado comigo, você que está mais intrometida do que o de costume.
- Tudo bem, vamos conversar sobre isso depois, vou deixá-lo sozinho, preciso ir até minha sala retornar algumas ligações. Nos vemos na reunião. – Ela juntou suas coisas e saiu deixando Arthur irritado.
Arthur odiava aquele olhar no rosto de Morgana, a harpia queria a todo o custo tirar dele o que o incomodava, era irritante! Arthur chamou a secretária, despachou alguns documentos de última hora, juntou os papéis e colocou na pasta que levaria para a reunião.
Caminhando rapidamente em direção a Sala de Reuniões, ele temia o confronto com Merlin, depois de tudo o que acontecera, no entanto o mundo não girava em torno dele, e o mundo dos negócios menos ainda. Seu pai convocara esta reunião desde a semana passada, desde a concretização da compra da Caerleon, Uther vinha com planos de expandir a Camelot, investindo em uma empresa francesa, assim ele havia enviado a cada setor um breve relatório sobre a empresa foco das atenções no momento, solicitando que cada setor dispendesse um tempo analisando números e gastos, o próprio Arthur havia passado uma semana terrível mergulhado em dados, ele só esquecera disso depois de ter saído com Merlin e... sim, aquilo fora absurdamente fantástico. O sorriso frouxo colorindo seu rosto novamente.
Arthur respirou fundo, cruzou a sala calmamente e se postou na mesa ao lado de seu pai, cumprimentou todos silenciosamente, os setores mais importantes já presentes, em poucos instantes a reunião começaria, ele relanceou um olhar para Merlin, sentindo um aperto na garganta ao vê-lo retribuindo, duramente, o olhar.
Uther chamou a atenção de todos, a voz grave e objetiva ecoando na sala silenciosa, agradeceu a presença e o empenho de cada setor na última semana, disse o quanto era importante a opinião de cada organismo da empresa, e assim iniciou falando alto e claro.
- Como todos sabem estamos estudando uma possibilidade de compra da Rennes Ltd, uma empresa já com nome no mercado francês, porém antes de firmar qualquer negócio eu sinto informar que a situação financeira não é tão estável quando esperávamos. Após me debruçar sobre os números com Gaius, do Setor Financeiro, eu sugiro a este conselho duas opções: A primeira, desistir do investimento; sempre há empresas conceituadas que poderiam aliar seus nomes ao nosso, há um pequeno rol de sugestões que sempre pode ser considerado; ou como segunda opção, podemos manter a negociação e promover um corte de gastos; sendo assim eu pessoalmente sugiro um corte de pessoal. Podemos trocar os cargos mais elevados por pessoas de nossa confiança e suprimir o quadro de funcionários. Outro planejamento pode vir a ser observado, desde que os senhores tenham em mente que nossa empresa não pode sofrer perdas. Estou pronto para ouvir as sugestões deste conselho.
Uther olhou compenetrado cada um dos membros sentados na mesa. Demorou um pouco em Morgana, depois desviou seu olhar para Arthur. Foi então que Merlin pediu a palavra.
- Senhor... hum... senhores... eu estive estudando algumas possibilidades e gostaria de sugeri-las. Podemos enviar um gestor para cada setor diferente, que seja capaz de treinar os funcionários gerando assim um curso de reciclagem, há a possibilidade de terceirizar o Plano de Saúde, avaliei alguns dados e não pude deixar de notar que atualmente é utilizado um sistema de médico pessoal pago integralmente pela empresa. Também se pode encorajar a inclusão de serviços ecossistêmicos, contratando uma equipe que oriente os funcionários. – A sala estava em silêncio e Merlin pareceu levemente desconfortável, ele mirou Gwaine e Gwen que sorriam para ele, sentiu-se encorajado e continuou. - São medidas pequenas, mas poderiam gerar uma diminuição nos custos, a curto, médio e até mesmo, longo prazo.
O silêncio era ensurdecedor, Merlin corou furiosamente.
- Outras táticas podem ser apuradas, me disponho a estudar as possibilidades com o setor de Planejamento, Jurídico, Marketing e Recursos Humanos. Tenho certeza que juntos poderemos pensar em algo que sirva melhor aos propósitos deste conselho. – Ele disse apressadamente, percebeu Lancelot balançando a cabeça de acordo e Arthur o mirava-o abertamente, com os lábios ligeiramente separados.
Uther meneou a cabeça, o olhar fixo em Merlin, como se tentasse ler suas intenções através das palavras que acabara de proferir. Então falou lentamente:
- Suas sugestões são pertinentes, Sr. Emrys, e levaremos em consideração – e virando para enfrentar os outros presentes, ele disse -, espero ouvir de cada setor tudo o que tenham em mente e acharem relevante, logo daremos andamento a uma análise das etapas para este projeto.
Merlin respirou aliviado, e Arthur sorriu, um sentimento de felicidade e orgulho por algum motivo inexplicável que crescia dentro dele. Ergueu os olhos e notou Morgana o encarando com a sobrancelha arqueada, os olhos verdes cintilantes se voltaram para Merlin, e para Arthur novamente. O irmão endireitou as costas e tentou ignorar o rubor que subia pelo seu pescoço.
Depois disso cada setor falou, dando seu ponto de vista, ao que Uther ouviu atentamente e agradeceu sempre no fim, a reunião fora cansativa, mas por hora todos estavam satisfeitos com a troca de informações que gerou.
- X –
A brisa fria da noite penetrava em sua sala pela varanda, enquanto Arthur tentava juntar sua coerência e definir o que estava acontecendo com ele.
Desde que saíra do flat de Merlin ele pensava, argumentava consigo mesmo, e ficava cada vez mais angustiado, não telefonara para Merlin, não mandara mensagem alguma e, hoje no trabalho se encerrara dentro da sua sala. Mesmo Morgana reparou que ele estava apático. Isso era um péssimo sinal, pois no momento que ela quisesse tirar algo dele, acabaria conseguindo, e ele se sentia confuso demais para explicar a si mesmo.
Arthur pensou em Merlin cada segundo desde que deixou o flat, os pensamentos tomando caminhos que ele não queria admitir. Ele olhava profundamente dentro da xícara de chá, procurando respostas que sabia serem óbvias, mas que ele estava teimando em negar.
Caminhou até a cozinha e largou a xícara na bancada, atravessou o corredor chegando ao quarto, foi direto para o banheiro, um banho poderia acalmar seu corpo que teimava em querer algo que Arthur não tinha como dar.
Ele tomou o banho lentamente, e tentou se esconder no fundo da própria mente, tentou desviar os pensamentos. Ao terminar secou os cabelos com uma toalha de rosto em frente ao espelho, um Arthur abatido o olhava de volta, a fadiga do trabalho misturada a confusão emocional que ele vivia formavam uma imagem que o deixava preocupado. Irritado, jogou a toalha no cesto de roupas sujas, saiu do banheiro ainda nu e molhado, e se atirou à cama,
Ele tentou, com todas as suas forças procurou se convencer de que era apenas uma diversão, apenas um homem bonito, nada mais... um homem espetacular, na verdade, sim, porque Merlin era tão lindo quanto bom. O homem tinha princípios, era doce e amável, tímido às vezes, o que era adorável, mas, quando necessário, ele falava com maestria, e Arthur vira isto nas reuniões, ficou orgulhoso, e nem tinha bem certeza do motivo, ele apenas queria abraçar Merlin por ter pensado em preservar as pessoas e seus empregos, mas tudo desmoronou formando uma pilha de vergonha sob o olhar intenso da irmã.
Lapidado pela natureza, planejado pelos deuses, para Arthur, Merlin era como algum tipo de maravilha que ele estava animado para desvendar. Pensar em Merlin já era sua rotina, mas agora suas fantasias tinham sons, cheiros e texturas. Arthur não entendia o porquê pensar em Merlin agora fazia sentir seu estômago despencar, mas a voz de Merlin ecoava em sua mente, fazendo com que Arthur se contorcesse de ansiedade. Na penumbra acolhedora do quarto, ele segurou firmemente seu pênis e acariciou-se languidamente, pensando em como seria bom ter Merlin para si, para acordar com ele, beijar os lábios macios e o rosto sonolento, lamber as orelhas ridículas e ouvir seus grunhidos de prazer, transar com ele longamente pela manhã, levá-lo ao ápice de forma lenta e doce. Arthur apressou os golpes no membro com as mãos fortes, na mente dele era Merlin pedindo que ele fosse mais rápido, os olhos cerrados de Merlin, o contraste dos cílios negros de encontro à pele branca como marfim, os lábios vermelhos unidos à espera de um beijo, um beijo que Arthur daria alegremente, mordendo ardentemente sua boca, as emoções sufocavam Arthur enquanto a tensão do orgasmo dominava seu corpo, ele se permitiu ver o rosto de Merlin nitidamente, antes que o clímax o arrebatasse em definitivo.
Passada a emoção do prazer obtido a sós, Arthur pôde sentir um vazio doloroso que antes não estava lá.
