KAMEN RIDER ARILUS

Capítulo 3 – Um guia para o monstro

—Kamen Rider Decade?—Jinchu fica de pé, embora não tivesse o referencial necessário para saber onde era para cima e onde era para baixo. Estava perturbado e desnorteado com aquele cenário, aquela imensidão branca, como se fosse apenas um limbo.

—Pronuncia-se dikeido.—Kadoya Tsukasa que falava agora, ignorando o nervosismo de seu companheiro.

—O que você quis dizer com destruidor de mundos?—Com essa pergunta, o cenário muda para várias Terras colidindo, mesclando-se, ou obliterando umas as outras.

—Perdoe-me por todo esse mistério. Como posso explicar de forma que um japonês criado no Harlem entenda?—O tom de voz de Tsukasa enervava Jinchu, e aquele ar de ter todo o conhecimento mas só repassar o que lhe é conveniente não ajudava em nada o japonês criado no Harlem.—Existe muito mais do que esse mundo em que você vive, Jinchu Ukematsu. Imagine que para cada decisão que você tomou ou deixou de tomar em determinado ponto de sua vida, gere um mundo diferente, uma nova possibilidade. Agora imagine que para cada decisão de cada pessoa nesse mundo, ocorra a mesma coisa. Alguns mundos criados são tão diferentes, que você poderia levar uma vida inteira e não os diferenciaria; outros mundos, porém, são tão diferentes que é inacreditável. Eu chamo seu mundo, de Mundo de Ichigo.

—Mundo de Ichigo?

—Sim.—Kadoya Tsukasa prossegue.—Em seu mundo, Hongo Takeshi foi o primeiro Kamen Rider, daí o nome Ichigo, e o último foi Kouji Segawa, conhecido como "J". Os guerreiros desse mundo, num incrível esforço conjunto, conseguiram finalmente destruir o Dai shuryou, o Grande Líder, e desse modo, não houve a necessidade do surgimento de um novo Kamen Rider...pelo menos não até hoje.

—Espera um pouco...eu não estou entendendo nada!

—Então observe, Jinchu Ukematsu, e veja com seus próprios olhos o quanto o destino desse mundo depende da existência de um Kamen Rider.

Dito isso, imagens passam por aquele outrora mundo vazio, como se fosse uma tela branca. Ele vê Hongo Takeshi, com pouco mais de 20 anos, sendo capturado por uma organização chamada Shoker, e sendo transformado contra sua vontade em Kamen Rider. Ele vê Hongo e mais um outro homem, lutando contra diversos monstros, e finalmente lutando contra uma criatura horrenda, cuja existência situava-se no limiar entre a vida e a morte. Aquele era o Dai shuryou, o Grande Líder. Diversos outros Kamen Riders apareciam naquela estranha retrospectiva, todos eles enfrentando uma forma diferente daquele ser, mas sua decrépita forma ainda emanava aquela inconfundível presença. Até mesmo Kotaro Minami o enfrentou, sob o risco de se tornar uma criatura parecida caso fosse derrotado.

—Tem um Kamen Rider muito parecido com Kotaro Minami, mas ainda assim...ele é diferente.

—Depois de destruir o Dai shuryou sozinho, Black foi confrontado por algo chamado Império Crisis, que queria dominar a Terra sob o pretexto de que os humanos eventualmente destruiriam o planeta. Kamen Rider Black nunca permitiria tal coisa, e os enfrentou. Quando parecia derrotado, a Kingstone que carrega em seu cinto reagiu com o sol, e ele evoluiu para a forma de RX. O Kotaro Minami de hoje já não consegue mais acessar esse poder, dado que o que restou de humano em seu corpo não poderia agüentar tanta energia no estado em que se encontra. Ainda assim, mesmo apenas podendo acessar os poderes de Black, Kotaro Minami ainda é um adversário temível.

—E quanto ao fato de você ser o Destruidor de Mundos?

—Não há universo que resista por muito tempo com tamanhas divisões. Cada mundo novo gerado fragiliza a tessitura dos universos. Eu sou o encarregado de manter a ordem e a integridade para que não sejamos todos destruídos. Por carregar essa função, alguns me chamam de demônio.

—Então você simplesmente destrói universos inteiros? E suas vidas?

—Não pense que eu não sinto remorso!—Tsukasa diz, num rompante de fúria.—Todos os mundos destruído são assimilados por mim. Todas as pessoas; todas as risadas; tristezas; sonhos; desilusões. Tudo isso cai sobre minha alma como uma estaca de gelo, rasgando meu coração. Mas eu não posso desistir de minha missão; assim como você não pode desistir da sua. Você é Kamen Rider Arilus: O destruidor de Riders!

—O quê?

—Quando encontrou Kotaro Minami pela primeira vez, você o atacou num estado de fúria. Quando encontrou Hongo Takeshi, você também tentou lhe agredir!—Tsukasa apontava para Jinchu de forma inquisitiva.—Mesmo sem ter consciência, seu corpo sabe de sua missão! E cabe a você seguí-la!

—E por qual motivo eu devo destruí-los?

—Não cabe a mim questionar. Não é a minha missão. Mas se ela não fosse importante, não estaria cravada tão profundamente em sua cabeça.

—Mas...

—É hora de partir, Arilus. Eu já falei demais.

—...é importante para quem?—Essas são as últimas palavras que Jinchu proferiria em consciência. Aquela parede estranha que parecia ter lhe puxado anteriormente agora movimentava-se em sua direção. Quando ela lhe atravessa, Jinchu se vê de volta ao beco em que lutara com os Darkroaches, porém não conseguia discernir o que via, como se sua visão estivesse borrada. As imagens oscilavam, como se ele visse através de mundos. A última coisa que vê antes de desmaiar é um homem na faixa de 30 anos andando em sua direção, e quando sua visão oscilava, o homem era substituído por um monstruoso demônio púrpuro, com chifres vermelhos e a face vazia e assustadora.

Jinchu leva horas para acordar, e quando o faz, se encontrava num antigo templo budista. Não conseguia reconhecer aquele som profundo que vinha do lado de fora— "seria aquilo alguma espécie de tambor?" — Era o que pensava o rapaz, enquanto se levantava ainda cambaleante e nauseado. Quando ele chega ao lado de fora do templo, encontra aquele mesmo homem que tinha visto no beco, tocando um enorme tambor. Era um tambor Taiko, como Jinchu se lembrava de seu pai comentando durante sua infância. O homem percebe a presença de Jinchu, e ao parar, caminha em sua direção, com um sorriso agradável em face:

—Ah, garoto, vejo que finalmente acordou.

—Você que me trouxe para cá...?

—Hidaka Hitoshi.—O homem estende a mão para Jinchu, que a aperta. O aperto de mão de Hitoshi era firme, dando uma sensação de segurança que o rapaz não sentia havia muito tempo.—Acho que você passou mal, então achei que ficaria seguro nesse templo. Estava vindo para cá de qualquer maneira, para treinar.

—Eu sou Jinchu Ukematsu. O senhor é músico então, Hitoshi-san?

—Sim, eu já havia tocado o Odaiko algumas vezes, mas fazia muito tempo. Só que não é bom deixar o corpo sem treinar por muito tempo, não acha, garoto?

Odaiko...—Jinchu deixa a mão percorrer pela pele do tambor, admirado com o poder que suas notas emitiam.

—Gostaria de umas aulas?

—Eu...eu tenho que voltar, tem pessoas preocupadas comigo.

—Se está falando de Tachibana-sensei, ele já está ciente de que está aqui comigo.

—Como?—Jinchu se mostrava desconfiado, provavelmente devido a suas experiências anteriores.

—Seu celular não parava de tocar, numa das vezes eu li o nome dele no visor, e achei que poderia ser o grande Tachibana Tobei.

—Então você o conhece?

—Sim, eu trabalhei pro filho dele, numa loja de bolinhos de massa.—Hitoshi ri com a lembrança. —Então garoto, gostaria de uma lição gratuita?

—Eu...—o rapaz ponderava. Aprender Taiko? Que idéia engraçada! Há alguns anos ele riria na cara de Hitoshi e o zombaria pela simples oferta. Mas Jinchu não conseguia mais ser esse tipo de pessoa. Não havia algum motivo para que ele voltasse imediatamente, exceto talvez por Naoko, que provavelmente ainda estava preocupada com ele. —Eu só preciso fazer uma ligação primeiro, depois eu aceito a aula de bom grado.

Jinchu procura pelos números em seu celular, até encontrar o de Hongo Takeshi. Não tivera a oportunidade de pegar o número de Naoko, mas provavelmente Hongo poderia lhe ajudar. Além do mais, ele poderia reportar o ocorrido para alguém que lhe compreenderia:

—Alô?

—Hongo-sensei!

—Ukematsu? Em que posso lhe ajudar?

—Ah, eu precisava do telefone de uma aluna...

—Oh? Jinchu-kun arranjou uma namoradinha no seu primeiro dia? Isso que é Kamen Rider de primeira!

—Quê?—Jinchu engasga. Não havia considerado a possibilidade de Hongo interpretar dessa forma, ele tenta se explicar, mas acabava atropelando e tropeçando em suas palavras.—Não é nada disso...nós fomos...eu fui...nós fomos abordados por criaturas esquisitas, Hongo-sensei!

—Criaturas esquisitas? Kaijin?

—Sei lá se era Kanji ou Katakana! Só sei que eles não pareciam com os monstros que eu estou acostumado a enfrentar! É por isso que eu quero o telefone dela. Eu lutei com os monstros para que ela fugisse, e agora acho que ela deve estar preocupada comigo.

—Então você arranjou mesmo uma namoradinha. Haha!—A risada de Hongo já não enervava mais Jinchu como anteriormente, mas ainda assim a provocação era efetiva.—Qual é o nome dela?

—Naoko. Midorikawa Naoko.

—...

–Hongo-sensei?

—A filha de Asuka.—Hongo diz, com a voz fria.—Eu tenho o telefone dela sim, Ukematsu. Eu fui um grande amigo da mãe dela. Anote o número, por favor.

Jinchu desligara o telefone, percebendo que o nome de sua amiga havia deixado Hongo preocupado. Ele poderia questionar essa apreensão posteriormente, agora ele tinha que falar com Naoko:

—Alô.—Quem atendia era um homem.

—Ah...boa noite.—Jinchu sempre ficava desconfortável falando por telefone. A apreensão de falar sem ter o contato visual sempre lhe foi perturbador.—Eu gostaria de falar com Naoko Midorikawa...

—...

—...por gentileza?

—Só um instante, eu vou chamá-la.—Depois de alguns instantes, a garota atende.

—Alô?

—Naoko? Aqui é Jinchu.

—Ah, Jinchu! Você está bem!—A garota demonstrava enorme alívio ao ouvir sua voz. Jinchu por sua vez sentia um aperto no peito ao imaginar que ela esteve preocupada com seu bem estar.—Onde você está?

—Não tenho certeza, estou num templo budista. Um tio aí me achou desacordado e me trouxe pra cá.

—Desacordado? Você se machucou, Jinchu?

—Não, não, não!—O rapaz ria, sem graça por não ter planejado de antemão o que contar para a garota.—Acho que...deve ter sido o choque de encontrar aquelas criaturas tão subitamente. Mas então, você está bem também?

—Estou, graças a você.

—er...

—...

—...—Jinchu não sabia lidar com aquele sentimento de gratidão, sabia que se falasse algo mais em relação àquela situação sua voz falharia. O silêncio só seria quebrado novamente por Naoko.

—Mitsuhide também está seguro, apesar da surra que você deu nele.—O tom de voz de Naoko demonstrava para Jinchu uma alegria ao ele ter se tornado o defensor de seus sonhos, lutando contra aquele bando de vândalos.

—Mitsuhide...ah, o grandalhão, né? O Hide!

—Isso. Eu expliquei o que havia acontecido para ele, mas ele não acreditou. Depois de algumas horas, ele me ligou pedindo desculpas. Parece que um dos colegas dele viu os monstros também. Ele também me pediu para agradecer à você.

—Hah...quem diria...

—É...o vândalo Jin-kun fazendo amigos vândalos também!—A garota provocava, e Jinchu não conseguia conter aquele esboço de sorriso.

—Fico feliz de saber que está bem, Naoko! Tenha uma boa noite.

—Você também, Jin-kun!

Ele desliga e logo volta-se à Hitoshi:

—Tio! Vamos treinar!

—Tio?

O som de batidas ecoa novamente pelos arredores daquele templo. Elas não eram tão poderosas como anteriormente. Jinchu batia na pele do tambor, sem técnica, e sem a coordenação que Hitoshi demonstrava. O homem o interrompe, segurando seu braço:

—Jinchu, do jeito que você está fazendo, você está apenas golpeando o Odaiko!

—E daí?

—Er...—Hitoshi se divertia com a impaciência do rapaz, tentando imaginar como passaria para ele os seus conhecimentos.—Você não está dando espaço para a nota ressoar, e suas batidas estão variando muito na força e no espaçamento.

—E o que eu posso fazer? Achei que era só bater que tava bom.

—Primeiro, você tem que segurar os Bachi dessa maneira.—Hitoshi pega os Bachi, cilindros maciços de madeira, usados para o ataque à bateria, e mostra a maneira apropriada de segurá-los.—Além disso, você precisa dar um espaço ou intervalo para cada batida, o Ma.Na música o silêncio é tão importante quanto o som, assim como numa luta defender é tão importante quanto atacar.

—Eu...acho que entendi, tio!

—Tio?—Hitoshi levava ambas as mãos para sua nuca, entrelaçando os dedos. Achava aquele rapaz muito esquisito, mas gostava de sua espontaneidade.—Outra coisa, use do quadril para cada batida.

O rapaz obedece, e Hitoshi fica satisfeito com o vigor em cada batida:

"–O garoto aprende rápido."—Hitoshi empunha um par de Bachi e se posiciona do outro lado do Odaiko:

—Garoto, tente essa batida que eu vou fazer! E preste bastante atenção no Ma, ok? Quando estiver pronto, é só me acompanhar.

—Certo!

Hitoshi começa a bater. Três batidas, sendo a última seguida de um Ma prolongado. Mais três batidas, dessa vez a segunda sendo acompanhada pelo Ma prolongado. Depois quatro batidas, sendo a quarta acompanhada pelo Ma, e uma última batida que fechava o ciclo, para que ele recomeçasse. Jinchu então o acompanhava, adicionando um novo poder aos golpes. Cada batida que ele dava, dessa vez, sentia uma resistência oriunda dos golpes de Hitoshi:

—Isso mesmo garoto! Continue com essa batida.—Com o assentimento de Jinchu, Hitoshi mudava seu padrão de batidas, criando uma espécie de eco para os golpes de Jinchu, mas não refletindo todas as batidas, criando uma sonoridade diferente. Em certo ponto, ele começa a acelerar as batidas, diminuindo a duração de cada Ma, até que Hitoshi se encontra tocando uma série de batidas rápidas com quase nenhum espaço entre elas. Jinchu cessa suas batidas e fica apenas observando admirado a técnica que aquele sujeito possuía. Quando Hitoshi termina, com uma batida seca, ele diz, sorrindo:

Oroshi Jiuchi!

—Quê?

—Jiuchi são essas batidas de acompanhamento. Oroshi são essas batidas em que eu vou reduzindo cada vez mais o Ma. O que eu fiz que você ficou tão impressionado, foi combinar as duas técnicas.

—Eu...não fiquei tão impressionado!

—Seu queixo já estava limpando o chão!—Hitoshi ri, acompanhado por Jinchu.—Nunca achou que ia se divertir tanto com um instrumento como o Odaiko, hã?

—Vou ser sincero, Hibiki-san: foi incrível!

—Hibiki-san?

—Quê?

—Você me chamou de Hibiki-san?

—Não chamei não...chamei?

—Acho que sim. Bem, não importa! Eu preciso partir agora, garoto. Foi um prazer ser seu professor por alguns instantes.

—Eu que agradeço, Hitoshi-san! Vamos tentar novamente um dia desses.

—Mas é claro!—Hitoshi começa a guardar suas coisas, e quando terminar, faz um gesto curioso, uma mistura de continência com aceno, que Jinchu não conseguia não achar legal, tal qual acharia um irmão mais velho.—So! Apareça quando quiser, garoto!

Jinchu reúne suas coisas, veste novamente a jaqueta do uniforme e começa a descer as longas escadarias do templo. Ainda repetia alguns gestos do Taiko, achando aquela experiência muito gratificante. O rapaz subitamente pára: algo estava errado. Ele olha para os lados, tentando achar o motivo de sua apreensão, mas só conseguia ver o bosque que cercava o templo e suas escadarias. Por um instante, Jinchu acredita ter visto alguma movimentação ligeira nos galhos de uma árvore. Uma sensação ruim percorre seu corpo, até que ele ouve um barulho vindo do templo. Conhecia bem aquele tipo de barulho: era um ataque.

—Hitoshi-san!—Jinchu dispara como uma bala, subindo os degraus da escadaria com velocidade monstruosa. Em poucos segundos já tinha percorrido uma grande distância, e tinha sido rápido o suficiente para presenciar Sagra atacando Hitoshi. O músico é arremessado contra o Odaiko, atingindo a pele do tambor e caindo no chão, num baque seco. O homem já não se mexia, mas Sagra preparava um novo ataque. Jinchu já estava próximo o suficiente e num salto, acerta um violento chute no rosto de seu adversário:

—Butterfly, seu maldito! Que está fazendo aqui?

—É Sagra, seu idiota! Quantas vezes eu vou ter que repetir?

—Tanto faz seu nome! Por que você está atacando ele?

—Porque VOCÊ não fez seu trabalho!

—Meu...trabalho?

—Isso é estranho...você atacou o Black, mas quando encontrou os Kamen Riders que deveriam surgir, você não fez nada! Sua programação deve estar com defeito, Arilus!—Sagra diz, zombeteiro.

—Do que está falando? Hitoshi-san...

—Hitoshi Hidaka deveria ter se tornado um Kamen Rider, se a história desse mundo continuasse da maneira que deveria! Se os Kamen Riders não tivessem interferido.

—Você...você sabe dessa história?

—Você não deveria saber...só deveria fazer seu trabalho! Mas, ao que parece, você é só um protótipo defeituoso, Arilus. Saia do meu caminho! Eu vou cumprir a missão para qual surgimos: Destruir Todos os Riders!

—Então comece comigo!—Jinchu diz, ficando em posição para se transformar, já com o cinto emanando levemente a luz azulada.—HENSHIN!—Tomado pela luz que seu cinto agora emanava com vigor, Jinchu dá lugar ao motoqueiro mascarado. Seu elmo com forma similar a um inseto tomava um ar sinistro com os olhos vermelhos reluzindo.

—Então agora...você se diz um Kamen Rider, Monstro?

—Monstro?—Jinchu gelava ao ouvir aquele nome. Seu nome como membro da gangue dos Hoppers! O monstro que assombrava do Harlem até a Ilha de Coney. Por um momento, ele imagina que Doutor ou Mclane pudessem estar por detrás daquela máscara demoníaca. Talvez fosse só coincidência, afinal, ele agora era realmente um monstro, mas essa hesitação era o suficiente para Sagra ganhar a vantagem no combate.

Os saltos de Sagra já haviam se mostrado poderosos no primeiro confronto dos dois, e agora Jinchu experimentava uma sequência rápida de chutes que o arremessara ao chão, metros de onde estava inicialmente. O rapaz fica de joelhos, levemente atordoado com o golpe, quando percebe um novo ataque vindo de Sagra. Jinchu mal tem tempo de se defender, bloqueando o golpe que mais uma vez o arremessava para trás. Tendo aparado o golpe porém, Jinchu conseguia uma boa vantagem para contra-atacar.

Jinchu agora acertava um chute no queixo de Sagra, que desloca o pescoço pra trás, tamanha potência do golpe. Antes que pudessem se afastar um do outro, Jinchu agarra seu oponente pelo elmo, e o arremessa com violência no chão, aterrissando logo em seguida:

—Fica dependendo só de um padrão de ataques dá nisso. Pula tanto que mais parece um sapo!

—Cala...cala essa boca.—O golpe sofrido por Sagra parecia ter lhe deixado bem abalado. Jinchu repara que seus movimentos estavam significantemente mais lentos.

"—Ele não caiu...nem com um golpe desses..."—Jinchu então se espantava com o que via. Os danos causados a Sagra logo pareciam recuperados, como se nada tivesse acontecido. Até mesmo os movimentos torpes devido aos ataques sucessivos no rosto já pareciam uma mera lembrança:

—Surpreso, Arilus?—Sagra ria, de forma insana.—Surpreso com as habilidades da nova geração do projeto que leva seu nome, obsoleto?

—Pra ser feio e fedorento que nem você, eu prefiro ser obsoleto!

—Vamos ver se continua engraçadinho quando eu acabar com você!—Sagra mais uma vez saltava na direção de Jinchu, preparando um soco direto. Jinchu, com um movimento elegante, esquiva-se do ataque no último instante, tendo uma brecha enorme para contra-atacar:

—Sempre o mesmo padrão! Você é vergonhoso!—Jinchu agora que encaixava uma sequência de socos, alternando as mãos. Talvez fosse inconsciente, mas Jinchu aplicava a técnica de Oroshi que Hitoshi havia lhe ensinado pouco tempo antes. Para cada golpe aplicado, o Ma —o espaço entre os golpes— diminuía até Jinchu não dar tempo para que a regeneração espantosa de Sagra tenha efeito. Ao terminar, era Jinchu quem estava de pé, e não Kamen Rider Arilus, imponente apesar de ferido. Sagra jazia no chão, inconsciente. As mãos de Jinchu estavam vermelhas, mas não era sangue, e sim as marcas dos golpes aplicados no seu adversário:

—Defender é tão importante quanto atacar, seu idiota!—Jinchu logo deixa Sagra caído, para se preocupar com Hitoshi Hadaka.

—Hitoshi-san!—Jinchu chamava pelo amigo, que não respondia.—Hitoshi-san!

—Ei...você chegou bem à tempo, né?

—Você está bem?

—É claro! —Hitoshi sorri, tentando ignorar a dor que sentia. —Eu sou bem treinado! Mas não esperava ser pego dessa maneira!

—É culpa minha, Hitoshi-san! Me desculpe!

—Culpa sua? Não seja idiota, garoto!

—Hã?

—Se não estivesse aqui, eu já estaria morto! Ele não falou algo de que tinha a missão de me matar? Pare de tentar ser um mártir, e torne-se aquilo que você deseja ser, garoto: um aliado da justiça!

—Mas eu...eu não acredito em justiça!

—Você mesmo se chamou de Kamen Rider! Ninguém ostentaria esse nome sem acreditar em justiça!

—...

—O seu Oroshi foi genial, garoto! Você devia virar profissional nisso!
—E morrer de fome? Não, obrigado!

—...cruel, garoto...cruel!—Hitoshi força um sorriso, e Jinchu percebe que o sofrimento que Sagra havia lhe causado demoraria bastante para ser curado.

Jinchu ajuda Hitoshi a se levantar, e os dois percebem que Sagra agora também estava sendo auxiliado por Mantis e por Chris, que dessa vez não estava protegido por sua armadura com detalhes em referência a um tigre:

—Merda!—Jinchu praguejava ao se ver em clara desvantagem.

—É melhor corrermos!—Hitoshi diz, desanimado.

—Se nós corrermos ele nos pegam e te matam.—Jinchu mostrava uma irritação na voz. Estava irritado não apenas com aquela situação, mas também por ter percebido que Hitoshi tinha sugerido aquilo para lhe proteger e dar uma chance para fugir.—Pare de tentar bancar o herói! Quem tem o cinto e a cara de gafanhoto aqui sou eu!

—Na verdade...—Mantis diz, jocoso.—...sua forma é baseada num besouro norte-americano conhecido como Arilus Cristatus,ou Wheel Bug. Minha forma é obviamente baseada num louva-deus —dito isso, Mantis faz saltar de seus antebraços lâminas que Jinchu não teve a oportunidade de presenciar em sua primeira luta— enquanto nosso amigo desacordado tem a forma inspirada no Besouro-Sapo da Tailândia, ou Sagra Fermonta.

—Eu não perguntei...—Jinchu diz, contrariado.—...saia do meu caminho!

—Receio que não possamos fazer isso!—Mantis fica de guarda, visando a cabeça de Jinchu.—Se você não vai cumprir sua missão, nós faremos isso por você!

—Eu vou passar por vocês, nem que seja a última coisa que eu faça!

—Era tudo que eu queria ouvir!—Mantis faz menção de avançar, mas é impedido por pequenas explosões no chão. Ele recua, sem saber se as explosões vinham de algo plantado abaixo da terra, ou se esses explosivos foram arremessados depois do confronto entre Arilus e Sagra. Logo, uma voz se anuncia, sem revelar sua localização:

—Esses dois estão sob minha custódia! Se não forem embora agora, as baixas que causarei serão bem mais danosas do que apenas um besouro-sapo nocauteado!

—Quem está aí?

—Você não consegue me ver, não é?—A voz agora parecia estar em outro lugar, no lado oposto ao qual imaginavam ter escutado anteriormente.—Mas eu vejo todos vocês. As primeiras bombas foram só um aviso.

—Byakko!—Mantis voltava-se para Chris, e pela primeira vez Jinchu ouvia o nome de guerra adotado pelo inimigo que mais odiava.—Ele está blefando, se ele tivesse capacidade para nos destruir, não ficaria tentando nos espantar.

—Talvez, mas não vale a pena pagar para ver agora.—Chris carregava Sagra, deixando Mantis para trás.—Temos dois Kamen Riders no campo de batalha, e um terceiro em potencial. Apesar da vantagem ser aparente, não sei se conseguiria me transformar e pegar o que está escondido antes dele nos atacar. Vamos embora.

—Deu sorte, Arilus! Deu muita sorte!

Mantis e os outros dois logo deixam o templo. Aquela sensação ruim que Jinchu tinha perto deles tinha desaparecido completamente. Ele e Hitoshi respiram aliviados, enquanto que o misterioso salvador não dava mais qualquer sinal de vida. Os dois nem puderam agradecer, mas Jinchu agora sabia o que deveria fazer, e sabia qual seria os movimentos de seus adversários: se protegesse aqueles que deveriam ter se tornado Riders, entraria no caminho dos seus inimigos, e então, talvez conseguisse as respostas que procurava. Com certeza não seria um caminho fácil, mas agora ele já tinha um caminho à seguir.

A seguir: O caminho do Dragão