Tham chegou correndo, cansada e com o rosto muito vermelho. As outras três Marotas já estavam acomodadas na última mesa de biblioteca.
- Me atrasei? – perguntou ela, ofegante, enquanto desabava numa cadeira.
- Relaxa, você só está uns quinze minutinhos atrasada... – resmungou Kate por trás do livro Duelos: técnicas infalíveis.
- Só quinze minutinhos? – perguntou Jessy – Se chegarmos só quinze minutinhos atrasadas para uma aula, é detenção na certa!
- Relaxa, Jessica – disseram Gi e Kate ao mesmo tempo.
A corvinal voltou a se concentrar no dever de Astronomia, emburrada.
- Por que você se atrasou, Tham? – perguntou Gi.
- Vocês não vão acreditar! – respondeu ela, arregalando os olhos – A Sibila, minha amiga, disse que eu sou uma vidente!
Jessy ergueu a cabeça com um olhar cético:
- E o que ela sabe sobre vidência e adivinhação? É um ramo muito confuso da magia, como ela pode dizer com certeza se você é vidente ou não?
- Acontece que ela também é!
- Ahn?
- É! A Sibila é tetraneta de uma vidente muito famosa! O nome dela era Cassandra Trelawney!
- Ela é parente da Cassandra Tralawney?
- E quem diabos é Cassandra Trelawney? – perguntou Kate, fazendo Thamy e Jessy a olharem, perplexas.
- Você não sabe quem é Cassandra Trelawney?
- Não. – disseram Gi e Kate.
- É a maior vidente de todos os tempos! – disse Tham com admiração.
- Eu diria a maior charlatã de todos os tempos – observou Jessy.
- Hello! – Gritou Gisele – nós nascemos trouxas, esqueceu?
- Ah, é verdade! – disse Thamiris – mas então, a Sibila me disse que viu em mim talentos de vidente. Não é o máximo?
As outras três se olharam, a vontade geral era de dar um "não!" bem sonoro, mas para não jogar água no entusiasmo dela...
- Bom... – começou Gi.
- Hum... – continuou Kate.
- É... – emendou Jessy.
- Se você diz... – terminaram as três juntas.
Thamy não percebeu que as amigas não compartilhavam de sua animação e continuou radiante. Jessy caminhou entre as estantes durante alguns minutos e voltou para a mesa com uma pilha de livros. Kate deitou a cabeça sobre a mesa e dormiu.
Thamiris não parava de falar sobre vidência, astrologia, quiromancia e afins. Gi ainda tentava acompanhar a matéria, sem sucesso...
Do outro lado da biblioteca, um grupo quase igual se reunia: Remo Lupin consultava suas anotações e fazia um resumo de História da Magia; Tiago Potter cochilava, usando o livro de Transfiguração como travesseiro; Sirius Black olhava desanimado para o questionário, como se perguntasse se as questões não iriam se responder sozinhas; Pedro Pettigrew mastigava uns chocolates que surrupiara na mesa do jantar e olhava para algum ponto distante com um olhar muito vazio...
Sirius chutou a canela de Tiago por baixo da mesa:
- Acorda, Tiago.
- Ah, mãe... – resmungou o outro – só mais cinco minutos...
- Que mãe o que! – Sirius chutou o amigo de novo, e ele acordou de vez.
- Que foi? – perguntou, esfregando os olhos.
- Olha só quem está ali...
Indicou a mesa oposta com a cabeça e Tiago deu um sorrisinho maroto:
- Ei, Remo, olha só sua namoradinha corvinal ali...
- A Willianson não é minha namorada – disse Remo calmamente, sem nem levantar os olhos de sua lição.
- Não? – Sirius levantou as sobrancelhas – eu não arriscaria meu pescoço por qualquer menina... ou ela é sua namorada ou você não tem o mínimo respeito pela própria pele...
- Não enche. Grifinórios tem que ter coragem, lembra? – resmungou Remo, ficando vermelho – Além do que, a Willianson é minha amiga, só isso.
- Sua amiga? – perguntou Tiago – a Pimentinha também é sua amiga, vai dizer que faria o mesmo por ela?
- Pimentinha? – perguntou Sirius, fazendo cara de cachorrinho perdido – Que Pimentinha?
Tiago atirou uma bola de pergaminho em Sirius, que desprevenido, deixou que o acertasse bem no nariz.
- A Evans, seu retardado!
Ele jogou a bolinha de volta e ameaçou o colega com o livro de feitiços.
- Retardado é você! Eu só tava distraído!
- Bom, em todo o caso... Você acha que a Pimentinha...
- Dá pra parar de chamar a Evans assim? – disse Remo por trás de suas anotações/livros/penas/e afins – já não basta o que fez com ela na aula de vôo?
- Ah, qual é, Remo! Não é minha culpa se ela é uma histérica!
- Na verdade... – Sirius deu um sorrisinho malicioso – Quem deixa a Pimentinha histérica é o Tiago...
- Besta – Tiago jogou o estojo em Sirius de novo – até parece.. pior que a Pimentinha só a Peçonhenta.
- Que Peçonhenta? – Pedro se manifestou pela primeira vez, com a voz pastosa por conta do chocolate.
- A Riddle.
- Que nada! A Coruja Transviada é bem pior! – disse Sirius.
- Quem?
- Aquela tal de Brianne... Ela se achou no direito de me interromper quando eu estava zoando o Caverna no trem! Quem ela pensa que é?
Tiago encolheu os ombros:
- Sei lá...
Ele empilhou mais dois livros sobre o de Transfiguração, deitou a cabeça sobre eles e voltou a dormir, sob o olhar desaprovador de Remo:
- Tiago, como você quer passar nos exames?
- Copiando suas anotações, claro! – resmungou ele, pegando a mochila e enfiando a cabeça nela – Me acorde quando acabar, ok? Isso aqui é muito parado...
- Talvez por que seja uma biblioteca! – disse Remo entredentes.
Sirius já não prestava mais atenção na conversa dos dois. Seus olhos estavam fixos na mesa das Marotas, onde Gi encarava sua lição de modo desanimado, Kate dormia, Thamy se penteava e Jessy lançava-lhes olhares de raiva e advertência por trás do dever de Poções.
- Bem que a gente podia dar um jeito nelas... – resmungou ele distraidamente.
- Dar um jeito em quem? – perguntou Remo, desconfiado, enquanto seguia o olhar do amigo – nem pensar, Sirius! Você vai arranjar encrenca! Aliás, a Willianson não é sua prima? Vai ter problemas com os seus tios...
- Prima uma ova! A mãe dela é casada com o meu tio, só isso! Ela só é Black por consideração.
- E a Gisele vai ser Brianne por casamento! – chiou Tiago de dentro da mochila.
- Nem daqui a mil anos! Nem sob tortura eu casaria com aquela nojenta da Brianne!
- Chamou? – perguntou Gi, erguendo a cabeça.
- Não! – disse Sirius, carrancudo.
A garota meramente encolheu os ombros e voltou a se concentrar – ou pelo menos tentar – no dever.
- Droga – resmungou ela – Não consigo fazer essa porcaria!
- Nem sei por que você ainda tenta... – bocejou Kate, tirando a capa e cobrindo a cabeça com ela.
Thamy sacudiu Kate:
- Acorda, o seu primo não disse que vinha te buscar?
- Ahn? – A sonserina emergiu de dentro da capa, descabelada e sonolenta – Ah, é verdade... Olha lá ele...
De fato, Tom estava entrando na biblioteca, escoltado por Lúcio Malfoy e pelo irmão de Jessy. Ele se aproximou da mesa, seu olhar passou rapidamente por Jessy, Kate e Tham, e se demorou no rosto de Gi. A garota devolveu o olhar, sem baixar o rosto nem corar. Foi ele que desviou os olhos para a prima:
- Kate, vamos.
- Eu ainda não terminei a lição.
- Não importa. Vem. Preciso falar com você. Agora.
- Mas Tom...
- Agora – o olhar dele sequer se alterou, mas seu tom de voz se tornou quase um silvo.
Ela fez cara feia:
- Tá bem. – recolheu suas coisas, murmurou um "tchau" para as amigas e seguiu o primo. Desceram andares e mais andares em silêncio. Já estavam no corredor das masmorras, quando Tom disse:
- Você não devia andar com aquela grifinória.
- Por quê?
Tom não respondeu imediatamente, antes, deu um olhar significativo para Lúcio e Jeff e os dois capachos entenderam a mensagem: retirada estratégica para dar privacidade ao chefe.
- Eu... hã... vou ao banheiro. – disse Lúcio.
- Vou com você – emendou Jeff.
Os dois se afastaram e Tom passou o braço em volta dos ombros da prima:
- Kate, você precisa entender uma coisa – disse ele de um jeito estranhamente carinhoso – Nós podemos ter crescido entre os trouxas, mas isso não quer dizer que precisamos nos misturar com essa ralé que não tem a menor ideia do que é magia de verdade...
- Nós também não tínhamos ideia, Tom...
- Eu sei, Kate, eu sei, mas tente entender... Nós, eu e você, somos seres... ah... Como posso dizer?... Superiores a esse bando de lixo que infecta o mundo bruxo – ele sorria – Mesmo tendo nas veias o sangue imundo dos trouxas, nós descendemos de bruxos poderosos...
- Correção: você descende, Tom. Professor Dumbledore disse que sua ascendência mágica é pelo lado de sua mãe, somos parentes pela parte de seu pai.
O sorriso dele desapareceu por um instante, para depois voltar ainda mais enigmático:
- Não se esqueça de que é uma Riddle, prima. Somos enigmas. Você não se conhece tão bem quanto supõe...
Com essa nota enigmática, ele deixou Kate com a desculpa de ir procurar seus dois patetas de estimação.
A Lua Cheia brilhava pelas janelas da Torre Norte. Desfalcados do gênio do grupo que adoecera misteriosamente no dia anterior, Tiago, Sirius e Pedro estavam no salão comunal, com os livros abertos, cada um fingindo fazer a lição de um modo diferente: Sirius olhando para seus pergaminhos, o queixo apoiado na mesa; Tiago rabiscando nas margens de seu exemplar de Mil ervas e fungos mágicos; e Pedro mastigando bolachinhas sob o pretexto de que mover o maxilar o fazia pensar.
O buraco do retrato se abriu, e os três ergueram as cabeças, esperançosos. Mas não era Remo, eram os gêmeos Brianne. Gi se despediu do irmão, acenou para outras alunas do primeiro ano e subiu para o dormitório das garotas, saltitando e cantarolando uma música do U2.
Gui se aproximou dos meninos e sentou na cadeira geralmente ocupada por Remo.
- Vocês conseguiram terminar a lição? – perguntou ele;
- Íamos perguntar a mesma co-ooo-isa – disse Tiago, finalizando a frase com um bocejo – e a sua irmã?
Gui bufou, nervoso:
- Terminou tudo, mas não me deixou copiar...
- A Coruja Transviada terminou a lição? – espantou-se Sirius.
- Não chama minha irmã assim! E sim, ela terminou.
- Ela só pode ter copiado da minha prima!
- Não sei de quem ela copiou – resmungou Guilherme, carrancudo – mas devia ter me deixado copiar também. – suspirou – Boa noite.
- Boa noite – responderam os três.
Sirius ficou olhando enquanto o irmão de Gisele se afastava:
- Gente, fui só eu quem ficou com a pulga atrás da orelha? – murmurou ele.
- Como assim? – perguntou Tiago no mesmo tom confidencial.
- É o seguinte... Chega mais, Pedrinho – os três juntaram as cabeças – Pelo que eu já vi dessa garota, ela não ia conseguir fazer todos os deveres rápido desse jeito!
- Mas ela está andando com a Willianson – lembrou Tiago – Vai ver ela anda ajudando a Transviada, a Peçonhenta e a Chorona...
- Chorona? – Pedro franziu a testa.
- É, aquela "emo" retardada!
- A Tatá não é retardada!
- Tatá? – perguntaram os outros dois. Pedro corou e não disse mais nada, concentrando-se em continuar a mastigar seus doces.
- Bem, em todo o caso – continuou Sirius – Eu acho, que para estarem tão juntas assim, elas só podem estar tramando alguma coisa contra a gente...
- As Marotas?
Tiago e Sirius se voltaram ao mesmo tempo para Pedro, que mastigava distraidamente um sonho recheado de creme.
- Marotas?
O garoto engoliu o sonho, lambeu os dedos e encarou os amigos:
- Ué, vocês não sabiam? A Brianne, a Riddle, a Willianson e a Tatá agora se chamam "as Marotas". Elas fizeram meio que um pacto contra nós quatro...
- Por que não falou isso antes? – perguntou Tiago.
- Ora, ninguém perguntou – ele procurou na mochila e encontrou um guardanapo onde estavam enrolados bolinhos de queijo – Ouvi as quatro comentando na biblioteca ontem.
- Se elas se uniram contra nós, vamos nos unir contra elas também! – exclamou Sirius, inflamado – Vamos ser a "Liga Anti-Marotas"!
- Melhor não – ponderou Tiago - "Liga Anti-Marotas" dá muito na vista. Precisamos de algo mais...
- Charmoso? – opinou Pedro de boca cheia.
- É, isso também, mas eu ia dizer discreto...
- Que tal "Os Três Mosqueteiros"?
- Claro que não! Nós vamos ser quatro! Precisamos de um adversário para a sua prima...
- Ah, o Remo! Mas isso não resolve o problema do nome... A não ser que façamos uma relação com Rômulo, Remo e Roma... "Gladiadores"!
Tiago bateu com a mão na testa:
- Ah, pelas meias de Dumbledore! Vocês não acham que as idéias simples são muito melhores? Elas não são as Marotas? Nós seremos os Marotos!
- Grande, Tiaguinho! – Sirius gritou e se levantou de um salto – prepare-se, Hogwarts! Aí vem os Marotos!
- Bando de imitadores – sibilou Gi, que espiava do alto da escada.
