Quero agradecer a todos que estão acompanhando essa história, mas especialmente a 21 e alice, obrigada mesmo. Seus comentários foram fofos de +!

Tenho a impressão de que esta estória está meio enrolada, se essa for a sua impressão também, conte para mim... eu ficarei muito feliz com o feedback. Essa é a única forma de saber se minha escrita está agradável ou não, para que eu possa melhora-la se for o caso.

Obrigada a todos, mesmo! Até a próxima.


CAPÍTULO 3 – Brandon Stark

Ela fora convocada a comparecer diante de Lady Catelyn Stark, por isso, seguia de perto os passos apresados da Criada, que a conduzia através de várias câmaras e incontáveis degraus, enquanto lembrava a si mesma, que era apenas sua culpa, se ultimamente estava em evidência, mais do que seria sensato.

Finalmente, chegaram no topo da Grande Torre, onde ficavam os aposentos pessoais do Senhor e da Sra. Stark; a Criada bateu na pesada porta de madeira, e do outro lado, a permissão foi dada por uma voz feminina, a moça abriu a porta e se afastou para dar passagem a Hermione.

Essa seria a primeira vez, que ela se apresentaria formalmente à Lady de Winterfell. Desde que Hermione chegara ali, a Senhora havia permanecido na cabeceira da cama do filho adoentado, se recusando a deixa-lo, até mesmo para se despedir do marido e dos outros filhos, que partiam ao Sul.

Na noite do ataque à Bran, cinco dias atrás, Lady Stark fora conduzida em completo estado histérico para seus próprios aposentos, e estivera dormindo desde então, mas agora acordara e queria conhecer a Lady que estava hospedando.

Hermione supôs que a Sra. Stark estivesse sozinha, mas se enganara; no quarto estava o mestre de armas Sor Rodrik Cassel, Hallis Mollen o capitão da guarda, Theon Greyjoy o protegido dos Stark e Robb, que lhe sorriu timidamente quando ela surgiu emoldurada pelo batente da porta.

Lady Stark estava na cama, sentada em meio a muitos cobertores de peles com uma bandeja cheia de comida ainda intocada, equilibrada em seu colo.

A Senhora estava pálida, era uma mulher na casa dos trinta anos muito bonita, seus cabelos estavam presos em uma longa trança, e eram de um tom tão forte de vermelho que rivalizavam com qualquer Weasley, os olhos azuis, incrivelmente parecidos com os de Robb, ressaltavam a brancura de sua pele delicada.

Diferentemente da noite do ataque, ela estava calma e centrada, muito segura de si.

- Entre Milady, e feche a porta – Pediu Lady Stark.

Hermione fechou a passagem as suas costas e deu alguns passos para dentro do quarto se aproximando da cama. Ela tremia, e cruzou as mãos em frente ao corpo para tentar mantê-las firme.

A Senhora exalava autoridade. Hermione se sentia como em seu primeiro dia de aula, levantando a mão na sala de poções, diante do Professor Snape.

Winterfell para Hermione, estava sendo como ir de olhos fechados, a uma montanha russa; era impossível prever quando seria a próxima queda. Toda a vez que ela precisava responder perguntas, toda a vez que era obrigada a agir, colocava sobre si um refletor que poderia indicar facilmente suas falhas, sua origem, sua magia.

Isso era viver em suspenso. Era estar constantemente sob uma gangorra; no alto é seguro, mas o que estava abaixo dos pés é areia movediça; no alto, o vento sopra pelos cabelos, e você está leve, flutuando livremente, é fácil respirar, mas quando é sua vez de sentir o chão sob os pés, é desolador e você tem medo de nunca mais subir; é perigoso afundar na areia; é preciso ter cuidado até que seja sua vez de subir novamente...

- Contaram-me que meu marido a encontrou desmaiada as margens de um dos lagos de nossas terras? – Lady Stark questionou, seus olhos brilhavam avaliativamente em direção de Hermione; eram aço puro.

- Sim, Milady – Hermione respondeu modestamente, embora sua voz estivesse bastante firme.

- E quanto a seus pais? Não estavam a com a Senhora? – Lady Stark entrelaçou as mãos no colo atrás da bandeja.

Hermione sabia, que provavelmente, a Senhora já tinha ouvido aquela estória mais de uma vez, mesmo assim, ela interrogava Hermione novamente.

- Eles estão mortos – Mentiu Hermione, a mesma mentira que contara ao Sr. Stark, ao Meistre e a Robb, e não pode deixar de se perguntar, quantas vezes mais, seria preciso repetir essa estória. – Fui enviada, de Pentos para receber a educação de Westeros pelo meu Tutor. Lorde Stark me recebeu com muita gentileza, e amavelmente seu filho estendeu a hospitalidade de Winterfell.

Hermione achou melhor lembra-la – ou informa-la pela primeira vez, que era o mais provável – que Robb havia permitido a ela, continuar em Winterfell pelo tempo que desejasse.

Lady Stark não era pessoa que sabia esconder seus pensamentos, ela relanceou um olhar curioso ao filho, e Hermione pode ler, estampado em cada linha de seu rosto, algum grau de desconfiança voltado para ela.

Felizmente, Robb interveio na hora certa, com outra pergunta que mudou o foco da conversa.

- Porque Milady decidiu subir aos aposentos de Bran, na noite do ataque? – Perguntou, com os olhos correndo de Hermione para a mãe, em busca de aprovação.

- Tive uma intuição de que Bran poderia precisar de ajuda – Hermione escolheu a honestidade, não se atrevendo a mentir ainda mais. Não que ela tivesse uma mentira que fosse plausível, de qualquer forma.

- Tem bons instinto, Milady – Theon elogio sedosamente, com um sorriso preguiçoso nos lábios.

Hermione não tinha nada a responder para isso. Só lhe restava pedir a Merlin, para que aceitassem sua desculpa, como algo.

- Sou grata a seus instintos. Salvou minha vida naquela noite, e a vida de Bran – Lady Stark agradeceu formalmente, embora a desconfiança ainda brilhasse em seus olhos, mas as palavras dela eram sinceras.

- Não há nada a agradecer, Senhora. A minha vida foi salva por seu marido primeiro – Hermione respondeu.

- Foi muito corajosa. Nunca em minha vida, vi uma Lady agir como agiu naquele quarto. Colocando-se diante do assassino com tal abandono de si mesma, e com tamanho sangue frio. Quantos anos tem? – Lady Catelyn perguntou.

- Quinze, Milady.

- Não teve medo? – Ela pressionou.

- Sim Senhora. Tive medo por Bran, e pela Senhora também.

- Coragem só é possível diante do medo – Robb falou, parecendo impressionado. Os olhos dele estavam muito abertos em direção dela.

Lady Catelyn por outro lado, olhava para Robb com uma sobrancelha levemente arqueada.

- Nem todos fariam o que fez. A Senhora Stark nos contou como agiu, e realmente é impressionante, especialmente para uma Lady. – Disse Sor Rodrik.

Hermione deu um sorriso tímido para o Senhor.

Um breve silêncio se fez na sala, durante o qual, Hermione sentiu-se muito desconfortável, mas novamente o assunto foi mudado, com outra pergunta, dessa vez, feita pela Sra. Stark.

- Quem ele era?

Ela não precisava esclarecer mais do que isso, para que todos entendem que ela falava do assassino.

- Ninguém sabe seu nome - informou Hallis Mollen. - Não era homem de Winterfell, Senhora, mas há quem diga que foi visto aqui e nas imediações do castelo ao longo destas últimas semanas.

- Então é um dos homens do rei - disse ela - ou dos Lannister. Pode ter ficado para trás, à espreita, quando os outros partiram.

- Pode ser - disse Hal. - Com todos aqueles estranhos a encher Winterfell nos últimos tempos, não há maneira de dizer a quem pertencia.

- Ele esteve escondido nas cavalariças - disse Greyjoy. - Podia-se sentir o cheiro nele.

- E como pôde passar despercebido? – Questionou Lady Stark em tom penetrante. Hallis Mollen pareceu atrapalhado.

- Com os cavalos que o Senhor Eddard levou para o Sul e os que enviamos para o Norte para a Patrulha da Noite, as cavalariças ficaram meio vazias. Não seria grande truque se esconder dos moços da cavalariça. Pode ser que Hodor o tenha visto, dizem que o rapaz anda esquisito, mas simplório como é... - Hal abanou a cabeça.

- Encontramos o lugar onde ele dormia - interveio Robb. - Tinha noventa veados de prata num saco de couro escondido debaixo da palha.

- É bom saber que a vida do meu filho não foi vendida barato - disse Lady Catelyn amargamente.

Hallis Mollen a olhou, confuso.

- As minhas desculpas, Senhora, mas está dizendo que ele foi mandado para matar o seu rapaz?

Greyjoy mostrou dúvida.

- Isso é uma loucura – Ele disse.

- Ele veio por Bran – Lady Stark afirmou categoricamente - Ficou o tempo todo resmungando que eu não devia estar ali. Provocou o incêndio da biblioteca pensando que eu correria para tentar apagá-lo, levando os guardas comigo. Se não estivesse meio louca de desgosto, teria funcionado.

- Eu não tenho dúvidas, sobre o motivo dele – Hermione exteriorizou seus pensamentos com convicção, esquecendo-se por um momento, de que não estava com seus amigos em Hogwarts.

Todos olharam para ela surpresos.

- Desculpe – Hermione disse, irritada consigo mesma por esquecer de manter o disfarce de Lady.

- Não se desculpe. Fale livremente, por favor – pediu Lady Catelyn.

Hermione ficou em silêncio por um momento, pensando que novamente estava com os pés sob a areia movediça, mas já tinha ido longe demais para recuar.

- Bem – Hermione começou, cautelosa no início – Só consigo pensar em três motivos para que um homem como ele invadisse o castelo.

Ela fez uma pausa e vendo que ninguém tentou interrompe-la ela sentiu-se mais confiante para continuar.

- Supondo que fosse para roubar, teria sido muito mais inteligente ter feito isso quando os homens do Rei ainda estavam por aqui. Quero dizer, um Castelo abarrotado de pessoas estranhas, ninguém questionaria se alguém estivesse transportando objetos valiosos por aí, não é? Em um Castelo vazio, por outro lado, chamaria muito mais a atenção, certo? Além disso, o fogo na biblioteca tirou dos corredores a maioria dos guardas e dos habitantes do Castelo, teria sido muito fácil entrar em qualquer câmara para tirar outro e prata, mas ele escolheu uma das Torres mais afastadas para invadir, justamente aquela pela qual, ele teria que percorrer um longo caminho na volta, até a saída. A armaria ou até mesmo os estábulos teriam sido uma opção melhor; suponho que um cavalo deva custar um bom valor. Porém, ele escolheu invadir o quarto de um menino. Que bens um menino poderia ter que fossem mais valiosos do que a prata que há no Grande Salão? Se fosse para outro tipo de ato...

Aqui Hermione fez uma pausa, sentindo-se corar com o que estava prestes a dizer em uma sala cheia de homens. Ela baixou a cabeça para não ter que olhar para ninguém e continuou.

- As cozinhas teriam sido uma melhor escolha, ele poderia ter facilmente atraído uma das Criadas para fora, e logo estaria livre para fazer o que quisesse. Ele veio por Bran. Os olhos dele diziam isso, ele queria mata-lo.

- Além de incrivelmente corajosa é muito perspicaz, Milady – Disse Sor Rodrik, quando ela terminou de falar.

A Sra. Catelyn mudou sua expressão, e agora, ela olhava para Hermione com aprovação.

- Por que haveria alguém de querer matar Bran? – Robb perguntou atordoado - Deuses, não passa de um rapazinho, indefeso, dormindo...

Lady Catelyn lançou ao seu primogênito um olhar de desafio.

- Se quiser governar o Norte, Robb, precisa analisar estas coisas até o fim. Responda à sua pergunta. Por que haveria alguém de querer matar uma criança adormecida?

- Alguém tem medo de que Bran acorde - disse Robb - Medo do que ele possa dizer ou fazer, medo de qualquer coisa que ele sabe.

- Muito bem. – A Sra. Catelyn olhou para o filho com orgulho.

- Senhora Stark - Sor Rodrik disse, chamando a atenção de todos para si – Passei noite e dia analisando a arma do vilão. Pareceu-me uma arma boa demais para um homem daqueles, e olhei-a longa e atentamente. A lâmina é de aço valiriano e o punho, de osso de dragão. Uma arma assim não tem nada a ver com um homem como ele. Alguém lhe deu.

A Sra. Catelyn fez um aceno, pensativa.

- O que vou dizer não deve sair deste quarto - ela avisou. - Quero que jurem. Se até mesmo parte daquilo de que suspeito for verdade, Ned e as minhas meninas viajaram para um perigo mortal, e uma palavra aos ouvidos errados poderá custar-lhes a vida.

- Lorde Eddard é como um segundo pai para mim – disse Theon Greyjoy. - Presto esse juramento.

- A Senhora tem o meu juramento - disse Sor Rodrik.

Lady Stark olhou para Hermione por um longo momento.

- E quanto a Milady? Jura? – Ela perguntou com muita seriedade.

- Sim Senhora. Juro – Hermione respondeu.

Lady Catelyn olhou para o filho.

- E você, Robb?

Ele consentiu com um aceno de cabeça.

- Minha irmã Lysa acredita que os Lannister assassinaram o marido, Lorde Arryn, a Mão do Rei - informou Lady Catelyn. - Ocorre-me que Jaime Lannister não se juntou à caçada no dia em que Bran caiu. Permaneceu aqui no castelo - o quarto estava num silêncio mortal. - Não me parece que Bran tenha caído daquela torre - disse ela para o silêncio. - Penso que foi atirado.

O choque era claro no rosto de todos. Hermione manteve-se quieta, desconhecia muita coisa sobre Westeros para ter uma visão clara da implicação contida nas palavras da Senhora.

- Essa sugestão é monstruosa - disse Sor Rodrik Cassei - Até mesmo o Regicida hesitaria em assassinar uma criança inocente.

- Ah, hesitaria? - Perguntou Theon Greyjoy. - Tenho dúvidas.

- Não há limites para o orgulho ou a ambição dos Lannister - disse Lady Catelyn.

- O rapaz sempre teve antes a mão segura - disse Sor Rodrik pensativo - Conhece todas as pedras de Winterfell.

- Tudo o que temos são conjecturas. Quem queremos acusar é o irmão querido da rainha. Ela não o aceitará de bom grado. Temos de encontrar provas, ou ficar em silêncio para sempre – falou Theon.

- Sua prova está no punhal - disse Sor Rodrik - Uma bela lâmina como aquela não pode passar despercebida.

- Alguém tem de ir a Porto Real – Disse a Sra. Stark.

- Eu vou – ofereceu-se Robb.

- Não - ela disse imediatamente. - Seu lugar é aqui. Deve haver sempre um Stark em Winterfell. Devo ir eu mesma.

- Minha Senhora – advertiu Sor Rodrik - será avisado? Decerto que os Lannister encararão a vossa chegada com suspeita.

- A última vez que estive na Capital, era apenas uma menina. De certo, que ninguém me reconhecerá – ela respondeu.

- Deixe-me pelo menos acompanhá-la. A estrada do rei pode ser perigosa para uma mulher só – Pediu Sor Rodrik.

- Aceito sua companhia, Sor Rodrik. Seguiremos o Faca Branca até o mar e alugaremos um navio em Porto Branco. Com cavalos fortes e ventos vivos, deveremos chegar a Porto Real bem antes de Ned e dos Lannister.

Neste instante a porta foi escancarada com um estrondo, batendo na parede com um barulho tão alto que fez todos se sobressaltarem.

Do outro lado da porta estava Meistre Luwin, branco como giz e de olhos arregalados.

- O que significa isso, Meistre? – Questionou Robb, com a voz ligeiramente mais alta do que o normal.

- Milady – O Meistre parecia incapaz de encontrar as palavras, ofegava tanto que respirava pesadamente pela boca.

A Sra. Catelyn pulou da cama alarmada.

- Uma dadiva dos deuses... um verdadeiro presente dos céus – Disse Luwin, puxando as muitas correntes que carregada para longe do pescoço.

- Meistre, o que ouve? Está deixando a todos preocupados – questionou Sor Rodrik.

- É Bran – finalmente o Meistre conseguiu dizer.

- O que há com Bran? – Perguntou Lady Catelyn sem folego, já se encaminhando para a porta.

- A coluna dele está curada. Os ossos quebrados, estão completamente sarados. – Ele enfim contou, mas não parecia acreditar no que dizia.

Hermione gelou. Estivera esperando por esse momento ansiosamente, ela sabia que ele chegaria muito em breve, supôs que quando acontecesse estaria mais preparada, não estava... a areia movediça chegou aos seus tornozelos.

Ela se esforçou para aparentar calma, mas por dentro, estava uma verdadeira bagunça.

- Mas como isso... você tem certeza? – Perguntou Lady Catelyn aflita.

- Sim Senhora, eu tenho certeza. Fui fazer minha visita diária a ele, e a coluna está intacta. Nem parece que o rapaz caiu de toda aquela altura.

- Mas ele acordou? – Perguntou Robb.

- Ainda está desacordado, infelizmente – o Meistre admitiu parecendo envergonhado.

- Mas como isso é possível? – A Sra. Stark estava chocada.

- Eu não saberia dizer Senhora. Não há explicação lógica para isso.

- Mas ele poderá andar agora? – Robb perguntou animado.

- Isso não posso garantir, apenas quando ele acordar saberemos com certeza.

- Preciso vê-lo agora – pediu Lady Stark.

- Sim claro, vou acompanhá-la – Luwin saiu da porta para dar espaço a Lady Catelyn.

- Eu vou junto – anunciou Robb, seguindo os passos apresados da mãe, logo em seguida.


Lentamente, a sensação de viver dentro de um sonho ia se dissipando, e Hermione sentia que sua vida em Winterfell começava a ganhar contornos de normalidade. Talvez fosse porque, ela refletiu, agora estava finalmente rodeada pela única coisa que sempre fora capaz, de lhe transmitir calma e segurança... livros!

Os marceneiros entravam e saiam do Castelo, do amanhecer ao anoitecer, serrando, medindo e montando as prateleiras para a nova biblioteca, que ficaria no maior salão que o Castelo podia disponibilizar.

Antes, quando chegara em Winterfelll, a primeira coisa que ela desejara, era se enfiar na biblioteca e devorar o maior número que fosse possível de páginas, mas na ocasião, o irmão da Rainha, Tyrion Lannister, que visitava o Norte junto com o Rei, passava quase todo o tempo na biblioteca, e Hermione receosa de chamar a atenção para si, preferiu se ausentar daquela parte do Castelo.

Agora, porém, ela conquistara a liberdade de transitar pelo palácio com braçadas de livros, sem que isso levantasse qualquer suspeita.

Por algum motivo desconhecido para Hermione, Meistre Luwin, gostava de pedir a ajuda dela para organizar os livros que seriam colocados na nova biblioteca e preparar aqueles que seriam copiados. Hermione suspeitava que era porque, ela parecia ser a única, que respeitava os livros tanto quanto ele.

De qualquer modo, todos os dias, depois de passar horas nesta atividade, Hermione se recolhia para seus aposentos com o livro - ou livros - que mais tivesse lhe chamado a atenção naquele dia; alguns eram grandes o suficiente para inspirarem o oferecimento de ajuda de Robb.

Não importava que ela estivesse carregando um pergaminho ou vinte livros, sempre que ele a via, se oferecia para leva-los para ela, e ela aceitava. Nestas ocasiões os dois trocavam palavras amenas sobre o dia um do outro, eram pequenos momentos roubados dos dias atarefas que ele tinha.

Com os livros, ela já aprendera muito sobre Westeros, e concluíra que era um lugar muito diferente de qualquer sociedade trouxa ou bruxa que ela já estudara, e ao mesmo tempo, guardava certas semelhanças.

Havia coisas inusitadas como exércitos compostos por Dragões, que a princípio ela interpretara no sentido figurado, até descobrir que eram Dragões no sentido literal... mesmo.

Isso a animou, porque se haviam dragões, e dragões eram, com certeza, animais mágicos, então isso significava que exista magia e talvez algum jeito de ela voltar para casa.

O mais inusitado que ela aprendera até agora, porém, era sobre as estações do ano, que não possuam qualquer previsibilidade. Os verões podiam durar anos, e os invernos, muito frios e passados na completa escuridão, podiam durar uma geração inteira! Era algo difícil até mesmo de conceber.

Quanto mais lia sobre Westeros, mais ela se convencia de que não tinha voltado no tempo, pois aquela sociedade jamais chegou a existir em seu próprio mundo.

Porém, ela se recusava a se deixar abalar por isso. Afinal, agora ela ainda tinha uma biblioteca inteira a sua disposição, e não perderia a esperança de encontrar uma forma de voltar para casa.

Ela não era a única, porém, frustrada com a insuficiência de repostas literários; Meistre Luwin dividia com Hermione sua própria frustração.

Ele passava assim como ela, muito tempo livre lendo, completamente obcecado em encontrar uma resposta para o mistério que era a cura de Bran. No entanto, os porquês desse enigma, só interessavam a ele, e a nenhum Stark a mais. A família estava apenas feliz em aceitar como uma dádiva dos deuses, a cura repentina de um de seus membros, e não fazia questionamentos quanto a isso, algo pelo que Hermione agradecia imensamente.

Já o Senhor meio careca, perdia muito mais cabelo à procura de respostas. Meistre Luwin, estava absolutamente inconformado por não saber como Brando Stark que ficara aleijado pelo acidente, agora teria boas possibilidades de voltar a andar.

Hermione compreendia a angustia do Meistre, pois ela mesma, era uma compulsiva por explicações logicas, e uma amante de coisas que faziam sentido, mas estava absolutamente convencida em manter seu segredo bem guardado.

- Novamente perdida em meio a páginas empoeiradas? – Perguntou, uma voz pairando em algum lugar acima dela.

Hermione levantou os olhos do livro que tinha aberto nas pernas, para encontrar Theon Greyjoy de pé na frente dela. Ela se levantou do chão, seu lugar favorito em frente ao pequeno lago do Bosque Sagrado.

- Está frio aqui fora. Porque não lê dentro do Castelo? – Theon perguntou.

- Eu gosto de ficar aqui, é quieto e tranquilo – Ela respondeu simplesmente.

Theon Greyjoy passava bastante tempo na companhia de Robb Stark, seguindo-o onde quer que o outro estivesse, e por isso Hermione e ele tinham trocado poucas palavras até ali.

Hermione sabia que Theon gostava da autoridade que Robb adquirira, com a partida de Lorde Stark e agora Lady Catelyn, pois a autoridade de Robb espiralava nele mesmo, eventualmente. Não era incomum que Hermione visse Theon, dando ordens aos empregados, como se fosse ele, o filho mais velho de Lorde Eddard.

Hermione não sabia o que pensar do rapaz. Quando Theon e ela se encontravam ocasionalmente, o tratamento dele oscilava entre a afabilidade e a indiferença, não tinha explicação alguma para as mudanças de humor dele; isso a confundia.

Às vezes, porém, ele simplesmente a olhava sem nada dizer, um olhar penetrante e que a deixava desconfortável, com calafrios repelentes; ele nunca se atrevera a fazer mais do que isso, mas Hermione suspeitava que era, apenas porque, Lorde Stark tratara Hermione com uma Lady e assim, induzira todos a tratarem-na. A intuição lhe dizia, que se sua situação em Winterfell fosse diferente, as coisas mudariam entre Theon e ela, e talvez para a pior... para ela.

- Nunca conheci uma Lady que gostasse tanto de ler quanto você – Ele brincou sorrindo.

Hermione recolheu os livros abertos sob a manta no chão e empilhou-os, em seguida sacudiu o cobertor para tirar resquícios de grama e gravetos, dobrou cuidadosamente e pegou os livros do chão; tudo para evitar o máximo possível, a conversa com ele. Queria que ele entendesse, por sua postura indiferente, que ela não aceitava os olhares invasores dele.

Infelizmente, ele não se intimidou diante da recusa dela em conversar. Hermione suspirou internamente.

- Não sou como a maioria das Ladys – Ela respondeu mais secamente do que o necessário.

- Eu vejo. O que a faz gostar tanto dos pergaminhos amarelados?

- O Senhor não gosta de livros? – Hermione perguntou ao invés de responder. Suas respostas para aquela pergunta eram pessoais de mais para Theon Greyjoy.

- Deuses, não! Eles me entendiam. São para Meistres, eunucos e aleijados, talvez. Não é atividade para homens de verdade. – Ele zombou, sem se importar se estava ofendendo alguém.

- Penso que os livros nos salvam da mediocridade – Ela respondeu, sentindo prazer quando o sorriso dele escorreu de seu rosto. Ele era muito bonito, com sua beleza morena, mas seus olhos sempre desdenhosos, acabavam com qualquer boa impressão que sua aparência causava, e nunca tinha parecido mais feio a Hermione, do que neste momento.

- É apenas natural que as mulheres pensem assim. A verdadeira gloria está em um campo de batalha, mas é claro que eu não espero que Milady entenda dessas coisas.

- Já esteve em muitas batalhas, meu Senhor? – Ela perguntou, sabendo que a resposta era provavelmente nenhuma.

Pelo que Hermione lera em seus "livros entediantes", a última disputa que ocorrera em Westeros, fora a nove anos atrás, quando o pai desde mesmo Theon, se rebelara contra a Coroa e pedira a independência de seu território. Na ocasião, Balon Greyjoy, Senhor das Ilhas de Ferro conseguira algumas vitórias, antes de ser totalmente massacrado pelo Rei Robert Baratheon e seus Senhores. Para manter a boa conduta e cooperação dos Greyjoy, o Rei determinara que o filho mais novo de Balon, Theon, fosse criado como um "protegido" dos Stark.

- Bem... não, mas... apenas porque nenhuma guerra tem acontecido – Theon respondeu gaguejado e olhando a toda a volta, sem querer encara-la.

A garota não conseguiu evitar que um pequeno sorriso escapasse do canto de seus lábios, mas isso foi um erro, pois despertou uma fúria, até então desconhecida, no rapaz a sua frente. A face dele se transformou em uma careta, e o sorriso sempre constante, o deixou completamente.

- Isso não vem ao caso – Ele continuou, ríspido.

- Suponho que não – Hermione devolveu.

O pescoço dele ficou vermelho, o ódio desprendia dele em ondas; uma reação muito desproporcional ao comentário.

Com um movimento rápido ele pegou o braço de Hermione acima do cotovelo, a mão pesada pelo uso da espada, aperto com força.

Hermione não se abalou, não tinha medo dele, mas uma parte inconsciente dela, sabia que ele queria vê-la recuar, talvez até chorar e implorar, Hermione não faria... nunca. Ela o encarou com voracidade.

Ele pairava sobre ela, mais baixo que Robb, mas suficientemente alto para obriga-la a levantar a cabeça para olha-lo. Quando seus olhos se encontraram, ele pareceu vacilar, e até mesmo, afrouxou o aperto, mas não a soltou.

- O que acontece aqui? - Robb Stark chegara no Bosque Sagrado, seguido de perto por Vento Cinzento.

O lobo tinha os olhos amarelos presos em Theon, um barulho baixo saia de sua garganta, e um arrepio percorreu a espinha de Hermione diante daquilo.

- Solte-a Theon, agora – Exigiu Robb com a voz firme, a voz do Senhor.

Theon piscou como alguém voltando a realidade, ele soltou o braço dela, e deu alguns passos para traz, olhou dela para Robb, ele abriu a boca para dizer algo, mas desistiu, e se afastou com passos duros em direção ao Castelo.

Robb se aproximou dela, perto o suficiente para Hermione sentir a temperatura do corpo dele aquece-la. Ela começou a tremer e nem sabia direito o porquê, mas sabia que não tinha a ver com Theon, e sim o Lobo Gigante que ainda estava pregado no mesmo lugar, observando o Greyjoy se afastar.

Imagens do homem morto, no quarto de Bran, invadiram sua mente.

Robb tocou seu rosco com os nós dos dedos, um toque tão suave que ela quase não o sentiu, mas apreciou o calor.

- Está bem? – Ele perguntou com a voz num sussurro rouco.

Hermione não conseguia desviar o olhar de Vento Cinzento, o lobo ainda fazia aquele barulho estanho com a garganta.

Robb pareceu perceber a origem da ansiedade de Hermione.

- Vento Cinzento – Ele chamou – Vá para casa.

O lobo obedeceu instantemente, assim que ele se foi, Hermione sentiu-se capaz de respirar normalmente novamente.

- Está bem Milady? – Robb repediu a pergunta.

- Estou – Hermione respondeu, se arrependendo de ter provocado Theon.

- O que aconteceu? – Robb questionou, sua voz ainda era um sussurro rouco.

Novamente Hermione temeu pelo que poderia acontecer. Ela não sabia o que Robb pensaria sobre o que ocorrera ali. Ele podia ficar do lado do amigo; podia pensar que ela fora insolente e desrespeitosa; poderia querer manda-la para "casa".

- Não foi nada – Hermione respondeu, tentando dissuadi-lo a deixar o assunto para lá.

- Quero uma resposta e quero a verdade – Robb o Senhor exigia inflexivelmente. Ele não deixaria o assunto sem uma resposta convincente.

- Estávamos conversando sobre livros e guerra, e ele se sentiu ofendido, eu acho. Eu apenas perguntei se ele já tinha participado de alguma batalha antes.

Robb frâncio a testa. Parecia duvidoso.

- Apenas isso Milady? Ele ficou furioso daquele modo, por causa de um comentário tão inocente? – Robb pressionou, não parecia querer acreditar que o amigo reagira assim com uma mulher, e por tão pouca coisa.

- Talvez eu tenha sido um pouco desdenhosa com ela – Hermione admitiu envergonhada.

- Mesmo assim. Não é motivo para tratar uma Senhora com essa grosseria. Não há motivo que justifique na verdade. - Robb suspirou desgostoso. – Ele a machucou?

- Não. Ele apenas me segurou com força.

- Peço desculpas por isso. Vou conversar com ele e obriga-lo a se desculpar. – Robb disse bravo. – Se isso acontecer novamente, com ele ou qualquer outro, quero que me conte – ordenou ele.

Hermione estava prestes a dizer para que não se preocupar com isso quando Meistre Luwin veio correndo até eles.

- Senhor – Meistre Luwin chamou, sem folego, parecia ter corrido o caminho todo, do castelo até ali – É Bran. Ele acordou.

Robb demorou um segundo para assimilar o significado da informação, então voltou-se para Hermione com um sorriso que iluminava seus olhos e o fazia parecer mais jovem do que parecia nas últimas semanas.

Sem realmente se dar conta do que fazia, ele pegou a mão de Hermione e a puxou consigo em direção da Torre de Bran.

Hermione teve que se esforçar para caminhar ao lado dele; Robb não corria, mas andava muito rápido, e as pernas de Hermione, muito mais curtas do que as dele, sofriam para acompanhar seu ritmo, Meistre Luwin vinha alguns passos atrás, respirando pesadamente.

Quando chegaram no quarto, três criadas estavam rodeando Bran, com uma troca das roupas de cama, banhando-o e alimentando-o.

O menino estava fraco e pálido; dava para ver que ele lutava para manter os olhos abertos.

Seu lobo ainda sem nome, andava em frente a lareira, parecendo agitado; Hermione sentiu a temperatura cair alguns graus em volta dela.

Robb soltou sua mão, quase correndo até a cama do irmão, Hermione se deixou ficar nos fundos da sala, sabendo que este momento era para a família.

As Criadas se afastaram e Robb pegou o irmão nos braços.

- Bran. Finalmente está acordado. Como se sente? – Robb perguntou, ainda abraçando o irmão. Ele parecia uma coisinha pequenina nos braços fortes do Robb.

- Esmagado – Respondeu Bran, de bom humor.

Robb soltou uma gargalhada, e o depositou na cama com cuidado, sentando ao lado dele.

- O que aconteceu comigo? – Perguntou Bran, confuso.

- Você não se lembra? – Robb indagou baixinho, como se tivesse medo da resposta. Bran balançou a cabeça em negativa. – Você estava escalando a torre quebrada e caiu. Esta desacordado a semanas.

Bran piscou os olhos várias vezes diante das explicações, claramente tentando lembrar qualquer coisa que corroborasse com as palavras de Robb.

Bran começou a tremer e empalideceu ainda mais, um pequeno soluço escapou de seus lábios, parecia traumatizado.

- Não lembra? – Pressionou Robb, sem parecer notar a mudança de Bran.

O menino chacoalhou a cabeça de um lado parta o outro, cheio de pavor. Robb passou a mão delicadamente no rosto de Bran.

– Tudo bem se você não lembrar agora. Uma hora ira. Tenho certeza. O que importa que está bem.

Fincaram em silencio por um momento, até que Bran se acalmasse o suficiente e sua respiração volta-se ao normal.

- Como você está se sentindo? – Robb perguntou novamente, para mudar de assunto.

- Estou tonto e enjoado. Me sinto cansado também.

- Vai se sentir assim por alguns dias. - Meistre Luwin se pronunciou pela primeira vez – Isso acontece, porque durante muito tempo, foi alimentado apenas com agua e mel. Precisara comer bem nos próximos dias, até recuperar as forças. – Sente as pernas, Bran? E os dedos dos pés?

O Meistre fez a pergunta pelo qual Hermione ansiava a vários dias.

Havia no ar uma expectativa mal contida; como se todos estivesses prendendo a respiração para finalmente descobrir o enigma que os atormentava.

Bran olhou confuso para o Meistre, mas fechou os olhos obviamente se concentrando. Ele os abriu em seguida e balançou a cabeça afirmativamente.

Robb rui alto, e até as criadas deram vivas e bateram palmas.

O Meistre caminhou até a lareira e aumentou o fogo, fechou as janelas por onde entrava uma corrente de ar, voltou para a cama e afastou os cobertores de Bran.

- Mecha as pernas se puder – Pediu ele ao menino.

Bran lentamente conseguiu dobrar primeiro um joelho, depois o outro; todos sorriram admirados.

- Porque vocês estão agindo desse modo? É claro que eu posso me mexer – Bran perguntou olhando em volta atordoado.

- Porque você tinha se machucado. Sua coluna se quebrou. Mas de algum jeito, os deuses decidiram dar uma segunda chance a você.

- Eu sonhei que não podia andar – Disse o menino num sussurro mais para si do que para os outros. Seus olhos se fixaram desfocados em um canto da sala, enquanto ele parecia pensar no sonho.

- Tente levantar, vamos – Pediu Robb animado.

- Acho que não é prudente Bran de esforçar assim – Alertou o Meistre.

- Eu posso fazer isso. – Bran insistiu. Ele tinha uma expressão estranha no rosto, como se quisesse se certificar de que realmente conseguia andar.

Robb passou um braço musculoso pelas costas do irmão e o ajudou a sentar na cama, e depois a passar as pernas para fora do colchão. Robb insistiu para que Bran ficasse sentado por um momento, antes de tentar descer da cama.

- Está pronto? – Perguntou Robb recebendo de Bran apenas um aceno de cabeça em confirmação. - Bem devagar. Tente ficar de pé. Não vou te soltar.

Bran tentou se levantar, e conseguiu. Suas penas obedeceram perfeitamente ao seu comando, ele deu alguns pequenos passos, mas logo, começou a tremer pelo esforço, ficando cada vez mais pálido.

Robb exultado, pegou Bran no colo e o devolveu na cama aos risos.

- Tudo bem? – Questionou Luwin.

- Elas estão queimando e doem – o menino respondendo com uma careta.

- É bom sinal. Você ficara bem novamente Bran. Em breve – O Meistre olhava para Bran com carinho.

- Onde está a mãe e o pai? – Finamente Bran pareceu se dar conta de que faltava algo.

- Eles partiram, Bran, para a capital. O pai não teve escolha senão obedecer às ordens do Rei.

- Mas e a mãe?

- A mãe precisou ir ao encontro do pai. Mas estará em casa em breve. Eu prometo.

- Estou com...

Foi nesse instante que os olhos de Bran finalmente pousaram em Hermione, que estava ainda parada nos fundos a sala, observando a tudo aliviada por sua magia ter ajudado ao menino.

Ele olhou para ela de olhos franzidos e ficou ainda mais pálido, se é que isso era possível. Um silêncio modorrento invadiu a sala, e tanto Robb quando Luwin olharam por sobre o ombro para ver o que tinha roubado as palavras de Bran.

Aos poucos os olhos de Bran foram se abrindo e ficaram redondos e grandes como um pires.

-Essa é Lady Hermione Granger, Bran – Robb a apresentou ao garoto.

- Eu sei – Ele disse. Seus olhos tão azuis quantos os de Robb, brilhando intensamente para ela – Sonhei com você.