Apenas uma travessura do destino
Um silêncio perturbador envolveu os dois. Apenas os olhares ousavam alguma comunicação, tornando o clima ainda mais desconfortável para Yuki. Logo ela cedeu, desviando os olhos para o chão.
- Preciso ir embora... – disse ela embaraçada.
- Não – disse o youkai voltando à seriedade costumeira – Ainda não... Preciso descobrir se o que vi é mesmo o que acredito ser.
- O que você viu? – perguntou Yuki – O que uma marca nas minhas costas pode ter de tão importante?
- Você nem imagina...
- Não mesmo! – disse ela – E não vou deixar que dê alguma importância à ela. Com licença...
Yuki tentou passar por Sesshoumaru, mas o braço dele ergueu-se frente a ela, impedindo a passagem.
- Qual o problema? – perguntou ele calmo – Por que não pode mostrar a marca para mim? Você exibiu o corpo, sem o mínimo de constrangimento há pouco, e fica envergonhada por causa de uma marca?
- Sim, fico... – disse ela – Essa marca é o que me deu a vida que tenho hoje... Por causa dela, tenho que aceitar ser tratada como sou, sem reclamar. Ela é apenas uma maldição que eu carrego...
- NÃO OUSE DIZER ISSO! – gritou Sesshoumaru perdendo a paciência – Você não tem a mínima noção do quanto essa marca pode ser uma benção.
- A quem? – perguntou ela afastando-se um pouco com o grito dele – Ela pode ser uma benção a quem, youkai? Porque para mim, ela nunca ajudou em nada.
- Deixe que eu a veja... – acalmou-se Sesshoumaru -...e eu mostrarei a você o quanto aquela que carrega a marca que procuro é importante.
- Que tipo de ser procuraria por uma mulher marcada? – disse Yuki mostrando-se chateada – Que uso há para alguém cujo corpo já não possuí o atrativo necessário para os olhos de outrem?
Sesshoumaru deixou um sorriso tão gracioso se formar nos lábios, que Yuki pensou estar diante de algum deus.
- Se for minha marca que essa mulher possui... – disse ele -...será a mais graciosa das mulheres.
- Sua marca? Como assim?
- É uma história muito antiga – disse o youkai abaixando o braço, já sem medo que Yuki fosse embora – E desde que ela aconteceu, minha vida tem sido caminhar sem rumo, buscando por essa marca. Ela mostraria quando eu reencontrasse a única pessoa por quem meu coração bateu...
- Uma humana? – concluiu Yuki como se já conhecesse a história – Você procura por uma humana por quem se apaixonou?
- Não... – disse Sesshoumaru surpreendendo a jovem – Eu não busco por aquela humana.
- Não...?
- Não – confirmou ele – Eu busco pela alma dela... reencarnada no corpo de outra mulher. Eu prometi que a encontraria de novo, mesmo que em outro corpo, mesmo que ela não me reconhecesse... ainda assim, eu daria a ela o sentimento que venho guardando desde que a perdi.
- Como a perdeu? – perguntou Yuki sentando-se no chão, interessada na história – Como perdeu a única mulher que conseguiu tocar seu coração youkai?
Sesshoumaru a encarou sério. Por um momento, temeu contar sobre coisas tão intimas com a humana que ele nem mesmo sabia se poderia confiar.
- Mostre a marca... – ordenou ele – Se for a que procuro, você saberá o resto da história.
Yuki notou a mudança da expressão dele. Antes ele parecia tão confortável abrindo seu coração com ela, e agora ele voltava a ser apenas um youkai desconhecido. Sorriu, imaginando como seria sua vida se ela fosse mesmo quem aquele ser de olhos dourados, de beleza tão impressionante e poderoso, procurava.
"Tola..." criticou-se em pensamento "Como se a vida fosse compensá-la dessa forma, depois de tanto sofrimento...".
- Como é a marca que procura? – perguntou Yuki – Já que disse que é sua marca que essa mulher carregará...
Sesshoumaru fechou os olhos, e após um curto tempo, levou o dedo indicador até a meia lua em sua testa. Contornou o sinal, relembrando cada segundo do momento em que colocava em Satsumi aquele mesmo desenho. Tocando delicadamente a fronte, como se aquela fosse a pele da mulher que continuava a amar, mesmo passado tanto tempo.
Yuki deixou-se hipnotizar pela forma como ele fazia aquilo. Os olhos brilharam, fixos no modo como ele mostrava a marca que procurava. Ela pôde notar o quanto ele ansiava por poder tocar aquele sinal diretamente na pele de sua eterna amada. Não havia como chamar de algo diferente o sentimento que ele demonstrava naquele momento, era amor, e com certeza, o youkai esperaria pela reencarnação da amada até o dia de sua morte, se assim fosse necessário.
Quando Sesshoumaru saiu de seu transe, encarou Yuki com uma certa dor no peito. Ela abaixou a cabeça, e ele pôde ver as lágrimas que caíam dos olhos cinzas.
- É essa marca? – perguntou Yuki – Uma meia lua, é a marca que procura?
- Sim... – respondeu Sesshoumaru – Para ser sincero, é apenas o que me lembro dela... O rosto, o olhar, e acima de tudo, o sorriso dela, que me transformaram tanto, já se desfizeram de minha mente...
- Mas ela continua no seu coração?
- Como eu havia prometido... – sussurrou ele achando graça no modo como ela completava algumas de suas frases – Essa marca, é a única forma de encontrá-la.
Yuki voltou a olhar para o youkai. Os olhos úmidos pareciam tão tristes, que fez Sesshoumaru se perguntar se havia algo errado. Ela se levantou, limpando o rosto.
- É um amor lindo... com certeza – disse ela - Mas, não é uma honra minha ser quem você procura...
- Como? – perguntou ele sem entender.
- Não sou eu... – explicou Yuki – E até acredito que seja uma sorte sua que não seja mesmo eu...
Houve um pequeno silêncio, em que os olhares já não se encontravam.
- Sorte? – disse ele por fim.
- O destino seria muito cruel com você... – disse Yuki - ...se fizesse a mulher que ama retornar no corpo de alguém tão inferior como eu. Alguém que já não possui nenhuma virtude para entregar a você.
- Ainda assim, se essa for minha marca...
- Mas não é! – interrompeu ela – Você procura por uma marca em forma de meia lua... Então, não sou eu quem procura.
- Mas, a marca que eu vi. O que era, então?
Yuki suspirou, triste por não possuir mesmo um destino tão agraciado como o da mulher que nascesse com aquela meia lua nas costas. Virou-se, soltando as mangas do kimono, deixando-as cair na cintura, expondo as costas para que o youkai visse sua marca.
Sesshoumaru não conteve a vontade de se aproximar e observar melhor. Entristeceu-se ao notar que não era sua marca, e tentou tocá-la, para que tivesse a certeza de que não estava enganado.
- Não... – pediu Yuki ao perceber que ele a tocaria – Não toque em mim, por favor...
Ele segurou a mão no ar, sabendo que ela tinha motivos para temer o toque de um youkai. Olhou, frustrado para a marca, pensando em como a confundira com sua própria marca.
- Viu? Não é uma meia lua – disse Yuki arrumando a roupa – Sinto muito...
- Como conseguiu essa marca? – perguntou Sesshoumaru deixando os sentimentos de lado, e retornando ao estado de frieza normal.
Yuki virou-se de frente para ele e sorriu forçadamente.
- Isso é apenas uma cicatriz de infância... – explicou – Mais uma prova de que minha vida não existe para alegrar a ninguém. Nem a mim, nem a outro qualquer. É uma queimadura, que eu sofri quando tinha apenas três anos de idade.
- Por um momento... – disse ele - ...por um único momento, pensei que minha busca tivesse chegado ao fim. Mas o destino com certeza desejava rir da minha cara, ao fazer com que eu me enganasse de tal forma...
Yuki terminou de ajeitar sua roupa, pronta para deixar o local.
- Vejo que seu amor é mesmo grande... – disse Yuki – Vou pedir muito aos deuses que o ajudem... O que é seu, mesmo que longe, virá a sua mão, youkai. Você a encontrará...
Yuki passou por Sesshoumaru, deixando-o perdido nos pensamentos. Ficou pensando na frase que a humana havia acabado de proferir. Ele tinha certeza de que Satsumi voltaria para si, mas quanto tempo ainda deveria esperar, até poder tocar nela de novo, até poder sentir o som do coração dela bater de novo, mesmo que seu corpo não lhe fosse mais familiar.
"Esse engano trouxe dor ao meu coração, Satsumi..." pensou ele "Como saber se já não a deixei passar por mim, já que não consigo nem mesmo reconhecer os falsos sinais que aparecem à minha frente?".
Ele nem prestou atenção no adeus que Yuki lhe deu, já distante da fonte. Levou a mão ao peito, retirando da parte interna da armadura, a única lembrança material de Satsumi. A faixa de seda, com seu tom azul royal já bastante desbotado, foi apertada na mão como se esse ato pudesse ajudar a diminuir um pouco da tristeza que agora abatia o youkai. Seu rosto não demonstrava o sofrimento, mas por dentro, sentia-se angustiado com aquela demora se fim em reaver o que era seu, por direito, e por promessa.
Só guardou a faixa quando ouviu a voz de seu servo aproximando-se.
- Sr Sesshoumaru... – disse Jaken – A menina Rin desejava vir até onde o senhor se encontrava. Eu tentei impedir, mas...
- Não tem problema... – disse Sesshoumaru encarando a menina que parecia bastante feliz.
- Onde está a srta Yuki? – perguntou Rin olhando para os lados.
- Ela foi embora – respondeu o youkai – Nós também estamos de saída...
- Nós iremos embora das Terras do Leste ainda hoje, Sr Sesshoumaru? – perguntou Jaken.
- Com certeza... – respondeu friamente – Não há nada nessas terras para mim...
Yuki ainda permaneceu em meio à mata, sentada sob uma árvore, até que a noite chegasse. Infelizmente não tinha como se ausentar da própria casa por mais tempo que isso, então caminhou devagar para a residência.
Pelo caminho, pensava na mulher que pudesse ser dona do coração do youkai, invejando, sem maldade, aquela que nasceria com alguém que já a amava tanto. Pensou também em como o youkai havia ficado frustrado, culpando o destino de ter rido de sua cara.
"O destino apenas o iludiu, youkai..." pensou chateada "A mim, ele mostrou o que eu jamais terei...".
Quando chegou ao castelo, entrou rapidamente, esperando não encontrar com Hiko pelo caminho até seu quarto. Mas o encontrou já na sala de entrada, olhando-a quando abriu a porta como se já soubesse que estava chegando.
- Você está passeando bastante, Yuki – disse o youkai – Aproveite, pois eu não permitirei que saia de casa daqui a algum tempo...
Yuki o olhou de lado, sem parar para prestar atenção. Mostrava coragem por passar ao lado dele, mas por dentro o medo tomava conta de si. Ficou aliviada de ver o irmão deixar o quarto, encontrando-a no corredor.
- Yuki, minha irmã – disse Heitaro – Não é bom que você se ausente esse tempo todo. Tente não voltar para casa ao anoitecer.
Ela notou que ele guardava a espada na cintura, sinal de que ele não pretendia permanecer na casa.
- Vai sair, meu irmão? – perguntou ela.
- Sim – respondeu ele – Eu e Hiko vamos cuidar de um assunto importante.
- Vão ao vilarejo? – indagou ela olhando para Hiko – Procurar por inocentes?
- E se formos? – retrucou o youkai sério – Há algo que nos impeça?
- Heitaro – disse ela voltando a olhar para o irmão – Por que tem de fazer isso? Você não precisa...
- Eu não posso dar as costas ao que sou, Yuki...
- Você é um hanyou! – disse ela – Não precisa se alimentar do mesmo que youkais completos.
- Mas ele gosta... – disse Hiko querendo enfurecer Yuki – O sangue youkai nas veias dele pede por isso, muito mais do que o lado humano pede por essas comidas sem graça que você come.
- Heitaro – pediu Yuki abraçando o irmão – Não faça isso, eu te peço...
- Se você pudesse sentir o gosto do sangue humano, Yuki – continuou Hiko – Você veria como não há nada melhor nesse mundo.
- Eu já senti o gosto de sangue humano... – disse ela com raiva.
- Não estou falando de quando você machuca a boca, minha querida – riu o youkai – Aliás, você nem tem o paladar que os youkais e hanyous têm para o sangue... Aquele sabor, aquele calor...
- CALE-SE! – gritou Yuki virando-se para o youkai – Se é sangue o que querem, por que não ficam com o meu? – disse mostrando o pescoço para Heitaro, em seguida para Hiko.
Hiko deu um sorriso com o ato da jovem.
- Esse é só meu... – sussurrou o youkai, passando desapercebido até mesmo pela audição de Heitaro.
- Maldito... – disse ela com fúria.
- Yuki! – chamou o irmão – Não falte com o respeito com Hiko...
- Vamos embora, Heitaro – disse o youkai rindo ainda do ódio que Yuki expressava – Sua irmã está nervosa. Fará bem, ela ficar sozinha essa noite.
Os dois deixaram a casa, enquanto Yuki tentava segurar a raiva que sentia. Olhou para os lados, mas a falta de objetos no interior da construção impedia que ela até mesmo quebrasse algo para poder diminuir tal sentimento.
Rumou para o quarto, já que não havia solução para os atos errados de Heitaro, enquanto Hiko permanecesse junto a ele. Deitou-se, pensando em como fazer para poderem voltar a viver tão em paz quanto antigamente.
"Se aquele youkai não tivesse se recusado a aceitar minhas propostas..." pensou já quase dormindo "Talvez eu consiga arrumar algo que interesse a ele...".
Sesshoumaru estava parado, olhando para o nada, sem notar os companheiros as suas costas esperando por alguma decisão. Rin aproximou-se de Jaken, e cochichou junto ao ouvido do pequeno youkai.
- Sr Jaken... – disse ela - Será que o Sr Sesshoumaru desistiu de ir embora?
- Duvido muito, menina – respondeu o servo – O Sr Sesshoumaru não é do tipo que fica mudando de idéia tão facilmente...
- Podem parar com as conversas escondidas – disse Sesshoumaru chamando a atenção dos dois – Nós ficaremos...
- O quê? – perguntou Jaken surpreso.
- Oba! – gritou Rin – Poderemos ir até as fontes de novo!
Aruru, que parecia conhecer seu dono muito melhor, nem sequer havia se levantado para partir, e apenas fechou os olhos para dormir.
- O Sr tem algum motivo para ficar aqui? – perguntou Jaken.
A resposta veio num olhar sério do alto youkai, que fez o servo se retrair com medo.
- Nós iremos embora quando tivermos de ir – disse Sesshoumaru – No momento, vamos aproveitar um pouco do Leste.
Mais um belo dia de sol forte nascia no horizonte, quando Yuki acordou. Sentou-se no futon, assustada com um sonho que acabara de ter. Repassou na memória todos os detalhes dele, preocupada em não esquecer nada, já que lhe pareceu tão real. Havia se visto em meio à escuridão daquele quarto em que estava agora, sofrendo ao dar à luz. Estava sozinha, num silêncio quebrado apenas por seus próprios gritos. Mas depois não via mais nada, não sentia dor, nem se sentia respirando. Uma luz forte criou-se no quarto. Yuki não viu ninguém, mas sentia a presença de uma pessoa junto a ela, trazendo um conforto, uma sensação de paz. Foi quando o sonho acabou.
Passou a mão pela testa, sentindo o suor que escorria dela. Não se permitiu colocar na cabeça que aquilo era um aviso, apenas justificou-se como o medo que sentia da possibilidade de ter um filho de Hiko.
"Jamais..." pensou ela "Mesmo que tenha que tirar minha vida, não darei àquele monstro a criança que ele quer...".
Levantou-se apressada. Pegou entre as roupas as ervas que estavam escondidas, e carregou-as para a sala, onde havia um fogareiro. Colocou água numa pequena chaleira de cobre, e deixou-a no fogo, esperando ansiosamente que ela fervesse. Contava o numero certo de folhas necessárias para seu chá, quinze no total, lembrando-se da sacerdotisa que a ensinara a prepará-lo.
"- Nunca menos, nem nunca mais que quinze folhas, criança... – disse a sacerdotisa – A quantidade menor não faria o efeito desejado, e a quantidade maior, bem... te levaria ao outro mundo na metade de um dia...".
O olhar de Yuki fixou-se na chaleira, onde a água começava a borbulhar. Apertou as quinze folhas na mão direita, depois as jogou na água. O olhar então se voltou para as outras folhas, jogadas em seu colo. Havia muitas mais, e aquilo era, de certa forma, tentador. O fim dos sofrimentos estava tão próximo dela, tão sedutoramente colocados sobre suas pernas cruzadas. Juntou-as rápido, e jogou-as na água, junto com as outras. Não conseguiu conter um sorriso quando a água tomou uma cor verde escura, mas o cheiro que fluía era delicioso. Nem foi preciso esperar muito, já que pela quantidade de ervas naquela água, o efeito com certeza havia sido, no mínimo, quadruplicado.
Colocou tudo em uma caneca de barro, pousando-a a sua frente depois, esperando que esfriasse um pouco. Quando achou que sua temperatura já estava suportável, pegou a caneca com as duas mãos, levando-as devagar até os lábios, até sentir a borda tocá-los.
"Que os deuses me ajudem..." pensou começando a virar a caneca.
Mas parou antes que o liquido tocasse a boca. Uma força maior, ou mesmo o medo da morte a impediu. A mente ordenava que o fizesse, mas o coração batia mais acelerado, tamanho o pavor que sentia. Jogou a caneca longe, espatifando-a contra a parede, deixando a madeira marcada pela água esverdeada.
- O que estou fazendo...? – perguntou-se – Ou sou covarde demais para dar um fim a minha vida, ou tenho tanto medo assim de deixar meu irmão nas mãos de Hiko... Talvez os dois...
Olhou para a bagunça que fizera, sabendo que deveria limpar tudo antes da chegada de Heitaro. Começou a juntar os cacos, se criticando pela bobeira que tivera.
- Agora terei que buscar mais ervas... – disse primeiro com raiva, depois rindo dela mesma – Dessa vez pegarei apenas a quantidade certa...
Sesshoumaru acordou com uma estranha disposição para atender aos pedidos de Rin. A garotinha havia pedido que ele a levasse até o campo de flores, para que pegasse as mais belas para uma coroa. O youkai fez que sim com a cabeça, emendando com a frase "Eu a levarei...", que fez Jaken ficar boquiaberto.
- Jaken... – disse ele – Leve o Aruru para beber água naquele lago ao lado do castelo... Depois, deixe-o lá, e volte rapidamente.
- Sim, senhor – disse o servo estranhando o pedido de deixar o youkai dragão lá.
Sesshoumaru e Rin foram para o campo florido, enquanto Jaken agarrava as rédeas de Aruru, levando-o para a direção contraria.
Quando avistou o lago, Jaken soltou o animal, que parecia saber que tinha de ir sozinho dali em diante.
- Espero que você não se meta em encrencas... – disse o servo antes de dar as costas e sair.
Yuki avistou da janela, enquanto terminava de limpar a parede, o youkai dragão de duas cabeças. Lembrou-se que ele acompanhava Rin, e ficou olhando em volta do lago, buscando pela menina ou pelo youkai que cuidava dela.
- Então, vocês não foram embora ainda? – perguntou ela mostrando um pouco de felicidade – Seria muito bom que ficassem por aqui...
Deixou tudo para trás e correu para fora do castelo. Aproximou-se do lago com cuidado, esperando que o animal não fosse feroz longe de seu dono. Surpreendeu-se com o rugido dele, e a forma com que ele caminhou calmamente até seu lado.
- O que faz aqui, hein? – perguntou ela ousando tocar uma das cabeças do animal – Está perdido?
Sorriu quando o animal deitou-se aos seus pés, tocando suas pernas com um focinho de cada vez.
- Está me cheirando, não é? – riu ela – Espero que não pretenda me devorar...
O animal rugiu novamente, depois se aquietou, ficando ao lado de Yuki, como se já a conhecesse há muito tempo.
- Você é um animal muito bonito... Mas receio que não pode ficar aqui por muito tempo. Se Hiko o pegar aqui, ele o matará...
Aruru pareceu entender o aviso, e se levantou, pronto para deixar o local. Yuki ainda acariciou um pouco mais o animal, antes de mandá-lo embora de vez.
- Volte para o seu dono... – disse ela – Aposto que ele o procura... – olhou para o youkai pensativa – Aliás, eu não me lembro o nome pelo qual a Rin chamou seu dono... estranho, pois eu conversei com ele como se já soubesse muito de sua vida... Agora, vá!
O animal bebeu um pouco mais de água e saiu, deixando a jovem com um sorriso.
"Ainda verei aquele youkai?" pensou "Isso me deixa um pouco mais feliz... Mas no momento, preciso me preocupar em buscar outras ervas para o meu chá...".
Yuki entrou na mata, se dirigindo para o local onde encontraria as ervas.
Sesshoumaru avistou o youkai dragão entre as árvores, e esperou que ele chegasse bem perto. Procurou por Rin e por Jaken, notando que eles estavam distantes.
- Você a viu? – perguntou ao youkai dragão, que rugiu numa confirmação.
Os olhos dourados viraram-se para o céu, focando uma nuvem escura, que aparecia solitária.
- Ela... parecia machucada? – perguntou sem tirar os olhos da nuvem de chuva.
Aruru soltou um rugido diferente, que logo foi interpretado como uma não pelo dono.
- Ótimo... – sussurrou antes de caminhar até o restante do grupo.
Yuki cantarolava alguma canção em voz baixa, enquanto recolhia exatamente as quinze folhas como havia decidido. Nuvens de chuva esconderam o sol, e um vento forte começou a esvoaçar seus cabelos soltos.
"Choverá logo..." pensou ela olhando para o alto "Preciso voltar para casa antes...".
- Yuki?
Ela se virou, encontrando Hiko há alguns passos de distância, e com uma cara séria. Olhou para os lados em busca de Heitaro, mas não o viu.
- Seu irmão preferiu ficar no vilarejo... – disse Hiko – E eu preferi voltar...
Yuki escondeu as mãos nas costas, tentando evitar que ele visse as folhas. Ele se aproximou devagar, encarando Yuki.
- Vejo que você passeia bastante quando eu e seu irmão saímos, não é? – disse o youkai – Isso tem que acabar...
- Vai me proibir de sair de casa? – disse Yuki afastando-se – O que dirá a Heitaro para que ele concorde?
- Talvez eu não diga nada – respondeu Hiko – Talvez eu o mate assim que souber que você já tem o que eu quero...
- Não ouse machucar meu irmão...
Hiko agarrou-a pelo pescoço, e com a outra mão, puxou o braço dela, que estava para trás, olhando com raiva para as folhas amassadas na mão delicada.
- Mas parece que você está tentando evitar que esse dia chegue... – disse ele reconhecendo as ervas - ...então talvez eu deva começar a machucar seu irmão antes do que pretendia.
- NÃO! – gritou Yuki – Deixe Heitaro em paz...
Hiko soltou Yuki, e ela permaneceu parada à sua frente, olhando ora para o chão, ora para o youkai, sem saber se devia ou não correr dele.
- Então, talvez eu deva fazer você sofrer... – disse ele – Até que veja que será muito melhor aceitar minha ordem de uma vez...
- Não... – retrucou Yuki – Talvez eu deva tirar minha vida, assim você não terá nenhum futuro senhor do Leste como filho...
Um tapa foi a resposta a ameaça de Yuki. Ela caiu no solo com a força que ele a golpeou.
- Faça isso – disse ele – Eu adoraria guardar sua alma na minha espada...
- Não me importo... – sussurrou ela passando a mão no sangue que escorria dos lábios – Não deve ser pior que viver dessa maneira...
- Tem certeza? – riu Hiko agarrando-a pelos cabelos – Vou mostrar um pouco da dor que farei você sentir...
Ele a levantou, e desferiu outro tapa no rosto delicado, jogando-a de novo no chão. Yuki olhou de relance, notando que ele estava retirando a espada da bainha, e movida pelo medo, levantou-se e correu.
- Fuja... – disse Hiko rindo – Continue fingindo que isso é possível... Eu darei uma pequena vantagem a você... Mas, quando eu a pegar...
Yuki correu o máximo que podia, tendo o discernimento de não tomar o caminho que levava de volta ao castelo, onde seria facilmente dominada. Atravessou a mata, e chegou à planície, planejando seguir na direção do vilarejo mais próximo. Olhou para trás, mas Hiko ainda não estava no seu campo de visão. Ao olhar para frente, pensou que seus olhos a enganavam. Enxergou o youkai, e um pouco mais distante, Rin, ambos de costas para ela.
- Não acredito... – disse baixo.
Foi quando sua mente se desligou. O corpo caiu em meio às flores de caules compridos, escondido da visão de qualquer um.
Sesshoumaru virou-se intrigado com o som que acabara de ouvir. Imaginou que fosse o vento mexendo o mato, mas o som parecia mais alto. O olhar desviou das flores, e encontrou o vulto de um youkai saindo da mata.
- JAKEN! – gritou ele - ESCONDAM-SE!
Caminhou devagar, esperando que o desconhecido youkai se aproximasse mais. Mantinha o olhar fixo no ser, enquanto Jaken, Rin e Aruru corriam para trás de algumas árvores.
Hiko aumentou o sorriso no rosto ao notar o youkai ao longe. Até que a ridícula tentativa de fuga de Yuki havia levado ele a algo muito melhor do que só bater nela.
- Vejo que o destino nos colocou frente a frente! – disse ele para Sesshoumaru – Agora poderei ter certeza se Heitaro falou mesmo a verdade, ao dizer que você era bem forte...ou se meu aluno é apenas um covarde mentiroso...
- Então... – disse Sesshoumaru calmo -... você é o tal youkai que ensina aquele hanyou fracote? Sabe o que dizem, não é? Os alunos são a imagem de seu professor...
Ia continuar a falar quando sentiu o pé tocar em algo. Olhou para o chão, encontrando a causa do barulho que havia escutado há pouco.
"Yuki?" reconheceu a jovem caída "Então, ele estava a sua procura?".
Voltou o olhar para Hiko, já se mostrando com raiva.
- Vou mostrar a você a minha força... – disse Heitaro sacando a espada – E você poderá tirar suas conclusões sobre a falsidade desse ditado que acabou de recitar...
Sesshoumaru afastou-se de Yuki, para que ela ficasse em segurança enquanto os dois youkais estivessem lutando. Sacou a Toukijin da bainha, e olhou com desprezo para Hiko.
- Se você quer mostrar o que sabe, recomendo que o faça! – disse Sesshoumaru.
Hiko apontou sua espada para Sesshoumaru, soltando dela um raio em forma de espiral, luminosa como o próprio sol, e que parecia conter um poder enorme. Sesshoumaru apenas segurou a Toukijin frente ao rosto, deixando a lâmina absorver o impacto do golpe, e devolvendo-o com a mesma intensidade. Hiko desviou, deixando o ataque acertar em cheio a mata atrás dele.
- Vejo que possui uma espada, youkai... – disse Hiko – Mas, ela não se compara à minha!
Sesshoumaru cravou a Toukijin no chão, e a terra se abriu sob seus pés, rachando com o efeito de um trovão que iluminava o solo aberto, até chegar aos pés de Hiko. O youkai foi jogado longe, mas conseguiu cair de pé, somente com um arranhão no rosto.
- Tolo! – disse Hiko – Acha que isso pode me matar?
- Não... – disse Sesshoumaru correndo até o adversário – Mas isso pode...
Cravou suas unhas afiadas no peito de Hiko, conseguindo tocar o coração do youkai. Hiko o afastou com um empurrão, e levou a mão ao peito, onde o sangue começava a escorrer.
- Isso ainda não me matará... – riu Hiko afastando-se – Pode me fazer desistir da luta hoje, mas, assim que eu me recuperar, eu o procurarei de novo.
- Eu vou esperar por esse dia – disse Sesshoumaru encarando-o sem demonstrar nenhum sentimento.
Hiko olhou para a planície, sabendo que Yuki estaria ali por perto.
- QUANTO A VOCÊ, YUKI... – gritou ele – EU A VEREI EM CASA...
Deu as costas, e usando a super velocidade de youkai, desapareceu, carregando sua espada e a humilhação pela derrota naquela primeira batalha.
Sesshoumaru guardou a espada e esperou o youkai sumir, depois voltou até o local onde Yuki estava. Agachou-se ao lado dela, virando-a de barriga para cima, notando o lábio cortado e a marca vermelha num dos lados do rosto. Ela abriu um pouco os olhos quando ele passou a mão, limpando o sangue.
- Ajude-me... – pediu ela num sussurro – Ele...
- Ele não está aqui – disse Sesshoumaru – Você está segura...
Rin foi a primeira a chegar junto dos dois, seguida por Jaken.
- Ela está bem? – perguntou a criança - O que aconteceu com a srta Yuki?
- Ela está bem... – respondeu Sesshoumaru pegando Yuki pela gola da roupa – Eu vou levá-la a um local melhor.
O youkai depositou a jovem sobre o ombro direito, e carregou-a para a caverna onde haviam passado a noite, aproveitando a desculpa de que logo o céu derrubaria uma tempestade forte.
- Obrigada, youkai... – sussurrou Yuki no ombro dele.
- Sesshoumaru...
- Como? – perguntou ela sem entender.
- Meu nome... é Sesshoumaru... e não youkai...
- Sesshou... – tentou repetir ela antes de perder novamente os sentidos.
- Exato... – disse ele – Mas sei que isso não tem importância para você... Yuki.
Misericórdia, se alguém chegou até o fim desse capítulo sem pular a metade eu me dou por satisfeita. Ficou longo, né? Desculpem, mas é que eu tinha que enfiar esses fatos num só cap., senão não conseguiria me sentir feliz. Quanto as reviews, eu as agradecerei no email, e espero que a srta Kinomoto mande o dela, para que eu possa agradecê-la também. No mais, um grande abraço a todos que tiveram paciência até aqui...
Lady...
