CAPÍTULO III
Na manhã seguinte, Pansy teve a primeira suspeita de que tentar se manter longe de lorde Hogsmead poderia ser uma atitude um pouco mais difícil do que a utilizada com o marido. Ela e James acabavam de subir no coche, do lado de fora da estrebaria, quando milorde se aproximou correndo.
Bom Deus! O que poderia estar acontecendo? Ela atirou as redeas para James, pulou do veículo e apressou-se na direção do lorde Hogsmead. Ele se deslocava com rapidez e os músculos e as longas pernas moviam-se com graça dentro do calção aper tado. Parou ao lado de Pansy, arfando.
— Milorde! O que aconteceu?
Ele fez uma pequena mesura e os cabelos negros colaram-se em sua testa.
— Como assim?
— Milorde está tão apressado. Houve alguma emergência?
— Oh, não. Eu sempre costumo correr — ele respondeu sorrindo.
O olhar intenso deixou-a arrepiada. Milorde enrolara as man gas para cima dos cotovelos, revelando antebraços com múscu los que pareciam esculpidos. A camisa aberta no colarinho mos trava um pescoço forte. Uma sensação de poder emanava dele, junto com o calor e a fragrância do físico admirável, e a envolveu em uma nuvem hipnótica.
Pansy recuou.
— Eu... Milorde assustou-me. Não conheço nenhum cavalei ro que...
— Pratique corrida? Talvez não tenham necessidade de fazê-lo. Eu sofri um ferimento no pulmão e correr ajudou-me a re cuperar a energia e a capacidade de respiração.
Milorde parou de sorrir. Pansy recuou mais um pouco.
— Oh... Isso deve ter sido difícil...
— Foi, no começo.
Milorde aproximou-se e Pansy deu mais um passo atrás, batendo as costas no coche. O cavalo andou de lado e milorde segurou o animal com a mão.
— Aonde é que os dois pretendem ir? — Harry pegou na cintura de Pansy para ajudá-la a subir.
E demorou-se mais do que o necessário no gesto. Mas que homem atrevido! Pansy preparou-se para ser er guida.
— Vamos visitar a viúva Tompson. Vou levar-lhe vegetais frescos.
Lorde Hogsmead soltou-a imediatamente e Pansy cambaleou.
— Ah, uma atitude própria somente para uma Senhora.
— Eu imaginei que milorde diria isso, mas os coitados não têm mais ninguém de quem possam depender.
— Não tinham, a situação mudou. Esses deveres não são mais seus, sra. Malfoy.
— Eu não pretendia ultrapassar sua autoridade, milorde. A pobre viúva não tem mais condições de cuidar de sua horta, e achei que ela iria gostar de ter alguns vegetais frescos.
— Não duvido. — Milorde cruzou os braços na altura do peito, com expressão obstinada.
— Está bem. Se milorde não quer que ela tenha as verdu ras... Hagrid, pode desatrelar o coche. Venha, James. Vamos para casa.
— Ah, papai — James desceu de má vontade. — Nós íamos ver o farol.
Mas que mulher intrometida!
Harry teve de admitir que, sem nenhum alarde, a sra. Malfoy concedera-lhe o papel de vilão. Um lorde sem coração que negava algumas cebolinhas verdes a uma dependente idosa e que impedia seu filho de dar um passeio. Pensou um pouco e ergueu a mão. James ficou parado, com a prudência que lhe ensinara a manter uma ex pressão neutra no rosto vincado.
— Eu não disse que não queria dar-lhe vegetais verdes, mas que porcaria! Por que essa urgência em defender-se?
— Papai, por que não vem conosco? — o menino pediu, esperançoso.
De súbito, a ideia pareceu-lhe atraente, os três espremidos no assento. Harry fitou as roupas manchadas de suor e vol tou-se para a sra. Malfoy, que esperava com paciência.
— A senhora sabe conduzir uma carruagem?
Hagrid deu uma risada curta.
— Pelo menos a sra. Malfoy nunca deixou o veículo cair no fosso, como eu me lembro de ter visto um jovem cavalheiro fazer.
Harry franziu a testa e depois sorriu com tristeza.
— Isso foi há muito tempo, Hagrid. Aprendi a ser cauteloso. Tudo bem, sra. Malfoy. Por favor, entregue as verduras com os meus cumprimentos. Também dê minhas saudações ao velho Tom. Diga-lhe que passarei no farol na primeira oportunidade.
— Está bem, milorde.
Pansy virou-se para o veículo. Harry pegou-a de novo pela cintura e dessa vez a ergueu. Pansy segurou as rédeas, e Harry esperou que ela o fitasse. Intrigada, ela corou quando mi lorde avaliou de maneira prazerosa o busto que mal se escon dia sob a roupa surrada. Satisfeito, Harry deu-lhe as costas e afastou-se.
Conhecia muito bem o significado daquele olhar! Uma onda de raiva ameaçou a calma que ela sempre mos trava para o mundo. E pior, ele na certa achava que seria muito fácil levá-la para a cama, como se não existissem votos matrimoniais.
Pansy refletiu, enquanto conduzia o cavalo pela estrada em direção à casa da viúva. Harry a criticara por sua presunção em tomar iniciativas que não lhe cabiam mais. Queria mostrar-lhe qual deveria ser seu devido lugar. Milorde poderia ficar tranquilo. Ela não tinha a menor intenção de atuar como senhora do cas telo.
Mais uma vez o vento do ódio envolveu-a ao recordar o marido. Por que seu destino era ficar amarrada a um patife daqueles? Bêbado, abusado e negligente de tudo que não fossem seus prazeres e seus esquemas? Pansy conhecera muito bem os projetos do marido.
Nas raras vezes em que ele vinha para casa, não parava de contar van tagens e aventuras amorosas. Aquilo nem mesmo a espantava. Talvez ele contasse com o ciúme para fazê-la abrir a porta do quarto, mas ela sabia havia muito tempo o que fazer. Antes de ele terminar a terceira garrafa, Pansy corria para seus aposentos e trancava a porta. Se o deixasse muito cedo, ele teria condições de subir e trazê-la de volta, forçando-a ao pior. Se esperasse demais, ele a agarraria onde estivesse. O marido sempre esmurrava a porta, o que era preferível a bater na esposa.
Bem em meio à tristeza que era a vida de Pansy, aparecia o conde de Hogsmead, sorridente, representando uma tentação verdadeira. Ah., como ela gostaria de... Não! Não podia pensar nisso. Teria de manter os votos que fizera diante de Deus.
Pansy di rigiu em silêncio por alguns momentos, procurando acalmar-se. Lamentações não resolveriam o problema. Apenas serviriam para tirar-lhe a paz. O dia prometia ser lindo e James taga relava com alegria a seu lado. Mais uma vez, teria de esquecer o que não poderia remediar.
— Perdão, James, eu estava distraída. O que foi que disse?
— Perguntei se eu deveria chamá-la de sra. Malfoy.
— Não sei. É o que mais lhe agrada?
— Não. E nem acho boa a maneira como papai pro nuncia esse nome. Ele também parece não gostar.
Então aquilo desagradava aos três.
— Acho que é por milorde ter raiva de meu marido. Como gostaria de chamar-me?
— Não sei se eu poderia chamá-la pelo primeiro nome.
— Claro que sim. É Pansy.
— Então eu a chamarei de srta. Pansy.
— Será muito bom — Pansy sorriu e desmanchou-lhe os cabelos.
Harry Potter teve de admitir que ainda não deixara Draco Malfoy tão em baixo quanto gostaria. O homem ainda estava em liberdade e em solo inglês. Aquela era uma situação que teria de mudar sem demora. Harry entrou na estrebaria e olhou a parca coleção de animais.
Apossar-se de seus cavalos? Aquela parte de sua vingança não lhe trouxera satisfação. Fora os cavalos negros que eram seus, só havia mais um, o outro certamente devia estar no campo. Ainda assim, os dois eram animais de pouca qualidade.
Na certa, o pequeno iate de Malfoy devia ser melhor do que os cavalos, aquela era a grande paixão do sem-vergonha, maior do que jogar ou seduzir mulheres. Navegar no barco de Malfoy seria o mesmo que destroçar-lhe a alma imunda. Mas lorde Hogsmead possuía inúmeras embarcações e não seria difícil encontrar a de Malfoy.
O problema maior era conseguir apertar nos braços a esposa de Malfoy, apesar de ter percebido o brilho de desejo em seu olhar e a maneira como ela ficava ofegante ao vê-lo aproximar-se em demasia. Com certeza, Malfoy a abandonara, deixando-a ansiosa pelo toque de um homem. Esse era um trunfo. Mas nem em sonhos poderia deixá-la supor em tornar-se a Senhora de Goodview. Sua amante talvez, nada mais.
Admitia que lhe agradava a maneira como ela se preocupava com o bem-estar dos menos favorecidos. Pelo menos, em sua ausência, eles haviam tido algum tipo de assistência. Pansy demonstrava ter muita bondade no coração oculto sob um busto generoso, mas a sra Wealsye assumiria aquelas tarefas assim que chegasse a Goodview. A sra. Malfoy teria que arrumar outras coisas com que se ocupar pois teria que partir de Goodview, e Harry não queria pensar no que ela faria quando chegasse o outono.
—Papai! Papai! — James bateu a porta da frente e entrou na biblioteca. — Houve um naufrágio! Há pe daços de navio e pessoas mortas espalhadas na praia!
— Mortos? — Harry perguntou a Pansy, que seguia o garoto.
— Bem, penso que eram mortos — James respondeu por ela. — Mas a srta. Pansy não me deixou chegar perto para ver.
Pansy anuiu, enquanto tirava a touca puída e alisava os ca belos negros.
— Receio que sim, milorde. O acidente deve ter ocorrido do lado do farol, a alguma distância daqui. As correntes ali são muito fortes e as rochas, traiçoei ras. Encontramo-nos no caminho com o velho Tom, e ele me disse que parece não ter havido sobreviventes. Por isso eu trou xe James de volta.
— Nós não fomos até o farol — o menino lamentou-se — pois o sr. Tom tinha saído de lá para verificar o acidente. Nos sa... eu vi um naufrágio de verdade.
— Não nego que deve ser muito excitante, mas terá de convir comigo, James, que um proprietário de frota como eu não pode partilhar o seu entusiasmo — Harry retrucou e virou-se para a sra. Malfoy. — Houve algum comentário sobre a identidade do dono do navio?
— Tom acha que deve ser um navio francês de passageiros, pois há pouca carga boiando.
— Mercadorias encalhadas podem levar algum tempo para flutuar.
— Eu sei, mas pelo que ouvi dizer, não havia muita coisa para ser vista, quando os pescadores notaram os destroços du rante a madrugada. Eles ficaram até desapontados.
Harry torceu os lábios pelo comentário, já que tantas vidas haviam se perdido. Infelizmente, os homens mui tas vezes preferiam salvar as riquezas a socorrer os sobrevi ventes.
— Irei até lá para ver o que está acontecendo.
Vistas do alto, as rochas pareciam estar co bertas de formigas. Insetos de duas pernas. Homens e mulheres espalhavam-se pelas pedras e procuravam qualquer coisa apro veitável. As ondas que vinham ate a praia e as rochas molhavam todos e atemoriza vam os mais afoitos, que escorregavam nas pedras mais afas tadas. Alguns homens escalavam uma fenda e lutavam para segurar uma carga lúgubre amarrada a uma corda. Quando se aproximaram do topo, Harry adiantou-se e ajudou a puxar o corpo inerte que depois foi deitado no chão. Enquanto os ho mens recobravam o fôlego, ele se ajoelhou e ergueu o lençol.
O rosto ferido era de uma mulher jovem, talvez da idade de Ginny. Estremeceu ao pensar na moça sendo jogada de encontro às rochas e no medo terrível que ela devia ter sentido no meio do oceano agitado, em plena escuridão. Só podia desejar que ela houvesse morrido antes de ter sido estraçalhada pelos recifes.
— Um dia triste, milorde. — Conheceu a voz familiar.
— Hagrid! Eu não o tinha visto.
Hagrid apontou um segundo corpo e limpou a água do rosto com a mão.
— Fiz o possível para ajudar a trazê-los para cima. A tarefa é muito demorada.
— Eu teria vindo antes, se soubesse. Segure o meu cavalo.
Harry tomou o lugar de Hagrid, e os carregadores, encora jados pela nova energia, recomeçaram a tirar os corpos da beira do precipício e a deixá-los junto aos outros que já haviam res gatado. Um jovem loiro vestido com o uniforme da polícia ma rítima olhava as vítimas, desanimado.
— Boa tarde — Harry aproximou-se. — Sou Harry Potter. Ne nhum sobrevivente, sr...
O policial tocou no chapéu com respeito.
— Diggory. Nada, milorde. Um esforço inútil. — O homem apontou a colina. — E a maioria dos aldeões voltará para casa de mãos vazias, a menos que a maré traga alguma coisa.
— O senhor sabe o que aconteceu?
— Não, milorde. O vento nem estava forte. Não entendo... — O homem encolheu os ombros. — O senhor tem interesses em navegação?
— Dedico-me um pouco ao negócio.
— Bem, se eu souber de alguma novidade, mandarei avisá-lo. Bom dia, senhor.
O policial fez uma mesura e afastou-se.
Harry chegou perto do médico da aldeia, o qual tinha ca belos brancos e estava ajoelhado.
— Dr. Dumbledore. — Milorde estendeu-lhe a mão.
— Lorde Harry! — o homem surpreendeu-se. — Ou melhor, lorde Hogsmead. Ouvi falar da sua volta e fico satisfeito de vê-lo.
— Obrigado. Por acaso encontrou alguma evidência...
— De pirataria? — Ele sacudiu a cabeça. — Nada que eu visse. Parece que o mar se encarregou do serviço, mas nunca se pode ter certeza. O curioso é que nenhum morto carregava nada de valor.
O médico levantou-se a custo.
— Bem, nada mais tenho a fazer aqui. Os homens tratarão de enterrar todos. Vamos tomar uma cerveja no Caldeirão Furado?
— Com prazer.
Harry pegou o cavalo e seguiu o coche do médico idoso até a aldeia. A taverna ainda era a mesma de dez anos antes.
Acomodaram-se a uma mesa vazia, em meio aos fregueses, que falavam sobre a tragédia. Harry reconheceu alguns de les, mas o careca troncudo que servia as bebidas pareceu-lhe estranho.
— Onde está o velho Flintwick? — Harry interessou-se.
— Morreu no ano passado e a mulher dele vendeu a taverna para Pittigrew — o médico do vilarejo explicou. — Nem sei como esse camarada veio parar aqui, ele fala como um londrino. Não gosto dele, é um sujeito desprezível. Acho que está metido em contrabando.
Harry ergueu uma sobrancelha. O homem levantou facil mente um barril e deixou-o em uma prateleira.
— Posso estar enganado, milorde, mas ele não me agrada.
— Não reconheço alguns dos frequentadores. Deviam ser crianças quando eu fui embora.
— Ah, eram, sim. Ou sao pescadores agora ou se alistaram na Marinha, são policiais marítimos.
— Bem, tenho de voltar a Goodview para ver o que o arteiro do meu filho está fazendo. Venha fazer-nos uma visita. — Harry tomou o último gole de cerveja e despediu-se.
