Capítulo Quatro – Cartas na mesa
- Não está muito frio para ficar aqui fora?
Inoue virou-se para ver Woo Bin se aproximando. Tinha ouvido ele abrir a porta do terraço e ficar parado lá por uns bons dois minutos, como se decidindo entre entrar ou não. Deu-lhe um ponto extra pela coragem. Virou-se para continuar olhando as montanhas, até que ele parou ao seu lado. Aceitou a xícara que ele lhe oferecia e segurou-a com as duas mãos, aquecendo os dedos enregelados e aspirando o aroma forte de café com chocolate.
- Você demorou mais do que eu previa. – ela comentou, tomando um gole, ainda sem olhá-lo.
Ele sorriu.
- Você estava me esperando? Desculpe-me, no geral eu não deixo garotas bonitas esperando.
Ela o olhou, séria.
- Você queria falar comigo. Resolvi te facilitar as coisas apenas.
Woo Bin olhou-a, desmanchando o sorriso. Claro que ela perceberia. Quando a viu no terraço desde sua janela soube que ela estava esperando-o. Eram quase duas da manhã. Duvidava que ela estivesse lá fora apenas por uma crise de insônia. Assim que se vestiu e desceu encontrá-la. Quanto antes tivessem aquela conversa, melhor. E duvidava que ela fosse lhe dar outra chance amigável de discutir esse assunto.
Mas agora que ela estava na sua frente, olhando-o com aqueles olhos negros inescrutáveis, não sabia o que dizer. "Oi, você é uma herdeira da máfia e eu quero você longe de Ji Hoo" não parecia uma maneira adequada de começar. E quanto mais a olhava, menos conseguia convencer a si mesmo de que ela era uma ameaça. Sabia que estava sendo estúpido, pois se metade do que ele tinha ouvido sobre ela fosse verdade, então ela era um problema com letras maiúsculas.
- Por que você não começa me dizendo qual seu motivo para xeretar meus negócios? – ela começou, já que ele só ficava encarando-a em silêncio.
Woo Bin arqueou uma sobrancelha.
- Não me lembro de ter feito isso.
- Pediu informações sobre mim e minha família ultimamente. Por quê?
- Você é direta, não? – lhe surpreendeu um pouco que ela fosse direto ao ponto. Não esperava que ela soubesse que ele tinha investigado a seu respeito.
- Não gosto de perder tempo. Não me ofendi com isso. Pedi informações sobre você e seus amigos também. Só me deixou curiosa o porquê de você querer saber sobre mim.
- Vale, vamos direto ao ponto então. Ji Hoo sabe quem você é?
Ela riu, irônica.
- E quem eu sou Woo Bin-san? Se você quer saber se eu contei a ele de que família eu venho e que minha família controla a máfia do Japão, então sim, ele sabe.
- Ele sabe que você é a neta do líder do Clã? – Droga. Se Ji Hoo sabia as coisas ficavam infinitamente mais difíceis.
- Sim.
Woo Bin praguejou.
- Seu noivo sabe que você se encontra com Ji Hoo?
- Que noivo? Eu não estou comprometida com ninguém. E Han conhece Ji Hoo.
Agora foi ele quem quase teve uma parada cardíaca.
- Você apresentou Ji Hoo para Xiung Han? O que você tem na cabeça?
Inoue o olhou friamente.
- Primeiro, Han é meu melhor amigo, não meu noivo. Segundo, ele não é um psicopata como você insinua. Terceiro, Ji Hoo é adulto o suficiente para saber se quer ou não conhecê-lo. Quarto, isso não é da sua conta.
- É da minha conta sim. Ji Hoo é um dos meus melhores amigos e eu não o quero envolvido com...
- Envolvido com quem? Com filhos da máfia? E o que você é então? Você também é um de nós, caso tenha se esquecido disso. – ela o cortou, asperamente. Não sabia o que havia em Woo Bin que a fazia perder a compostura tão rapidamente. Raramente ela erguia a voz e agora estava discutindo sobre coisas que no geral ela não dava à mínima.
Woo Bin passou a mão pelos cabelos, despenteando-os. Aquilo não estava indo como ele tinha planejado. Não era sua intenção ofender a garota e irritá-la, mas as coisas haviam saído de controle. E a acusação dela havia sido como um tapa. Porque ele não podia negar o que era a verdade.
- Sim, eu sou um filho da máfia também. Mas meus amigos permanecem absolutamente afastados desse lado da minha vida. Faço o possível para mantê-los seguros.
Inoue fulminou-o com os olhos.
- E você acha que eu discuto meus negócios com Ji Hoo? Ele não sabe nada acerca do que eu ou o resto do Clã fazemos. Protejo Ji Hoo com tudo o que tenho disponível. Han é uma dessas proteções. Ninguém vai tocar em Ji Hoo enquanto eu e Han o protegermos. Então se sua única preocupação é a segurança dele, pode ficar descansado. – ela largou a caneca com força na mesa ao lado e saiu pisando duro.
Woo Bin suspirou ao ouvir a porta bater. Agora Ji Hoo iria comer seu fígado se Inoue estivesse de mau-humor pela manhã. Não sabia o que havia naquela garota que o descolocava tanto. No geral, ele não tinha nenhuma dificuldade em conversar com mulheres, independente de qual fosse o assunto, mas com ela ele perdia o controle da situação. Voltou para seu quarto pensando em como iria se explicar para Ji Hoo sem que esse também ficasse zangado.
Woo Bin encontrou a mesa do café quase vazia. Somente Jan Di e Ga Eul estavam sentadas, com uma xícara de chocolate quente e um prato de panquecas cada uma.
- Bom dia. – ele as cumprimentou, sentando em frente a elas e se servindo de uma xícara de café. – Onde estão os demais?
- Bom dia sunbae. – Ga Eul o cumprimentou com um sorriso. – Os meninos estão esquiando com Jae Kyung Unnie e Inoue-san ainda está dormindo.
- E Ji Hoo? – Sabia que o amigo não gostava muito de esquiar.
- Estava lendo no salão até agora a pouco.
- E vocês, por que não foram esquiar? – perguntou com um sorriso amável. Adorava aquelas duas.
Jan Di sorriu brilhantemente para ele.
- Estamos escolhendo as flores para a recepção. Jun Pyo disse que eu poderia escolher as que eu quisesse, já que a mãe dele decidiu o cardápio.
Ele riu.
- Suponho que você não gostou muito da escolha dela? – Ele serviu-se de mais café e roubou um pedaço de panqueca do prato de Ga Eul, que só sorriu, condescente.
- Ela armou um banquete do que seria uma recepção simples – Jan Di suspirou irritada e tomou um gole do chocolate, observando as leves olheiras que o amigo tinha. Perguntava-se por que é que ele não tinha conseguido dormir direito – Não quero nem pensar no que ela vai querer para o casamento. Só a ideia já me dá escalafrios.
- Provavelmente ela vá contratar um cozinheiro francês e servir escargots e todas aquelas coisas que você detesta. – Ga Eul não pôde deixar de provocar a amiga.
- Ya! Supõe-se que você está do meu lado. – ralhou com a outra, mas não pode deixar de concordar. – O fato é que eu posso escolher as flores que eu quiser e ela prometeu não reclamar. Estou na dúvida entre esses dois arranjos. Qual você acha melhor, sunbae?
Animadamente ela mostrou dois belos arranjos para o moço. O primeiro era um vaso comprido de porcelana branca com rosas e orquídeas, entremeados com folhagens dum verde intenso caindo do vaso como uma cascata. O segundo vaso era de cristal, com lírios escarlate e rosas brancas de caule longo, mais simples, mas o efeito era extremamente elegante.
Woo Bin observou com olho crítico os dois arranjos. Seu bom gosto era notavelmente reconhecido. Ambos eram muito bonitos, mas ele ainda achava que não era exatamente o que Jan Di escolheria.
- Tem certeza que você quer esses arranjos? – perguntou para ela.
- Por quê? Não são bons? – Jan Di olhou confusa para as fotos – Me parecem bem.
- O que eu quero saber é se você realmente gosta deles ou se só os escolheu por causa da bruxa. Se você quiser colocar margaridas com dentes-de-leão nas mesas eu te apoio.
Jan Di riu, observando o sorriso travesso dele.
- Eu realmente gosto desses. Sempre gostei de lírios e rosas. Jun Pyo disse que eu podia escolher o que eu quisesse. Honestamente, desisti de tentar agradar minha sogra.
- E eu pensando que meu bom gosto tinha te influenciado em algo nesses anos todos – acrescentou Woo Bin em tom dramático, fazendo as duas rirem – Que seja então, encomende os lírios. Por que você não acrescenta pequenas velas brancas em cada mesa? Já decidiu o esquema de cores das toalhas e do salão?
- Isso tem que ser combinando também? – Jan Di estava começando a se desesperar já. Era só um anúncio de noivado. Eram tantas coisas para pensar e decidir que ela estava ficando maluca. – Gostei da ideia das velas. Uma por mesa? – começou a fazer anotações na agenda que levava consigo.
- Um par ficaria melhor. – Woo Bin agradeceu quando a garçonete terminou de servi-lo – Quanto às cores, escolha algo que combine com as flores que você escolheu. Jae Kyung pode te ajudar nisso. Ela é boa com cores.
Passou mais alguns minutos conversando com elas e dando palpite nos planos de Jan Di, o que era sumamente divertido, quando viu Inoue entrando pela porta. Ficou quieto, observando-a cuidadosamente enquanto ela se aproximava, aguardando a reação dela. Notou que ela estava pronta para esquiar também, ataviada numa roupa azul e vermelha. O cabelo, que ele sabia agora era tão longo quanto ele havia imaginado, estava preso num rabo baixo, parcialmente enfiado dentro do gorro de lã.
Ela sentou-se ao lado de Ga Eul, que sorriu gentilmente para ela.
- Bom dia. – cumprimentou Inoue, com um aceno. Aceitou a xícara que Ga Eul lhe ofereceu com um pequeno sorriso. – E Ji Hoo, onde está?
- Bom dia. – Woo Bin respondeu não muito contente por ela estar ignorando-o – Estava lendo até agora a pouco.
E ele perdeu o olhar estranhado que Jan Di e Ga Eul trocaram. Inoue continuou ignorando-o.
- Vocês não iam esquiar com a Jae-chan hoje? – ela perguntou para as outras meninas, tomando o chocolate quente.
- Nós íamos – Jan Di alcançou para Inoue o prato de frutas – mas está muito frio lá fora e nós decidimos escolher as flores para a recepção.
- E?
Ga Eul riu.
- Woo Bin-sunbae nos ajudou. Agora só falta combinar cores para o salão e as mesas.
- E o cardápio? A seleção de músicas? A disposição de lugares para os convidados? O discurso do brinde? – Inoue começou a rir quando viu Jan Di ficando pálida.
- Em sério preciso de todas essas coisas? – perguntou Jan Di, olhando para Woo Bin como pedindo socorro.
- Sim, você precisa. E como a bruxa já decidiu o cardápio, deixe que ela acomode os convidados também. Você só precisa escolher as músicas e aprender a valsar direito. – completou, ainda rindo da cara da amiga e lhe despenteando o cabelo.
Jan Di apoiou a testa na mesa, suspirando derrotada.
- Vou sequestrar Jun Pyo e casar escondido. Deve ser mais fácil sequestrar ele do que organizar essa festa.
Ga Eul lhe deu um tapinha consolador nas costas.
- Veja o lado bom amiga, essa é mais simples que o casamento. – acrescentou com um sorriso divertido e levando a xícara à boca.
- Isso, vai rindo. Quero ver quando você for organizar seu casamento com o Yi Jung-sunbae o que você vai fazer. – Jan Di retrucou, com um sorriso malvado e ficou satisfeita ao ver a outra corar até a raiz dos cabelos e começar a tossir o chocolate.
Woo Bin ficou com pena da moça e lhe alcançou o guardanapo, ainda sem conseguir deixar de rir, mas franziu o cenho ao ver que Ga Eul baixou os olhos e ficou torcendo o quadrado de linho no colo.
- O que foi Ga Eul-ah? – perguntou suavemente para ela, já imaginando a resposta.
Jan Di, ao perceber o estado da amiga, imediatamente se desculpou.
- Desculpe Ga Eul. Eu não quis...
- Está tudo bem Jan Di – cortou a outra tranquilamente – Não é como se eu e ele fossemos um casal. Eu já deveria ter parado de me incomodar com isso.
Meio constrangido, Woo Bin resolveu desviar o assunto.
- O que quer que seja, qual é o plano agora? – Olhou para Inoue e notou que a japonesa olhava intrigada para Ga Eul. Perguntou-se o que exatamente ela queria saber. Esperava honestamente que ela não estivesse se interessando por Yi Jung agora que sabia que o oleiro e Ga Eul não eram um casal.
- Vou procurar Ji Hoo para esquiarmos. Querem vir conosco ou vão continuar com os arranjos? – Inoue olhou somente para as duas meninas, deixando claro com isso que Woo Bin não estava incluído no convite.
Woo Bin sentiu a alfinetada e se irritou. Ora bolas, não era como se ele a tivesse ofendido mortalmente. Só estava preocupado com seus amigos. Admitia que sua abordagem não havia sido das melhores, mas enfim.
- Ji Hoo não gosta de esquiar. – ele disse para Inoue, satisfeito ao ver que ela finalmente virou-se para ele. – Achei que você soubesse disso dado o quão próximos vocês parecem.
Inoue sorriu, arrogante, enquanto depositava o guardanapo na mesa e se levantava graciosamente.
- Talvez ele só não goste de esquiar contigo, Woo Bin-san. Porque ele o faz comigo com frequência. – e acenando para as duas garotas, saiu à procura do médico.
Woo Bin ficou olhando para as costas dela enquanto ela saia e reprimiu a vontade de ir atrás dela. O que ele faria quando a alcançasse, não tinha certeza. Realmente, não sabia o que passava consigo mesmo. Queria que ela prestasse atenção nele. Exclusivamente nele. E não era só o seu ego falando. Por alguma razão queria ficar próximo dela também, mesmo sabendo que não devia fazer ou sequer querer isso. Começou de uma bela maneira companheiro, disse para si mesmo. Primeiro discutia com ela, agora a provocava na frente de Jan Di... realmente, onde tinha ido parar o charme do qual tanto se orgulhava?
- Sunbae? – Ga Eul puxou levemente a manga do casaco dele ao ver que ele não respondia.
- O que? – perguntou, virando-se para elas e notando que as duas o olhavam com uma expressão de surpresa.
- O que, exatamente, foi isso Sunbae? – Jan Di tinha observado os dois desde que Inoue entrou, e tinha percebido a tensão entre ambos. Lhe intrigava o que estava havendo entre eles e que ninguém mais parecia saber o que era – Qual é o problema?
- Nada. É sério, não passa nada. – acrescentou ele ao ver que elas não estavam convencidas. Levantou e piscou para elas, charmoso. – Se minhas caras damas me permitem, vou procurar os idiotas dos meus amigos que me deixaram tirado.
Inoue encontrou Ji Hoo esparramado confortavelmente no sofá de uma das salas de estar, cochilando. Tinha esquecido essa mania dele de cair dormido em qualquer lugar. Ficou quase com pena de acordar o moço e fazê-lo ir lá fora com ela. Mas agora era uma questão de honra levá-lo junto. Woo Bin idiota. E não sabia o porquê estava tão incomodada. Já estava mais que acostumada com o medo e a babaquice generalizada das pessoas, então não havia razão para os comentários dele incomodá-la. O fato era que estava irritada com ele desde a noite anterior. Por alguma razão, Woo Bin a tirava do sério. Até o momento, não de um jeito bom.
Tocou o ombro de Ji Hoo e o sacudiu de leve. Sorriu carinhosamente ao ver a cara de cãozinho confundido com a qual ele a olhou.
- Hora de levantar, Belo Adormecido.
Ji Hoo bocejou, inclinando a cabeça para trás e olhando-a melhor. Ela estava parada atrás dele, sorrindo e pelo que ele podia ver pronta para esquiar. Adivinhou que ela iria querer que ele fosse junto. Resolveu brincar de fazer as coisas difíceis para ela, mesmo sabendo que como sempre ela o convenceria a fazer o que ela quisesse.
- Bom dia Hime. Finalmente caiu da cama? – perguntou se espreguiçando e sorriu quando ela lhe deu um tapa de leve no braço e o rodeou, para sentar na beirada do sofá, ao lado dele.
- Sabe que eu geralmente durmo tarde. E você, por que está dormindo aqui e não na sua cama?
Ele riu.
- Me deu preguiça subir para lá. E então, já tomou café?
- Sim. Nós vamos esquiar agora.
Ele arqueou uma sobrancelha, se fazendo de desentendido.
- Nós quem?
Ela resolveu seguir a brincadeira.
- Nós como eu e você companheiro. Você não queria minha companhia? Pois então levante seu bonito traseiro daí e venha para fora comigo. – ela sorriu quando ele fez uma careta.
- Mas eu não trouxe nada para esquiar.
- Eu sabia que você ia dizer isso. Por via das dúvidas, comprei um equipamento novo para você ontem. Já deixei em cima da sua cama. Portanto, suba e se troque.
Ele suspirou derrotado e levantou, pegou o livro da mesinha e saiu com ela. Sabia que ela iria querer esquiar e na verdade havia trazido todas as tralhas necessárias. Mas era bom ter alguém que se preocupasse em antecipar suas necessidades também. Inoue sempre tinha sido assim com ele, sempre antecipando o que ele precisava e fazendo tudo ao seu alcance para conseguir lhe dar isso. Talvez fosse por isso que se sentia tão protetor em relação a ela. Na verdade não sabia dizer o porquê exatamente, mas adorava aquela garota. Sabia que ela era uma pessoa complicada e potencialmente perigosa. Não era idiota. Quando ela foi parar em seu hospital depois de sofrer um atentado ele havia pesquisado um pouco sobre ela. E o que descobriu lhe havia deixado apreensivo na época.
Mas ele tinha aprendido a não julgar as pessoas somente pelo que elas pareciam ser. E conhecer Inoue havia sido uma das melhores coisas que havia lhe acontecido na vida. Tinha encontrado uma parceira. Alguém com quem podia conversar sobre qualquer assunto sabendo que não seria julgado por isso. Alguém que entendia e principalmente aceitava seu modo de pensar e de agir, mesmo quando todo mundo considerava suas ações erradas ou tolas. A única coisa que lhe desgostava era não poder ajudá-la por basicamente não ter informação. Inoue, assim como Woo Bin, jamais falava sobre sua família e o papel que ela desempenhava ali. Não importava quantas vezes ele perguntasse, ela somente diria, com aquele sorriso resoluto: "É melhor que você não saiba".
E ele se perguntava sempre quando Woo Bin parecia especialmente perturbado com alguma coisa sobre a qual ele nunca diria para o restante do F4 se Inoue tinha os mesmos problemas. Imaginava que devia ser difícil estar preso em algo que não era sua escolha e do que você não podia simplesmente dizer adeus e sair. As pessoas tendem a achar sempre que é muito fácil dizer "se você não quer alguma coisa, não faça", mas quando acontece com elas, elas percebem que nunca é tão simples. É sempre mais fácil julgar as decisões alheias quando não é com você que está acontecendo.
Por isso tinha decidido não levar em conta a família e os problemas dela quando resolveu que queria que ela fosse sua amiga. Assim como Woo Bin, ela não tinha tido escolha. Ele amava Woo Bin, era um de seus melhores amigos e não importava o que o outro fizesse ou qual fosse sua família, ainda seriam melhores amigos. Assim que, deu uma chance para a garota que quase morreu em suas mãos e nunca tinha se arrependido disso.
Ji Hoo sorriu para Inoue, enquanto caminhava ao lado dela e observava ela gesticular animada para ele a explicar sobre o novo carro que tinha montado, pensou no quanto tinha lhe custado que a jovem confiasse nele e permitisse que ele se aproximasse. Inoue era esquiva, temperamental e extremamente desconfiada. Tinha tendência a ser sarcástica e não se importava em ser rude ou cruel nem em desconsiderar a opinião alheia. Era quase que o total oposto de Jan Di. Uma das coisas que tinha lhe atraído nela, sendo honesto. Quando conheceu Inoue ainda era demasiado recente o fora que havia levado e seus sentimentos ainda eram fortes demais para que ele suportasse ficar perto de Jan Di todo o tempo.
Assim que, quando a morena foi parar em seu hospital e foi obrigada a passar meses lá se recuperando, ele encontrou algo no que focar seus esforços e seu tempo. Admitia que no início o único que queria era distrair sua mente e colocar uma certa distância entre ele e Jan Di, mas com o passar do tempo foi ficando cada vez mais intrigado pela garota que tinha locado uma ala inteira do hospital e segundo seus colegas, nunca dizia uma única palavra a respeito de nada. Seu tratamento era discutido exclusivamente com seu secretário e ninguém tinha permissão para visitas, somente um jovem que mais tarde lhe foi apresentado como Han, que era o tutor legal dela também.
Han era outra pessoa que Ji Hoo achava muito intrigante. Quando o conheceu, Ji Hoo tinha achado o outro muito parecido com Jun Pyo: arrogante, impaciente, ególatra e teimoso. Depois de conversar algumas vezes com ele, percebeu que o rapaz também era parecido com Woo Bin: determinado, autoconfiante, leal, controlador e perigoso, ainda que tivesse aquele verniz de sofisticação e civilidade. Não podia dizer que ele e Han eram amigos. Afinal de contas a única coisa que ligava a ambos era Inoue. Mas Ji Hoo respeitava Han. Respeitava o amor nítido que o chinês tinha por Inoue. E agradecia que ele não tivesse feito com que ela escolhesse entre os dois, porque sabia que mesmo que Inoue o amasse, ela amava Han ainda mais. Inoue e Han tinham toda uma história que ele sabia que nunca iria chegar a conhecer, tanto por ela ser reservada quanto por eles pertencerem a um mundo ao qual ele não tinha acesso e não era bem-vindo tampouco.
- Você está prestando atenção no que eu estou falando? – Inoue o cutucou ao ver que Ji Hoo parecia distraído.
Ele sorriu ao vê-la fazendo beicinho. Inoue não era a típica menininha mimada. E tampouco era de fazer aegyo. Por isso nas raras vezes em que isso acontecia, ele achava muito terno nela.
- Estou. Você estava me falando sobre o Corvette que você finalmente conseguiu montar. Mas eu estava me lembrando de quando nós nos conhecemos.
Ela sorriu também e ele imaginou qual dos fatos exatamente ela tinha lembrado.
- E por que isso agora? – ela perguntou enquanto ele abria a porta do quarto.
- Por nada em particular. Só lembrei o difícil que foi fazer você falar comigo.
- Você tampouco é a pessoa mais falante do mundo Ji Hoo-chan.
Ele concordou e fez sinal para que ela se sentasse, enquanto ele se dirigiu à montanha de sacolas que ela tinha deixado em sua cama.
- Curiosidade, como você sabe o tamanho de roupa e sapato que eu uso? – perguntou ele olhando para uma jaqueta branca e azul com um capuz forrado de pele.
Ela revirou os olhos.
- Não é a primeira vez que eu te compro roupas e você não mudou de tamanho desde que eu te conheci. Além do mais, eu tenho boa memória.
Ele concordou sem deixar de sorrir. Isso era uma das coisas que mais lhe surpreendia na relação de ambos. Nunca deixava de sorrir quando ela estava por perto. Fazia isso inconscientemente na maioria das vezes. Terminou de vestir a jaqueta e chutou seus sapatos num canto para calçar as botas. Uma das razões dele não gostar muito de esportes na neve era ter que se ataviar de roupas. Se sentia desconfortável com aquela quantia de coisas em cima. Pegou o sorriso divertido dela ao ver seu desconforto e lhe jogou a luva, que ela agarrou uns centímetros antes de que chocasse em seu nariz. Sempre lhe surpreendia esse tipo de reflexos que ela tinha.
- Vamos antes que eu mude de idéia. – disse para ela em tom de brincadeira enquanto pegava os esquis e os bastões.
Quando chegaram à pista, viram que o restante do grupo já estava lá, incluso as meninas.
- Mudaram de ideia? – Inoue perguntou à Ga Eul, que estava sentada tentando fixar as botas.
- Mais ou menos. Jae-unnie nos arrastou para fora.
- Cadê ela? – procurou a garota, mas não conseguiu avistá-la.
- Lá embaixo. – a professora apontou um amontoado de roupas verdes num ponto médio da pista. Ao que parecia Jae Kyung tinha caído um lindo tombo. Woo Bin e Yi Jung estavam ajudando-a.
- Quer ajuda com as botas? – perguntou Inoue ao ver que Ga Eul não conseguia prendê-las.
A outra sorriu agradecida enquanto via Jae Kyung subindo a pista apoiada em Yi Jung.
Inoue terminou de prender as botas da outra e levantou-se, pegando os bastões das mãos de Ji Hoo.
- O que nós apostamos Ji Hoo-chan? – perguntou com um sorriso brilhante. A possibilidade de voltar a correr lhe empolgando novamente. Sim, era meio viciada em adrenalina e quê com isso.
- Apostar? Nada. Você sempre me vence de qualquer modo. – ele conhecia bem a veia competitiva dela. Além do mais, ela era uma esquiadora excelente também.
- Ah vamos, não seja assim. Eu até te dou a largada como vantagem. – ela tentou negociar com ele, colocando sua melhor cara de boa menina. – E prometo não trapacear.
Ele sorriu, quase concordando, quando Jae Kyung finalmente os alcançou.
- Obaaaa, vamos apostar uma corrida? – parou ao lado da japonesa – Eu topo.
Inoue arqueou uma sobrancelha ao ver o cabelo da outra ainda cheio de neve.
- Tem certeza?
- Por que? Só porque eu levei um tombo? Eu posso esquiar também. – Jae cruzou os braços.
- Sei que pode, mas pelo visto você não corre o suficiente. – Acrescentou Inoue, achando graça.
- Haha, muito engraçada. Por certo, você não ia me ensinar? – Jae olhou para ela toda sorridente outra vez. Ela era meio bipolar, mas todo mundo já tinha se habituado com isso.
- E eu vou. Mas quero correr um pouco primeiro. – e virou-se para Ji Hoo – então, o que apostamos?
- Que tal um desejo? – Woo Bin tinha acabado de chegar e pegado um pedaço da conversa. Se a japonesa ia ignorá-lo, ótimo. Ele faria com ela prestasse atenção nele na marra então.
Ela o mirou de mau modo. Qual parte do "estou com raiva de você, portanto não me perturbe" ele não tinha entendido?
- Um desejo? – Ji Hoo olhou para o amigo, intervindo antes que Inoue retrucasse de uma má maneira. Não sabia o que tinha acontecido entre aqueles dois, mas percebeu a tensão entre ambos de imediato. Iria falar com Woo Bin assim que conseguisse pegá-lo sozinho. Não queria que ele perturbasse Inoue, mas pelo visto tinha chegado tarde. Só esperava que ela não tivesse pegado birra com o Don Juan já. Conhecia Inoue o suficiente para saber o quão complicadas ficavam as coisas quando ela resolvia pegar raiva de alguém.
- Sim. O vencedor escolhe um desejo.
- Mas nós somos vários, sunbae. – Ga Eul lhe chamou a atenção – Como vamos saber para quem pedir esse desejo?
- O vencedor escolhe a pessoa para a qual ele quer pedir algo.
Inoue bufou. Garoto idiota. A intenção era correr com Ji Hoo, não com todos eles.
- Por que morena, com medo? – Woo Bin a provocou, ao vê-la bufar.
- Nos seus sonhos, Song. Vai pôr uma restrição no prêmio ou eu posso te pedir o que eu quiser? – sorriu arrogante para ele. Iria esfolá-lo ainda.
Woo Bin sorriu, malicioso. Adorava um bom desafio. E sagrado Kami, aquele sorriso e aquele olhar ferino dela eram uma coisa. Só de imaginar as possibilidades do que podia pedir ele já ficava empolgado.
- Nenhuma. O vencedor pode pedir o que quiser e o desafiado não pode negar.
Ela sorriu, ajustando as luvas.
- Ótimo. Até o fim da pista?
Ele concordou. Ambos começaram a andar para o início da pista quando Jae Kyung os chamou.
- Espera, isso não é justo. Eu e as meninas não esquiamos tão bem assim. E Jun Pyo menos.
- Ya! Você não esquia bem, macaca. Eu sou muito bom! – e cruzou os braços emburrado, quando Jan Di lhe deu um tapa no braço, dizendo para ele parar de chamar a amiga de macaca.
A hoteleira o ignorou.
- Como eu estava dizendo, parece que os únicos que correm bem são você e Inoue-chan, sunbae. E agora?
Woo Bin pensou um pouco. Ia responder quando Inoue o cortou.
- Façamos o seguinte, eu e Song lhes damos a largada de vantagem. As meninas largam primeiro, logo Ji Hoo-chan e os demais. Song e eu partimos assim que o primeiro de vocês passar aquela bandeira azul – e indicou para eles uma bandeira de sinalização na primeira curva, a aproximadamente uns cem metros.
- Ótimo. Vou fazer vocês todos irem para o Havaí comigo e aprenderam a dançar hulla-hulla - Jae bateu palmas animada, já fazendo planos.
Todos se colocaram numa fila, com Ji Hoo e Ga Eul entre Inoue e Woo Bin.
Inoue flexionou os dedos e observou enquanto as meninas começaram a descer. Logo o restante deles partiu. Fincou os bastões na neve e inclinou os joelhos, de olho na curva. Assim que Yi Jung passou a bandeira ela tomou impulso e deslizou ladeira abaixo, com Woo Bin em seus calcanhares.
