CAP 4: Lágrima negra

Embora tivesse esperado por isso por quase toda a vida, o dia do Conclave chegou no momento em que Lexa se sentia menos preparada. Não por causa de suas habilidades como guerreira, que melhoravam diariamente, mas por causa do seu coração. Nunca Lexa havia sentido seu coração tão pouco preparado para o que ela iria enfrentar.

Pouco tempo após a noite em que Lexa e Costia se beijaram, uma terrível notícia se abateu sobre Polis. Era como se aquele beijo tivesse sido um presságio melancólico: uma semana depois, enquanto as fortes chuvas ainda castigavam a capital, a Comandante Bethesda foi encontrada morta em um dos corredores da grande Torre.

O pânico foi geral, pois nunca se havia pensado que os inimigos poderiam ser tão ousados a ponto de furar a segurança, entrar na Torre e matar a Comandante perto de seus aposentos. Todos os guardas foram interrogados, mas ninguém dizia saber de coisa alguma.

Até que o Conclave fosse realizado e um novo Comandante fosse escolhido, foram convocados para reforçar a segurança da grande Torre e dos nightblood os melhores guerreiros dos clãs, dentre eles Anya, Indra, líder de Tondc, e Gustus, também do clã Trikru.

Os nightblood iriam começar a passar pelos rituais de purificação para se prepararem para o Conclave e Lexa tentava se manter focada em tudo o que aconteceria dali para frente. Precisaria ser forte, precisaria se recordar o tempo todo qual era o seu objetivo e o que a fazia estar ali. Mas, mesmo tentando se concentrar em sua missão, seu coração estava angustiado e sombrio.

Naquele mesmo dia, depois de prestar homenagens ao corpo da Heda no ritual funerário, Lexa se preparava para ir ao seu quarto quando ouviu Titus conversando com alguém no corredor perto do quarto que havia sido de Bethesda. A conversa chamou sua atenção porque ela o ouviu mencionar o nome dos nightblood.

Aproximou-se sorrateiramente e ficou ouvindo perto de um grande pilar. Titus conversava com Anya e dizia que um dos guardas desconfiava que havia visto o filho mais velho da Rainha Nia, líder da Ice Nation, rodeando a arena de treinos dos nightblood dias atrás. Ele disse que o homem suspeito ficou observando os adolescentes treinando por uns três dias, e, toda vez que algum guarda ou patrulha começava a se movimentar na direção dele, ele dava um jeito de fugir.

Lexa ainda ouviu Titus mencionar que, nos dias em que foram observados, os únicos nightblood que treinaram na arena foram Adel e Bladen, ambos do clã Sankru, Costia e Ashcar. Os outros, inclusive Lexa, estavam treinando em outros lugares. A suposição de Titus é que, achando que os oponentes de Ashcar eram fracos e fáceis de ser derrotados, a Rainha da Ice Nation armou o assassinato da Comandante para apressar o Conclave.

Anya apenas disse que fazia sentido, e que o importante agora era garantir a segurança dos nightblood até o momento do Conclave.

Por medo de ser descoberta por Titus e Anya, Lexa saiu silenciosamente e continuou se dirigindo para o seu quarto. Ela estava atordoada com o que tinha ouvido. Não podia se conformar que alguém havia matado a Heda para executar um plano tão sórdido. E, entrando no seu quarto, pensou: "Se eu for a próxima Heda, proporei uma aliança de fidelidade entre todos os clãs. Tentarei fazer uma coalisão para que possamos nos fortalecer, e não nos matar uns aos outros."

Este acontecimento, porém, deu a Lexa uma dimensão do que seria a vida de uma Heda e, naquela noite, ela dormiu muito mal. Por isso, levantou-se mais cedo que de costume e com uma estranha sensação de incômodo. Mas não eram só as suposições de Titus que a deixavam angustiada. Era mais que isso.

Contrariando as orientações de Anya para que não saísse da Torre e não ficasse em locais isolados, Lexa saiu bem cedo e se retirou para o penhasco para meditar. Sentou-se em um grande tronco de árvore caído que se atravessava na beira da encosta. Foi lá neste lugar que seu pai a levou para contar que ela era uma nightblood e que iria para Polis, treinar para o Conclave.

Lexa sentou-se neste lugar, que era o seu preferido quando queria ficar sozinha e meditar sobre suas ações, e, pela primeira vez, teve coragem de admitir para si mesma o que seu coração temia e sua alma tentava enterrar lá no fundo do esquecimento. Respirou fundo e disse em voz alta:

- Eu vou ter que matar Costia.

O nome da menina saiu engasgado de sua garganta. A vontade dela era de chorar, mas ela se segurou. De agora em diante, teria que ser mais forte que nunca na vida. E isso significava abrir mão de quaisquer sentimentos que ela tivesse por Costia, embora nem ela própria entendia o que exatamente sentia pela menina de cabelos vermelhos.

Lexa ficou no penhasco por toda a manhã. Na verdade, sua vontade era nem voltar mais para a Polis, mas ela nem ousava deixar esse pensamento ganhar força, pois ela sabia de suas obrigações. Todo o seu clã contava com ela para vencer o Conclave. À tarde, voltou para a Polis para dar continuidade aos rituais de purificação.

Entrando na praça central, já perto da grande Torre, Lexa percebeu uma movimentação anormal. Viu um grupo de guardas da Torre vigiando a entrada do edifício e outros circulando pelas ruas como se estivessem procurando alguma coisa. Pelos becos, as pessoas cochichavam.

Lexa foi se aproximando até que um guarda a avistou. Imediatamente, ele chamou outro e foram correndo até ela. Antes que ela pudesse perguntar o que estava acontecendo, seguraram-na pelos braços, cada um de um lado, e quase a arrastaram para dentro da Torre. A garota estava tão assusta que nem conseguiu perguntar o que estava acontecendo.

Os guardas a levaram até um grande salão numa ala isolada da Torre. Chegando próximo ao local, Lexa viu Titus na porta do salão conversando com alguns guardas. Ele estava visivelmente transtornado.

Ao se aproximarem, um dos guardas empurrou Lexa para perto de Titus e disse:

- Encontramos esta aqui perto, atravessando a praça.

Titus agarrou Lexa pelo braço e, com uma forte sacodida, perguntou furioso:

- Onde você estava? Quem permitiu que você saísse da Torre? Estava tentando fugir também?

Lexa não estava entendendo nada, mas resolveu responder às perguntas de Titus:

- Eu apenas fui andar um pouco pela floresta para meditar e me preparar para o Conclave. Eu não fiz nada...

Sem soltar o braço da menina, Titus alterou ainda mais o tom de voz:

- Mas foi dito para todos vocês que nenhum nightblood poderia sair da Torre!

- Eu sei, Titus, me desculpe! Eu só...

Foi então que Lexa se atentou para o que Titus havia dito inicialmente e começou a entender toda aquela movimentação dos guardas e a ira de Titus.

- O que aconteceu? Por que estão todos nervosos? Alguém fugiu, foi isso?

- Chega de perguntas e entre no salão! Você precisa continuar com os rituais de purificação para o Conclave. – e, dizendo isso, Titus saiu pelo corredor seguido de alguns guardas, enquanto outro se mantinha na porta para garantir que a garota entrasse e mais ninguém saísse.

- Vamos, menina! Você ouviu o que o Fleimkepa disse! Entre no salão! – ordenou o guarda.

- Quem foi? Quem fugiu?

- Eu não sei o nome dela. Agora entre, não quero ter problemas.

Ela. Era uma das garotas. Ao ouvir isso, algo se iluminou dentro de Lexa e, secretamente no coração, ela desejou ardentemente que fosse Costia.

Entrou no salão e viu que todos os nightblood estavam lá reunidos e, num primeiro golpe de vista, não viu Costia. Assim que entrou e fechou a porta atrás de si, todos os garotos e garotas ficaram olhando para ela e alguns cochichavam. Isso aumentou ainda mais sua esperança e, em sua mente, ela ficava repetindo "Que seja Costia! Que seja Costia! Que seja Costia!".

Do outro lado do salão, Stela disse em voz alta:

- Ei, Trikru! Achávamos que você também tinha fugido! – e sorriu provocadora.

- Eu jamais fugiria! Se querem se livrar de mim, vão ter que me matar na arena!

Todos os nightblood se calaram, com exceção de Ashcar, que respondeu:

- Para mim, será um prazer! – e olhou fixamente nos olhos de Lexa, como uma fera pronta para atacar.

Lexa continuou olhando em volta, mas não viu Costia, e dentro dela crescia a certeza de que a garota de cabelos vermelhos havia fugido. Um grande alívio foi tomando conta dela e começou a sentir sua alma e sua mente leves, como se nada mais importasse, como se no dia seguinte ela não fosse enfrentar uma luta sangrenta até a morte com seus companheiros nightblood e, dentre eles, o terrível Ashcar.

Começou a se dirigir para um canto do salão, onde alguns nightblood estavam sentados em longos bancos de madeira. Precisava descansar um pouco e também precisava confirmar a informação. Mas não chegou a alcançar o banco quando sentiu alguém tocando seu ombro por trás. Ao se virar, deparou-se com um brilhante par de olhos azuis, que olhava para ela com uma expressão ingênua e suave.

Por alguns segundos, Lexa parecia não acreditar no que estava vendo. O que ela estava fazendo ali? Ela não poderia estar ali! Ela não deveria estar ali! Lexa piscou os olhos algumas vezes, como se quisesse fazer aquela imagem sumir de suas vistas. Mas não havia jeito, era mesmo Costia que estava ali em pé, bem na sua frente.

Lexa teve vontade de segurar a menina pelos ombros e sacudi-la, gritar com ela, mandá-la embora dali, dizer que ela era estúpida e ela é quem deveria ter fugido. Mas apenas ficou olhando atônita para Costia, como se visse um fantasma.

Presumindo os pensamentos de Lexa, Costia sorriu de leve e disse:

- Lexa... você achou que era eu quem tinha fugido, não é? Eu consigo ver isso nos seus olhos...

Lexa não respondeu nada e apenas abaixou a cabeça, um pouco envergonhada. Se ao menos Costia soubesse que não era uma questão de supor, e sim de desejar. E se ela também soubesse o porquê desse desejo...

E Costia ainda disse:

- Você acha mesmo que eu iria fugir? Por que eu faria isso? Não adianta... Você sabia que no Livro das Tradições, há uma lei que diz que se um nightblood fugir do Conclave, o próximo Heda pode mandar caçá-lo e matá-lo, onde quer que ele esteja? Não adianta nada fugir. Mas eu acho que Luna não sabia disso...

- Luna? Foi ela quem fugiu?

Lexa simpatizava com Luna. Era uma menina quieta e introspectiva, que em muitas coisas lembrava Costia. Mas os pensamentos dela foram cortados pela voz grossa e agressiva de Ashcar, que dizia para que todos ouvissem:

- Nós éramos dez e agora somos somente nove. Que pena! Uma a menos para eu derrubar na arena! – e riu asperamente – Mas não tem problema: assim que eu me tornar o próximo comandante, vou pessoalmente caçá-la e pendurar sua cabeça no poste mais alto da praça central. Ela não vai escapar de mim mais uma vez!

Mas ninguém respondeu nada, pois todos sabiam que não era uma boa ideia começar uma briga com Ashcar.

O Conclave seria no dia seguinte, e o clima que pairava no ambiente era estranho. Havia muitas emoções misturadas: a tristeza pela morte de Bethesda, a preocupação com a segurança dos nightblood, o mistério em torno dos rituais de purificação, e a tensão da batalha. Tudo isso deixava a todos com as expressões mais sérias e duras que de costume.

No final da tarde, após os rituais, Anya foi procurar Lexa em seu quarto. Ela trazia nas mãos um pequeno pote cheio de uma pasta escura. Entregou o pote a Lexa e disse:

- Tome. Isso é para você fazer uma pintura de guerra. É a pintura que você vai usar amanhã no Conclave e também em suas outras batalhas, caso você vença e se torne a próxima Heda.

Lexa segurou o pote e tocou a tinta com a ponta dos dedos. Anya continuou:

- Cada clã tem seus hábitos. Alguns fazem marcas no corpo, outros fazem tatuagens no rosto. Os guerreiros de Azgeda, por exemplo, fazem cicatrizes ao redor dos olhos. E nós, Trikru, fazemos uma máscara de guerra.

E virando-se para ir embora, Anya ainda completou:

- Escolha uma máscara que reflita quem você é... e boa sorte amanhã! Você tem todas as chances de vencer. Mebi oso na hit choda op nodotaim!

O olhar de Anya era uma mistura de orgulho e emoção. Lexa respirou fundo e respondeu:

- Mebi oso na hit choda op nodotaim!

Quando Anya saiu do quarto, Lexa ficou um bom tempo parada olhando para aquele pote de tinta e pensando nas palavras de sua mentora: "Escolha uma máscara que reflita quem você é".

"Quem sou eu?" – pensava Lexa olhando-se em um caco de espelho colocando em um canto do quarto. Lexa fechou os olhos e tentou visualizar o mais profundo de sua alma. Pensou em seus pais, que certamente estariam lá no dia seguinte. Pensou nas florestas e rios perto de sua aldeia natal. Pensou nos anos de treinamento com Anya. E pensou em Costia...

A menina então abriu os olhos e se mirou novamente no espelho. "Eu não posso deixar que ninguém perceba isso. Não posso deixar que ninguém perceba as minhas fraquezas: a saudade que sinto de minha terra e minha família... o desejo de dar orgulho para Anya e meu clã... Costia... Meus adversários não podem saber sobre meus medos..."

Então Lexa decidiu fazer uma larga faixa negra em cada olho, subindo pela lateral do rosto. "Esta vai ser a minha máscara! Vai ser como um escudo que irá bloquear os meus adversários e inimigos para que eles não enxerguem os meus medos."

Lexa pintou um e depois o outro olho e ficou se olhando no espelho. Com a pintura escura, seus olhos pareciam reluzir ainda mais um verde intenso. E imediatamente Lexa pensou no azul intenso dos olhos de Costia. "Olhos azuis como a cor do mar infinito...", pensou, lembrando-se das palavras da sibila.

E então o rosto de Costia fixou-se definitivamente nos pensamentos de Lexa. A garota lembrou-se da primeira vez em que vira Costia e a encarou diretamente em seus olhos azuis. Lembrou-se do sorriso meigo que ela dirigia a Lexa sempre que a encontrava. Depois, pensou também na chama de ousadia que emanava daqueles olhos quando menos se esperava. E lembrou-se do dia em que as duas se beijaram.

Fechou os olhos e conseguiu sentir novamente o toque suave dos lábios da garota nos seus, a língua que delicadamente buscava a sua, as mãos de Costia afagando suas costas e suas próprias mãos acariciando os cabelos vermelhos da menina, enquanto o mundo parecia desaparecer à sua volta.

Lexa lembrou-se nitidamente do gosto doce do beijo e de que, quando ele terminou, as duas se abraçaram com força e ficaram por muito tempo sem dizer uma só palavra, apenas sentindo seus corpos unidos naquele abraço, como se não quisessem nunca mais se separar. Ela conseguiu ainda lembrar-se do cheiro delicado de Costia, do calor de seu corpo e do movimento de sua respiração, tudo tão próximo de seu próprio corpo, que parecia que, por instantes, as duas eram como um único ser, respirando no mesmo compasso, o coração de uma batendo contra o peito da outra.

Então, Lexa abriu os olhos, fixou-se em sua própria imagem no espelho e disse:

- Eu não vou nunca mais sentir isso...

E, incontrolavelmente, lágrimas começaram a escorrer de seu rosto. Ela não queria chorar, não queria se permitir essa fraqueza, mas não podia refrear as lágrimas. Tentou respirar fundo e conter o choro, mas os olhos não obedeciam e as lágrimas desciam uma a uma, borrando a tinta de ambos os olhos e escorrendo pelo seu rosto.

Ainda olhando-se no espelho, Lexa viu o que as lágrimas haviam feito em sua pintura e pensou: "Esta sim é minha máscara verdadeira! É esta quem eu realmente sou. De hoje em diante, se eu vencer o Conclave, esta será para sempre a minha pintura de guerra: a lágrima negra..."