Alice
Ouch I have lost myself again
Lost myself and I am nowhere to be found,
Yeah I think that I might break
I've lost myself again and I feel unsafe
Be my friend
Hold me, wrap me up
Unfold me
I am small
I'm needy
Warm me up
And breathe me
(Breath me – Six Feet Under)
Ela passou os dedos de leve pelos gradeados das camas de ferro, as pontas tomando a coloração cinzenta de anos de pó, sem limpeza ou cuidados. Ela tinha estado ali antes... Tinha dormido numa daquelas camas. Tinha caminhado por entre aquelas paredes, observado o mundo através das janelas gradeadas, vivendo como prisioneira, provavelmente drogada para manter-se calma e obediente.
Fora ali que ela se perdera pela primeira vez... Perdera sua humanidade, suas memórias, toda sua existência anterior. E, mesmo caminhando por entre as sombras de seu passado, ainda era incapaz enxergar qualquer lembrança daqueles dias.
Não tinha certeza se isso era ou não algo bom. Ela perambulara pelas salas no subterrâneo do antigo sanatório. Vira as camas com amarras, os aparelhos de eletrochoque, as salas alcochoadas que serviam para os pacientes mais violentos. Lera os protocolos de atendimento aos pacientes. E sua ficha...
Mary Alice Brandon. Esse era seu nome. Alice, seu nome, aquilo fora tudo o que retivera de seu passado. Um passado de abandono, de tortura, um passado anestesiado, amargo. Diferente de tudo o que podia ter imaginado antes de saber.
Esse era o problema... ela era diferente. Ela fora diferente mesmo antes de se tornar o que era agora. Porque seus olhos eram capazes de ver mais que o presente, ela fora colocada numa camisa de força.
Alice parou diante de uma das salas onde uma cadeira de cabeleireiro pálida e meio rasgada se destacava em meio ao completo vazio que a cercava. Além do pó, podia ver cachos de cabelo soltos, presos a frestas, arestas quebradas dos ladrilhos brancos no chão. Não havia sequer um espelho – mas para que os loucos que tinham passado por aquela sala precisariam de um espelho? Para que precisariam de longos e bem cuidados cabelos, que ali só se tornariam quebradiços e sem vida, tão descuidados que serviriam apenas de ninhos para infestação de piolhos?
Ela sentiu um soluço sufocado no peito, e, por um momento, teve impressão de que as paredes se fechavam ao seu redor. Girando rapidamente nos calcanhares, ela correu, sem se preocupar com sua velocidade, os pés mal tocando o chão, todo seu corpo tremendo com soluços secos, com as lágrimas que era incapaz de derramar.
Aos poucos, ela conseguiu se dominar, lutando para respirar pausadamente, ainda que não precisasse de oxigênio. Mais contida, ela deslizou para seu lugar ao volante da Mercedes de Carlisle: ainda havia um último lugar para visitar.
Não demorou muito para que chegasse ao seu destino. O sol apenas começava a se fazer anunciar no horizonte; ela ainda tinha tempo. Sem se dar ao trabalho de abrir os portões, Alice simplesmente pulou os muros do cemitério, zigue-zagueando pelos canteiros floridos até um dos túmulos mais antigos e descuidados.
Seu túmulo.
Por alguns instantes, ela apenas observou a lápide já meio apagada, cercada de hera. Havia flores brancas nascendo das plantas parasitas que cercavam o gramado sobre a cova. Irônico. Parasitas, sim, sugando sua vida do adubo dos mortos. Mas, ainda assim, vida em meio à morte.
Alice se viu perguntando se haveria um corpo sob o túmulo. Se seus pais tinham colocado no caixão algum indigente ou se o tinham apenas enterrado vazio. A data na lápide coincidia com a de sua admissão no sanatório.
Ela morrera para eles no dia em que eles a tinham abandonado. De que valera, então, aquela busca por si mesma? De que valera desenterrar Mary Alice Brandon?
Com delicadeza, ela postou a palma da mão sobre a pedra fria – tão fria quanto sua própria pele. Sua busca, ao final das contas, viera terminar em um beco sem saída.
Levantando-se, ela ergueu os olhos dourados para o céu que se tingia de aurora. Um beco sem saída, talvez, mas não uma perda. Apesar dos pesares, ela agora sabia quem era.
Não Mary Alice Brandon, certamente. Quem quer que estivesse – ou não – sob os sete palmos de terra – podia manter essa identidade. Porque ela... ela era Alice Cullen.
E seria como uma Cullen que ela viveria o seu legado.
