Severo já estava sentado no Salão Principal quando Hermione entrou no dia seguinte para o café-da-manhã. A primeira coisa que ele notou nela foram os círculos escuros sob os seus olhos. Eles foram a primeira coisa que ele mesmo tinha notado no espelho mais cedo naquela manhã.
Alvo, sendo Alvo, havia manipulado os assentos de modo que o único lugar desocupado era ao lado de Severo. Hermione deslizou para o lugar vazio e falou tranqüilamente. "Capuccino". Quase instantaneamente, uma caneca fumegante estava à sua frente.
Severo estava exausto e mal-humorado. Inconscientemente, sua natureza sarcástica tomou conta. "Espero que vá comer alguma coisa, você está parecendo o inferno, Hermione." Ele sibilou quase a meia voz.
Ela virou seus olhos bem abertos na direção dele, "Perdoe-me, Severo; mas o que você está tomando de café-da-manhã?" Ela olhou diretamente para a xícara de café preto dele de modo acusador.
"Eu ia exatamente pedir alguma coisa, permita-me. Dois ovos fritos, bacon, torrada. Dois pedidos." Num piscar de olhos, pratos fumegantes estavam em frente a cada um deles.
Hermione lançou-lhe um olhar de desaprovação. "Se você não se importa, sou perfeitamente capaz de pedir meu próprio café-da-manhã. Muito obrigada! Panquecas, salsichas, batatas fritas, dois pedidos." Mais pratos carregados de comida apareceram em cima do primeiro pedido.
Severo ergueu uma sobrancelha e lançou-lhe um olhar mordaz. Ela tinha seu maxilar fixo, e parecia que não ia voltar atrás por um segundo. De repente, sua mão passou como um relâmpago na direção dele. Ele instintivamente esquivou-se do movimento dela, apenas para vê-la roubar um pedaço de bacon do seu prato. Um sorriso endiabrado estava no rosto dela.
"Satisfeito em ver que nós concordamos nisso." Ele disse asperamente, enquanto levantava seu garfo. Tinha encontrado seu apetite de repente.
O intercâmbio tinha passado largamente desapercebido pelo resto da mesa. Nada escapou ao Diretor, no entanto. "Hermione, acredito que você tenha sido instalada e que seus aposentos sejam de seu gosto."
Ela engoliu o pedaço de ovo em que estava trabalhando antes de lhe responder, "Sim, Alvo, eles são excelentes. Obrigada."
"Por que você desejaria mudar-se para baixo, para as frias e úmidas masmorras, está além da minha compreensão, Hermione." Poppy Pomfrey olhava de modo questionador para ela, aguardando uma explicação.
A mente de Hermione ainda estava procurando uma quando Alvo inclinou-se e cochichou alguma coisa na orelha da Medibruxa. Os olhos de Poppy dilataram-se e ela olhou rapidamente entre Severo e Hermione, antes de olhar de volta para seu prato, um rubor subindo pelas suas bochechas.
Hermione olhou para Severo e deu de ombros. Ambos perceberam que, enquanto a refeição avançava, os outros membros do quadro de funcionários estavam cochichando. Repentinamente, Severo e Hermione se sentiram como se estivessem à mostra. Todo mundo estava dando olhadelas rápidas para eles e distribuindo velozes ao redor sorrisos significativos. Apenas o que todo mundo sabia estava escapando ao Mestre de Poções e à professora de DCAT.
O pequeno grupo se rompeu e o quadro de funcionários começou a, um por um, deixar a mesa para começar o seu dia. Quando Alvo se levantou para sair, Severo o prendeu de volta à sua cadeira com um olhar grave. Logo, somente Alvo, Severo e Hermione restaram.
Quando a porta para o Grande Salão se fechou, Severo virou-se para o Diretor. "Apenas o quê, diga-me, eu suplico, você disse àquela bruxa fofoqueira?"
Alvo mordeu o sorriso que tentava escapar, "Bem, eu não podia muito simplesmente contar-lhe que havia alojado meus Comensais da Morte residentes nas masmorras, podia?? Não, acho que não. Apenas sugeri que o relacionamento entre vocês dois era mais pessoal do que profissional e que imaginava que vocês desejavam algum tempo reservado juntos."
Hermione gemeu e cobriu seu rosto com as mãos. A reação de Severo foi exatamente tão desanimadora quanto a dela. Ele resmungou para o Diretor num rugido, "Alvo, como pôde dizer isso a ela? Minha reputação com meus colegas não é exatamente imaculada sem somar 'caso com uma aluna' a ela."
Assim que as palavras estavam fora de sua boca, ele percebeu seu erro. Hermione voltou-se para ele e ele em parte esperava ver o sorriso afetado sombrio dele no rosto dela. Não, esta era a Hermione Grifinoriana; e a leoa estava furiosa. "Aluna? Você acabou de me chamar de aluna? Eu não sou sua aluna. E acredite-me, seu morcego crescido, você poderia fazer muito pior do que ter o quadro de funcionários pensando que você está dormindo COMIGO. Por outro lado, qualquer esperança para meus relacionamentos futuros está arruinada agora. Pelos deuses, a concubina de Severo Snape."
Os olhos dele se estreitaram com essa implicação. "Melhor Severo Snape do que Lúcio Malfoy, você não diria?", ele disparou sobre ela em um tom insolente.
Ela estava de pé e correndo para fora do salão antes que ele pudesse mesmo processar as palavras que voaram de sua boca. A porta batendo com força ecoou, parecendo reverberar pelo lugar para sempre.
Sulcos preocupados estavam gravados pela face de Alvo quando ele se voltou para Severo. "Pensei, Severo, que você fosse inteligente o bastante para saber que não pode mais provocá-la."
"Não estou acostumado a que ninguém se dirija dessa maneira a mim, particularmente não um colega", Severo procurava se defender. Mas sabia que Alvo estava certo.
"Não, você é quem trata inconsideravelmente os sentimentos de todas as outras pessoas. Seja do pessoal ou aluno, amigo, inimigo ou estranho. Ninguém nunca é tão importante quanto o grande Mestre de Poções. Sugiro que você reexamine sua atitude para com Hermione. Não é somente a sua vida que está em jogo se esse plano falhar. É a sua, a dela e a de todo mundo nessa escola. Acredito que seja prudente que eu não entre no plano nessa etapa da operação. Quando vocês dois tiverem concebido um plano para abater Voldemort, me informe de o que é necessário da minha parte." O bruxo mais velho se levantou para sair. "Conserte essa situação agora."
Severo se sentava sozinho no Grande Salão, incerto de como proceder. Ele preferiria experimentar Crucio por dias ininterruptamente a ter que provar (e lidar com) o estado emocional frágil de Hermione Granger imediatamente. A confusão dele também fez ele mesmo se sentir um pouquinho vulnerável.
Ele não podia adiar mais as coisas. Fez seu caminho subindo até a sala de aula de DCAT. Bateu à porta, incerto quanto a quem estava esperando atrás dela.
Quando não houve resposta, ele empurrou levemente a porta, abrindo-a, e observou atentamente por todos os cantos. Pôde ver Hermione Granger parada em frente à janela, de costas para ele. Ela tinha suas vestes embrulhadas apertadamente em torno de sua forma pequena, e parecia estar tremendo apesar das quentes temperaturas de agosto.
Ele inspirou profundamente e moveu-se de mansinho para dentro da sala. "Hermione?" Perguntou cautelosamente.
Ela girou em volta da janela. Ele podia ver agora os rastros que as lágrimas dela deixaram pelas suas bochechas. Apesar de sua óbvia perturbação, ela ergueu o queixo orgulhosamente. "Veio para se gabar, é?"
"Não, vim para me desculpar, mais uma vez. Sinto muito pelo comentário lá embaixo. Droga, sinto muito por toda a maldita manhã. Não estou acostumado a ter que trabalhar com alguém, e temo que meu temperamento não seja exatamente moldado para isso. Por favor, tentemos mais uma vez estabelecer algum tipo de campo de jogo razoável aqui."
Ela puxou uma cadeira próxima à janela, e se sentou sob a luz do sol que estava derramando-se para dentro. Ainda encolhia-se em suas vestes contra uma friagem inexistente, embora os tremores tivessem passado. Fez um gesto para que ele se sentasse.
Por um longo espaço de tempo, nenhum deles falou. A testa de Hermione se franzia e se desfranzia; sua boca abriu e fechou várias vezes. Ela parecia precisar dizer algo, mas não sabia como. Severo não a pressionou, apenas se sentou silenciosamente e esperou.
"Sei que estou bastante bagunçada já. Estou consciente das minhas ações. Sei que parece que estou me escondendo durante as coisas ruins, e talvez esteja; mas eu ainda vejo, escuto, sinto... Pelos deuses, até mesmo sinto o gosto de tudo o que está acontecendo. Ainda sou eu, embora não seja."
"Está ficando mais difícil, no entanto, toda vez. Mais difícil me tornar eu mesma de novo; mais difícil me controlar. Estou apavorada de pensar que um desses dias eu não serei capaz de retornar. Será apenas ela, e eu estarei presa na Sala de Poções para sempre."
Severo não tinha certeza quanto a se ela sabia exatamente o que estava acontecendo ou se ela sabia que ele sabia também. Era um alívio para ele poder falar agora, um tanto abertamente, sobre isso tudo. "Por que eu, Hermione, por que você me escolheu?"
Ela deu uma risadinha com a expressão dele. "Não se lisonjeie, Severo. Nunca me imaginei apaixonada por você nem nada. É só que, durante toda a escola, não importa o que estava acontecendo, sua aula estava sempre exatamente lá. Era uma constante; toda lição soava da mesma maneira, não importa qual o assunto. Você sempre era um desagradável filho da mãe, nunca nenhum tipo de oscilação de humor. As coisas eram sempre as mesmas, nunca oscilantes."
Ele deu um sorriso torto com essa descrição, "Não tinha idéia de que eu era tão enfadonho."
"Ah, não, Severo", ela se apressou em corrigir suas palavras. "Você nunca era enfadonho. Você era apenas só você mesmo. Forte, orgulhoso, dominador, inteligente e insensível. Mesmo depois que eu soube da sua outra vida, nunca pude imaginá-lo como sinceramente se importando com qualquer coisa. Você era sempre imutável."
Ela estava se inclinando para frente agora; olhando para ele, seu rosto cheio de esperança. Ele a provocou gentilmente, "Compreendo, Hermione. Obrigada por isso. É muito melhor para eu suportar do que uma Grifinoriana perdida de amor."
Ela rolou os olhos na direção do céu, "Como se..." Então caiu de volta ao seu assento num ataque de riso. Após um momento, percebeu que ele estava rindo junto com ela. Ela olhou para ele de maneira estranha, a testa franzindo novamente, "Não tenho certeza de alguma vez ter ouvido você rir antes. Não acho que alguma vez pensei que você fosse capaz."
"Posso garantir que, se você tentar partilhar a informação, ninguém acreditará em você."
Ela sorriu levemente com isso, "Não se preocupe, nós todos temos nossos segredinhos sujos."
Ambos pareciam embaraçados novamente, incapazes de prosseguir. Severo tinha tantas perguntas que precisavam ser respondidas, mas estava com medo de que, se a pressionasse, ela se retraísse. Antes que ele pudesse apresentar outra pergunta, ela falou abertamente.
"Eu quis dizer o que disse na noite passada. Sobre isso não ser nada pessoal. Não o será. Você não tem participado das bacanais por um tempo, então não sabe como isso é para mim. Sim, todo mundo tem medo de mim. Eu afirmei meus poderes. Todo mundo menos Lúcio e Voldemort, quero dizer. Para eles, sou quase um bicho de estimação. Lúcio me considera sua puta particular, para distribuir meus favores conforme ele acha conveniente. Ele realmente alcança suas alegriazinhas algumas vezes em assistir a mim atuando com outros homens. Voldemort acha muito divertido colocar os outros Comensais contra mim, para testar suas forças. Quanto mais sangrento, melhor. Pelo menos, tenho sido capaz de reduzir as fileiras um pouquinho durante esses combates arranjados."
Os olhos perturbados dela encontraram os dele, "Não sei se ou quando um desses bastardos achará conveniente me atirar junto a você, ou como puta ou como oponente. Você e eu faremos o que tivermos que fazer. Não o julgarei responsável por qualquer coisa que fizer comigo."
"Nem eu a considerarei responsável por nada", ele lhe respondeu com os olhos tanto quanto com suas palavras.
Ela parecia satisfeita com essa resposta. Mais uma vez, o silêncio preencheu o lugar. Era um silêncio menos embaraçoso, no entanto. Mais aquele de duas pessoas desfrutando a companhia uma da outra, não apenas desfrutando um espaço comum.
"Quando começamos a planejar?", ele perguntou de maneira bastante simples.
Ela se sobressaltou com o som da voz dele e ele notou a margem assustada que seus olhos assumiram. Ela começou a lutar consigo mesma; ele podia ver isso agora. Ela brigava por controle. Finalmente, Hermione venceu. "Agora não, nós conversaremos mais tarde, nas masmorras. Após o jantar. Está bem pra você? Tenho muito trabalho a fazer aqui, e a manhã já foi fatigante."
Ele se levantou para sair. Falou na voz baixa e tranqüilizadora à qual Hermione respondia, "Está bem, Hermione. Você faz seu trabalho e quando estiver pronta, nós conversamos."
Fez seu caminho até a porta, ela seguindo bem atrás. Virou-se e olhou para baixo na direção dela. Reprimiu o impulso de estender a mão e tocar sua bochecha. "Não preciso vê-la esquivar-se de mim outra vez." "Vejo você no almoço, Hermione."
"Sim, Severo."
Não pôde deixar de notar que, assim que a porta se fechou, ele ouviu o som de ela sendo trancada e protegida. Por algum motivo, isso o perturbou, embora ele não pudesse bem entender por quê.
Fez seu caminho até a masmorra. Também tinha preparações a fazer antes do começo das aulas. "Poderia começá-las agora."
Ele trabalhou a manhã inteira nas masmorras. Ficou levemente preocupado por ela não ter aparecido no almoço e, posteriormente, fez seu caminho até às cozinhas. Os elfos domésticos lhe informaram que ela havia pedido que uma bandeja fosse levada à sua sala de aula.
Isso o apaziguou um pouquinho e ele fez seu caminho de volta aos seus quartos.
Mais tarde nesse dia, antes da refeição da noite, ele estava sentado nos seus aposentos particulares, lendo a última 'Poções Mensal' quando ouviu o som de alguém tentando entrar nos seus quartos. Ouviu uma voz chamá-lo em voz alta, "Abra a maldita porta, Snape."
Com um movimento rápido de sua varinha, ele liberou as proteções. Hermione Granger entrou no lugar com passos largos. Ela usava jeans pretos e uma blusa justa preta de abotoar. Somente os dois últimos botões estavam fechados. Ela não esperou por nenhum convite, apenas entrou e se lançou sobre uma cadeira. Uma perna comprida se pendurou sobre o braço da cadeira.
Ela o observou desconfiadamente, de cima a baixo, antes de falar. "Pensei que você fosse reajustar as proteções para me reconhecerem."
Ele lutou para impedir que seu rosto mostrasse algo do choque que a sua mente estava registrando. "Pensei que tivesse, mas obviamente algo deu errado. Se eu puder?", ele gesticulou para a sua varinha.
Ela acenou com a cabeça, concordando. "Apenas não faça asneira de novo."
Ele apontou sua varinha na direção dela e depois na direção da sua porta, murmurando os feitiços. Havia reajustado as proteções na noite anterior, para reconhecerem Hermione Granger.
A mulher sentada na sua cadeira de couro se espreguiçou languidamente, arqueando as costas.
Essa NÃO era Hermione Granger.
