CAPÍTULO III
Quando muitas idéias a respeito de cenas e de pessoas preenchiam sua mente, Rin era capaz de trabalhar até seus dedos começarem a doer e se recusarem a segurar adequadamente o lápis ou a caneta.
Nos dias em que isso acontecia, geralmente alimentava-se apenas com biscoitos e bebidas diet, por gostar de ter a sensação de que estava equilibrando as calorias em relação aos dias em que havia abusado delas.
No papel, a cada tira cômica, Emily e sua amiga Cari, que durante os últimos anos vinha apresentando muitas características da personalidade de Sango, planejavam e arquitetavam mil maneiras de descobrir os segredos do sr. Misterioso. Iria chamá-lo de "Quinn", mas não por muitos episódios.
Durante três dias, Rin mal saiu da mesa de desenho. Sango tinha uma cópia da chave de seu apartamento, por isso não era necessário ficar se preocupando em atender à porta quando a amiga aparecia para uma visita. E Sango nunca fazia cerimônia para abrir a porta para a sra. Kaede, ou para algum outro vizinho que decidia visitar Rin.
De fato, em um dado momento da terceira noite, havia tantas pessoas no apartamento de Rin que foi possível fazer até uma festinha informal, enquanto ela terminava de colorir a tira cômica que sairia no jornal de domingo.
Alguém havia ligado o aparelho de som, mas a música não a distraiu. Os risos e a conversação chegavam até seus ouvidos, vindos do andar de baixo, mas ela não se importava com isso. Gostava da animação de seus vizinhos, mesmo quando não podia compartilhá-la.
Sentiu um delicioso aroma de pipoca e imaginou se alguém levaria um pouco para ela. Encostando-se na cadeira, examinou o que já estava pronto em seu trabalho. De fato, não tinha a veia irônica de seu pai nem a genialidade artística de sua mãe, mas tinha o que poderia ser considerado como um "talento inusitado".
Tinha a mão muito ágil e precisa para o desenho. Sim, gostava do que fazia e do resultado final de seu trabalho. Mas gostava principalmente do fato de ele fazer as pessoas rirem.
Se o sr. Taisho, do 3B, achava que ela ficara ofendida com o comentário dele, estava muito enganado. Rin estava mais do que contente com seu "talento inusitado para o absurdo".
Agitada pelo êxito de três dias de trabalho intenso, pegou o telefone assim que este começou a tocar.
- Alô?
- Ora, ora, se não é minha neta preferida.
- Vovô! - Rin se encostou na cadeira, com um sorriso satisfeito.
- Eu estava morrendo de saudade, mas não me venha com essa história de "neta preferida", porque eu sei que você diz isso para todos.
Tecnicamente, Hiroshi Mizuki não era avô de Rin, mas isso nunca a havia impedido de considerá-lo como tal. Para ela, o amor ignorava tecnicidades.
- "Morrendo de saudade"? - Hiroshi repetiu. - Então por que não me telefonou ou para sua avó? Você sabe quanto ela se preocupa com você, aí sozinha, nessa cidade imensa.
- Sozinha? - Com um sorriso, ela segurou o telefone no alto, para que o som da festa no andar de baixo de seu apartamento pudesse ser ouvido por seu avô. –
Parece mesmo que estou sozinha, vovô?
- Está com seu apartamento cheio de pessoas de novo?
- É o que parece. E vocês, como estão? Está tudo bem por aí? Quero saber tudo.
Os dois passaram a conversar a respeito da família. Rin ouvia tudo com um brilho de divertimento no olhar, rindo e fazendo seus próprios comentários de vez em quando. Ficou contente ao saber que havia uma reunião familiar marcada para dali a algumas semanas.
- Que bom! Mal posso esperar para ver todos novamente. Parece que faz tanto tempo que nos vimos, desde o casamento de Inuyasha e Kagome, no último outono. Estou morrendo de saudade de vocês.
- Ora, então por que esperar até a reunião de família? Você sabe que estamos aqui o tempo todo.
- Talvez eu faça uma surpresa a vocês.
- Pois telefonei para fazer uma a você - declarou Hiroshi, com seu costumeiro tom firme mas bem-humorado. - Aposto que ainda não sabe que nossa Kagome está esperando um bebê. Teremos mais uma caixinha de presente sob nossa árvore no próximo Natal.
- Oh, vovô, isso é maravilhoso! Vou telefonar para eles ainda hoje. E com Shippo e Naoki prestes a ter o deles nos próximos dias, teremos uma porção de bebês para mimar nesse Natal.
- Para alguém que gosta tanto de bebês, deveria estar preocupada em ter um também - insinuou Hiroshi.
O velho tema, mais do que conhecido por Rin, fez com que ela começasse a rir.
- Meus primos já estão cuidando disso muito bem, vovô.
- Ah, se estão! - concordou ele. - Mas isso não a livra de sua incumbência, mocinha. Você pode até ser uma Campbell de nascimento, mas carrega a chama do amor dos Mizuki no coração.
- Bem, em último caso, ainda me resta a chance de jogar tudo para o alto e me casar com Kohaku.
- Aquele sujeito com boca de peixe?
- Não, vovô. - Ela riu.
- Ele só beija como um peixe. De qualquer maneira, sim, é ele mesmo. Poderíamos dar algumas "trutinhas" como netos para você.
Hiroshi fungou, impaciente.
- Você precisa é de um homem, não de uma truta vestida com um terno italiano. Um homem com mais interesses na mente do que apenas dólares e investimentos. Alguém que entenda de arte e que tenha juízo suficiente para mantê-la longe de problemas.
- Sei me manter longe de problemas - lembrou Rin, achando melhor não mencionar o incidente daquela fatídica noite.
- Além disso, vovó não iria gostar que eu o roubasse dela, portanto, terei de me conformar em continuar sozinha, aqui, nesta imensa cidade.
Hiroshi riu alto, do outro lado da linha.
- Com todos os homens que existem em Tókio, não é possível que não acabe encontrando um que lhe sirva. Você sai para passear de vez em quando, não sai? Não acredito que passe o dia inteiro sentada aí, desenhando seus papéis engraçados.
- Tenho feito isso apenas ultimamente, porque tive uma ótima idéia e precisei aproveitá-la logo. Estou com um vizinho novo, vovô. Ele é meio taciturno e reservado. Bem, digamos que ele é "certinho" demais e que detesta que invadam o espaço dele. Acho que ele está desempregado, embora toque sax de vez em quando em um clube aqui perto. É simplesmente o vizinho perfeito para Emily.
- Só isso?
- Bem, ele passa o dia inteiro fechado no apartamento e não fala com ninguém. O nome dele é Taisho.
- Mas se ele não fala com ninguém, como sabe o nome dele?
- Vovô. - Rin sorriu com ar travesso.
- Alguma vez já me viu desistir de falar com alguém quando decido fazer isso? Não que ele seja do tipo que se solta depois de alguns biscoitos de chocolate, mas, mesmo assim, consegui descobrir o nome dele.
- E o que achou dele? - indagou Hiroshi, fingindo um tom casual.
- Ele parece muito, muito incrível. Capaz de deixar Emily maluquinha.
- É mesmo? - Hirosho riu com satisfação.
Quando conseguiu saber tudo o que precisava da neta, Hiroshi fez a ligação seguinte. Cantarolando baixinho e examinando as unhas, lustrou-as sobre a camisa e sorriu quando Sesshoumaru atendeu ao telefone com um impaciente:
- Sim, o que é?
- Ah, essa sua natureza dócil sempre me deixa surpreso, Taisho. Chega até a me comover.
- Sr. Mizuki?
Sesshoumaru se ajeitou na cadeira no mesmo instante. Não havia como confundir aquele sotaque escocês. Mudando subitamente de humor, riu e afastou-se do computador.
- Isso mesmo, meu rapaz. Como está se saindo no apartamento?
- Muito bem. Quero lhe agradecer mais uma vez por me deixar usá-lo enquanto minha casa continua naquela infinita reforma. Eu nunca conseguiria trabalhar com todo aquele barulho. - Dizendo isso, lançou um olhar de censura para a parede, enquanto o barulho do outro apartamento lhe chegava aos ouvidos.
- Não que a coisa esteja muito diferente por aqui esta noite. Minha vizinha parece estar comemorando alguma coisa.
- Rin? Ela é minha neta, sabia? Uma garota muito sociável.
- Até demais - falou Sesshoumaru, quase em um resmungo.
- Não imaginei que ela fosse sua neta.
-Bem, apenas informalmente. Precisa se soltar um pouco, rapaz, e ir participar da festa.
- Não, muito obrigado. - Ele preferiria saltar de pára-quedas, sem pára-quedas.
- Acho que metade da população do bairro deve estar lá nesse momento. Este seu prédio, sr. Mizuki, está cheio de pessoas que preferem mais falar do que viver. E sua neta parece ser a líder da "gangue de tagarelas".
Hiroshi riu. Admirava a sinceridade de Sesshoumaru Taisho.
- Ela gosta apenas de ser amigável com todos - disse, em defesa da neta.
- De qualquer modo, fico mais tranqüilo em saber que você está morando no apartamento em frente ao dela. Você é um rapaz sensível, Sesshoumaru. Por isso não me importo em pedir que você fique de olho nela. Rin é muito ingênua às vezes, se é que entende o que eu quero dizer. Eu me preocupo com ela.
Sesshoumaru riu, lembrando-se de quando a vira acertar uma boa joelhada nas "partes baixas" do bandido que tentara atacá-la.
- Eu não me preocuparia se fosse o senhor. Pode acreditar.
- Bem, não vou mesmo me preocupar sabendo que você está por perto. Minha Rin... Ela é uma gracinha, não é?
- Linda como uma flor - anuiu Sesshoumaru.
- E inteligente. Também é responsável, embora às vezes pareça levar a vida feito uma borboleta esvoaçante. Ora, mas também não é possível ser um iceberg e conseguir produzir uma tira cômica por dia para um jornal, não é mesmo? Só tendo muito senso de humor, e isso é o que não falta à minha Rin.
- Sem dúvida, sr. Mizuki.
- Para trabalhar nesse tipo de coisa - continuou Hiroshi -, é preciso ser criativa, ter uma boa veia artística e ser prática o suficiente para encontrar temas nas situações do dia-a-dia. Mas você sabe de tudo isso melhor do que ninguém, certo? Escrever roteiros de teatro também não é um trabalho fácil.
- Não mesmo - concordou Sesshoumaru, massageando os olhos cansados depois de horas diante do computador.
- Mas você tem o dom, meu rapaz. Um dom raro que eu admiro muito.
- Esse dom tem sido mais como uma maldição para mim ultimamente, sr. Mizuki, mas obrigado pelo elogio mesmo assim.
- Precisa sair um pouco, arejar a mente, beijar uma bela garota... Não que eu entenda muito do processo de escrever, embora tenha dois netos que se dedicam a isso, e muito bem por sinal. Deveria aproveitar mais o fato de estar aí, em Tókio, antes de voltar para sua cidade e se fechar em sua casa.
- Talvez eu ainda faça isso.
- Oh, sr. Mizuki? Poderia me fazer o favor de não mencionar a Rin que eu lhe pedi para ficar de olho nela? Ela não gosta muito de superproteção. Mas é que a avó dela vive preocupada com aquela menina e, você sabe como é, na idade em que estamos não é bom facilitar...
- Pode ficar tranqüilo, sr. Mizuki. Não direi nada a ela - Sesshoumaru prometeu.
Ciente de que aquele barulho não o deixaria mesmo trabalhar, Sesshoumaru saiu do apartamento. Tocou no clube de Sara, mas, dessa vez, nem mesmo a música o distraiu dos pensamentos que andavam rondando sua mente.
De onde estava, sobre o palco, não era difícil imaginar Rin sentada no fundo do salão, com o queixo apoiado sobre a mão, os lábios curvados em um sorriso e um brilho sonhador no olhar. De fato, ela conseguira invadir um de seus bens mais preciosos: a música. E ele estava se sentindo profundamente irritado com isso.
O Delta era um de seus refúgios. Havia noites em que ele viajava de carro de Quioto até Tóquio só para subir no palco com Jaken e tocar até que toda sua tensão desaparecesse por meio da música.
Então voltava para casa ou, se já. fosse muito tarde, apenas se acomodava em um sofá no fundo do Delta e dormia até a manhã. Ninguém o aborrecia no clube ou esperava que ele desse mais do que queria dar.
Mas depois que Rin estivera ali, seu olhar insistia em se voltar para a mesa que ela havia ocupado, enquanto ele se flagrava imaginando se ela não estaria ali, observando-o com aqueles olhos de pantera.
- Rapaz - disse Jaken, tomando um gole de água da garrafa deixada ao lado do piano -, você está mesmo esquisito esta noite.
- Sim, acho que sim.
- Geralmente, quando um homem fica com essa expressão, é porque há alguma mulher envolvida na história.
Sesshoumaru balançou a cabeça, negando o fato mais para si mesmo do que para o amigo.
- Não, não há nenhuma mulher. Estou preocupado com o trabalho.
Jaken se limitou a dar de ombros enquanto Sesshoumaru levava o sax novamente aos lábios. - Se é o que você diz...
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Sesshoumaru chegou em casa às três horas da manhã, preparado para bater à porta do apartamento de Rin e exigir silêncio. Por isso, foi um alívio chegar e descobrir que a festa havia terminado. Não se ouvia nenhum ruído vindo do apartamento dela.
Entrou em casa, trancou a porta e prometeu a si mesmo que aproveitaria ao máximo aquele momento de paz. Depois de preparar um café forte, acomodou se novamente diante do computador, preparando-se para entrar na mente das personagens que estavam arruinando suas próprias vidas por não conseguirem seguir os impulsos de seus corações.
O sol já estava alto quando ele parou de trabalhar, depois que o súbito surto de energia criativa que se apoderara de sua mente finalmente se desvaneceu. Concluiu que aquele fora o primeiro trabalho mais consistente que ele conseguira realizar na última semana, e decidiu comemorar isso caindo sobre a cama com a mesma roupa com que estava vestido.
Não demorou muito para começar a sonhar. Um belo rosto com expressivos olhos chocolates se apoderou da maioria das imagens que surgiram em meio a seu estado onírico. E juntamente com ele, uma voz insistente que parecia não parar mais de falar.
Por que tudo tem de ser tão sério?, ela perguntou, rindo ao deslizar a mão sobre o peito dele.
Porque a vida é um negócio sério.
Mas esse é apenas um dos lados da moeda. E há muitas e muitas moedas em nossa vida. Não vai dançar comigo?
Ele já estava dançando. Estavam no Delta, e embora o clube estivesse vazio, havia música no ar. Uma música suave e sensual.
Não vou ficar de olho em você. Não conseguirei fazer isso.
Mas você já está.
Sesshoumaru apoiava o queixo no alto da cabeça dela. Quando ela inclinou a cabeça para trás e mordiscou-lhe o queixo com sensualidade, ele sentiu um arrepio pelo corpo.
Ficar de olho em mim não é tudo que você quer fazer comigo, não é?
Eu não quero você.
Ouviu-se uma risada leve como o ar.
Acha que adianta negar isso até mesmo em seus sonhos? Pode fazer o que quiser comigo em seus sonhos. Não fará diferença.
Eu não quero você, ele repetiu, já deitando-se com ela sobre o chão.
Sesshoumaru acordou ofegante e suando, enrolado entre os lençóis. Depois de alguns segundos, quando sua mente finalmente começou a clarear, não conteve o riso.
Rin era mesmo uma ameaça, concluiu. De fato, a única coisa que parecera mais sensata em seu sonho erótico fora o detalhe de ele repetir que não a queria.
Depois de passar as mãos pelo rosto, olhou para o relógio ainda em seu pulso. Já passava das quatro horas da tarde, e foi somente então que ele se deu conta de que aquela fora a primeira vez que ele conseguiria dormir por oito horas na última semana. Que culpa tinha ele, se seu relógio biológico andava meio maluco?
Ao chegar à cozinha, notou que teria de descer e comprar algo para comer. Tomou um banho e se barbeou pela primeira vez, depois de três ou quatro dias sem fazê-lo.
Pensou em comer algo fora, para ter uma refeição decente. Quem sabe assim teria mais ânimo de enfrentar o horror de ter de fazer compras e ver todas aquelas pessoas armazenando carrinhos e mais carrinhos de comida no mercado.
Já vestido e sentindo-se mais bem-disposto, abriu a porta.
Rin abaixou a mão que havia acabado de levantar para tocar a campainha.
- Graças a Deus que você está em casa.
Sesshoumaru não conseguiu deixar de se lembrar do sonho que tivera havia poucas horas.
- O que foi?
- Você precisa me fazer um favor.
- Não, não preciso não.
- Mas é uma emergência! - Ela o segurou pelos braços antes que ele pudesse se afastar. - E uma questão de vida ou morte! A minha vida e muito provavelmente a morte de Hakudoshi, sobrinho da sra. Kaede. Sim, porque um de nós vai morrer se eu tiver de sair com ele! Foi por isso que eu disse a ela que já tinha um encontro esta noite.
- E você acha que eu tenho algo a ver com isso porque...
- Oh, não seja ranzinza justo agora, Taisho. Não está vendo que sou uma mulher desesperada?! Ouça, ela não me deu tempo de pensar, e eu sou péssima com mentiras. Quero dizer, não minto com muita freqüência, por isso não consigo mentir direito. Ela ficou insistindo em perguntar com quem eu ia sair, e eu não consegui pensar em ninguém mais a não ser você.
Rin continuou de pé bem diante dele, impedindo-o de sair. Sesshoumaru respirou fundo, tentando se manter paciente.
- Vamos deixar uma coisa bem clara, está bem? - disse a ela. - Isso não é problema meu.
- Não, eu sei que é meu. E com certeza teria inventado uma coisa melhor se ela não houvesse me pegado de surpresa, enquanto eu estava trabalhando e pensando em outra coisa. - Desesperada, Rin passou a mão pelos cabelos.
- Ela vai ficar me vigiando, entende? Vai querer se certificar de que eu vou mesmo sair com alguém.
Dizendo isso, começou a andar de um lado para outro massageando as têmporas, como que para estimular os pensamentos. Sesshoumaru aproveitou o momento de distração de Rin e começou a seguir em frente pelo corredor.
- Ouça, tudo que terá de fazer será me acompanhar para fora do prédio fingindo ser alguém que está interessado em mim - falou ela, atrás de Sesshoumaru.
- Poderemos tomar um café, ou algo do gênero, e passar algumas horas fora antes de voltarmos. Sim, porque ela também vai saber se não voltarmos juntos. Aquela mulher sabe de tudo! Prometo que lhe pagarei cem por isso.
Ouvir aquilo o fez parar de repente.
- Quer me pagar para que eu saia com você?
- Não é bem assim, mas é quase - admitiu Rin. - Sei que o dinheiro lhe será útil, e acho justo compensá-lo pelo tempo que você vai gastar. Cem dólares, Taisho, por algumas horas. Ah, e eu pagarei o café.
Sesshoumaru se encostou na parede e ficou observando-a. A idéia parecia tão absurda que chegava a ser cômica.
- Nem um pedaço de torta? - perguntou a ela. A risada de Rin foi de puro alívio. - Torta? Você quer torta? Pois terá sua torta.
- Onde está ele? - indagou Sesshoumaru, olhando para o bolso dela.
- Ele? Ah... o dinheiro? Espere um pouco aqui.
Rin entrou no apartamento e Sesshoumaru pôde ouvi-la andando de um lado para outro, abrindo e fechando gavetas e armários.
- Deixe-me apenas me arrumar um pouco - disse ela, lá de dentro.
- O cronômetro está correndo, garota.
- Tudo bem, tudo bem. Onde diabos está minha... A-ha! Dois minutos, só dois minutos. Não quero que ela fique dizendo por aí que saio com rapazes sem nem mesmo passar batom.
Sesshoumaru teve de admitir: quando ela dizia dois minutos realmente eram dois minutos. Quando voltou, dois minutos depois, estava usando um par de sandálias de salto alto, batom cor-de-rosa e um par de brincos de argola. Segundo ele pôde notar, quando ela lhe entregou o dinheiro, os brincos continuavam não combinando. Devia ser uma questão de preferência mesmo, concluiu ele. Uma "inusitada preferência pelo absurdo".
- Ficarei muito agradecida por isso - disse Rin.
- Sei que a situação deve estar parecendo ridícula, mas é que não tenho coragem de magoá-la.
- Se os sentimentos da mulher valem uma nota de cem para você, tudo bem. - Sesshoumaru deu de ombros.
- E melhor para mim - acrescentou, guardando o dinheiro no bolso de trás da calça. - Agora vamos. Estou faminto.
- Oh, quer jantar? Também posso lhe pagar um jantar. Há um restaurante ótimo no final da rua, onde eles servem massas deliciosas. Tudo bem, vamos começar o teatrinho agora - avisou ela, enquanto se encaminhavam para a saída do prédio.
- Finja que não sabe que está sendo observado por ela. Aja naturalmente e segure minha mão, está bem?
- Por quê?
- Ah, pelo amor de Deus, Taisho! - respondeu ela por entre os dentes, entrelaçando os dedos com firmeza entre os dele e sorrindo com ar sonhador. - Estamos saindo para um encontro, lembra-se? Nosso primeiro encontro. Faça um esforço e finja que está se divertindo.
- Mas você só me deu cem dólares.
A ironia fez Rin dar uma gargalhada.
- Puxa, você é mesmo "durão", 3B. Vamos saborear uma refeição quente e ver se isso melhora seu humor.
De fato, melhorou e muito. Seria preciso ser um sujeito muito mais mal-humorado do que ele para conseguir resistir ao apelo de uma enorme travessa cheia de espaguete com almôndegas, aliada à esfuziante companhia de Rin.
- Maravilhoso, não é mesmo?! - falou ela, gostando de vê-lo saborear o prato com tanta empolgação.
Provavelmente o coitado não tinha uma refeição decente havia semanas, pensou ela, lembrando-se do apartamento vazio. Talvez ele estivesse mesmo com dificuldades financeiras.
- Sempre como demais quando venho aqui - confessou. - Eles servem uma porção suficiente para meia dúzia de adolescentes famintos, mas acho que é isso que dá um certo charme ao lugar. Toda essa fartura. Depois, termino sempre levando para casa. o que sobrou e comendo demais também no dia seguinte. Mas dessa vez poderá me salvar levando um pouco para sua casa - acrescentou ela, com um sorriso.
- Negócio fechado - respondeu Sesshoumaru, tocando a taça de Chianti na dela.
- Sabe de uma coisa? Aposto que há dezenas de clubes noturnos na cidade que se mostrariam mais do que interessados em contratá-lo.
- Hum?
- Para tocar sax.
Rin sorriu novamente para ele, que não resistiu ao impulso de observar aqueles lábios polpudos e convidativos.
- Você é muito bom no que faz - continuou ela. - Aposto que conseguirá arranjar um bom emprego logo, logo.
Divertindo-se com o comentário, Sesshoumaru levantou a taça novamente, sugerindo outro brinde. Então a srta. Rin Mizuka pensava que ele era um músico desempregado? Bem, melhor assim.
- As oportunidades vêm e vão - foi tudo que Sesshoumaru falou.
- Você toca em festas particulares? - Subitamente animada, ela se inclinou sobre a mesa. - Conheço uma porção de pessoas, e há sempre alguém oferecendo uma festa.
- Imagino que isso seja mesmo muito comum no seu círculo social - ironizou Sesshoumaru.
- Posso divulgar seu nome, se quiser. Importa-se de viajar?
- E para onde eu iria?
- Alguns dos meus parentes são donos de hotéis - explicou Rin. - Nagoa não fica muito longe daqui. Acho que você não tem carro, certo?
Sesshoumaru conteve a vontade de rir, lembrando-se de seu Porsche "novinho em folha" guardado em uma garagem da cidade.
- Não aqui comigo - foi sua resposta.
Rin sorriu, mordiscando um pedaço de pão.
- Bem, de qualquer maneira, não é difícil se deslocar de Tóquio para Nagoa.
Por mais divertido que aquilo estivesse sendo, Sesshoumaru achou melhor amenizar um pouco as coisas.
- Rin, não preciso de alguém para administrar minha vida.
Ela fez uma careta.
- Eu sei. Esse é um dos maus hábitos dos quais não consigo me livrar. - Sem parecer ofendida, ela partiu o pedaço de pão em dois e ofereceu um a ele.
- Eu me envolvo demais com as coisas - admitiu.
- Depois fico aborrecida quando as outras pessoas se metem na minha vida. Como a sra. Kaede, atual presidente do partido "Vamos Encontrar um Pretendente para Rin". Isso me deixa furiosa.
- Porque você não quer um pretendente - afirmou Sesshoumaru.
- Oh, sei que encontrarei um no devido tempo. Vir de uma família grande meio que nos predispõe... A mim, pelo menos... A querer ter uma também. Mas ainda há muito tempo para isso. Gosto de morar na cidade grande e de fazer aquilo que quero quando eu quero. Detestaria ter de me submeter a horários rígidos, o que, definitivamente, não combina com meu trabalho de criação. Não que o meu trabalho não exija um certo tipo de disciplina, mas sou eu quem a faz, do meu jeito. Como acontece com sua música, imagino eu.
- Creio que sim - anuiu Sesshoumaru.
O trabalho dele raramente se tornava um prazer, como o dela parecia ser. Mas sua música, sem dúvida, era feita por prazer.
- Ei, Taisho - começou ela, com outro de seus sorrisos marotos -, quantas vezes você realmente já se soltou e respondeu a uma pergunta com mais do que três frases curtas em uma mesma conversa?
Sesshoumaru comeu o último pedaço de almôndega de seu prato e olhou para ela.
- Gosto do mês de novembro. Geralmente, falo muito mais em novembro. É o tipo de mês de transitoriedade que faz com que eu me sinta mais filosófico.
- Três de uma única tacada - brincou ela. - E todas inteligentes. - Sorriu para ele.
- Você tem um senso de humor escondido em algum lugar, não tem? - Antes que ele pudesse responder, ela se recostou na cadeira com um suspiro e perguntou:
- Quer sobremesa?
- Claro que sim - respondeu Sesshoumaru, como se aquela fosse a resposta mais óbvia.
Rin sorriu.
- Tudo bem, mas não peça o tiramisu, porque serei forçada a lhe implorar um pedaço, depois dois e então terminarei comendo metade dele e provavelmente entrarei em coma.
Sem desviar os olhos dos dela, Sesshoumaru fez um sinal para o garçom, com a autoridade casual de um homem acostumado a dar ordens. Aquilo fez Rin franzir o cenho.
- Tiramisu - pediu ele, sem hesitar. - E dois garfos - acrescentou, fazendo Rin rir alto. - Talvez entrando em coma, você fale menos.
- Acho que nem assim - salientou ela, ainda rindo. - Falo até dormindo, sabia? Minha irmã costumava ameaçar pôr um travesseiro na minha cabeça.
- Acho que eu iria gostar de sua irmã.
- Abbe é maravilhosa. Provavelmente o seu tipo também. Contida, sofisticada e inteligente. Ela dirige uma galeria de arte em Portsmith.
Sesshoumaru notou que estavam quase terminando de tomar a garrafa de vinho. O Chianti era mesmo muito bom, e provavelmente estava sendo a causa de ele se sentir tão relaxado. De fato, não se sentia assim havia semanas. Ou meses. Talvez anos.
- Então vai me apresentar a ela?
- Acho que ela iria gostar de você - considerou Rin, observando-o por sobre a borda da taça e apreciando a sensação de leveza que a bebida lhe dera.
- Você é bonito de uma maneira meio... Como posso dizer... Meio selvagem, acho. Além disso, toca um instrumento musical, o que apelaria para o lado de Abbe que é sensível às artes.
E é auto-suficiente demais para tratá-la como alguém da realeza. Muitos homens fazem isso.
- E mesmo? - Sesshoumaru se surpreendeu.
- Ela é tão linda que eles não conseguem deixar de agir assim. Abbe detesta esse tipo de atitude, por isso acaba sempre tendo de dispensá-los. Provavelmente terminaria arrasando seu coração - completou Rin, fazendo um gesto com o copo.
- Mas a experiência seria boa para você.
- Não tenho coração - declarou ele, quando o garçom chegou com a sobremesa. - Pensei que já houvesse deduzido isso.
- Claro que tem. - Com um suspiro de rendição, Rin pegou o garfo e provou a primeira porção do doce, com um gemido de prazer. - Só que você o mantém guardado dentro de uma armadura, para que ninguém possa feri-lo novamente - finalizou ela. - Deus, não é maravilhoso? Não deixe que eu coma mais do que esse outro pedaço, está bem?
Sesshoumaru continuou a observá-la, aturdido com a precisão com que Rin tão casualmente o descrevera, sendo que nem mesmo aqueles que diziam amá-lo haviam chegado tão perto.
- Por que disse isso?
- Isso o quê? Eu não lhe disse para não me deixar comer mais disso? Está querendo me matar?
- Esqueça. - Decidindo deixar o assunto de lado, Sesshoumaru afastou o prato do alcance dela. - O restante é meu - disse e começou a comer.
Felizmente, teve de ameaçar dar uma garfada na mão de Rin apenas uma vez.
- Nem sei como agradecer por você haver me livrado de ter de sair com Hakudoshi - disse Rin, quando os dois voltavam para casa.
- Por que simplesmente não diz a toda essa gente que não está interessada em ter um namorado? - perguntou Sesshoumaru, intrigado.
Ela suspirou.
- O problema é que não tenho coragem de magoar ninguém, e acabaria fazendo isso ao dizer a verdade. Eles só querem o meu bem.
- Mas estão controlando sua vida, Rin, mesmo que com a melhor das intenções.
- Oh, eu não sei o que fazer! - Ela exalou outro suspiro. - Veja meu avô, por exemplo. Bem, na verdade ele não é meu avô no sentido estrito da palavra. Ele é sogro de Yuki, irmã de meu pai. Pelo lado da minha mãe, ela é prima das esposas de dois netos dele. É meio complicado, mas tentarei resumir ao máximo.
- Será que terei mesmo o privilégio de presenciar esse milagre? - Sesshoumaru arqueou uma sobrancelha.
- Pare de me provocar - ralhou Rin, sem conter o riso. - Bem, a ligação familiar entre Hiroshi e Anna Mizuki e meus pais é mesmo complicada, então para que me esforçar em simplificar? Minha tia Yuki se casou com o filho deles, Alan Mizuki, você já deve ter ouvido falar nele.
- O nome não me parece estranho.
- E minha mãe, que antes tinha o sobrenome Grandeau, é prima dos irmãos Myouga e Azuka Aoki, que se casaram, respectivamente, com outros dois netos de Hiroshi e Anna MacGregor, Mukotsu e Caine Mizuki. Por isso, Hiroshi e Anna são considerados como meus avós, entendeu?
- Acho que sim, mas já esqueci o motivo que nos levou a falar sobre isso.
- Oh, eu também. - Rin começou a rir, tendo de se apoiar nele para não perder o equilíbrio. - Acho que tomei vinho demais. Deixe-me ver... Sim, já lembrei. Casamenteiros. Estávamos falando de pessoas casamenteiras, o que meu avô, que por acaso é Daniel Mizuki, mostra ser em todos os sentidos. Quando o assunto é arranjar casamentos, é ele quem dita as regras. O homem é uma verdadeira raposa, Taisho. Você nem imagina... - Rin parou um instante e começou a contar nos dedos. - Hum... Até agora, acho que sete dos meus primos se casaram com pretendentes arranjados por ele.
- O que você quer dizer com "arranjados"?
- Não me pergunte como, mas ele meio que escolhe a pessoa certa para os netos e depois dá um jeito de uni-los de alguma maneira, deixando a natureza seguir seu curso. Então, antes que você se dê conta, já está a caminho do altar. No último telefonema, ele me contou que meu primo, lnuyasha, e a esposa dele, que se casaram no último outono, já estão esperando o primeiro filho. Meu avô está nas nuvens.
- E alguém já mandou ele parar de se meter na vida dos netos?
- Ah, constantemente - respondeu Rin, lembrando-se das reprimendas da avó.
- Mas ele não dá atenção. Tenho a impressão de que a próxima "vítima" será Sakura ou Hanna, enquanto ele ainda estiver disposto a dar algum tempo de paz a meu irmão, Kyokotsu.
- E quanto a você?
- Ah, sou esperta demais para ele. Conheço todos seus truques e não pretendo me apaixonar tão cedo. E você, já esteve lá?
- Lá onde?
- Na terra dos apaixonados, Taisho-san. Não seja tão lento.
- Ora, não é um lugar, é uma situação. E não, acho que realmente não estive lá.
- Mas acabará indo - falou Rin, com ar sonhador. - Eventualmente... - Ela ia dizer mais alguma coisa, mas parou de repente.
- Essa não! Aquele é o carro de Hakudoshi. Pelo visto, ele acabou vindo mesmo de Nagoa. Droga, droga, droga! Muito bem, lá vamos nós novamente com o plano. - Dizendo isso, virou-se para Sesshoumaru, mas teve de se apoiar nele ao sentir uma onda de tontura. - Eu não deveria ter tomado aquela última taça de vinho, mas acho que ainda sou dona do meu destino.
- Pode apostar que sim, menina.
Rin fez uma careta de desagrado.
- O suficiente para saber que o fato de você me chamar de "menina" demonstra que está sendo arrogante e querendo parecer superior a mim, mas isso não vem ao caso. Teremos apenas de andar mais um pouco de mãos dadas, até passarmos pela janela da casa dela. Com muita naturalidade, está bem?
- Não vai ser fácil, mas verei o que posso fazer.
- Adoro essa sua veia sarcástica. Muito bem, estamos prontos e preparados. Agora vamos ficar só mais um pouco aqui porque ela está olhando - acrescentou Rin, arriscando um -olhar na direção da janela da casa da sra. Kaede. - A qualquer momento a cortina vai se fechar. Tenho certeza.
O fato de a situação não oferecer nenhum risco, e de ele estar começando a se divertir com tudo aquilo, manteve Sesshoumaru no lugar. Segundos depois, olhou disfarçadamente para trás, tentando notar se a mulher continuava à janela.
- Parece que ela não vai desistir assim tão fácil. O que faremos agora?
Rin moveu os olhos com rapidez, como que tentando pensar em algo.
- Terá de me beijar.
- O quê?!
- E terá de ser convincente - salientou ela. - Se formos convincentes, ela se convencerá de que não estou realmente interessada em Hakudoshi-sama. Prometo que lhe pagarei mais cinqüenta dólares por isso.
Sesshoumaru teve de se esforçar para continuar sério.
- Então, vai me pagar cinqüenta dólares para que eu a beije?
- Como um bônus - justificou Rin. - Farei qualquer coisa para mandar Hakudoshi-sama de volta para Nagoa. Aja como se estivesse sobre o palco, representando. Isso não precisa significar realmente alguma coisa. Ela ainda está olhando? - perguntou, mudando de posição.
- Sim - respondeu Sesshoumaru, mesmo sem olhar para a janela da sra. Kaede.
- Ótimo, então vamos lá. Aja com romantismo, está bem? Posicione os braços assim, em torno de mim, incline-se um pouco e...
- Sei como beijar uma mulher, Rin.
- Claro que sabe. Mas um pouco de ensaio não fará nenhum mal...
Sesshoumaru se deu conta de que a única maneira de fazê-la parar de falar seria agindo. Em vez de circundar os braços em torno dela, puxou-a de uma vez para si. A última coisa que viu antes de seus lábios esmagarem os dela, foram os expressivos olhos chocolates se arregalarem de espanto.
Ele estava certo. Completamente certo, pensou Rin. De fato, ele realmente sabia como beijar uma mulher. Teve de se apoiar nos ombros dele para não cair, pois seus pés mal estavam tocando o chão. Então, para seu próprio espanto, deixou escapar um gemido.
Sentia a cabeça zonza, como se, de repente, os dois estivessem em outro lugar, longe das pessoas e do mundo. Seu coração acelerado parecia estar batendo alto a ponto de ser ouvido, e seu corpo se tornara trêmulo, vulnerável ao apelo sensual da proximidade máscula daquele que estava se tornando uma pessoa cada vez mais presente em seus pensamentos mais íntimos.
Era quase como no sonho, pensou Sesshoumaru, só que melhor. Muito melhor. O sabor dos lábios de Rin era adocicado e único, incapaz de ser resgatado apenas pela imaginação. Depois de saboreá-los com voracidade, afastou-a um pouco, mas somente para verificar se o ar de desejo estava tão evidente no semblante dela quanto deveria estar no dele.
Rin ficou olhando para ele, ofegante, ainda com os braços circundando seu pescoço.
- O próximo é meu - disse ele.
Então Rin se entregou mais uma vez àquele turbilhão de sensações deliciosas e provocantes. Não protestou quando ele insinuou a língua por entre seus lábios e começou a explorar os recantos mais secretos de sua boca.
Quando ele se afastou pela segunda vez, moveu-se tão devagar que foi quase como se não quisesse fazê-lo. Sesshoumaru queria poder tê-la ali mesmo, em meio à penumbra da noite e sob os olhares surpresos, e provavelmente escandalizados, dos transeuntes. Pouco lhe importava que olhassem. Queria saciar aquela sua sede pela energia sensual de Rin. De fato, só se conteve por saber que uma atitude mais ousada acabaria assustando-a. Ele próprio estava assustado com sua reação. Era como se sempre houvesse guardado um vulcão dentro de si que, de repente, resolvera entrar em erupção.
- Acho que isso será suficiente - disse a ela.
- Suficiente? - repetiu Rin, como se houvesse acabado de chegar de outro planeta.
- Suficiente para convencer a sra. Kaede.
- Sra. Kaede? - Ela balançou a cabeça, tentando ordenar os pensamentos. - Oh, sim, claro. Puxa, você é mesmo muito bom nisso, Taisho-sama.
Um sorriso relutante curvou os lábios dele. A sinceridade de Rin era realmente encantadora, pensou Sesshoumaru. E perigosamente irresistível.
- Você também é muito boa nisso, menina - respondeu ele, conduzindo-a em direção à entrada do prédio.
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Rin começou a cantar enquanto trabalhava, fazendo um dueto com Aretha Franklin. Atrás dela, a janela aberta revelava um belo dia ensolarado, vez por outra assaltado pela leve brisa fria de abril e permeado pelo inevitável ruído das ruas de Tóquio.
No entanto, o sol do lado de fora não estava menos radiante do que o humor de Rin. Virando-se para o espelho preso à parede, a seu lado esquerdo, tentou imitar uma expressão de espanto que pudesse ajudá-la na caracterização de sua personagem. Porém, tudo que conseguiu fazer foi sorrir. Sorrir com plena satisfação.
Já havia sido beijada antes, claro. E também fora envolvida pelos braços de um homem. Entretanto, todas as experiências que tivera se comparavam a um mero "incendiozinho" local, se comparadas à explosão vulcânica que fora se ver nos braços de Sesshoumaru.
Na noite anterior permanecera com aquela deliciosa sensação de zonzeira durante horas. Adorara cada um dos momentos daquela espécie de arrebatamento de sensualidade feminina. Poderia haver algo mais incrível do que sentir-se vulnerável e forte, boba e sábia, confusa e esclarecida, tudo ao mesmo tempo?
E tudo que precisava fazer para sentir aquilo era fechar os olhos e deixar sua mente devanear, livre de qualquer censura. Imaginou o que ele estaria pensando, o que estaria sentindo. Ninguém conseguiria ficar indiferente a um experiência daquela... magnitude. Um homem não poderia beijar uma mulher daquela maneira e não sofrer... digamos... algum efeito colateral.
Sofrer até que era uma palavra adequada, concluiu ela, pensando nas conseqüências em seu próprio corpo. Riu, suspirou alto, então voltou a se concentrar no trabalho, cantando com Aretha Franklin as maravilhas de se sentir like a natural woman. Sim, estava mesmo se sentindo como mulher natural. Natural até demais. O beijo de Taisho deixara um rastro de chama em seu corpo e, embora aquilo fosse delicioso, era também assustador ao mesmo tempo.
- Pelo amor de Deus, Rin-chan, está muito frio aqui!
Rin levantou a vista.
- Oi, Sango-chan. Olá, meu amor! - acrescentou, olhando para Souta.
O bebê olhou para ela com um sorriso sonolento, enquanto Sango se aproximava da janela, mantendo-o apoiado sobre seu quadril.
- Está sentada diante de uma janela aberta, e a temperatura não deve estar mais do que quinze graus lá fora. - Sango fechou o vidro, com um arrepio de frio.
- Eu estava sentindo um pouco de calor - declarou Rin, deixando o lápis de lado para apertar a bochecha rechonchuda de Souta.
- É milagroso, não, que os homens se transformem dessa maneira? Nascem como bebês lindinhos assim e depois... Uau! Transformam-se naquilo tudo.
Sango franziu o cenho, olhando a amiga com ar de curiosidade.
- Está com uma expressão meio engraçada - disse ela. - Sente alguma dor? - Pousou a mão sobre a testa de Rin, em uma atitude maternal.
- Não está com febre. Agora mostre a língua.
Rin obedeceu, ficando vesga ao mesmo tempo só para fazer Souta cair na gargalhada.
- Não estou doente. Estou é em estado de graça.
- Hum... - Sango apertou os lábios, não parecendo muito convencida. - Vou pôr Souta em sua cama para tirar uma soneca. Ele está até zonzo de sono. Depois prepararei um café para nós duas e quero que me conte o que está acontecendo.
- Claro.
Voltando a adquirir o mesmo ar sonhador, Rin pegou o lápis novamente e desenhou pequenos corações sobre o papel. Então se empolgou e começou a desenhar outros maiores, esboçando o rosto de Taisho dentro de um deles.
Sim, ele tinha traços fortes e marcantes, mas que se amenizavam quando sorria. Ela adorava fazê-lo sorrir. Aliás, fazer as pessoas sorrirem era um de seus talentos.
Ficaria mais tranqüila quando conseguisse arranjar um emprego para ele. Depois providenciaria um sofá para aquela sala vazia, mas isso não seria difícil com seus contatos. Tinha muitos amigos que poderiam ajudá-la a encontrar móveis práticos e por um bom preço. Queria ver o sr. Taisho instalado com mais conforto, só isso. Claro que não havia nenhum interesse de sua parte, afinal, faria isso por qualquer pessoa. Ainda mais por um vizinho maravilhoso que beijava como um deus saído diretamente do sonho de toda mulher.
Satisfeita com seus planos, cruzou as pernas sob si e voltou a se concentrar no trabalho.
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Depois de deixar Souta no quarto, dormindo feito um anjinho, Sango desceu para o andar de baixo e abaixou o volume do aparelho de som. Então, sentindo-se como se estivesse em sua própria casa, foi até a cozinha e preparou o café. Subiu a escada pouco depois, carregando uma bandeja com duas xícaras de café e alguns biscoitos. Aquele pequeno ritual matinal era um de seus momentos preferidos do dia.
Considerava Rin como uma irmã e por isso fazia de tudo para vê-la feliz. De fato, não se dava tão bem nem com as próprias irmãs, que só sabiam viver reclamando da vida e dos maridos.
Deixando a bandeja sobre a mesa, entregou uma xícara de café a Rin.
- Obrigada, Sango-chan.
- Fez uma ótima tira esta manhã. Não acredito que Emily esteja disfarçada com um casaco e um chapéu, seguindo o sr. Misterioso por todo o distrito de SoHo. De onde ela tirou essa idéia?
- Você sabe que ela é uma criatura impulsiva e dramática. - Rin provou um biscoito. Era comum as duas se referirem a Emily e aos outros personagens como se fossem pessoas de verdade.
- E abelhuda também. Ela simplesmente precisava saber.
- E quanto a você? Já descobriu alguma coisa sobre nosso sr. Misterioso?
- Sim - respondeu Rin, com um suspiro. - O nome dele é Taisho.
- Também ouvi dizer isso. - Instantaneamente alerta, Sango apontou o dedo para a amiga.
- Ei, você suspirou!
- Não, só respirei mais fundo.
- Não, você suspirou. E por qual motivo?
- Bem, na verdade... - Rin estava morrendo de vontade de falar sobre aquilo.
- Nós... acabamos saindo ontem à noite.
- Vocês saíram? Como um casal? - Sango puxou a cadeira mais para perto da amiga no mesmo instante. - Onde? Como? Quando? Detalhes, Rin-chan. Quero detalhes.
- Está bem, então. - Rin virou mais a cadeira, até ficarem uma de frente para a outra. - Você sabe que a sra. Kaede está sempre querendo que eu saia com o sobrinho dela, não é?
- Ah, de novo?! - Sango revirou os olhos. - Será possível que ela não vê que vocês não têm nada a ver um com o outro?
O imenso carinho que Rin sentia pela amiga foi o que a impediu de dizer que aquilo também servia para ela e Kohaku.
- Bem, é que a sra. Kaede adora o sobrinho. De qualquer modo, ela arranjou outro encontro entre nós ontem à noite, só que eu não estava com a mínima vontade de ir. Mas você terá de jurar que não vai dizer isso a ninguém.
- Exceto Miroku.
- Tudo bem. Maridos estão excluídos do voto de silêncio nesse caso. Bem, o fato é que eu disse a ela que já tinha um encontro... com Taisho-sama.
- Você tinha um encontro com ele?
- Não, eu só disse isso porque fiquei desesperada. E você sabe como começo a gaguejar quando minto.
- Deveria praticar mais. - Sango comeu outro biscoito.
- Talvez. Mas assim que acabei de dizer isso, percebi que ela iria ficar olhando pela janela para se certificar de que eu ia mesmo sair com ele, por isso tive de apelar e fazer uma espécie de acordo com Taisho-sama. Dei uma nota de cem a ele e lhe paguei um jantar.
- Você pagou a ele?! - Sango arregalou os olhos, mas estreitou-os em seguida, com ar especulativo. - Mas isso é brilhante. Se eu houvesse tido essa idéia na época da faculdade, quando não estava namorando ninguém e nem tinha com quem sair, a história teria sido outra, minha amiga. Como se decidiu pela quantia de cem?
- Achei que parecia justo. Ele não está trabalhando regularmente, e achei que ficaria agradecido pelo dinheiro e pela refeição. Até que nos divertimos - acrescentou, com um sorriso. – Foi realmente muito bom. Só espaguete e boa conversa. Bem, na verdade, o encontro tendeu mais para o monólogo, porque Taisho-sama não é muito de falar.
- Taisho-sama - Jody repetiu o nome devagar. - Ainda soa misterioso. Não sabe o primeiro nome dele?
- Ele não o disse em nenhum momento e nem me ocorreu perguntar. De qualquer maneira, é melhor assim. Acho que fui meio precipitada, Sango-chan. Ele estava parecendo relaxado, quase amigável, então vi o carro de Hakudoshi e entrei em pânico. Imaginei que a sra. Kaede não iria me deixar em paz se eu não demonstrasse com clareza que estava interessada em outra pessoa. Então fiz outro acordo com Taisho-sama e ofereci a ele cinqüenta por um beijo.
Sango apertou os lábios, antes de tomar outro gole de café.
- Deveria ter deixado claro que esse valor estava incluído nos cem - disse ela.
- Não houve tempo - justificou Rin. - Já havíamos definido o acordo e não havia mais tempo para renegociar. A sra. Kaede estava nos espiando através da janela. Então ele me beijou bem ali, na calçada do prédio.
- Uau! - Sango comeu outro biscoito. - E qual movimento de impacto ele usou?
- Ele me puxou de uma vez e colou meu corpo ao dele.
- Minha nossa! A puxada súbita. Oh, adoro esse movimento.
- Então fiquei lá, em meio aos braços dele e mal conseguindo me equilibrar na ponta dos pés, porque ele é alto.
- Sim, ele é bem alto - anuiu Sango, ainda mastigando o biscoito. - E atlético também.
- Realmente atlético, minha amiga. Quero dizer, seus músculos parecem rocha.
- Oh, Deus. - Sango lambeu os dedos, sem desviar os olhos da amiga. - Então você estava lá, na ponta dos pés. E depois?
- Bem, ele... se inclinou.
- Ah, meu Deus... Uma puxada súbita com inclinação! - Em sua empolgação, Sango quase derrubou o outro biscoito que havia acabado de pegar. - Um movimento clássico. Quase nenhum homem utiliza isso hoje em dia, minha cara. Miroku fez isso em nosso sexto encontro, e foi assim que terminamos no meu apartamento, experimentando a comida de um fast food chinês, na cama.
- Pois Taisho-sama agiu como um perito no assunto. Então, quando eu estava sentindo a cabeça girar, ele se afastou de repente e simplesmente olhou para mim.
- Homens - disse Sango, com ar de censura.
- E fez tudo novamente! - festejou Rin.
- Um duplo?! Não acredito! - Sango segurou a mão da amiga, quase dando um-pulo de alegria. - Você recebeu um duplo, Rin-chan! Há mulheres que passam a vida inteira sem sequer saber o que é isso! Sonham com isso, claro, mas nunca passam pela emoção de experimentar a puxada súbita com inclinação seguida de beijo, olhar intenso e beijo.
- Foi minha primeira vez - confessou Rin. - E foi... maravilhoso!
- Tudo bem, tudo tem. Agora apenas a parte do beijo, certo? Apenas a parte dos lábios e das línguas. Que tal foi essa parte?
- Muito ardente.
- Ah, meu Deus! Acho que terei de abrir a janela de novo. Estou começando a suar.
Dizendo isso, levantou-se com um movimento súbito e abriu a janela, respirando fundo.
- Então foi ardente. Muito ardente. Continue.
- Foi como ser... Sei lá, devorada. Sabe quando seu corpo inteiro fica trêmulo, um calor gostoso se espalha por seu corpo e... - Rin moveu as mãos, tentando encontrar as palavras certas para se expressar. - Não sei como descrever.
- Tem de se esforçar. - Aflita, Sango segurou-a pelos ombros. - Tente isso: -na escala de um a dez, que nota você daria?
Rin fechou os olhos.
- Não há escala...
- Sempre há uma escala - Sango a interrompeu. - Não é possível...
- Não, Sango-chan, o que eu senti não se enquadra em nenhuma escala.
Sango deu um passo atrás.
- Deus meu... Preciso me sentar. - Sango sentou-se, passando a mão pela testa. - Você experimentou um beijo que não se enquadra em nenhuma escala. Acredito em você, Rin-chan. Mas muita gente não acreditaria. Muitas pessoas poderiam até zombar dessa afirmação, mas eu acredito no que disse.
Rin sorriu.
- Eu sabia que poderia contar com você.
- Sabe o que isso significa, não sabe? Significa que Taisho-sama arruinou sua vida. Agora, nem mesmo um beijo nota dez vai satisfazê-la. Você vai sempre procurar um que não se enquadre em nenhuma escala.
- Isso já me ocorreu. - Pensativa, Rin pegou lápis e começou a tamborilá-lo sobre a mesa.
- Mas creio que será possível levar uma vida tranqüila e feliz, alcançando com certa regularidade uma escala entre sete e dez, mesmo depois dessa experiência. O homem pode até ir à lua, Sango-chan, viajar pelo espaço e se ver em outro mundo por algum tempo, mas tem de voltar para a terra e continuar vivendo.
- Puxa, isso foi sábio. - Sango tirou um lencinho de papel do bolso da calça. - Quase heróico.
- Obrigada - Rin agradeceu e, com um de seus sorrisos marotos, acrescentou:
- Mas, enquanto isso, não fará nenhum mal bater à porta em frente de vez em quando, certo?
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Rin estava descendo para o andar de baixo, após uma manhã de intenso trabalho. Ao ouvir o familiar e agradável som do sax, pensou em bater à porta de seu vizinho para lhe oferecer um café, mas o som do interfone lhe interrompeu os pensamentos.
- Sim?
- Estou procurando o sr. Taisho, do 3A - disse uma voz feminina.
- Não, ele está no apartamento 3B.
- Oh, droga, então por que ele não está respondendo?
- Provavelmente porque não ouviu o interfone, já que está tocando sax - explicou Rin.
- Então poderia me anunciar, querida? Sou a empresária dele e já estou cansada de ficar aqui tocando esse interfone.
- Empresária dele? - Rin repetiu.
Bem, se Taisho tinha uma empresária, queria conhecê-la. Já havia pensado em indicá-lo a várias pessoas e talvez essa fosse sua chance de ajudá-lo de alguma maneira.
- Claro, pode subir - dizendo isso, acionou o botão que destravava o portão de entrada.
Em seguida, abriu a porta de seu apartamento e ficou esperando do lado de fora. A mulher que saiu do elevador parecia muito profissional e bem sucedida, segundo Rin notou- com certo espanto. O tailleur vermelho lhe atribuía um ar de elegância e sofisticação, assim como a pasta executiva de modelo feminino.
Rin franziu o cenho. Então por que o cliente dela parecia estar passando por dificuldades financeiras?
- Você é a moradora do 3A?
- Sim, meu nome é Rin.
- Sou Shichinintai Kikyou, mas pode me chamar de Kikyou. Obrigada por haver aberto o portão para mim, Rin. Nosso "garotão" aqui não está atendendo ao telefone e, pelo visto, esqueceu-se de que tínhamos uma reunião à uma hora, no Restaurante Four Seasons.
- O Four Seasons? - Rin se surpreendeu. Aquele era um dos restaurantes mais caros da região. - No parque?
- Esse mesmo. - Com um sorriso, Kikyou apertou a campainha do apartamento 3B. - Sesshoumaru é muito talentoso, mas temperamental demais de vez em quando.
- Sesshoumaru? - Rin levou um instante para entender sobre quem ela estava falando. - Ah, Sesshoumaru Taisho. - Com um suspiro de indignação, acrescentou: - O autor de Rede de Almas.
- Isso mesmo - confirmou Kikyou. - Vamos lá, Sesshoumaru, abra logo esta porta... - falou ela, tamborilando os dedos sobre a madeira. - Quando ele decidiu passar alguns meses na cidade, pensei que conseguiria ter mais acesso a ele. Mas, pelo visto, eu me enganei mais uma vez. Ora, até que enfim.
Ambas ouviram o ruído das trancas sendo abertas com gestos súbitos e, aparentemente, mal-humorados. Então ele abriu a porta.
- O que diabos... Kikyou?
- Você perdeu o almoço - ironizou ela. - E não atendeu ao telefone.
- Eu me esqueci do almoço e o telefone não tocou.
- Você carregou a bateria?
- Provavelmente não. - Sesshoumaru continuou no mesmo lugar, olhando para Rin, logo atrás de Kikyou.
- Entre - disse à empresária. - Só me dê um minuto, sim?
- Eu já lhe dei uma hora - ironizou Kikyou, falando por sobre o ombro enquanto passava pela porta. - Obrigada mais uma vez, querida - ela agradeceu a Rin.
- Não há de quê. - Rin forçou um sorriso. Então fuzilou Sesshoumaru com o olhar. - Canalha - disse ela por entre os dentes, antes de entrar em seu apartamento e bater a porta.
- Não há nenhum lugar para se sentar aqui? - protestou Kikyou, atrás dele.
- Não. Quer dizer, sim. No andar de cima - resmungou em resposta, tentando ignorar a onda de culpa que o atingiu. - Não costumo ficar muito neste andar.
- Estou vendo. Quem é a garota que mora em frente?
- O nome dela é Rin Mizuki.
- Achei que ela me parecia familiar. É a criadora das tiras cômicas Amigos e Vizinhos, não é? Conheço o empresário dela. O homem é louco por ela. Vive dizendo que ela é sua única cliente à prova de ego e livre de neuroses. Nunca se queixa, não atrasa os prazos e está sempre lhe dando lucro com a venda de seus personagens em agendas, calendários e outras coisas do gênero.
Diante do silêncio de Sesshoumaru, Kikyou acrescentou:
- Imagino como seria bom ter um cliente livre de neuroses, que se lembrasse dos almoços de negócios e que me mandasse presentes no meu aniversário.
- As neuroses fazem parte do pacote, mas sinto muito sobre o almoço.
O aborrecimento de Kikyou cedeu lugar à preocupação.
- O que aconteceu, Sesshoumau? Parece alterado por algum motivo. O roteiro não está indo bem?
- Não, ele está caminhando. E melhor do que eu esperava. O problema é que não tenho dormido muito bem ultimamente.
- Continua saindo para tocar seu sax até altas horas da noite?
- Não.
Estava era passando as noites em claro pensando em Rin, Sesshoumaru admitiu para si mesmo. Andando de um lado para outro e desejando tê-la em seus braços. Só que agora ela devia estar profundamente magoada com ele.
- Bem, já que não teremos mesmo o almoço, que tal me oferecer um café? - sugeriu Kikyou.
- Ainda há um pouco na garrafa - disse ele. - Estava fresco às seis horas da manhã.
- Então, deixe-me preparar outro.
Depois de preparar o café, com os ingredientes que já se encontravam sobre a pia, Kikyou abriu alguns armários, à procura de algo para comerem. Considerava o bem-estar de Sesshoumaru como parte de seu trabalho.
- Meu Deus, Sesshoumaru, por acaso está fazendo greve de fome? Não há mais nada aqui, além de restos de batatas fritas e do que um dia foi um pão francês, mas que agora só serve para experimento científico.
- Não fui ao supermercado ontem - explicou ele, sem conseguir deixar de pensar em Rin. - Para jantar, geralmente faço um pedido a algum restaurante.
- Pelo mesmo telefone que você não atende?
- Eu vou recarregar a bateria, Kikyou.
- Espero que sim. Se pelo menos ele estivesse funcionando, agora estaríamos sentados a uma mesa do Four Seasons, tomando champanhe Cristal para comemorar. - Com um sorriso, acrescentou: - Fechei o contrato, Sesshoumaru. Rede de Almas vai se transformar em um grande sucesso do cinema. Terá os produtores que quiser, o diretor que preferir e a opção de fazer o roteiro pessoalmente. Tudo isso regado a uma generosa quantia, claro.
- Não quero que estraguem o roteiro - foi a primeira reação dele.
- Isso só dependerá de você. - Kikyou suspirou.
- Para não correr o risco de que algo não o agrade, faça você mesmo o roteiro.
Sem dizer nada, Sesshoumaru se aproximou da janela, ainda tentando absorver a notícia. Um filme mudaria a perspectiva que a peça havia atingido no teatro, mas, por outro lado, geraria uma renda de milhões de dólares.
- Não quero me envolver demais nisso, Kikyou. Toda aquela loucura do cinema não me agrada.
Ela serviu duas xícaras de café e se aproximou da janela, entregando uma a ele.
- Então faça apenas o trabalho de supervisão. Ou de consultoria, se preferir.
- Sim, acho que isso será suficiente para mim. Providencie tudo, está bem?
- Pode deixar comigo. Agora, se você conseguir parar de dar pulos de alegria, poderemos conversar sobre seu trabalho atual.
Sesshoumaru curvou os lábios, sem conter o sorriso.
Levado por impulso, deixou a xícara sobre o parapeito da janela e segurou o rosto de Kikyou entre as mãos.
- Você é a melhor e, com certeza, a mais paciente empresária desse ramo.
- Está absolutamente certo. Espero que esteja tão orgulhoso de você quanto eu estou. Vai dar a notícia à sua família?
- Deixe-me primeiro digerir a idéia por alguns dias.
- A notícia vai se espalhar logo, Sesshoumaru. Não vai querer que eles a recebam por outros meios, não é?
- Tem razão - anuiu ele. - Vou ligar para eles. - Com um sorriso, completou: - Depois de recarregar a bateria do telefone, claro. Por que não saímos para comemorar, tomando champanhe?
- Pensando bem, por que não? Ah, só mais uma coisa - falou Kikyou, em um tom casual. - Não vai me dizer o que está havendo entre você e a bela garota do apartamento 3A?
- Não tenho certeza de que haja alguma coisa para dizer - respondeu Sesshoumaru, em um resmungo.
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Sesshoumaru continuava a não ter certeza sobre aquilo quando bateu à porta de Rin naquela mesma noite. Mas sabia que tinha de fazer alguma coisa a respeito daquela sombra de indignação e tristeza que vira nos olhos dela, horas antes.
Não que aquilo dissesse respeito a ela de alguma maneira, lembrou a si mesmo. Não pedira a ela que bisbilhotasse sua vida. De fato, fizera tudo para que ela se mantivesse afastada. Pelo menos até a noite anterior, concluiu ele, com um suspiro exasperado.
Sempre detestara agir por impulso, e fora justamente isso que fizera na noite anterior. Para começar, não deveria ter aceitado sair com ela. Ainda mais por um motivo tão idiota. E muito menos beijá-la, ainda que por um motivo louvável: puro desejo.
Quando Rin abriu a porta, Sesshoumaru estava mais do que pronto para um pedido de desculpas.
- Ouça, sinto muito - começou, com um certo tom de impaciência. - De qualquer maneira, isso não era da sua conta. Vamos apenas esclarecer as coisas.
Ele fez menção de entrar, mas parou de repente quando Rin o deteve, levando a mão a seu peito.
- Não o quero na minha casa.
- Não diga tolices, Rin, foi você quem começou. Talvez eu tenha deixado as coisas saírem um pouco do controle, mas...
- Comecei o quê?
- Isso!
Sesshoumaru levantou as mãos, aborrecido pela falta de palavras e detestando ver aquela sombra de tristeza no olhar dela.
- Tudo bem, eu comecei - Rin admitiu. - Nunca deveria ter levado biscoitos para você. Sim, foi pura idiotice da minha parte. Também não deveria ter me preocupado em arranjar um emprego para você e nem em lhe oferecer uma refeição decente, por pensar que você não tinha condições de pagar uma.
- Droga, Rin...
- Você deixou que eu pensasse tudo isso! - ela o interrompeu, furiosa. - Deixou que eu acreditasse que estava passando por dificuldades, que era um músico desempregado, e aposto que deve ter rido muito disso. O brilhante e premiado roteirista Sesshoumaru Taisho, autor da magnífica peça Rede de Almas. Aposto que está surpreso por eu conhecer o seu trabalho. Uma idiota feito eu não anda por aí lendo críticas sobre peças de teatro.
Sesshoumaru continuou em silêncio, e ela o fez dar um passo atrás.
- Não é mesmo, Sesshoumaru? O que uma "desenhistazinha" de tiras cômicas de jornal iria entender de arte? Ainda mais sobre teatro, sobre literatura séria? Deve ter rido muito à minha custa, não? Seu arrogante elitista! - A voz de Rin falhou, sendo que ela havia prometido a si mesma que isso não aconteceria. - Eu estava apenas tentando ajudá-lo.
- Mas eu não pedi sua ajuda. Eu não queria sua ajuda.
Sesshoumaru notou que ela estava prestes a explodir em lágrimas. E quanto mais isso se evidenciava, mais furioso ele se sentia. Sabia muito bem como as mulheres usavam o choro para arrasar um homem, e não deixaria isso voltar a acontecer em sua vida.
- Meu trabalho diz respeito apenas a mim - acrescentou.
- Seu trabalho é produzido na Broadway e, se você não sabe, isso o torna público – retrucou Rin.
- Não tinha nada que andar por aí fingindo ser um saxofonista.
- Toco sax porque gosto de tocar, só isso. Não estava fingindo ser, alguma coisa, foi você quem deduziu isso.
- E você não fez a mínima questão de me esclarecer.
- E se eu tivesse feito isso? Eu me mudei para cá em busca de um pouco de paz e tranqüilidade. Queria ficar sozinho. Mas quando me dei conta, lá estava você me trazendo biscoitos, seguindo-me pela rua e me fazendo passar metade da noite em uma delegacia de polícia. Como se não bastasse, depois apareceu pedindo que eu saísse com você para se livrar do olhar bisbilhoteiro de uma mulher de setenta anos, só porque não tem coragem de dizer a ela para não se meter em sua vida pessoal. E quando pensei que já tinha visto tudo que poderia ver, qual não foi meu espanto ao receber a proposta de ganhar cinqüenta por um beijo.
O sentimento de humilhação finalmente fez uma lágrima rolar pelo rosto de Rin, enquanto uma espécie de nó se formava em sua garganta.
- Não comece com isso - disse Sesshoumaru.
- Quer que eu não chore vendo-o me humilhar desse jeito? Vendo você me fazer sentir idiota, ridícula e envergonhada? - Rin não se importou com as lágrimas que começaram a molhar seu rosto. Simplesmente continuou a encarar Sesshoumaru com toda sua indignação. - Sinto muito, mas não sou tão fria assim. Ainda choro quando alguém me magoa.
- Foi você mesma quem pediu isso.
Sesshoumaru tinha de dizer aquilo. De fato, ele estava desesperado para acreditar naquilo.
- Você conhece os fatos, Sesshomaru - disse ela, num fio de voz. - Tem todos eles à sua disposição, mas insiste em ocultar seus sentimentos por trás deles. Levei biscoitos para você porque pensei que poderia precisar de um amigo. Já me desculpei por havê-lo seguido, mas posso me desculpar novamente.
- Eu não quero...
- Ainda não terminei - Rin falou com tanta dignidade que o fez sentir uma onda de culpa. - Levei-o para jantar porque não queria magoar uma senhora muito doce e por pensar que você poderia estar faminto. Gostei de sua companhia e senti algo diferente quando você me beijou. Na verdade, pensei que você também houvesse sentido. Portanto, você está certo - ela assentiu, enquanto outra lágrima rolava por seu rosto. - Fui eu mesma quem pediu isso. Suponho que guarde todas suas emoções para o seu trabalho e que por isso não encontre uma maneira de aplicá-las em sua vida. Sinto muito por você. E sinto muito por haver pisado em seu solo sagrado. Nunca mais farei isso.
Antes que Sesshoumaru pudesse pensar em algo para responder, Rin fechou a porta. Então ele ouviu as trancas sendo acionadas com fúria. Girando sobre os calcanhares, voltou para seu apartamento e seguiu o exemplo dela, também fechando as trancas da porta.
Finalmente tinha o que queria, disse a si mesmo. Solidão. Quietude. Rin não voltaria a bater à sua porta, não o interromperia, não o distrairia e nem o envolveria em conversas das quais ele não queria participar. Não lhe traria sentimentos com os quais ele não sabia o que fazer.
De pé, na sala vazia, suspirou alto. Estava exausto daquilo tudo.
Olá para todos!!!
Esse capítulo trouxe muitas confusões e surpresas!
Espero que tenham curtido, muito obigada pelas reviews!
Naia-chan: kkkkkkkkkkkkkkkkkk obrigada pela ajuda!!! Não deu pra postar ontem pq eu saí ontem! Mais tá ai, espero que vc tenha gostado! bjao
Kuchiki Rin: Que bom que vc está gostando da fic!!! Fico muito feliz com a sua aprovação sobre a nova Rin (ta impagável né? ela é sempre tão frágil...) E esse cap, tu gostou das atitudes dela? bjs
Rin Taisho Sama: Pois é... é meio estranho esse bj, mais se Jaken deixza né! kkkkkkkkkkkkkk Tu gostou de Jaken como marido de Sara?Bj
Rukia-hime: Pois é, concordo com vc, esse bj é realmente stranho, mais eu acho que era mais pra dar a Rin aquela idéia de que ele é comprometido (afinal ele acha ela louca, não é?kkkkkkkkkk) E não se preocupe pq sesshy vai ficar masi adorável (dentro do possivel). Tô postando num tmepo legal, né? bjs
