Julia acordou tarde, se sentia mais bem disposta, apesar de ainda estar fraca. Nesses últimos dias só havia se alimentado de pedaços de pão velho, às vezes a única coisa que encontrava eram restos de frutas. Levantou ainda cambaleante, olhando por toda a cabine, procurou por algo que lhe viesse à memória, mas nada lhe parecia familiar. Sentiu uma energia estranha vinda daquele lugar. As paredes negras, já corroídas pela podridão da madeira velha, aparentavam ser tão dramáticas, traziam medo a ela... O navio que surgiu para si de forma tão surreal parecia ter mais mistérios do que aparentava, e ela mal sabia onde estava.
Aos poucos foi se lembrando da noite anterior, flashes começaram a surgir diante de seus olhos, as imagens passaram a ter mais sentido em sua mente. Seu corpo estava dolorido, devido ao esforço contínuo que teve de passar ao mar, encontrou em si uma força, sem igual nesses últimos dias, nunca em toda sua vida naquela pacata ilha onde morava, pode imaginar que encontraria em sua alma uma coragem como essa, que fez com que cruzasse mares, enfrentando perigos, em busca de uma nova vida.
Caminhou em direção a porta. Um misto de curiosidade e medo pareceu adentrar em seu corpo, precisava descobrir mais, fosse quem fosse não deixou que ela morresse, se ela amanheceu naquele lugar, bem e viva, foi pela ação de alguém, e por mais que se arrependesse do que viria a acontecer depois, não poderia ficar ali sentada esperando para que algo acontecesse.
Antes que ela tomasse qualquer ação, a porta se abriu, e a presença que adentrou a velha cabine, fez com que seu coração se acelerasse. Cada vez mais nitidamente ela pode ver tudo que aconteceu consigo na noite passada.
– Que bom que acordou, pensei que ficaria mais tempo dormindo, você não estava bem. –Will caminhou em direção a Julia, mas parou a alguns metros de distância da moça, via nos olhos da jovem um medo e uma aflição profunda, não quis alarmá-la.
– Quem é você? – Julia mal prestou atenção no que ele havia dito, ainda estava surpresa com a aparição repentina.
– Sou o Capitão Willian Turner, comando esse navio – Ele achou melhor não falar que se tratava do Holandês, estórias horríveis, eram contadas por todo o mundo, e a sombra de Davi Jones ainda causava medo a quem visse seu navio. – Encontramos você ontem no mar, pensavam quem estava morta. Pelo seu estado de fraqueza não deve ter sido uma viagem fácil. Quer me contar como parou naquele barril, no meio do nada?
– Antes se fosse isso o pior... Aconteceram algumas coisas onde eu vivia, eu não tenho mais nada lá, só me restou fugir – Julia não se sentia segura para falar de tudo que tinha passado, tinha acabado de conhecê-lo, não sabia nada além de seu nome. Ela estava sozinha no mundo, não podia depositar sua confiança em qualquer estranho, ainda mais num navio tão sombrio quanto aquele.
– Tem certeza que é só isso? – Will esperou paciente por uma resposta, mais ela só acenou negativamente– Tudo bem! Quando se sentir melhor pode descer para comer algo, fique tranqüila, ninguém fará mal a você. Existem coisas mais sérias que precisamos conversar, eu entendo seu medo, mas preciso que me conte tudo o que aconteceu, posso te ajudar, contanto que colabore. – Preferiu não questionar mais a jovem, imaginava pelo o que ela estava passando.
– Obrigada – Foi tudo que ela pode dizer depois das palavras que tanto lhe confortaram, ele não parecia em nada com os que lhe afrontaram. – Ele parou a poucos centímetros da porta, se virou para ela e sorriu passando mais segurança a moça, que a pouco mal dirigia o olhar em sua direção – A propósito, meu nome é Julia, Julia Beck.
– Me encontre mais tarde no timão, Julia. – Ele se sentiu mais confortável sabendo que ela já depositava alguma confiança nele, queria de alguma forma ajudá-la, era tão jovem para perder a vida, assim como ele perdera.
No meio do Oceano Atlântico, na costa caribenha o Pérola não avançava há alguns dias. Parados, sem rumo, e sem destino. Barbossa passava à tarde em sua cabine roncando, estava com os nervos exaustos de tanto pensar e não achar nenhuma solução, nenhum caminho a seguir.
Ragetti entrou sorrateiro na cabine do capitão, tremia até a alma de tanto medo, mas a tripulação não agüentava mais toda essa calmaria. Passavam os dias largados tomando rum enquanto torravam debaixo do sol quente, nem a moleza era párea para o tédio.
– Capitão... Capitão Barbossa.
– Jack? Ora Jack, eu já te disse! Mais tarde eu te dou amendoim... Agora me deixe dormir um pouquinho está bem? – Ele ressonava cada vez mais embolado, dormia profundamente.
Ragetti perdeu a pouca coragem que lhe restava e correu de volta para a porta, mais foi empurrado de volta por Pintel, que esperava do lado de fora, com o ouvido grudado na porta.
– Capitão! Estamos tendo problemas com a tripulação! Acorde.
– Problemas? –Ainda ressonava quando a palavra soou alto em sua mente, fazendo com que acordasse de forma brusca, dando um pulo da cadeira na qual dormia. – Problemas? Estamos sendo atacados?! Sparrow está vindo com um navio?! Diga homem!
–Não, na verdade queremos ter uma conversa... – Ragetti começou a gaguejar, olhou pra porta mais só recebeu olhares de impaciência para que continuasse. –Uma conversa séria, senhor!
– Então você me acorda para conversar? Não estamos sendo atacados, mais você me acorda para conversar? Será que você terá que perder mais do que esse olho para aprender a agir e a não agir? – Barbossa ainda mantinha um tom ameaçador, olhava com certa fúria para o homem que quase se afundava no chão de medo.
O capitão tinha consciência de que causava essa impressão, mais as coisas estavam mudando, será que ele ainda era o mesmo pirata que construiu parte do mito que era O Pérola Negra? Lembrar de tempos memoráveis, quando mesmo amaldiçoados ainda viviam a doce e difícil vida pirata.
–Capitão, por que não vamos a lugar nenhum? Deixamos o capitão Jack para trás, de novo, por seus objetivos, nos prometeu uma nova caçada, um tesouro imensurável, mais e agora?
– Sparrow! Aquele maldito roubou as cartas diante das minhas fuças, e o pior ninguém estava por perto para vigiar! Nem mesmo você Jack, isso que da elogiar sua eficiência, fica convencido e não trabalha mais. – O pobre macaquinho estava comendo em cima da mesa, logo que ouviu seu nome correu em direção à porta, se escondendo atrás das pernas sujas e peludas de Pintel, que ainda tremia freneticamente.
–Não era melhor voltar e pegá-lo de volta? Assim teríamos o restante do mapa, e um caminho a seguir!
– Fico impressionado com sua inteligência! –O cinismo de Barbossa se confundia com sua impaciência. –Acha que Sparrow, mesmo sendo louco que nem é ficaria eternamente em Tortuga esperando nossa volta arrependida e humilhada? Ele tem as cartas, a essa altura já conseguiu decifrar o item do qual lhes falei, a cobiçada água da vida, muitos tentaram encontrá-la... Inúmeras histórias já foram criadas ao seu respeito, homens de todo o mundo se aventuraram com mapas falsos em sua busca, ninguém obteve êxito, não coloco fé em Sparrow, é um tolo – Barbossa voltou a se sentar enquanto apreciava uma das muitas maçãs, encontradas em sua mesa.
Ragetti ainda em pé, esperava por alguma posição do capitão, e Barbossa sabia que se sua tripulação se revoltasse, fariam o mesmo que um dia ordenou que fizessem a Sparrow, ou pior, dariam a ele o mesmo destino que deu a Bootstrap. Mas por mais que temesse um motim, sabia que ainda não era hora de seguir curso, teria de achar uma maneira de reaver as cartas, únicas e tão valiosas.
– Diga a todos que tenham paciência, vocês têm rum, e a boa e velha moleza, não reclamem. Em breve dou as coordenadas, e seguiremos caminho, mais por enquanto me obedeçam e aguardem. – A ordem do capitão saiu seca, em grandes entonações, Ragetti sabia de seu nervosismo e inconformismo depois que Jack roubou as tais cartas, ele ainda confiava no capitão, por mais autoritário que o mesmo fosse, o porém agora é se sua tripulação ainda confiava.
Jack tomara o comando do navio o dia todo, o fim da tarde já avançava e o pôr-do-sol ostentava uma imagem terrivelmente bela aos olhos do capitão. Tinha o olhar perdido no horizonte, seus pensamentos passaram a viajar no passado, suas histórias transpassavam a fronteira entre o real, e o inacreditável. Mas por mais que ele quisesse muitas de suas lembranças não lhe traziam alegria.
Jack Sparrow tinha se tornado lenda em todo o Caribe, e em muitas partes do mundo, mas a que preço conseguiu isso? Por onde passou conquistou inimigos, maldições, dinheiro, mulheres, e muitas confusões, o mesmo já se perderá a conta de quantas vezes viu sua vida escapar aos olhos, e no fim se safava, para se arriscar em uma nova jornada. Uma tristeza lhe abateu aos olhos, mas não sentia remorso por sua vida, era um pirata, um bom pirata, sua fama e suas lendárias histórias transpassavam fronteiras mundo a fora, ao mesmo tempo em que ultrapassa desafios em perigosas aventuras, conquistava grandes riquezas para seu deleite pessoal. Ele, o homem que sobreviveu ao Kraken, ultrapassou a ira de Davy Jones, sobreviveu a uma reunião da corte da Irmandade, e que agora estava a sós novamente, carregando consigo a única esperança que lhe restou para alcançar a imortalidade.
Puxou de sua blusa esfarrapada o velho mapa, desde que o conseguirá, tinha se tornado sua segunda pele, não cansava de admirá-lo, tão útil lhe havia sido, foi com ele que voltou a vida, ressurgindo do mundo dos mortos, seu inferno pessoal. Olhando o velho mapa Jack passou a sonhar, já não via a hora de seguir atrás da cobiçada Água da Vida, por mais que essa espera o atormentasse não podia procura-lá agora, em anos de vida no mar aprendeu a esperar a hora certa, a planejar as melhores estratégias, a encontrar caminhos mais simples. Era uma busca arriscada, poucos saíram vivos dessa expedição ao tão ardil e sonhado desconhecido, ele sabia os perigos que enfrentariam dali pra frente, precisava de um grande navio para continuar, um que fosse rápido, e sua grandiosidade assustasse qualquer perigo que se aproximasse. Não havia em todo o Caribe, e talvez em todo mundo um navio como o Pérola, lembrou-se do dia em que uniu forças ao Holandês Voador para destruir a ameaça de Cutler Beckett. Tinha ali em suas mãos as maiores ameaças marítimas que o mundo já presenciara, e sabia que um navio daquele porte, poderia buscar a água da vida.
Suas lembranças passaram agora a seu navio, lembrou-se de quando Barbossa o levou de si pela primeira vez. Já conhecia a lenda do capitão Barbossa há tempos, era um dos lordes da corte da qual ele também pertencia. Barbossa era um dos mais lendários piratas do Mar Cáspio, ouvirá muito a seu respeito, mas nunca o tinha enfrentado, até que o mesmo foi abandonado por sua tripulação traira, tanto quanto o próprio também era. O encontrou em Tortuga, bêbado e acabado, Barbossa se juntou a tripulação, saqueou, bebeu e trabalhou junto deles por meses, até planejar sordidamente em seu navio um motim contra Jack. A tripulação interesseira se uniu a Barbossa, restando ao capitão um destino cruel, jogado numa ilha esquecida por Deus, largado a própria sorte, para definhar em loucura, enquanto Barbossa levava o vistoso navio para longe.
– E agora você o tirou de mim de novo, quando tudo estava bem...
–Falando sozinho, capitão? –Lílian surgiu por trás dele, estava ali admirando a cena, sua expressão era séria, parecia hipnotizado, com o olhar vago, perdido no nada. Ela se aproximou, esperando por algum gracejo característico vindo dele, mais não obteve resposta. Jamais o virá assim, viajavam há pouco tempo mais já tinha notado como o capitão era... Não queria admitir nem mesmo para si própria, mas às vezes ele parecia que sua atenção era toda voltada a ele.
Desviou um pouco sua atenção do capitão reparando no rústico mapa que segurava, jamais virá algo igual, era tão antigo, mais sua riqueza de detalhes pareciam encantar o olhar da moça, sua curiosidade começou a se despertar, afinal Jack parecia querer muito mais que reencontrar um navio, ela já havia notado que os planos do capitão são se resumiam a seu Pérola. – Aonde isso vai te levar, capitão? Creio que não seja atrás de um navio.
O silêncio pairou entre os dois por alguns instantes... Jack parecia ainda não ter acordado, e ela continua examinando cada ponto novo que percebia no mapa
– A minha vida, luv! A prolongação dela...
Lílian parou de observar o mapa para voltar sua atenção ao capitão, tentou entender o que ele queria dizer com àquilo, mais parecia que quanto mais tentava entendê-lo, mais enigmas surgiam. – Pensei que seu maior objetivo de desejo fosse seu navio, vi sua determinação para reavê-lo, é por isso que está aqui, não? Ou está me enganando como um bom pirata traiçoeiro?
– Não seja tão desconfiada, não costumo mentir, apenas omitir. Mais isso são detalhes, relevantes! – Ele pausou um pouco suas palavras antes de prosseguir. –Para se seguir caminhos tão ardilosos é preciso mais que coragem Lílian, não se chega fácil ao que mais se deseja, e eu não chegarei sem o Pérola, não conseguirei sozinho, minha vida foi ligada aquele navio desde o instantes que aceitei ser afundado para o esquecimento profundo dos oceanos com ele, agora é tarde para desistir e deixar Barbossa levá-lo.
–Eu sei o que é perder algo que se ama! Mas quanto maior a cobiça, maior é a perda. – Agora ela também ostentava um olhar triste, sua vida não tinha sido fácil, ela entendia o que aquele navio significava para Jack.
Lilian se aproximou mais do capitão, ficando de frente para ele. Uma sensação estranha passou por si, algo a envolvia, algo que ela não podia se esquivar – Eu não sei o que você planeja em Tortuga capitão, mas... Eu peço para que não deixe essa tripulação, me sinto envolvida com essa busca.
Jack olhou fundo nos olhos dela, notou uma preocupação em seu olhar tímido, desde que a conheceu se impressionou com sua determinação e coragem, agora, percebia o quanto ela podia ser indefesa. Viu em sua frente à bela mulher que ela era. Seus olhos azuis eram intensos, penetravam na alma, com uma pureza que cada vez mais o enfeitiçava. Não estava em seus planos ficar em Tortuga, definitivamente, era a última coisa na qual ele pensava.
– Já chega de formalidades entre nós – Um sorriso malicioso apareceu na face bronzeada do capitão, percebeu enfim, algo mais estava reservado para ele naquele navio, mais do que ele pôde imaginar. –Eu tenho muitos motivos para ficar nessa tripulação, luv – Ele deu uma volta atrás dela, provocando-a, ela o acompanhou com os olhos, mas não se virou para acompanhá-lo. Sentiu a respiração quente dele em sua nuca, um arrepio passou por seu corpo quando o sentiu sussurrando em seu ouvido – Mais motivos do que você pode imaginar...
Oies!!!!!!!!!!!!!!
Capitulo meio grandinho esse né? Foi complicado pra mim escrevê-lo, deu um trabalhão tanto pra mim quanto pra Paula editá-lo depois, rsrs. E finalmente o Barbossa aparece...(viva ao Barbossa!!! XD) .Espero que vcs gostem desse!
Quero agradecer mais uma vez a Roxanne e a Mah que estão sempre me mandando reviews, muito obrigada!!! Tbm agradecer a Taty Black, a DarkSoffie e a minha amiga Paula que tbm passou por aki! Gente brigadão!!!! XD
Ah, e eu quero dizer que a Paula anda muito feliz com os comentários dedicados ao casal Will e Julia( casal? que casal...?)
Por hoje é só!
Mandem reviews!
Bjus! Uma otima semana pra todos...
