Capitulo III: Enter.
- Seu segurança me irrita.
- Jillian! Minha velha amiga! Há quanto tempo?
- Aiolos! Não se chama uma dama de velha. E não faz tanto tempo assim. Um mês, no máximo.
Ambos riram divertidos.
- A que devo a honra de sua visita, minha amiga?
- Precisamos conversar. – ela pesou um pouco o tom de voz.
- Sobre? – perguntou com uma ponta de preocupação. Conhecia bem a amiga e quando ela falava assim, era algo sério.
- Isso. – ela ficou de costas para o amigo e retirou rapidamente a jaqueta de couro, jogando-a num canto qualquer, expondo a ferida em seu ombro direito e olhando para o amigo por cima do mesmo.
Aiolos olhou petrificado para a ferida. As bordas do ferimento estavam queimadas e a área ao redor estava roxa. A aparência do ferimento lembrava uma inflamação severa e parecia doer tremendamente.
- Isso é...
- Bala de prata – interrompeu a ruiva já respondendo a pergunta que viria.
- Mas como? Como um simples caçador pode tê-la acertado dessa forma?
- Aí é que começa a historia Aiolos. Não se trata de um simples caçador.
- Simples ou não, ele errou. A cabeça é mais em cima e o coração é do outro lado.
- Aí é que está. Esse tiro não foi dado para me matar. Foi como um cartão de visitas. E cá para nós: foi um tiro muito bem dado.
- Por que?
- Porque o maldito estava a pelo menos 50 metros de mim. Tinha uma arma sem mira. Foi um tiro muito, muito certeiro.
- Impossível. Ninguém acertaria um tiro assim sem mira e com toda essa distância. É impossível enxergar um alvo tão longe assim.
- Impossível pra alguém normal.
- Você está sugerindo que...
- Não sugiro. Eu afirmo. Não era um humano normal. Talvez nem humano fosse.
- Um vampiro?
- Não. Isso ele fez questão de dizer que não era.
- E que homem é esse?
-Isso é o que eu espero que você me diga. Tenho apenas um nome. Saga Komninos. Grego. Como você.
- O que a faz pensar que só porque ele é grego eu o conheço?
- A sua idade.
- Podia ter dito que era aminha experiência.
- Vamos Aiolos.
- Saga... – murmurou Aiolos enquanto caminhava até a janela de vidro, parando em frente a mesma – Então ele voltou. – colocou ambas as mãos para trás.
- Então você o conhece.
- Sim.
- Ótimo. Sou toda ouvidos. – a vampira disse sentando-se numa poltrona e cruzando as pernas.
Entendendo a afirmação da amiga Aiolos deu inicio ao seu relato.
- Saga e eu éramos amigos. Crescemos praticamente juntos em Atenas. – deu um leve sorriso diante da lembrança boa – Apesar de termos jeitos e opiniões divergentes, estávamos sempre completou 19 anos, casou-se com a mulher por quem sempre fora apaixonado. Helena. Como a Helena de Tróia. Ela era tão linda como a da história. Depois de um tempo casados, mudaram-se para cá e foi aqui que Saga viu seu paraíso tornar-se um inferno. Um vampiro estranho apareceu por aqui e fez muitas vítimas. Entre elas...
- Helena.
- Sim. Pra piorar tudo, Helena deu seu último suspiro nos braços de Saga. Ele ficou enlouquecido. Jurou matar o vampiro que fizera aquilo. Sepultou a esposa aqui e voltou para Atenas. Estava diferente, sombrio. Passou cerca de um mês e meio lá e depois retornou para cá. Voltou só para caçar Aiden. E conseguiu. Cortou-lhe fora a cabeça. Mas antes disso, Aiden o transformou numa espécie de condenado.
- Condenado?
- Não como nós. Acontece que Aiden era um bruxo e enquanto atiçava a ira de Saga, misticamente ele passava parte de seus poderes vampíricos à ele. Saga não tem as presas, não se alimenta de sangue, não é sensível à luz da sol, não pode ler a mente alheia, mas pode enxergar, ouvir, se mover e "farejar" tão bem quanto um de nós.
- Por isso conseguiu me acertar. Visão aguçada.
- Sim. Mas o que me intriga no momento é que, após esse episódio ele jurou nunca mais voltar. E hoje você me disse que ele está aqui. Quando se encontraram?
- Há uns três ou quatro dias.
- Quatro dias? – Aiolos olhou assustado para a amiga. Lembrou-se do estado em que se encontrava a ferida. Por mais que seu organismo vampirico regenerasse as feridas, toda e qualquer perfuração causada por prata deixava uma marca. Estava propensa a nunca fechar. No entanto, a ferida de Jillian parecia estranha. Somente quatro dias e estava com aquele aspecto, quando deveria estar pior. Era como se lentamente ela se regenerasse e deixasse o tecido normal, como se nada houvesse acontecido. Estranho.
- O que foi?
- Quatro dias e você só me procura agora? – disfarçou, clamando em silêncio que a ruiva não notasse sua desconfiança.
- Entrei em torpor. Perdi sangue demais e não agüentei. O engraçado é que eu acordei logo. Achei que passaria mais tempo para recuperar as forças que perdi.
- De qualquer forma, que bom que acordou logo.
- Mas ainda me sinto estranha.
- Deve ser fome. Por que não saímos para "comer" alguma coisa?
- Porque já fiz isso no caminho. – respondeu vendo o amigo aproximar-se.
- Então sugiro fazermos algo tão bom quanto. O que acha? – perguntou passando a ponta de seu nariz pela pele macia do pescoço dela.
Jillian instintivamente virou um pouco a cabeça, dando a ele uma área maior de seu pescoço, Sabia o que viria logo em seguida e deixou um gemido de dor e prazer escapar por seus lábios. Aiolos lhe afundara as presas e sorvia uma pequena parte de seu sangue. Logo depois avançou em seus lábios, beijando-a, cheio de vontade e um pouco de malicia.
- Não sabe o quanto senti falta disso. – disse ela entre o beijo
- Então não suma por mais um mês.
- Se tiver disso freqüentemente posso enjoar.
- Se enjoaria de mim? – perguntou interrompendo o beijo.
-Quem sabe? – respondeu divertida, retornando à louca massagem entre línguas.
Aiolos ergueu-a e ela o envolveu com as pernas.
Com um chute o vampiro abriu uma das portas da sala onde se encontravam e avançou com a vampira no colo pelos outros cômodos da casa, subindo um lance de escadas e chegando até sua suíte. Colocou-a no chão finalmente.
- Enjoaria mesmo de mim? –perguntou ele mais uma vez, apreensivo com a resposta. Se ela entendesse o motivo de tanta apreensão...
- Você sabe a resposta.
- De repente você muda de opinião.
- Sabe que não. E sabe o que eu penso de você. Mas e quanto a você? Se enjoaria de mim?
- Nunca!
- E como posso saber?
- Confie em mim.
Os dois colaram seus lábios novamente. As mãos ágeis do vampiro tiraram o corselete da ruiva, baixando o zíper frontal até o fim. Logo seu corpo estremeceu ao sentir os lábios dele experimentando mais uma vez seu colo. Jillian arqueou a cabeça e o pescoço, dando a ele mais acesso à sua pele macia. Aiolos empurrou-a levemente, fazendo com que ela caísse em sua cama. Pôs-se de joelhos com ela entre suas pernas. Tirou a camisa escura, jogando a peça de roupa longe. Jillian passou os olhos pelo tórax musculoso e definido do vampiro. Gostava daquilo. Com certeza aquela musculatura portentosa fora adquirida quando ele ainda estava em Atenas e tinha sido melhorada com a maldição.
Os cabelos vermelhos de Jillian, já soltos, que antes jaziam espalhados no colchão, agora caíam em cascata novamente. Ela erguera o tronco procurando os lábios do amante. Rapidamente ela soltou o cinto dele e afrouxou-lhe as calças. Com um puxão derrubou Aiolos ao seu lado e lhe tirou as mesmas, deixando-o somente com a cueca boxer preta.
- Você sentiu falta disso realmente. – brincou Aiolos levantando-se e agora de frente à ela. Desabotoou-lhe a saia e fez questão de fazer, com as mãos, o mesmo percurso que a peça de roupa fizera até o chão, ajoelhando-se na frente da vampira, para também abrir o zíper lateral das botas.
Desejava aquela mulher mais que tudo. A lingerie transparente que ela usava o deixava louco. Precisava sentir a vampira mais do que já sentia naquele momento. Avançou sobre ela e os dois viveram naquela noite uma tórrida cena de amantes.
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Deitados na mesma cama Jillian e Aiolos descansavam após o momento prazeroso que tiveram juntos. Jillian estava adormecida nos braços do vampiro, com a cabeça repousada no tórax forte dele. Aiolos tinha os olhos abertos. Estava acordado esse tempo todo, com os pensamentos bem afastados. Sua face séria e suas sobrancelhas contraídas denunciavam isso.
Alguma coisa estava errada. Parecia que Jillian havia tido três dias de torpor e acordado somente para terem aquela conversa. Pela quantidade de sangue que ela havia perdido, pela prata da bala que havia ficado alojada um bom tempo em seu ombro até ser retirada e pelas queimaduras que a mesma havia feito. Jillian passaria muitos adormecida só pra recuperar alguma força que fosse para ter no mínimo uma caçada simples e porca. A bala não a mataria, é verdade, mas lhe traria muitos estragos. E a ferida deveria estar vertendo sangue até agora, no entanto, o orifício de entrada parecia estar em processo de cura. O tecido danificado estava se regenerando. Lentamente, mas estava. Era como se ela tivesse algo místico em seu encalço. No entanto, ele conhecia Jillian muito bem. Ela era como ele. Uma alma presa num corpo morto dependente de sangue. Alguma coisa estava protegendo-a. E ele ajudaria.
Prometeu a si mesmo em pensamento que a protegeria. Jillian era agora a pessoa mais importante para si. Saga pagaria caro por aquele tiro. Faria com que ele sentisse a mesma dor, nem que fosse com a espada que ele lustrava mais cedo. Aliás, seria um grande prazer usar aquela espada novamente. Além do mais, Saga lhe devia um duelo mesmo. E desse embate ele não sairia perdedor.
Mas ainda assim, ele tinha muitas coisas para descobrir. E não desistiria fácil. Talvez devesse começar naquele momento a procurar suas respostas, mas estar ali, com ela envolta em seus braços era algo tão bom e tão demorado para acontecer que ele preferiu continuar ali, acariciando a pele e os cabelos macios. Sorriu. Estava ficando mal acostumado. Sempre que ela aparecia daquele jeito, ele sempre acabava deixando as coisas importantes por fazer. Então outro momento lhe veio à cabeça.
"-Mas e quanto a você, se enjoaria de mim?
-Nunca.
-E como posso saber?
-Apenas confie em mim."
Nunca se enjoaria dela. Não seria louco. Confiava nela e ela nele. Uma amizade intensa que crescera rapidamente. Porém, Jillian nunca havia bebido de seu sangue. Na verdade, Aiolos nunca havia deixado que ela o fizesse. Haviam segredos e lembranças que ele não gostaria que ela soubesse. Principalmente porque algumas dessas lembranças ele próprio gostaria de esquecer. Surpreendeu-se quando ela deixou que ele soubesse sua historia, suas lembranças, seus segredos. Tudo através do sangue. Aiolos sabia toda a dolorosa história dela.
Um triste sorriso preencheu seus lábios. Jillian sofrera tanto, mas hoje era uma mulher tão forte, divertida, independente. Adorava isso nela, mas haviam motivos que o deixavam um pouco diferente quanto a isso.
-Você parece distraído. - disse ela acordando e olhando para ele.
-Estava apenas pensando em alguns problemas aqui.
-Você e seus problemas.
-E você? O que pensa em fazer em relação à Saga?
-Não sei ainda. Mas acho que vou somente esperar. Eu não o conheço a fundo. Apenas que ele gosta de atacar pelas costas. Você que conhece ele. Poderia me dizer algo.
-Eu nunca o enfrentei, apesar de que ele me deve um duelo.
-Mas vocês não viviam juntos?
-Mesmo assim. Com as habilidades ele pode ter mudado. Não é tão fácil.
-Por que acho que você está me escondendo jogo? E fala como se eu não soubesse usar uma espada! Sabe o quanto me irrita quando faz isso!
-Não é isso Jillian. Eu nunca enfrentei Saga. Sabe-se lá o que ele pode fazer agora! Até eu tenho receio de enfrentar uma pessoa assim! E eu sei que você usa a espada muito bem! Talvez até melhor que eu.
-Não tente me comprar com elogios!
-Não quero comprá-la.
-Nem tente me persuadir.
-Não quero persuadí-la. Só quero que tenha cuidado.
-Mas ainda acho que me esconde algo!
-Pare com isso! - aborreceu-se afastando-se momentaneamente dela, sentando na cama – Eu não tenho nada para esconder de você sobre isso! Não desconfie de mim só porque não sabe nada sobre meu passado! Eu já lhe provei muitas vezes que eu não seria capaz de fazer isso com você!
Jillian permaneceu calada. Aiolos estava certo. Ele nunca havia feito nada que fosse capaz de lhe fazer sentir-se chateada ou ameaçada. Aiolos sempre cuidara dela, sempre a ajudara, sempre fizera tudo que fosse possível por ela. Estava julgando mal o amigo.
-Desculpe. - disse ela baixando os olhos.
-Tudo bem. - ele levantou lançando-lhe um sorriso – Mesmo com toda sua teimosia e seu orgulho não consigo ficar bravo com você. - colheu as roupas do chão vestindo-se.
-Aonde vai?
-Tenho alguns trabalhos para fazer.
-Você e seus trabalhos.
-Não fique enciumada.
-Nesse caso, já vou. Não quero atrapalhá-lo.
-Você não me atrapalha, mas de forma alguma vou deixá-la sair daqui agora. O Sol está quase para nascer e você não chegará em casa antes de algum raio pegá-la pelo caminho.
-Eu consigo.
-Não insista. Vai ficar aqui e acabou. No cair da noite você volta pra casa.
-Então você volta pra cá comigo. - puxou-o, envolta pelos lençóis, pelo cós da calça e derrubou-o novamente na cama.
-Jillian! Eu tenho que...
-Colocar sua língua na minha boca e me beijar? É, você tem sim.
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Aiolos acordou a noite seguinte e Jillian não mais estava ao seu lado na cama. Sorriu. Não adiantava. Nunca conseguiria segurá-la. Olhou para o lado e na mesinha havia um bilhete.
"Desculpe tê-lo chateado noite passada, mas você me conhece bem e sabe como sou difícil de lidar. Senti sua falta esse tempo em que não nos vimos. Prometo vir visitá-lo com maior freqüencia.
Jillian.
Deu um suspiro profundo ao terminar de ler o bilhete. Seus pulmões não precisavam mais daquele ar que havia inspirado, mas seus pensamentos sim. Precisavam de algo que os acalmasse. Se Jillian soubesse como ele se sentia realmente. Se soubesse o quanto era difícil guardar aquele segredo por tanto tempo. Mas aquilo para ele não era o pior de tudo.
Vestiu-se e foi cuidar de seus assuntos.
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Jillian entrou na antiga mansão e encontrou, na sala de estar, uma Sarah aflita, andando de um lado pro outro.
-Graças a Deus! Você sabe o quanto me deixou aflita e preocupada? E se Saga tivesse conseguido novamente? E se tivesse...
-Sarah! Já chega! Pára de drama. Eu já estou aqui, não estou? Desculpa se eu não avisei. Eu reconheço meu erro, mas agora chega disso. Ele não me pegou e nem vai me pegar. Só conseguiu da primeira vez porque eu não sabia da existência dele. Agora chega vai! Eu sei me cuidar só!
-Tudo bem. Desculpe. Mas você conseguiu as informações que queria?
-Sim.
-Ótimo, porque eu tenho um presente pra você. Aqui. - a jovem estendeu um papel contendo algumas palavras impressas.
-O que é isso?
-Informações que eu tenho certeza que você ainda não tem.
-Sarah... - um tom de repreensão.
-Não adianta! Você pode falar o que quiser, pode até me expulsar daqui! Dane-se! Esse cara te feriu seriamente! O que eu puder fazer pra te ajudar, vou fazer! Pode me xingar, faça o que quiser! Eu não tô nem ai! Ninguém fere a única pessoa que me estendeu a mão esse tempo todo e fica tudo assim!
-Já acabou?
-Já!
-Ótimo, porque eu só ia perguntar se você estava mexendo em programas de computador que não devia novamente.
-Você me conhece. Toma.
-Interessante.
"The LandMark London
Nome do Hóspede: Saga Komninos
Apartamento: 1801
Data de Entrada: 06/13
Data de saída: -"
-Não tem data de saída. - disse a ruiva terminando de ler o papel.
-O que significa que ele não sabe quanto tempo vai ficar.
-Sarah, quero que ache mais coisas sobre esse homem. Ele com certeza já esteve em muitos outros hotéis pelo mundo. Veja o que acha.
-Pensei que fosse ficar furiosa comigo.
-Eu apenas não gosto quando você se mete em assuntos que sejam diretamente ligados ao William.
-O que pretende fazer agora?
-Por alguns pensamentos em ordem.
-Algum problema?
-Não sei bem se é um problema.
-Aiolos?
-Sim e não.
-Sim e não? Qual o outro motivo?
-Desculpa Sarah, mas não posso lhe responder algo que nem eu mesma sei ainda.
-Entendo.
-Não me mande descansar para por a cabeça em ordem. - disse para a jovem com o dedo em riste já prevendo o que ela diria.
-Eu não disse nada. - sorriu
Sarah acompanhou o trajeto da ruiva até perdê-la de vista no topo da escada
Jillian percorreu um corredor um pouco extenso até chegar a uma porta de madeira entalhada, com a maçaneta dourada. Girou a mesma e ouviu o "clique" da trava soltando-se. Demorou um pouco na mesma posição e lugar, como se buscasse coragem para enfrentar o que veria depois da folha de madeira. Balançou a cabeça livrando-se daquele pequeno medo e atravessou o espaço. Um quarto. Totalmente diferente do que habitava la embaixo, no subsolo da casa. Uma cama de casal com um belíssimo dossel. A colcha da chama, de uma fazenda alva e macia, trazia folhos que caiam pelas laterais do colchão, lembrando saiotes adornados com fitas e rendas. Os mesmo detalhes eram vistos nas almofadas e travesseiros que se amontoavam de forma organizada próximo ao espelho da armação de metal, que continha arabescos e filigranas, onde eram presas as fitas que seguravam a cobertura do dossel, lembrando uma cortina presa nas laterais para permitir a passagem de luz. Ao lado da cama, duas mesinhas de madeira laqueada. Em cima delas, candelabros delicados que suportavam 3 velas, pequenas caixinhas porta-jóias e bibelôs. Aproximou-se de uma delas, a d lado esquerdo, onde continha um item em especial. Um porta-retratos. Vazio. Ali, jazia antes uma foto que ela considerava especial, porém o tempo não permitiu que a imagem permanecesse naquele lugar materialmente. Ela tomou o objeto em suas mãos pálidas e passou os dedos finos da mão direita no vidro que deveria proteger o papel que havia ali. Não precisava que a foto ainda estivesse no lugar porque o momento registrado nela ainda era vivo e nítido dentro de sua memória. Sentou-se no colchão macio e olhou ao redor do cômodo. Em frente à cama, um grande baú, como em seu quarto no subsolo, porém, aquele que via estava camuflando com um bonito estofado branco, e em seu interior, ao invés de armas, continha memórias. Em frente ao baú, um grande e largo guarda-roupas espelhado também de madeira laqueada. Do lado direito do quarto, próximo à porta que dava acesso ao banheiro, havia um toucador. Em cima dele, perfumes, maquiagens, mais pequenas caixinhas e um vaso de flores vazio. Ao lado do móvel, um cabide de pé. Levantou um pouco mais os olhos e viu os quadros de flores que adornavam as paredes brancas. Correu os olhos para as duas portas de correr á sua frente. Elas davam acesso à grande sacada. Bastava girar a chave e empurrar as duas folhas. Mas ela não queria aquilo. Olhou para um outro canto do cômodo, próximo às duas grandes folhas. Uma poltrona. Um arrepio percorreu-lhe o corpo.
Aquele aposento era seu antigo quarto, quando ainda era uma pessoa, uma mulher de sangue quente correndo em suas veias. Mulher, esposa, mãe. Aquele quarto estava lotado de lembranças. Boas. Más. Seu passado. Sua vida. Sua história. Um homem sentado na poltrona. Aos seus pés, uma parafernalha. Vidros, toalhas, bacias. Um médico. Na cama, seus cabelos vermelhos soltos, espalhados, molhados de suor. Frio. Sentia muito frio. Seu peito doía. Não tinha forças para nada. Um homem entrando, o médico saindo. Lágrimas. Lágrimas pesadas. Como as que caiam de seu rosto naquele momento, porém, elas não eram límpidas e transparentes como antigamente. Agora elas eram rubras. Mas igualmente dolorosas. Sempre aquela lembrança lhe vinha à mente. Sempre. Aquele dia, depois do dia da morte de Marianne fora o pior em sua vida. Nem o dia de sua própria morte lhe marcara tanto assim.
Olhou para si mesma. Suas roupas, suas botas, sua pele pálida. Tudo destoava daquele ambiente. Já não era mais aquela Jillian de quase 300 anos atrás. Mas ainda assim, quis manter aquele cômodo do jeito que sempre fora. Ali podia sentir-se um pouco mortal e finita novamente. Controlou o choro e limpou as lágrimas. O passado era passado. Lembrou-se então da conversa que tivera com Aiolos. Poderia ele estar escondendo algo realmente? Ele lhe pareceu um pouco distante em alguns momentos, como se procurasse respostas entre seus pensamentos. Talvez fossem respostas que ele buscava para resolver seus problemas. Aiolos era o cara mais enrolado que conhecia. E mais misterioso também. Mas e se as respostas que procurava não fossem sobre seus problemas e sim sobre ela? Quando contou sobre terem se passado 4 dias de seu encontro com Saga, a surpresa e sua justificativa lhe pareceram convincentes no momento, mas depois que ele passou a ficar estranho, ela passou a desconfiar. Mas será mesmo que Aiolos estava lhe escondendo algo? O conhecia há tantos anos. Confiava nele. Cegamente. Não. Ele não seria capaz disso. Talvez aquela nova confusão em que se metera estivesse lhe fazendo pensar aquilo. Talvez o fato de Saga e Aiolos se conhecerem estivesse induzindo sua cabeça a pensar aquelas coisas e ter aquelas idéias. Não tinha muita certeza sobre isso. As duas únicas certezas que tinha era que devia dar um pouco mais de tempo para Aiolos e que tinha de encontrar o maldito caçado na próxima noite. Sem falta. Tinha também que descobrir o máximo de coisas sobre ele. Algo lhe dizia que envolver-se num combate com o caçador seria algo que renderia bons momentos de combate. Saga não era qualquer caçador e ela não era qualquer vampira. Começaria na noite seguinte com um simples encontro. O desgraçado não perdia por esperar. Mostraria a ele que havia se metido com a criatura errada. Definitivamente ele pagaria pela bala de prata.
Cansada de destoar com aquele cômodo, ela levantou-se e atravessou a porta, saindo do antigo quarto. Percorreu o corredor parando diante de outra porta. Levou a mão à maçaneta, mas logo a tirou. O bonito piano de cauda não era a companhia que ela desejava naquele momento. Afastou-se e desceu as escadas.
Continua...
Esse foi o capitulo mais facil de reescrever, ate pq não mudei muita coisa não... =D
A estrutura talvez ainda tenha ficado simples demais, mas ele era mais para instroduzir o Olos na historia e mostrar um pouco da relação dos dois...
Hope u all like it...
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