iv. Separação
"Em amor, não há último adeus, senão aquele que se não diz ¹".
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Almíscar! A menina abriu os olhos, assustada. Seu coração disparou e, instintivamente, ela cruzou os punhos fechados sobre o peito. Percebeu, de esguelha, que um vulto indistinto se aproximava de sua cama, camuflado pela escuridão que envolvia o quarto. O medo tomara conta de si, mesmo antes dela despertar: aquele odor, já seu conhecido – forte, penetrante e persistente –, denunciara a presença indesejada que lhe causava tanto pavor e repulsa.
Mas, não era apenas a fragrância do valioso perfume de essência tibetana que identificara e delatara o inconveniente visitante: era a mistura de aromas, dispersa no ambiente, que traduzia a criatura odiosa e pusilânime que a exalava. A combinação do cheiro de fumo – das cigarrilhas chiques e esnobes que impregnava as roupas e era difundido pela sua respiração –, com o fedor do suor – que emanava de sua pele e penetrava em tudo que era tocado por ela –, aliada à caríssima loção importada da China, criava um nauseante cheiro, próprio e inconfundível, que se associava àquele indivíduo que amedrontava inconscientemente a garota recém acolhida na puberdade.
Inconscientemente, sim! Porque, o que era sonho, pesadelo ou realidade? Sua mente e suas lembranças eram tão obscuras quanto a penumbra que envolvia o ambiente, e aqueles momentos vagos do passado lhe vinham apenas como flashes, os quais ela tentava esquecer a todo custo, apagando as reminiscências retidas na memória que insistiam em aflorar.
"Trouxe-lhe um chá... Para que durma melhor!" – Disse-lhe o homem, se sentando à beira do leito e lhe estendendo uma xícara fumegante.
"Não quero!" – Respondeu-lhe com a voz embargada, enquanto puxava o lençol até abaixo do queixo e apertava freneticamente suas bordas com as duas mãos.
"Beba!" – Ordenou-lhe com autoridade, empurrando a infusão ainda mais em sua direção.
"Eu quero a mamãe!" – Ela choramingou, mas já se ajeitando na cama, pronta a ceder.
"A mamãe está dormindo... O papai vai cuidar de você, agora". – A voz de seu pai soou falsa e cínica, enquanto um sorriso hipócrita brotava de seus lábios.
O medo e a resignação eram maiores do que a rebeldia da menina e, intimamente, ela sabia que tomando a bebida amarga tudo seria esquecido e, na manhã seguinte, a única coisa a incomodá-la seria ou a pele arranhada pela barba mal cuidada e por fazer ou o cheiro abominável que ficaria impregnado em sua própria pele.
Logo, as imagens se tornavam apenas borrões que não deveriam ser lembrados, apesar do desconforto que deixaria suas marcas pela eternidade. Por isso, esquecer era imperativo! Apagar a sensação desagradável de ter aquelas mãos nojentas tateando pelo corpo ainda imberbe, extinguir o efeito nauseante de sentir os dedos manchados de nicotina e saturados por seu fedor percorrendo trechos ocultos de sua pele, passeando por seus mamilos púberes e se aninhando entre suas coxas. Lembranças estilhaçadas que precisavam ser esquecidas, apesar de que jamais seriam completamente apagadas.
De súbito, um salto no tempo realiza a tarefa de remendar suas memórias dispersas, mantendo em evidência o mesmo cenário torpe e distorcido, a mesma cena rebuscada e imoral, entranhada em um canto inexpugnável de seu subconsciente, oculta e trancada no transcorrer do dia a dia, mas relutante por ser extinguir. Agora era a boca, imunda e asquerosa, a percorrer-lhe a intimidade, a aspirar profundamente seus cheiros, saboreando seu gosto virgem qual uma iguaria, num estalar da língua: era preferível morrer!
Um novo avanço, cerzindo os retalhos imemoriais, e o corpo da criança toma formas de mulher. Mas, a sua sina persiste e, agora, o ser repugnante lhe aparece se esfregando em sua pele, exercendo uma dolorosa pressão sobre si, num ritmo lento e amoral. O suor escorrendo, o bafo quente de seu hálito, cinzas esvoaçando da piteira presa entre dentes no canto da boca. Triste fado de reviver o sofrimento, de recobrar lembranças dolorosas – resquícios de fragmentos incestuosos da memória.
Sempre a mesma cena, sempre o mesmo ato. Através do tempo, marcando uma vida, desmascarando o monstro abjeto, desprezível. A morte seria bem vinda, ela acabaria com tudo... Ou melhor: a morte seria o castigo merecido àquele crime... E acompanhada de dor, muita dor.
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Os primeiros raios da luz da manhã trouxeram Bellatrix de volta do pesadelo que a perseguia há muito. E, como sempre acontecia nos últimos tempos, um nome afluía à sua boca naquele momento de alívio: Rosmerta.
O que eram aqueles delírios? Porquê ela sonhava com fragmentos do passado que a amante, provavelmente, lhe confidenciara? Porquê se importava com o que pudesse ter lhe acontecido, se à visão de algumas poucas moedas ela a havia esquecido?
Se o monstro que a aterrorizava em seus sonhos merecia a morte como punição, aquela a quem ela entregara seu coração e a desprezara não faria jus a melhor sorte. Mas, a morte isolada da dor não fazia sentido e, aliada ao desespero, teria um sabor melhor ainda.
Pacientemente, ela aguardou pela noite uma vez mais e, quando a escola adormeceu, a menina avançou pelo túnel que tantas vezes assistiu seus sorrisos de satisfação. Mas, agora sua incumbência era outra: o doce sabor do prazer abandonaria definitivamente seu paladar para dar lugar ao gosto amargo da vingança.
O vulto, agora, não se escondia sob a capa verde ornamentada pelo brasão da serpente. O manto negro demonstrava as intenções obscuras, e o capuz encobria o brilho insano que seus olhos acinzentados emitiam.
A primeira rameira que avistou à saída do porão da Casa de Má-Fama caiu instantaneamente ao chão, sem emitir ruído, com os olhos esbugalhados e as mãos presas à própria garganta, como se pudesse dessa forma fazer com que o ar voltasse a entrar até seus pulmões.
Uma a uma, as cortesãs foram caindo aos seus pés, esvaindo-se em convulsões enquanto a vida as abandonava, irremediavelmente. O riso histérico de prazer e conquista fugia assustadoramente pela garganta de Bellatrix. Um ou dois fregueses, que escolheram aquela noite funesta para satisfazerem sua libido, também tombaram junto às mulheres da vida, com o terror estampado nos olhos que iam pouco a pouco se tornando opacos. A varinha chegava a fumegar, e a garota saboreava largamente o único prazer que se aproximava àquele que sentiu com a amante: o poder da morte e o domínio da dor sob seu comando.
A porta deixada propositadamente por ultimo se abriu, e os olhos azuis e assustados de Rosmerta surgiram à sua soleira, observando os corpos que a outra deixara caídos à sua passagem.
— É assim que termina tudo? – Disse ela, apertando com as duas mãos os longos cabelos louros que lhe caíam por sobre um ombro e lhe escondiam o colo do peito.
— É o destino que você escolheu, ao me trocar por um punhado de moedas – respondeu-lhe com o desafio na voz.
— Não nego que aceitei o dinheiro, mas a promessa que arranquei de seu pai foi o maior pagamento para mim – mesmo nessa hora, o tom suave de sua voz tinha o poder de confundir Bellatrix.
— Que está tentando fazer? – Ela retrucou – Acha que vomitando mais mentiras terá a vida poupada? Meu pai é um porco, eu sei, mas me arrependo de ter me preocupado e comovido com o que o seu próprio pai fez com a sua vida.
— O meu pai? Do que está falando Bella? – Ela inclinou a cabeça para o lado mirando-a fixamente nos olhos, como que tentando se infiltrar na alma da outra através deles.
— Não queira me confundir. Você me contou. O seu pai a violava e te levou a abandonar Hogwarts para se entregar à prostituição – sua voz era uma mescla de raiva e dor.
— Meu pai? – Repetiu a mulher, espantada. – Eu jamais soube quem foi meu pai, Bella! Eu te contei tudo quando nos conhecemos, lembra? Abandonei a escola e entrei para a vida porque minha mãe estava doente e precisávamos do dinheiro. Minha mãe era uma trouxa, Bella, lembra-se? Eu sou uma sangue-ruim.
— Não vai me enganar de novo – sua voz alterada reverberava pela casa vazia. – Eu me lembro de tudo. Você disse que temia que o seu pai abusasse de suas irmãzinhas quando você saísse de casa.
— Eu não tenho irmãs, minha querida. Essa é a sua história. É o que você me contou quando desabafou comigo. Seu pai lhe dava uma poção para que você esquecesse, e isso afetou sua mente.
Bellatrix se calou quando o golpe da verdade a atingiu qual uma adaga que lhe atravessasse o coração. Estava tudo ali, oculto na sua mente, aguardando apenas que uma palavra sincera trouxesse a verdade dolorosamente à tona. O leito que aquele homem se sentava com a xícara de poção à mão era a sua própria cama. O corpo do qual ele abusava e que fazia as suas nojeiras era o seu próprio corpo. As irmãs menores, que ela queria proteger para não terem um destino igual ao seu, eram Andy e Cissa. E o crápula que a violentava há tanto tempo era o seu próprio pai. O monstro tinha um nome, afinal: Cygnus Black.
A varinha soltou-se de sua mão e, ao tocar o chão, fez um barulho oco soar pela casa imersa no silêncio da morte, as lágrimas correram pelo seu rosto e suas pernas se dobraram como se pertencessem a uma marionete que fora abandonada pelo seu animador.
Rosmerta adiantou-se em tempo de amparar seu corpo nos braços. Bellatrix escondeu o rosto em seu pescoço e chorou como nunca o havia feito. Os gritos de seus soluços ecoavam pela casa entregue à morte. Agora ela se lembrava, agora ela sabia, agora o seu ódio tinha um representante real, e um novo significado passou a tomar sentido em seus pensamentos.
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Uma eternidade parecia haver se passado quando Bellatrix conseguiu colocar outra vez seus pensamentos em ordem. Todos os músculos de seu corpo estavam doloridos, como se tivesse sido surrada sem piedade. Seus olhos ardiam por estarem secos, não porque não houvesse mais lágrimas que ela pudesse derramar, e sim porque, num juramento silencioso, decidira que nunca mais iria chorar novamente em sua vida. Quando percebeu que estava próxima do final do túnel que levava a Hogwarts, virou-se para Rosmerta que ainda a amparava e, estacando em seus passos, disse:
— O que será de nós, Rô? O que será de mim? – Ela procurava inutilmente demonstrar firmeza na voz.
— O seu pai não a importunará nunca mais! – A outra a confortou, encarando-a sem pestanejar, enquanto aninhava o rosto da garota carinhosamente entre suas mãos. – Ele foi generoso em sua oferta, mas também fiz com que ele jurasse que não a incomodaria ou às suas irmãs, senão eu levaria o caso a público.
Como a outra não lhe respondesse, ela prosseguiu, despejando informações desnecessárias para o momento, como forma de preencher o silêncio incômodo:
— Com o dinheiro que ele me deu, comprei o bar Três Vassouras, e já tomei posse junto ao antigo proprietário. Pretendo retomar uma vida honrada, a despeito do meu passado. Só permaneci na Casa até essa noite porque suspeitei que você pudesse aparecer por lá, mas jamais imaginei que tomasse tal atitude.
— Para mim nada mais importa, basta saber que você não me traiu – desabafou, enquanto lançava os braços em torno do pescoço da outra e colava sua face na dela. – Apenas fez o que julgou melhor pra mim.
Rosmerta aguardou um instante, considerando o que deveria falar a seguir e, com um profundo suspiro, prosseguiu:
— O que você fez foi terrível, Bella. E poucos acreditarão que foi conduzida num momento de desespero. Não quero te ver pagar por isso pelo resto de sua vida, mesmo que tenha sido monstruoso.
A jovem não respondeu, apenas se aninhou ainda mais em seu peito, procurando refúgio. Rosmerta prosseguiu:
— Volte para o dormitório e esconda sua varinha, ninguém jamais saberá que a chacina foi obra sua. Eu irei daqui direto para o Três Vassouras, não poderão provar que eu estava na Casa no momento que tudo aconteceu e, assim sendo, ninguém saberá de você.
A jovem concordou, não conseguindo conter um suspiro de alivio e, tomada de uma idéia repentina sugeriu:
— Nós poderemos continuar nos vendo, Rô!
— Isso será impossível, Bella – sua voz era firme, mas carinhosa. – Não podemos nos encontrar mais, pois isso a ligará às mortes ocorridas hoje. Além do mais, dei minha palavra ao seu pai e tenho que cumpri-la para que ele também cumpra a dele.
Bellatrix sentiu uma parte de si rasgar-se e se separar dela, num corte lento e profundo. Devaneara, por um instante, que tudo poderia continuar a ser como antes, mas seus olhos não estavam mais fechados, e ela se lembrava agora dos fatos que a fizeram se encaminhar até ali. Percebeu que sua melhor fração morrera naquele momento, e que apenas o pedaço que se regozijava com a dor e o infortúnio daqueles que a confrontavam havia sobrevivido. Mas, havia um culpado, e sua raiva foi canalizada toda para ele.
— Meu pai não irá se safar tão facilmente... – disse ela finalmente, após um silêncio prolongado. – Eu irei confrontá-lo... E farei com que tenha o castigo que merece!
— Não faça nada que venha a se arrepender depois... – preocupou-se a outra. – Você já foi muito além do que deveria, deixe as coisas como estão: chega de mortes!
O brilho gelado que por muitas vezes se apoderava dos olhos da herdeira dos Black insinuou-se, perdido no vazio, enquanto sua voz dura e firme soava, intimidante:
— Há coisas bem piores do que a morte... E muito mais saborosas de serem observadas – calou-se por um instante, como que se lembrando de um novo fato. – E, depois... Acertarei as contas com a minha mãe... Sinto que ela sabia de tudo e se omitia... Tudo pelo bom nome dos Black!
Marcas de expressão passaram pelo semblante de Rosmerta, e seu olhar repousou num extremo, evitando cruzar com a outra, como fazia quando suas palavras fugiam envergonhadas da verdade:
— Bella, sua mãe não sabia de nada. Não a odeie! – Sua mão segurou fortemente a dela, como que para reforçar o seu pedido. – Ela não tem culpa!
Bellatrix a fitou por um longo momento, sedenta em poder saborear uma ínfima porção de verdade em meio àquelas palavras, esforçando-se em acreditar nela. Então, numa caricatura de sorriso, aquiesceu:
— Se você diz, Rô... Acredito em você!
Bellatrix fitou o rosto de Rosmerta com intensidade, sabia que provavelmente aquela seria a ultima vez que contemplaria aqueles olhos de um azul profundo, que tocaria os cachos de ouro de seus cabelos, que aspiraria o doce perfume que emanava de sua pele. A outra também sentia que aquela seria a despedida derradeira, então prendeu uma vez mais seu rosto entre suas mãos, agora trêmulas, e aproximou lentamente seus lábios de carmesim dos da menina.
A jovem Black percebeu que palavras seriam desnecessárias e, uma vez mais, seus lábios se tocaram, não com a violência da libido despertada, mas com a tristeza própria das despedidas. Bocas que se sugavam, procurando inutilmente absorver um quinhão da outra e torná-la parte de si mesma, umedecidas não só pela saliva, mas também pelas lágrimas que rolavam dos olhos de Rosmerta. Ambas procuraram eternizar o sabor das línguas que se entrelaçavam febrilmente e conquistarem a dádiva de manter o gosto doce-amargo do seu amor findo por um tempo indefinido.
Bellatrix sabia que, apesar da boa intenção da ex-amante ao afastar-se, era ela quem perderia mais, pois não haveria mais lugar para o amor em sua alma, a menos que um dia ela encontrasse alguém que demonstrasse tanto anseio pelo poder, tanto prazer pela dor e tamanha repugnância pelo remorso quanto ela.
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¹Alexandre Dumas, pai
