Nascido da traição
"O ódio é, de longe, o prazer que dura mais; os homens amam depressa, mas odeiam devagar" (frase provavelmente dita/escrita por Lord Byron)
Acordou, como quase todos os dias, com alguém dormindo em sua cama. Dormira mal. Aquele cara roncava tanto que lhe atrapalhara o sono. Odiava pegar pessoas assim. Sacudiu-o, sem carinho, obrigando-o a despertar.
- Já é de manhã. Hora de ir, querido – disse Afrodite, quase como se o estivesse expulsando dali.
Mas ele não queria ir. Tentou beijar o pisciniano, mas foi rejeitado. Pediu lascivamente para ficar um pouco mais, mas o dono da casa estava decidido a se despedir. Decidiu, então, simplesmente se recusar a ir. Sem problemas. Afrodite era uma flor na maioria do tempo, mas quando o contrariavam ficava só espinhos. Arrastou o visitante até a porta e atirou-o escada abaixo. Literalmente. Da próxima vez que o ouvisse logo. Se é que haveria uma próxima vez. O cara nem era tão bom assim de cama que valessem os roncos.
Arrancou a roupa de cama e colocou-a para lavar. Odiava dormir nos lençóis cheirando a qualquer um. Tomou um banho demorado e refrescante, durante o qual reparou que o desgraçado havia deixado manchas em sua pele. Voltou ao quarto enquanto enxugava os cabelos com uma toalha, totalmente nu. Abriu o guarda-roupa para pegar uma túnica de treino e olhou as duas fotos coladas na parte interna da porta. Sorriu timidamente.
- Bom dia, mon'amour – cumprimentou a foto maior, mandando um beijo para o Camus retratado às escondidas.
Olhou a foto que ficava abaixo da de seu amado e imediatamente seu sorriso se desfez. Ignorou-a, pegou a roupa e fechou aporta, silencioso. Aquela foto sempre mexia com ele. Pensara em jogá-la fora diversas vezes, mas a deixava lá para sempre lembrá-lo do que tinha acontecido e adverti-lo do que aconteceria se ele confiasse muito em alguém novamente. Nunca mais deixaria aquilo se repetir.
Na foto, duas crianças sorriam, uma delas segurando o coelhinho novo de ambos. Deviam ter uns sete anos, no máximo. Estavam agachados na neve, encapotados até a cabeça.
De fato, Afrodite nunca tinha perdoado Milo pela traição. "Uma luta justa". "Justa" a mãe. Sorrateiramente o escorpiano puxara o tapete do "melhor" amigo para se garantir vencedor. O pisciniano, tido como o traiçoeiro da história, tinha feito de tudo para que a luta fosse justa, realmente respeitara a promessa muda e jogara limpo. E o que ganhou? A derrota. "Uma ironia do destino", como diziam por aí. Ficara com a má-fama, de mal perdedor, de destruidor de lares, daquele que fazia de tudo para atazanar a vida do pobre cavaleiro de Escorpião, que só queria ser feliz com seu amor predestinado.
Não, não podia mesmo aceitar aquela derrota. Não pela amargura da derrota, não era aquilo que inspirava sua vingança. Era a traição. Não foi o fato de perder que ele não podia perdoar; foi o fato de Milo jogar tão sujo com ele, que tanto confiara no escorpiano. A partir de então decidira não se incomodar mais com nada: honra, justiça, palavra... Eram lindos conceitos teóricos solapados pelo mundo real. O que importava era a finalidade e, acima de tudo, a vitória. Amava as coisas belas, desde sempre, e a vitória era a mais bela de todas. Quanto à finalidade, não importava os meios utilizados desde que o fim fosse justificável. Bem "os fins justificam os meios" mesmo. Que lhe importava se o Grande Mestre era um impostor, se tinha ele a força necessária para subjugar os maus? Não ligava mais para esses detalhes. Apenas tinha que vencer aqueles que intentassem calcar os objetivos de Atena, seus ideais. Honra? Para que servia? A honra acorrentava os meios para a vitória. Se necessário, se deitaria, sim, com qualquer um; se preciso, colocaria o pé na frente de quem passasse. E a justiça? Nunca o mesmo resultado seria justo para ambos os lados envolvidos. A solução era sempre trazer a justiça para o seu lado, para o seu ver, para o lado vencedor. Simples assim.
Talvez ninguém acreditasse (ninguém exceto Milo), mas Afrodite já fora um ávido defensor da justiça e da honra. Fora um garoto puro, incapaz de fazer mal a alguém, por isso se tornara Cavaleiro. O Afrodite de agora era resultado de anos de Santuário, treinamento e lutas. E da traição de Milo. Sim, aquilo fora uma traição, a maior de sua vida. Tentou relevar, tentou perdoar, tentou entender, tentou esquecer, mas foi incapaz. Odiou o escorpiano profundamente e, desde então, tentara vingar-se. Quis infernizar o outro Cavaleiro de Ouro sempre que possível, até conseguir a vingança plena. Queria mostrar-lhe o quanto foi "legal" o que fizera. Sabia, melhor do que ninguém, melhor que até mesmo Shaka, que Milo não se arrependia do que tinha feito. Tanto tentou que conseguiu. Deixar Milo saber que transara com Camus e que fora ele próprio que largara o aquariano, e não o francês que o rejeitara, foi extremamente reconfortante. Jamais acreditou que conseguiria pagar a mágoa e o ódio através do amante do seu amigo traidor; e justamente o objeto da traição! Regozijou-se com o incômodo de Milo no restaurante. Vencera, afinal. Sempre sonhara com aquele momento. Mas, por quê, ainda assim não se sentia feliz? Por que algo ainda o incomodava? Por que passara uma hora vendo fotos da infância, isso que lhe fazia tanto mal? Realmente odiava Milo... Por que não conseguia livrar-se de sua imagem?
Suspirou. Ficar remoendo velhos pensamentos era improdutivo. Tinha que treinar, e era isso que faria. Treinos o levariam à vitória; Milo, não. Além do mais, treinar sempre lhe limpava a mente. Seria bom levar o incômodo embora.
E assim o fez. Treinou o dia inteiro, nem se lembrou de Milo, de Camus, da traição, do amor, dos problemas. Os treinos sempre cumpriam sua dupla tarefa: fortificavam-no sempre, deixavam sua mente alheia a pensamentos desprazerosos. Durante uma breve pausa, Camus apareceu trazendo recados de Atena. Afrodite viajaria por alguns dias, à procura de informações. Conversavam sobre os detalhes técnicos da viagem quando surgiram Shaka e Milo, que andavam sempre juntos nos últimos meses. Afrodite logo imaginou qual seria a reação do escorpiano, e, como sempre, acertou em cheio: enfurecido o loiro dirigiu-se até o pisciniano e desafiou-o para um treino de batalha. Afrodite imediatamente pôs-se de pé e acompanhou o desafiante ao centro da arena, enquanto Camus e Shaka tentavam convencê-los a pararem.
- É apenas um treino, Shaka, Não uma batalha de verdade – tentou tranqüilizar Milo.
- É. Não é como se um de nós desejasse matar o outro – concordou sarcasticamente Afrodite.
E ninguém, nenhuma palavra, conseguiu fazê-los mudarem de idéia.
Os dois, parados frente a frente na arena, conversavam por olhares. Ambos se odiavam, ambos há tempos queriam passar as desavenças a limpo. Aquele provavelmente era o momento. Sem utilizarem os cosmos um deles havia de ser melhor do que o outro, havia de vencer antes dos 1000 dias. Em menos de duas horas anoiteceria. Esse seria o sinal final da luta. Sem prorrogação.
Camus pensava se devia avisar Atena, mas Shaka garantira que era apenas um treino, da mesma forma que ele vivia treinando com Milo. Além do mais, eles não usariam o cosmos, não seria, então, contra as regras, e Shaka repetiu várias vezes que duvidava que os dois fossem capazes de se machucar seriamente lutando naquelas condições. Mas, apesar de afirmar tudo com convicção, ele próprio tinha lá suas dúvidas quanto ao resultado daquela luta. Se com olhos roxos, ossos quebrados e um pouco de sangue aqueles dois se resolvessem de vez, valeria a pena. Particularmente, ficaria satisfeito se seus dois melhores amigos pudessem voltar a se encontrar em sua casa sem ameaçarem destruí-la. Pena que ele não acreditava que tudo seria resolvido tão facilmente...
E os dois Cavaleiros lutaram. Ambos eram muito bons e rápidos, e talvez por se conhecerem tão bem por olhares nenhum ataque era tão inesperado a ponto de atingir o adversário. Quem nunca os tivesse visto juntos o suficiente para saber que não se suportavam poderia jurar que estavam apenas brincando, dançando uma coreografia de luta, após meses de ensaio.
Aquela foi, provavelmente, a primeira vez que Camus percebeu. Percebeu que aqueles dois eram tão próximos. Percebeu que um enxergava o outro como água translúcida, enxergava as profundezas de seus pensamentos. Percebeu que, embora afastados há anos, algo parecia acorrentar suas mentes unidas. Pela primeira vez em anos se perguntou o porquê eles haviam se separado. Teria sido a promiscuidade e homossexualidade de Afrodite? Mas, parando para pensar naquilo, Milo era promíscuo e gay também... Teria sido a causa... o próprio Camus? Se os dois não tivessem se apaixonado pelo Cavaleiro de Aquário eles teriam mantido a amizade até agora? Era estranho pensar na dupla Milo e Afrodite em vez de Milo e Shaka, como todos estavam acostumados. De repente sentiu um incômodo crescente no peito. Que era aquilo? Ciúmes. Shaka perto de Milo era algo tão natural quanto um Cavaleiro junto de sua armadura, além de que o virginiano era hetero e jamais teria algo com o amigo. No entanto, Afrodite e Milo... Não, não sabia o porquê, mas repudiava aquela ideia. Que Peixes dormisse até com o pai de Milo se isso fosse mantê-los afastados para sempre.
Já Shaka sempre soubera que havia um Milo perdido, que apenas Afrodite conhecia, mas jamais imaginou que eles permanecessem tão unidos após tantos anos. "O ódio é o caminho mais curto para o amor", como diziam. Aqueles dois haviam passado tanto tempo preocupados em se odiarem e a atazanarem a vida um do outro que o cordão entre eles jamais fora, de fato, rompido, e por prestarem tanta atenção no "adversário" acabaram se conhecendo cada vez mais, porque agora podiam enumerar dezenas de defeitos do outro. Natural, há mais de uma década devotavam-se apaixonadamente à tarefa de vencer.
O sol estava prestes a se pôr e nenhum dos dois combatentes fora sequer arranhado. Ofegavam, cansados, estavam dando tudo de si. Naquele ritmo, não haveria um vencedor, e Milo não se contentava com a ideia de um empate. Afrodite tinha que ser derrotado a qualquer custo. Se fosse uma batalha em prol de um sentimento nobre ele saberia como vencer. Mas valia a pena fazer aquilo em uma batalha "de mentira"? Seria o maior golpe baixo que poderia utilizar em toda a sua vida. Ele era o único que sabia da única fraqueza real do pisciniano, sabia como transtorná-lo de tal forma que, agindo nessa fração de segundo disponível, poderia derrubá-lo. Camus não estava mais em jogo e Escorpião tinha suas dúvidas se essa seria a melhor maneira de vingar-se. Mas vingar-se de quê? Tinha consciência de que fora o primeiro a jogar sujo; tudo o que Afrodite fez foi reagir, tal qual um gato acuado. Se havia alguém que tinha razões para desejar uma vingança era o sueco.
- Sabe, estou começando a entender o porquê você me atrai tanto, Milo – comentou Peixes, em um dos momentos que ambos pararam o ataque para retomar o folego.
- Porque é sado-mazoquista? – respondeu Milo, fazendo o outro rir suavemente.
- Não, não é por isso, querido. É que você é como as minhas rosas: bonito e atraente para todos, mas muito, muito venenoso... E eu sei o que está pensando. Tsc tsc, que menino mal, Milo. Isso seria muito baixo de sua parte. Só não se esqueça que lidar com veneno é minha especialidade. Eu posso absorvê-lo e devolvê-lo em dobro. Se quiser arriscar, vá em frente.
- Acontece que eu não pretendo fazer isso. Não é por medo de você nem nada assim, é porque eu não acho que valha a pena. Não há nada em jogo que justifique.
- Desde quando você tem honra?
Milo não respondeu à provocação. Sabia que, se a conversa continuasse, acabaria tocando naquele assunto e já estava decidido a não fazê-lo. Guardaria para um momento de necessidade. A luta prosseguiu por mais alguns minutos, até ser interrompida pelo chamado de Atena. Todos os Cavaleiros de Ouro deviam se apresentar no Grande Salão. Milo e Afrodite cumprimentaram-se pelo "treino", como era costume (para não despertar suspeitas) e seguiram seus caminhos, para alívio de Camus e Shaka.
Atena reunira todos os cavaleiros de ouro para tratar de um assunto delicado: uma possível futura e breve invasão do Santuário. Após suas desavenças com Árthemis, o irmão deus Apolo decidira tomar suas dores, e já havia alguns meses de reuniões e negociações entre os dois, mas Atena não colocava fé numa conciliação resolutiva; Apolo estava decidido a não abrir mão de suas exigências diversas, dentre as quais 1/3 do Santuário e de seus cavaleiros, a ser entregue a Árthemis como consolo, e o domínio das ilhas de Minos, Creta e da Rainha da Morte ao deus. Como Apolo andava visivelmente descontente e irritado com a resistência da deusa da ciência, chegara a comentar que uma guerra poria fim mais rápido ao lero-lero e seria bem mais produtiva. Assim, como Saori estava decidida a não ceder, achou por bem deixar seu alto escalão de sobreaviso, para o caso de um eventual ataque dos Santos de Apolo. Preocupava-a, também, uma possível união de Árthemis à guerra, pois os Anjos e Santos dariam muito trabalho aos Cavaleiros, provavelmente. Por isso ela os reunira, e por isso ela pedia para que nenhum deles deixasse o Santuário, exceto sob suas ordens ou motivo relevante, avisando-a antes de sair. Nessa hora, a deusa olhou de soslaio para Afrodite e sorriu, como se os dois guardassem um segredo. Ele, profissional que era, não reagiu, para não despertar suspeitas nos atentos colegas cavaleiros.
Era essa a missão que lhe havia sido transmitida enquanto treinava: obter informações de como as coisas andavam em Megara, a cidade onde moravam os Santos de Apolo, o que era equivalente ao Santuário de Atena. Naturalmente, ele iria ficar na cidade, aproximar-se do maior número possível de pessoas ligadas a Apolo, descobrir seus planos, espionar seus passos. E tinha três semanas apenas para tal missão. Impossível? Talvez fosse para a maioria dos outros, mas não para ele, o melhor espião do Santuário. Com certeza atingiria um resultado satisfatório em menos tempo do que o planejado. Sabia se aproximar, sabia fazê-los falarem, sabia se infiltrar sem ser notado. Fora treinado para aquilo, afinal.
A deusa aproveitou a ocasião para tratar de mais alguns assuntos de menor relevância, como novo horário de funcionamento do refeitório e reclamações das amazonas quanto às espionagens de alguns aprendizes, que deveriam, lembrou ela, serem melhor supervisionados não apenas pelos seus mestres, mas por todos os cavaleiros. A reunião durou mais de três horas, um martírio para a maioria dos presentes, que não estavam acostumados com aquilo. Antes um dia inteiro de treino do que algumas horas de trabalho burocrático.
Afrodite, por ocasião do destino, trombara com Milo e Shaka na saída. Sorriu, unicamente por Shaka, e teceu alguns breves comentários sobre tudo o que havia sido dito na reunião. Ao final, dirigiu-se a Milo, inesperadamente:
- Hey, Milo, não acha que a Srta. Kido lembra Antoi?
- Não sei. Nunca pensei nisso – respondeu o escorpiano, secamente.
- É só pensar agora, não? Ou vai me dizer que se esqueceu dela?
Claro que Milo se lembrava de Antoi. Como poderia ele esquecer? Como Peixes podia sequer supor que ele a esquecera? Depois de tudo o que acontecera, ela era, de longe, uma das maiores memórias do escorpiano de sua época pré-Santuário. Na certa, era provocação do sueco. E Milo não respondeu. Simplesmente foi saindo, como se não tivessem lhe dirigido a palavra. Shaka se despediu do amigo e seguiu-o, calado. Não que aquilo tivesse tocado Afrodite.
Durante todo o caminho até a Sexta Casa Shaka foi repetindo a si mesmo que já tinha decidido esperar o melhor amigo querer contar sobre seu passado comum com Afrodite, que nada iria perguntar antes disso, mas naquela semana muito o tinha lembrado e perturbado de que ele, que tanto se gabava de conhecer totalmente o cavaleiro, não era conhecedor dos detalhes de sua infância. Sequer sabia o porquê Milo e Afrodite se conheciam desde pequenos ou se tinham algum parentesco. Deveriam ter, senão como teriam se conhecido? Afrodite uma vez dissera que morara na Suécia até se mudar para a Grécia. E Milo nunca morara na Suécia. Ou morara? Nem isso ele sabia!
Balançou levemente a cabeça, como se daquela forma espantasse aqueles pensamentos. Iria esperar. Tinha decidido esperar. Sempre ouvira tudo que todos sabiam e diziam sobre Milo do próprio Milo, não era "aquilo" que seria diferente. Milo, um dia, contaria.
...
Chovia. Já passavam das 22h quando Afrodite foi visitado, inesperadamente, por ninguém mais, ninguém menos do que o cavaleiro de gelo. Ficou surpreso, e super feliz por dentro, e apenas por dentro, já que tinha decidido afastar-se dele. Devia ser um motivo burocrático, mas e daí? Podia ver seu amado um pouco mais aquele dia.
- Trouxe os documentos para sua viagem – explicou o aquariano, enquanto seguia o anfitrião para dentro da casa.
- Podia ter esperado amanhã, sabe? Eu iria pegar na sua casa, antes de sair, e você não teria tido que vir debaixo dessa chuva.
- Amanhã eu não estarei em casa cedo, ainda – justificou-se o ruivo.
- Ah, então tá.
Frustração: foi o que Camus sentiu com a indiferença do colega. Esperava que o outro perguntasse, que demonstrasse ciúmes ou curiosidade, afinal ele iria passar a noite fora! Não que sentisse algo especial pelo pisciniano, de modo algum; era apenas para inflar seu ego, para se sentir querido, desejado. Sentia mais falta de Milo e de suas palavras doces do que admitia, do que sua mente sequer imaginava. E também não sabia o porquê da frustração.
Afrodite cedeu-lhe uma toalha e convidou-o a esperar a chuva passar, ou pelo menos diminuir. Ele agradeceu, mas disse que tinha compromisso marcado. Que horas? Meia-noite, não muito longe dali. Ah, então dava para esperar pelo menos meia hora, e quem sabe não seria o suficiente? Tempestades como aquela dificilmente duravam mais tempo do que aquilo.
Mais frustração. Nenhuma gota de ciúmes, nenhum tom de curiosidade. Nenhuma pergunta.
Peixes deixou-o na sala e foi preparar algo quente para o amigo beber. Camus ficou em pé, longe do sofá, perto da janela, para evitar molhar algo, e para qualquer outro cavaleiro talvez aquilo tivesse passado despercebido, mas o francês, extremamente atencioso como era, logo viu atirado no chão, logo atrás do sofá, quase coberto pela cortina, um álbum aberto, rodeado por outras fotos espalhadas. Pelo visto, Afrodite estava relembrando mais o passado do que parecia. Aguçou os ouvidos, à procura do barulho do outro cavaleiro e, percebendo que ele estava na cozinha, aparentemente preparando mais do que um cappuccino, Aquário foi até o álbum, não conseguindo conter a sua curiosidade. Curiosidade por quê? O passado de Afrodite, de fato, não o interessava; mas havia ali, naquelas fotos, uma grande chance de ter uma outra criança retratada, aquela sim objeto de seu mais profundo interesse, capaz de fazer alguém de conduta tão ilibada quanto o ruivo "fuçar" em coisas alheias. Não foi preciso nem se aproximar muito do álbum para reconhecer, dentre as fotos atiradas no chão, um mesmo garoto retratado na maioria delas, um menino de cabelos curtos e cacheados, loiro, super sorridente, com uma discretíssima pulseira de ouro no pulso esquerdo, com um pingente em formato de gota, com uma pedra azul-cristal. Milo. Criança. Pré-Santuário. Normal. Quer dizer que aquela pulseira que o escorpiano sempre usava e escondia por debaixo das faixas, de que poucos tinham conhecimento, era ainda de sua infância? Camus sempre teve pra si que era o último presente de algum parente, algo como "última lembrança da época em que não era um cavaleiro". Pegou uma das fotos, a primeira que esteve ao seu alcance: Milo estava com um coelho branco nas mãos, um daqueles bem peludinhos, beijando-lhe a cabeça. Atrás havia uma enorme janela, pela qual se notava a nevasca do exterior. E Milo tinha dito que nunca ia para lugares em que nevasse antes de conhecer o cavaleiro de gelo... Na próxima, Milo estava sentado no chão, no que devia ser um parque, todo entretido com um cachorro, um lindo Chow-chow, num dia ensolarado. Ainda havia uma foto do escorpiano reclamando, provavelmente, do fotógrafo que não o deixava em paz, tirando repetidas fotos quando ele estava distraído. Havia uma foto de um casal muito bonito, a mulher de longos cabelos cacheados e loiros e o homem com cabelo todo penteado para trás, com bigode de aristocrata inglês, que não pareciam serem os pais de Milo. Tinham vários jovens, dentre os quais Milo, posando enquanto jogavam baralho, em outra foto. Uma garota loira ao lado de Milo em quase todas as fotos (quem era ela? Também não parecia uma irmã). Uma casa. Um entardecer na praia. Piscina. Cachoeira. Neve. Uma coelha branca. Outras crianças. Mas nenhuma foto em que reconhecesse Afrodite. Aquelas deviam ser as fotos que o pisciniano queria se esquecer, e por isso estavam separadas. Camus entreteve-se de tal modo em seus pensamentos que por pouco não foi pego por Afrodite apreciando uma das fotos de Milo. Quando o cavaleiro da 12ª casa entrou na sala, Camus fingia recolher, casualmente, as fotos do chão e afastá-las da janela, da chuva que respingava pela fresta do vidro, sem nem olhar para seu conteúdo, agindo mecanicamente.
- Pode deixar, Camus. Eu tiro daí – falou Peixes, deixando a bandeja sobre a mesinha da sala e terminando, rapidamente, de recolher todas as fotos e o álbum.
Camus afastou-se, calado. Aguardou pacientemente o término do trabalho do outro, que foi bem breve. Aguardou ansiosamente uma manifestação de Afrodite quanto ao assunto, quanto às fotos, mas ela não aconteceu. Deveria ter imaginado. Não entendia mais o que se passava na cabeça das pessoas. De repente, Milo simplesmente usara uma desculpa esfarrapada para afastar-se de vez do amante. Afrodite, quem tanto o desejara e disputara abertamente por ele durante anos, de repente, quando conseguiu dele alguma atenção mais íntima, simplesmente decidira pôr um fim naquelas tardes a sós e, agora, nem parecia mais interessado em com quem o aquariano saía, quando chegava, onde fora. Tudo tão súbito, tão incompreensível... Inclusive a dor da solidão, a frustração pela indiferença e a ardente curiosidade do passado de Milo, com o qual nunca tinha se preocupado. Agora, queria descobrir, queria saber mais sobre sua infância. Quem sabe assim pudesse entendê-lo melhor? Mas se nem Shaka sabia, como poderia ele vir a saber de algo? E de que adiantaria saber àquela altura do campeonato? Já tinha perdido o escorpiano.
Por sorte, cessou a chuva e, com ela, a permanência de Camus ali, que rapidamente se despediu e partiu. Aquelas fotos deixaram o clima pesado, um incômodo para ambos. Já eram quase onze horas mesmo... Afrodite despediu-se e foi tomar um banho. Água sempre o acalmava e, não podendo dar um mergulho no mar, deixar a água cair abundantemente em seu rosto era o mais relaxante.
Precisava se acalmar. Precisava sufocar aquele grito de angústia que nascia em seu peito. Precisava lavar o ciúme doentio. Por Zeus, por que tinha que amar tanto Camus? Por que só saber que ele não passaria a noite em casa afetara-o tanto? Já tinha se decidido não se envolver mais com o francês, então por que tivera que se conter tanto para não inundá-lo com indagações e agarrá-lo ali, não deixá-lo sair para se encontrar com fosse lá quem fosse.
Ainda bem que era um bom ator. Ainda bem que se segurara. Afinal, tinha se decidido a não deixar que lhe humilhassem novamente.
...
Acordou, como quase todos os dias, com alguém dormindo em sua cama. O mesmo cara há uma semana. Sentiu-se satisfeito. Tinha conquistado-o, finalmente; era seu cativo. Acariciou-lhe os longos cabelos ruivos e beijou-lhe suavemente a testa. Acordou-o, por conseqüência.
- Bom dia, meu anjo... – cumprimentou o outro, ainda sonolento.
- Ah, desculpe tê-lo acordado, querido...
- Que isso. É sempre bom acordar com você ao meu lado.
- Idem. É uma pena que hoje seja a última manhã, não é?
- Mas você já vai?
- Ora, querido, eu não te falei? Hoje acaba a terceira semana, minhas férias, e segunda-feira tenho trabalho em Atenas me esperando. E você nem imagina o quanto..
- Hum, desculpe meu egoísmo... Eu não queria que isso acabasse, sabe?
- Claro que sei, eu também não queria. Mas que se há de fazer, não? Você também tem que trabalhar... Era Apolo o nome do seu chefe, né?
- Sim. Ah! Nessas horas eu não queria ser o assessor direto dele! Senão eu poderia ir para Atenas com você!
- Sim, é uma pena, meu querido, realmente uma pena...
Ouviram o toque do celular. Afrodite levantou-se para pegá-lo e entregar ao amante. Orestes agradeceu e atendeu. Era outro Santo, querendo que lhe passasse as coordenadas de seus próximos passos. O sueco ficou apenas deitado, junto ao ruivo, parecendo cochilar, como sempre.
Sua missão ali estava acabada. Um perfeito sucesso.
26.07.10
Sim, vinte -seis dias atrasado o 4º capítulo, eu sei... -.-" Achei que nas férias poderia escrever muito mais, mas nem... O período de aulas é, de longe, o mais produtivo para capítulos e desenhos, estou dizendo... XD~ Mas, enfim, foi má a demora, garanto o capítulo 5 até o final do mês (em cinco dias? Sim, em cinco dias).
Novamente, obrigada a todos os que leram, lêem e pretendem continuar lendo essa fic. Prometo continuar me esforçando e a lutar contra o mau-tempo, a falta de tempo, as faxinas, as festas de aniversário, o estágio e a faculdade para trazer, no mínimo, um capítulo novo por mês! E, como eu tinha planejado chegar ao capítulo 9 até agosto, farei todo o possível para cumprir a programação!
Um agradecimento especial a quem escreveu reviews e um agradecimento mais que especial a Lune, por ler, comentar e me fazer ter mais vontade ainda de terminar essa fic! (dessa vez o nome está certo, né? XD~).
Enfim, obrigada. Muito obrigada mesmo!
