capítulo 4

"Ser pego de surpresa não era realmente meu plano naquela situação, mas não pude evitar, ao ouvir o nome do meu rival. Ele não havia sido capturado pela marinha britânica? Havia escapado, assim tão rapidamente? Não hesitei a enfiar minha espada no pescoço do marujo insolente, o que meus homens tomaram como uma ordem silenciosa de ataque. Enquanto a confusão aumentava, eu pulei o convés inimigo, chutando aberta a porta da cabine principal, sem dúvida o capitão estaria ali! Iria derrotá-lo uma outra vez, apenas pra mantê-lo longe de um empate, ele iria se arrepender de ter fugido da morte certa, porque seria bem melhor que lidar comigo mais uma vez. Assim que a porta foi ao chão eu olhei ao redor, perdendo o sorriso. Eu certamente não esperava uma cabine vazia... onde estaria o-?"

-

Quando bateram à minha porta, me mandando subir para trabalhar, eu me encontrava preso entre dois loiros. De um lado Arthur, ainda em sono profundo, do outro, Francis, resmungando baixo e apertando os olhos com as pancadas na porta, como se não quisesse acordar. Bom, eu sei que eu não queria, o sonho estava chegando em uma parte boa, droga.
- Levante-se, ou eu fico sem café da manhã. - Balancei o francês, revirando os olhos, antes de sair da cama, colocando a primeira roupa que encontrei.

- Hnm..., mais cinco minutos..~ - ele riu, embora eu não tenha entendido a graça, bocejou e abriu os olhos, sorrindo pra mim – bonjour~

- 'Dia. – Respondi, sem muita paciência pra aquilo, mas quando parei pra observar aquela visão do cozinheiro, com o cabelo embaraçado e os olhos cansados, eu não pude deixar de esquecer um pouco o trabalho e o sono, e me aproximei, dando-lhe um beijo forte, mais do que necessário talvez, mas Francis o respondeu imediatamente, rindo de leve. Comentando que eu sabia bem como dar um bom dia, mas eu fingi não ouvir, pegando algumas roupas no baú para emprestar à ele.

O cozinheiro quis acordar Arthur antes de sairmos, gentilmente balançou-o e sorriu, avisando que estávamos indo trabalhar, Arthur parecia estar achando aquilo tão inesperado quanto eu estava, mas assentiu, bocejando. Eu disse a ele que traria comida depois, e suspirei, puxando Francis pra fora da cabine antes que ele perguntasse ao menor O QUE ele queria comer. Pelo amor de Deus, não era como se o pivete pudesse ESCOLHER!

A visão de Francis saindo de um quarto que não era dele, de manhã cedo, não parecia motivo de surpresa para os marujos mais antigos, pelo contrário, assim que chegamos ao convés juntos, recebi milhões de olhares nervosos, como se tivesse conseguido algo que ele estava lutando para ter. O que era exatamente o caso. Pra coroar a manhã, o capitão, que parecia o mais frustrado de todos no navio, me incumbiu de mais uma lista de tarefas inúteis e desagradáveis, que me obrigaram a fazer uma careta e ter uma vontade enorme de socá-lo. Comi algo, apressado, e me iniciei nas ditas tarefas, sem ver o francês mais, imaginei que ele teria decido para a cozinha. Dessa vez passei a tarde sozinho, nenhum marujo se aproximou para conversar ou apenas zombar por não ter nenhum trabalho no momento, nem mesmo aquele do outro dia (Era Roy , Ray, ou Ryan? Não importava.). Limpei o convés sozinho, soltei as velas e lixei a sujeira do casco, o que resultou em um banho de água salgada na alma, um Patrick enfezado e um serviço meio-terminado.

Quando finalmente terminei meus serviços o sol estava se pondo. Foi o momento que percebi que havia pulado o almoço, sem perceber. Os músculos dos meus braços doíam e eu só queria desabar na cama. Trabalhar nesse tipo de esquadrão tinha sido uma grande bobagem afinal.

- Escócia! – eu ouvi uma voz velha me chamar, que merda de apelido era aquele, que parecia estar pegando? E me esforcei para não encarar o capitão ao virar-me para ele. – Sim, senhor? – falei alto e claro, me impondo discretamente.
- Fez um bom trabalho hoje. – Ele sorriu de canto, o que fazia com que seu bigode subisse só de um lado também, fiz questão de rir por dentro daquela visão ridícula. – Com Bonnefoy também.

O riso parou.

- Não sei o que quer dizer... – comecei, encarando-o abertamente agora. O que Francis tinha a ver com isso...?
- Sabe, não devia se considerar muito especial, pois ele vive dormindo com marujos. Ontem foi só a sua vez.

Ah, maravilha, ele só estava morrendo de ciúmes de passar anos no mar e não conseguir chegar nem perto de uma bunda branca francesa. Claro, quem dormiria com alguém caindo aos pedaços como aquele velho idiota? Aposto que Francis me escolheria até se- Espere, estou soando como se tivesse ciúmes. Que bobagem.

- Sei disso, ele já me contou. – Arqueei uma sobrancelha, sem querer falar mais com ele, pronto pra ir para a cozinha, roubar algo pra mim e para Arthur comermos, minha barriga estava roncando. Embora ele parecesse calmo com minhas palavras, eu pude notar que ele havia sido pego de surpresa, já que ficou quieto por um tempo, pensando no que responder. Achei que era uma boa chance pra me afastar, então fiz uma reverência, rindo baixo e me virei, com um simples "se isso é tudo, capitão" antes de entrar no casco. Os corredores estavam barulhentos, cheios de riso, conversas, e reclamações, enquanto os homens terminavam de cumprir suas próprias tarefas, ou de beber. Fiz o caminho direto para a cozinha, levando algumas encaradas, mas apenas rindo delas. Abri a porta pesada de madeira com um sorriso quase maléfico no rosto, pronto para socar ou beijar o francês, ainda estava decidindo qual me deixaria mais alegre. Mas assim que abri a porta, achei que socar seria uma boa opção.

- FRANCIS! - Bati a porta atrás de mim, cuidando de trancá-la com todas as duas chaves disponíveis – ARTHUR, IDIOTA, O que está fazendo fora da cabine, MERDA?

Exatamente, não podia acreditar no quanto aqueles dois podiam ser idiotas, ali, sentado em cima da mesa, ao lado das panelas, estava meu irmão, mordendo algo que parecia um pão duro com molho, enquanto ao lado dele, Francis cozinhava alguma coisa para adicionar ao jantar. Ambos sorriram para mim quando terminei de gritar.

- Pat! Francis disse que podia vir comer aqui!
- Não importa! Te mandei não sair da cabine!
- Patrick~ Acalme-se! Ele só veio esticar um pouco as pernas! Estava com fome~! – Francis riu, fazendo-me direcionar a encarada para ele, e apontar para o peito do francês, cutucando-o com força, para que doesse o bastante:
– NÃO. FAÇA. NADA. SEM ME CONSULTAR! E se alguém o visse? Quem seria expulso seria eu!
- A-acalme-se! Ninguém o viu! – Ele levantou as mãos, como se tentasse acalmar um bicho furioso. Eu rangi os dentes, e senti meus punhos se apertarem sozinhos...
- Pat, eu só queria ver outra parte do navi-! – não deixei meu irmão terminar a frase, e aquele punho formado foi parar em um dos lado do rosto dele, fazendo-o girar no ar e cair da mesa para o chão, acompanhado de vários utensílios de cozinha. O segurei pela gola da camisa, encarando-o de perto, não ligando para os olhos arregalados do pequeno, nem para Francis, que puxou meu braço, tentando me fazer parar. Apertei mais os olhos e empurrei o cozinheiro com o braço que este segurava, fazendo-o cambalear para trás, assustado, enquanto sussurrava para Arthur, num tom perigoso.
- Te mandei me obedecer, não ouviu...? Você sabe o que eu faço com quem não me obedece...? – ele negou, tentando se soltar, começando a lacrimejar. Joguei-o no chão com toda a força, e considerei pisar-lhe a cabeça, mas vi ele se encolher com a dor da queda, murmurando mil pedidos de desculpas, e parei. Não que ele merecesse que eu parasse, mas estava assustando o cozinheiro.

- Patrick...! O-o que está fazendo? Fui eu que o trouxe aqui! Vai machucar seu próprio irmão! – Francis gritou comigo em tom de bronca, enquanto ia ajudar o menor a se levantar, perguntando se ele estava bem. Eu suspirei, e passei uma mão pelos meus cabelos ruivos, mas senti como se eles estivessem sujos e suados, e resmunguei um pouco mais.
- Ele sabia que não devia sair da cabine.
- EU o trouxe pra comer! Estava deixando-o passar fome naquele cubículo! – ele respondeu no mesmo tom, como alguém que bronqueia uma criança. – Estava ajudando ele, se foi errado, foi culpa minha, não devia bater nele assim!
- Não me irrite! Bato nele o quanto eu quiser, QUANDO eu quiser! É PRA ISSO QUE ELE SERVE!

Me arrependi de ter dito isso no momento que vi as pupilas de Arthur dilatarem de medo. Mas ele bem que sabia, eu sempre batia nele. Ele só estava assustado porque havia batido nele por um motivo real.

- ELE É SEU IRMÃO! MON DIEU, TENHA UM CORAÇÃO! - Francis voltou a gritar, e eu apertei meus punhos de novo.
- Vou socar VOCÊ se não calar a boca! – E foi o que ele fez, encolhendo-se um pouco. – É só meu JEITO, eu BATO nas pessoas. E sempre vai ser assim! Agora me diz como DIABOS vamos colocar o PIVETE de volta na cabine, com os corredores lotados desse jeito?

Arthur fez menção de falar alguma coisa, mas não o fez. Assim como Francis, ele ficou quieto, me olhando, assustado. Eu revirei os olhos, sentando na mesa, pensativo.

- ...

O silêncio tomou conta por um tempo. Tudo que ouvia era o barulho surdo das conversas gritadas no corredor. A dor nos meus músculos voltou a aparecer, havia quase me esquecido dela... Fechei os olhos, respirando fundo e tentando me acalmar. Aquilo tudo estava me deixando estressado. Todo aquele trabalho, e ainda ter que tomar conta do Arthur, e Francis ainda me dava uma bronca... não podia ficar pior. Minha barriga roncou e me lembrou que podia sim, além de tudo isso, eu ainda estava morrendo de fome.

Estava quase me esquecendo de onde estava, tudo quieto daquele jeito, e me perguntei se seria uma boa idéia deixar aquela tontura de fome e calor tomar meus sentidos e desmaiar ali mesmo, pra repor as energias. Mas uma mão no meu ombro me fez abrir de novo os olhos, dando de cara com um par de orbes azuis, que sorriam de leve: - Você parece ter tido um dia longo...
Quis beijá-lo na hora, mas não tinha a energia pra gastar me mexendo, então apenas assenti, meus olhos nunca o deixando.
- Comer algo parece uma boa idéia.
Ele riu: - Oui! Sua barriga faz mais barulho que aqueles marujos beberrões cantando!

Eu quase ri também, mas o cansaço realmente tinha resolvido pesar na hora. Eu vi Arthur passar no canto da minha visão, e me virei pra ele, enquanto se sentava no chão, com as costas na porta, e um olho machucado pelo meu soco que estaria roxo pela manhã. Ele parecia emburrado.
- Oras, não fique com essa cara fechada, foi você que me desobedeceu! Eu te avisei antes mesmo de entrar no navio, não foi? - Eu ri de canto, era divertido vê-lo daquele jeito. Enquanto isso Francis se aconchegava nos meus braços, ainda em pé, em frente à mesa onde me sentava. - ...O que há com você? – Arqueei uma sobrancelha, e ele se afastou, rindo de leve:
- Você é a pessoa mais estranha com que dormi, num minuto está socando as pessoas ao alcance, no outro está sorrindo e fazendo piadinhas! – E quando eu fiz uma "piadinha"? Todas as minhas piadas eram sérias. Pra mim, pelo menos.
Apertei uma das bochechas dele, e rangi os dentes, dessa vez menos sério, parecendo tão emburrado quanto meu irmão inglês, Francis riu mais ainda.
- Vá me fazer algo pra comer, mulher! – zombei dele, enquanto dava a ordem, que ele obedeceu, após fazer uma careta ofendida. Arthur riu de leve, e me fez olhar pra ele. Ele negou de leve pra si mesmo e me apontou:
- Vocês parecem um casal de namorados, hahahah!

Eu joguei uma panela nele.

Comemos, os três, e conversamos pelo resto do tempo, até que Francis terminou de preparar o jantar, e me obrigou a carregar tudo para o convés junto com ele, Arthur ficou na cozinha. Quando a mesa estava pronta, os marujos de todos os andares do casco já estava lá, se afundando na comida, como animais famintos, rindo e contando casos, eu e Francis aproveitamos para voltar e escoltar Arthur de volta para a cabine, trancando-o lá, com mais um lembrete de não sair sem que eu desse a permissão. E um soco na cabeça, pelo qual Francis me deu outra bronca. Maravilha.
Não subimos de novo, já que as pessoas no convés eram muito barulhentas, e estávamos buscando um pouco de silêncio. Eu ainda estava cansado pelo dia de trabalho, então acompanhei o francês até a cabine dele, que se localizava mais afastada da cozinha do que devia, e bem próxima da cabine do capitão. "Foi uma tentativa falha de me fazer dormir com ele." O cozinheiro me explicou, rindo enquanto eu desabava naquela cama que não era minha, mas que exalava um perfume conhecido e me fazia sentir completamente à vontade. Afundei meu rosto no travesseiro macio, MUITO mais macio que o meu, e bocejei nele mesmo, enquanto uma mão delicada começava a brincar com minhas mexas, sentado na beirada da cama.
- Parece cansado~
Eu não respondi, já pronto pra apagar. Só ouvindo o outro...
- Patrick..? – Ele me chamou, pra ver se já estava dormindo, eu murmurei qualquer coisa, enquanto ele se deitava ao meu lado. – Gosto de você.
Eu escondi o sorriso o melhor que pude, me levantando um pouco para dar um beijo no cozinheiro, bem rápido e bem de leve, pra me deitar de novo, de olhos fechados mais uma vez.
A última coisa que ouvi antes de adormecer foi um "Bonsoir~" sussurrado em meu ouvido.

Os dias que se passaram depois desse foram sendo formados com uma rotina simples, acordar com uma cara cansada de zumbi, às vezes na minha cabine, às vezes na do Francis, trabalhar como um cachorro, fazendo as coisas ridículas que o capitão inventava ( ele parecia fazer isso por puro ciúme, muito profissional, captain Jack, muito profissional). Eu varria a cabine de navegação, limpava o palco do leme, encerrava a madeira do navio, envernizava, às vezes tinha até que lavar louças e coisas assim, o que chegava a ser uma tarefa mais simples, e ainda tinha a possibilidade de ficar conversando com Francis no meio tempo. Mas certas vezes o capitão acordava com uma idéia brilhante, e eu tinha que limpar a âncora, ou rearmar os canhões mais pesados. No fim de duas semanas, meus braços pareciam feitos de pedra. Pedra dura e pesada. Eu chegava morto na cabine, às vezes Arthur me fazia uma massagem, e eu fingia não fantasiar com ele só porque não tinha energia pra fazer sexo no momento. O mesmo acontecia com Francis, e admito que ficava humilhado quando ele vinha dando indiretas quando eu não conseguia mexer nem um músculo, e fingia não reparar no que ele queria. Começava a pensar que a vida no mar não era pra mim. Me sentia furioso, e evitava falar com o capitão simplesmente porque sabia que ia acabar socando-o, ou arrancando suas tripas, se tivesse a oportunidade, eu juntaria um resto de energia pra isso. E foi por estar tão irritado, que no fim da terceira semana, quando o capitão me chamou à sua cabine de navegação, eu entrei com a intenção de cometer um assassinato.

- Escócia, que bom que pôde vir, sei que tem muito o que fazer ainda hoje. – Ele disse, usando aquele apelido ridículo, pelo qual toda a tripulação tinha passado a me chamar, cercado por mais três marujos. Ou guarda-costas, como eu os via no momento. – Queria te pedir um favor especial.
- O que diabos você quer agora? – eu gritei com ele, encarando-o com força, mas ele apenas riu, o maldito. Os homens atrás dele sorriram um pouco também.
- Entenda, Escócia, só queremos ter certeza que está cumprindo seu papel como marujo.
- De que MERDA você está falando? Eu trabalho nessa bosta de navio o dia inteiro, o que mais poderia fazer?
- Acalme-se, meu caro, por favor. Estávamos pensando... talvez você gostaria de limpar a prisão do navio?
Me calei. Era uma indireta?
- Do que está falando...?
- Bem... – ele olhou para os marujos às suas costas. – Achamos que você precisaria de uns dias longe do sol do convés, entende? Para descansar um pouco... ficar longe do resto da tripulação.
- E do Francis. – completei, num murmúrio. Bom, ao menos não tinham descoberto o Arthur. Era só outra tentativa de me separar do francês.
- Vai passar um bom tempo lá. Mando alguém lhe levar comida, não saia enquanto não tiver terminado, ouviu? É um lugarzinho um tanto...-

Imundo. Foi a primeira palavra em minha cabeça, quando cheguei naquele andar do casco. Estava vazio também, provavelmente cortesia do capitão. O cheiro de podridão e urina encheu meus pulmões quando dei um suspiro, apenas com um pano e um balde de água e sabão em mãos, percorri as celas, todas com uma casca grossa de sujeira, e eu tinha certeza que levaria um bom tempo pra limpar. Pensando bem, podia só sair dali agora e fingir que tinha perdido a chave depois de trancar a porta ( o capitão havia me dado a única cópia para que pudesse vir abrir a porta por mim mesmo). Mas talvez eles arrombassem a porta depois, pra conferir? Respirei fundo. O que me fez sentir tonto, com aquele fedor que emanava de tudo à minha volta. Era melhor começar, estou certo? Me ajoelhei no chão, com mais raiva que nunca, começando a esfregar o chão lodoso, e me perguntei há quanto tempo haviam limpo aquele maldito lugar. Deixavam os prisioneiros nessa situação? Se fosse o caso, eles não eram tão diferentes dos piratas que diziam odiar tanto. Quando a hora do almoço chegou, Francis fez questão de levar, ele mesmo, o prato para mim, apesar de ter feito uma careta de nojo ao parar na porta da ala da prisão, onde eu esperava.
- Que fedor é esse? – Ele me perguntou, passando um pano para que eu limpasse as mãos antes de comer. Eu ri de leve.
- Eu, provavelmente. Estou esfregando o chiqueiro a manhã inteira, sabe?
Ele negou de leve com a cabeça, se sentando na escada, próximo, mas não muito. Não podia culpá-lo.
- Bem, depois disso, vai com certeza precisar de um banho. – Piscou um olho pra mim, com um sorriso sedutor – E se quiser ajuda com isso~
Eu tive que concordar que seria uma boa idéia. Um bom banho quente com sexo selvagem. Soava como um plano. Além disso, se eu tinha que usar minhas reservas de energia, que eu usasse com algo bom, não?
- Soa como um plano.
Eu terminei o prato em silêncio, enquanto ouvia Francis contar sobre a manhã dele. Tinha buscado Arthur na cabine de novo, já não era surpresa pra mim. Meu irmão passava alguns dias na cozinha, com o francês, tinham se tornado amigos. Ou inimigos, talvez, já que tive que os separar de brigas algumas vezes. Me contou o que planejava pro jantar, e disse que me traria um pouco, na cabine, depois que eu terminasse o trabalho. Eu concordei, e trocamos um beijo rápido antes que eu devolvesse o prato vazio para que ele pudesse voltar à cozinha. Esperei ele sumir na escada para voltar ao trabalho, pensando que talvez a idéia de uma "recompensa" como essa tornaria o trabalho menos complicado, mas no final, não foi de grande ajuda.

Por volta de meia-noite, abri a porta da cabine, Arthur fez uma careta com o fedor, e levantou os olhos do livro que lia, um livro de Francis, eu acreditava. Um prato de comida fria estava sobre o baú, mas eu não prestei atenção nele, me sentando no espaço de chão entre a cama e a parede, que não era muito espaçoso, mas daria para o gasto.

- Francis deixou comida pra você. Disse que ia voltar com fome!
- Estou cansado demais pra comer...
- Está cheirando esquisito... – ele murmurou, talvez incerto se eu iria ficar zangado e bater nele.
- Eu sei... é o cheiro da prisão que comecei a limpar.
Ele assentiu, me olhando, meio preocupado. Era quase fofo. Levantei um braço e baguncei o cabelo dele, rindo meio maléfico – Devia te por pra me ajudar lá embaixo! Você está aqui sem fazer nada o dia inteiro!
Ele negou imediatamente:
- Que? Não, não! Eu ajudo o Francis, na cozinha! Não quero ficar limpando esses lugares fedidos, ser marinheiro é horrível!

Horrível... é, talvez fosse. Pra mim, pelo menos. Receber ordens era algo que me deixava nervoso de qualquer forma... Deitei a cabeça para trás, fechando os olhos, e não demorei pra mergulhar num sono profundo e sem sonhos.