IV

Mil mãos escondidas

"Eles não trabalham para o Monstro". Esta frase foi a mágica que desfez toda aquela confusão. Deu a parecer que aquele homem era muito importante, pois aqueles três acreditaram naquelas palavras instantaneamente, como se fosse uma severa ordem.

—Ei, você!–chamou a mulher. Não me fuzilava com os olhos. Olhava e falava normalmente, como se fossemos apresentados pela primeira vez. Uma mudança impressionante. –Solte-me! Preciso ver como ele está!–acrescentou, forçando as raízes que a prendiam.

Soltei-a. Fiz o mesmo com o homem que prendi, assim como Tobirama. Imediatamente, eles correram para amparar o enfermo.

—Kawa-sama! Kawa-sama!–chamavam eles. O viajante que nos encontrou no bosque e nos confundiu tanto, Senju Kawa, não respondia.

A mulher chamava, um dos homens tentava reanimá-lo enquanto o outro o pegava no colo. Estavam desesperados. Fiquei vendo tudo de longe, muito serio, de braços cruzados. Tobirama se vestia de novo e observava a cena com seus olhos vermelhos apertados. Na época ele não tinha as três marcas vermelhas no rosto e nem usava a bandana de ferro que hoje é seu costume. Tobi-kun fazia mais sucesso com as garotas do que eu e nunca se casou, o malandro. Voltando ao assunto principal...

Um momento depois, Kawa-san gemeu. Todo mundo se calou. Tossiu duas vezes, asmaticamente e sussurrou:

—Vamos pra casa... Tragam estes... estes garotos conosco...

A mulher, Senju Otsu, e os homens, Senju Ishide e Senju Hiba, viraram-se para Tobirama e eu.

—Nos acompanhe, por favor – disse Hiba. Parecia ser mais velho que seu irmão, Ishide. Percebi que ninguém fazia questão de nos levar de verdade, mas consentiram pelo Kawa-san.

O trio já adentrava o bosque, Ishide carregando Kawa-san, acompanhado de Otsu, quando Tobirama puxou meu braço esquerdo.

—E nossas coisas, Hashirama?–perguntou ele, preocupado.

Não era muita coisa, mas era tudo que tínhamos. Olhei em volta: um buraco enorme, lascas de madeira queimada e um punhado de árvores caídas formando uma clareira, onde o sol esquentava nossa nuca pela última vez no dia. Tudo isso e nada de trouxas. Cheguei a conclusão óbvia.

—O pessoal que fugiu àquela hora deve ter pegado nossa bagagem.

Hiba, que ficara para trás nos aguardando, confirmou o que eu disse e ainda acrescentou:

—Levaram suas coisas para verificá-las. Achamos que vocês trabalham para o Monstro e tínhamos que confirmar.

Note que ele disse "achamos", no presente. Continuávamos na mira deles. Se bobeássemos, Hiba acabaria conosco, devem ter pensado.

—Afinal de contas, quem é esse Monstro?—perguntou Tobi-kun, antes de mim.

Hiba demorou a responder. Disse apenas:

—Falaremos disso outra hora. Receio que teremos de correr para alcançarmos os outros.

E corremos. Nunca pensei que aquele bosque fosse tão grande. Passaram horas e ainda corríamos. O dia foi embora e a noite chegou. Quase quebrei meu pé ao pisar em um buraco escondido pelo escuro. As árvores não deixavam a luz do luar chegar ao chão, assim os acidentes seriam inevitáveis. Quando o cabelo de Tobirama tingiu-se de vermelho-sangue de tanto topar com galhos baixos e eu quase perder meu olho esquerdo –outro galho– nosso guia Hiba, totalmente intacto, finalmente disse "Chegamos".

Perfeito! O que Hiba realmente queria dizer com "Chegamos" foi a questão do momento. Estávamos no meio daquele bosque maldito ainda! Tobirama e eu estávamos acabados de uma vez por todas e "ele nos vem com brincadeiras", como bem disse Tobi-kun na hora.

—Por favor, afastem-se!–bradou Hiba. Obedecemos.

Um passo para trás e nós não conseguíamos mais vê-lo. Ouvimos apenas ele falar baixo.

—Doton: Jimen no Hioukou!

Após isto, um barulho de raízes de árvores saindo da terra, que eu conhecia bem. Por fim, outro barulho, o da árvore indo ao chão.

—Aproximem-se.

Mais perto de Hiba, consegui ver o que ele queria. O buraco que abriu-se abaixo da árvore era de um poço. A árvore não passava de um alçapão. O Jutsu "Elemento Terra: Elevação de Terreno" que Hiba fez foi para que a terra simplesmente empurrasse a árvore para cima e deixasse o poço à mostra.

—Pulem!–disse Hiba.

Nenhum de nós dois nos mexemos. Como podíamos pular em um buraco aberto por um estranho, durante a noite, no meio da mata? Hiba percebeu nossa desconfiança e se jogou lá dentro, descontente.

Não houve barulho de impacto ou qualquer coisa até que se ouviu um longo farfalhar de folhas secas e um grito de Hiba para cima.

—E então? Podem pular! É seguro!

Não havia escolha.

—Hashi-onisan, espere um pouco – Tobirama me segurou. –Você tem certeza de tudo que fizemos hoje?

Naquele breu, era difícil ver onde estavam as coisas. Por sorte, Tobi-kun é muito branco e se destaca no escuro!

—Não se preocupe Tobirama. Sinto que nossa procura acabou definitivamente!

Pelo menos, isto eu havia acertado naquele dia!

Tobirama preferiu pular primeiro. Ele caiu e alguns segundos depois, atingiu as folhas.

—Fale para seu irmão pular de pressa!–ouvi Hiba dizer para Tobirama ao lado, tanto que ele gritou:

—Pule rápido, Hashirama!

Olhei para aquele buraco, que parecia não ter fim, de tão escuro que estava. Por fim, eu pulei de olhos fechados. Abri somente quando me senti afundar no meio da montanha de folhas secas.

Lá em baixo era mais claro. Rolei para o lado e me juntei a Tobirama na luta de tentar retirar as folhas do cabelo e das roupas. Hiba fez selos e conseguiu puxar a árvore lá em cima de volta ao seu posto original. Ao fazer isto, um punhado de terra caiu sobre as folhas.

—Podemos ir–disse Hiba finalmente.

Dobramos uma esquina e nos deparamos com um corredor de terra. Tanto as paredes quanto o chão e o teto era perfeitamente planos, sem irregularidades. Havia várias tochas postas nos archotes, em cada parede.

Enquanto caminhávamos, meus arranhões, no rosto e nas mãos, começaram a arder pra valer. Chegamos ao fim do corredor e dobramos a direita. Daí nós nos deparamos com a coisa mais incrível que Tobirama e eu havíamos visto até o momento!

Um salão impressionantemente gigantesco cavados a vários metros abaixo do solo. Neste salão, verdadeiros edifícios, feitos de terra pura, um ao lado do outro, um maior que o outro. Havia cerca de quinze, sendo que o maior tinha seis andares. Uma verdadeira vila, cortada por um largo rio de água azul, formando as suas margens uma avenida. Eu, Hashirama, nunca havia visto tanta gente reunida!

Onde estávamos deveria ser o "mirante". Mesmo vendo apenas duas cores (o marrom da terra e o azul da água) a visão tinha sua beleza. Quando visitei a Vila Oculta da Areia, alguns anos atrás, eu me lembrei dessa vila.

Hiba já descia as escadas que terminavam no chão, lá em baixo.

—Chamamos aqui de "Vila Oculta dos Senjus"–disse ele, enquanto descíamos.

—Ora essa, antes era "Senjus do Mato", agora "Senjus Escondidos"! Que coisa, não?!–sussurrou Tobirama para que apenas eu ouvisse. Tive que abafar uma risada.

Parece que a idéia do Sistema de Vilas Ocultas teve uma inspiração...