Capítulo 4

Suspirei, pensando no quanto minha família era vergonhosa.

Você devia estar achando que esse era o momento mais patético e constrangedor de toda a sua vida: obviamente, você não estava acostumado a ver uma casa em tal desordem sonora. Mesmo porque, sua família era completamente educada – mesmo que Jonhathan existisse – e tinha um bom senso de ridículo.

"Vergonhoso..." resmunguei para mim mesmo, balançando a cabeça levemente. "Mãe, cheguei e trouxe Pierre. Vamos estar lá em cima." completei com a voz uma oitava acima do normal, antes de procurar sua mão e, segurando-a entre a minha, puxei você comigo.

Subimos a escada em silêncio, enquanto eu via seus olhos correrem por todos os lados, fixando as várias fotos de Julie e eu que mamãe insistia em deixar penduras nas paredes da casa.

Entramos no meu quarto, encontrando-o mais arrumado do que ele realmente era, usualmente. "Casa legal..." você murmurou, não parecendo tão certo sobre o que dizer, mas eu agradeci por você ter puxado um assunto, quebrando o silêncio incomodo que ficara.

Sorri, virando-me para você, fixando seus olhos pela primeira vez desde que entramos. "Valeu, eu acho."

Você sorriu, tirando sua mochila das costas e colocando-a sobre a cadeira que havia na frente da escrivaninha. Segui seu movimento, jogando a minha própria em um canto qualquer.

"Minha família tende a ser histérica..." falei, sentando-me na cama, indicando para você fazer o mesmo. "Então... É, ignore todos, coma e faça de conta que não é com você."

Você riu, sentando-se ao meu lado; sua mão pousando nos meus cabelos, iniciando um carinho singelo, fazendo-me ronronar bem baixinho, meus olhos cerrando-se levemente. "Não se preocupe. Minha família é pior quando todos estão juntos. Num encontro de família, quero dizer." explicou ao ver minhas sobrancelhas erguerem-se, descrentes.

Ri, empurrando levemente seu ombro. "O que está insinuando?" foi sua vez de rir, enquanto dava de ombros.

"Nada." rimos como dois bobos, nossos olhos fixos. "Só que você faz jus a histeria." e ergueu as sobrancelhas, brincalhão.

Soltei uma exclamação abafada e, rindo, pulei sobre você, seu corpo caindo sobre o colchão fofo comigo por cima, enquanto riamos, sem realmente notar o quão comprometedor seria se alguém entrasse.

Meus dedos correram rápidos sobre sua barriga, fazendo você cerrar os olhos e começar a gargalhar, o som delicioso da sua risada ecoando pelo quarto, fazendo-me rir também, enquanto você se contorcia, tentando livrar-se de minhas mãos.

Você finalmente conseguiu segurar meus pulsos entre suas mãos, obrigando-me a parar ao me puxar para você, fazendo-me deitar sobre seu corpo. Continuávamos a rir – menos que antes –, enquanto nossos olhos prendiam-se nos do outro, até que o som de nosso riso sumisse, sobrando apenas sorrisos bobos.

Sem que eu notasse, meus lábios aproximaram-se dos seus, tocando-os num roçar singelo. "Sabe..." você murmurou, enquanto ainda estávamos perdidos nos olhos do outro. Fiz um barulho qualquer apenas para mostrar que estava ouvindo. "Acho que estou me apaixonando por você." as palavras saíram murmuradas, quebrando a barreira dos seus lábios, chocando-se contra os meus, enquanto meus olhos permaneciam, incrédulos, presos nos seus, procurando qualquer vestígio de brincadeira, mesmo que eu soubesse que você não seria capaz de.

Meu coração batia desesperado em minha caixa torácica, chicoteando dolorosamente, enquanto minha respiração acelerava no mais puro sentimento de felicidade; da mais pura sensação de êxtase. As borboletas, sempre tão bem vindas e engraçadinhas, bailaram ainda mais animadas do que antes, enquanto aquele friozinho na barriga parecia tomar conta de todo o meu corpo.

E o fato de que eu tinha seu corpo colado ao meu, nossos lábios se roçando e as respirações se misturando, apenas fazia o momento soar tão mais perfeito do que, provavelmente, era.

Seus braços enlaçaram minha cintura, enquanto você esperava que eu falasse algo – mesmo que sua expressão deixasse claro o quão hesitante você estava –, mas não era como se existisse algo que conseguisse quebrar a barreira de surpresa que nublava minha mente nesse momento.

Por isso, fiz o que me pareceu mais sensato: cobri sua bochecha com minha mão, meus lábios se esticando no maior sorriso que eu poderia lembrar-me de já ter dado em toda minha vida. "Oh, Pierre..." foi a única coisa que consegui balbuciar, antes de colar meus lábios com os seus, minha outra mão apertando um punhado do tecido de sua camiseta, enquanto fechávamos os olhos.

Você ameigou meus lábios com os seus, uma de suas mãos indo espalmar minhas costas, por sob o tecido da camiseta, enquanto a outra escondia-se entre as mechas do meu cabelo, bagunçando-os. Um arrepio serpenteou meu corpo quando seus dedos, em minhas costas, iniciaram um carinho singelo e deleitoso.

E, mais uma vez, foi como se o mundo tivesse apenas parado de rodar: éramos apenas nós dois, perdidos nos pequenos carinhos, embalados pelos lábios dos outros, nossas línguas se encontrando num toque cheio de sentimentos, até então, confusos e desconhecidos, mas que se revelaram imensos e maravilhosos.

Não importava, realmente, que fazia pouquíssimo tempo que nos conhecíamos: o fato é que parece que eu te tenho ao meu lado desde sempre e nunca, nunca iria cansar-me de ficar dessa forma com você.

Nunca iria cansar-me de ser acariciado por suas mãos quentes, enquanto seus lábios macios encaixavam-se com perfeição aos meus, nossas línguas enlaçando-se com tamanha devoção que nunca achei possível nutrir por alguém, como nutria por você.

Cada segundo ao seu lado apenas fazia com que tudo duplicasse de intensidade, que tudo parecesse ainda mais perfeito, ainda mais certo e duradouro. Você fazia cada breve segundo contar e eu te agradecia em silêncio toda vez, porque – tão estranhamente – eu sentia sua falta sempre que você não estava por perto.

E se isso era estar apaixonado, eu queria passar minha vida toda preso à esse sentimento e todas as sensações divinas que ele tinha o poder de provocar; eu queria passar minha vida nutrindo tal sentimento por você, e apenas você. Porque você sempre seria o único. Sempre seria aquele que roubara meu coração e, assustadoramente, minha alma para si, mas não era como se eu não quisesse que você fizesse isso.

Você era especial, e isso sempre me bastou para saber que você era o único que tomaria conta de mim quando eu me entregasse completamente, sem medo de me ferir, sem medo de ser usado. Apenas querendo ser amado e, Deus, você estava fazendo-me sentir de uma maneira maravilhosa, de uma maneira que eu nunca senti antes, durante dezessete anos.

E você fazia esses dois dias soarem como uma vida.

"Acho..." você começou quando nossos lábios se separaram, permitindo que nossas respirações ofegantes se misturassem. "Que eu vou aceitar isso como um 'acho que eu também'." ri de você, roçando a ponta do meu nariz ao seu.

Minha mão, pousada em seu tórax, deslizou até seu pescoço, esgueirando-se para sua nuca, coçando-a levemente, enquanto a fragrância deliciosa do seu perfume se atrevia pelas minhas vias respiratórias, embriagando-me, viciando-me.

Sua mão arranhou minhas costas ao deslizar até a base da minha coluna, fazendo-me tremer entre seus braços fortes; minha mão em sua bochecha indo perder-se entre as mechas de seu cabelo. "Foi só uma tentativa boba de lhe deixar saber o quanto me afeta, muito embora não tenha chegado nem aos pés do que você realmente faz comigo."

Você suspirou contra meus lábios, apertando-me no seu abraço, colando nossos lábios novamente. Mas antes que nossas línguas pudessem encontrar-se uma vez mais, a porta do quarto abriu bruscamente, fazendo-me dar um pulo em susto, afastando-me de você tão rápido que eu nunca achei ser capaz.

Meus olhos arregalados focaram-se na porta, meu coração batendo descompassado e a respiração tão mais ofegante do que antes.

Mas não foi como se eu houvesse tido algum tempo de registrar o que estava acontecendo: tão logo meu corpo sentou-se bruscamente sobre o colchão, outro pequeno e gordinho chocou-se contra meu tórax, fazendo-me cair de costas em minha cama. "David ta namorando, David ta namorando." a voz de Julie soou, cantarolada, pelo meu quarto, fazendo-me suspirar aliviado, vendo você fazer o mesmo ao meu lado, embora suas sobrancelhas estivessem erguidas.

"Droga, Julie. Não te ensinaram a bater antes de entrar?" perguntei num resmungo, sentando-me, ajeitando-a sobre minhas coxas. Os cabelos castanhos, quase loiros e cacheados, caiam bagunçados por seu rosto, enquanto seus olhos verdes brilhavam pelo riso, revezando-se entre você e eu, voltando a cantarolar que estávamos namorando. Girei os olhos. "Pare com isso." ela riu, o som pueril invadindo o quarto e deixando à mostra a os dentes pequenos e branquinhos.

"Posso contar pro papai que vocês estão namorando?" ela perguntou, corando um pouquinho ao ver seus olhos se arregalarem e se fixarem em mim, esperando pela resposta.

Bem, confessar que podíamos estar apaixonados não queria dizer que tínhamos um relacionamento tão sério quanto um namoro, e não era como se, de algum modo, eu quisesse apressar as coisas, ou ainda te fazer pensar que eu estava te pressionando.

"Não estamos namorando, Jul..." murmurei em resposta, sentindo meu rosto esquentar, não podendo deixar de pensar no quanto conversar sobre isso com minha irmã de cinco anos era constrangedor, ainda mais tendo você ao meu lado.

Ela ergueu as sobrancelhas. "Papai sempre disse que quando as pessoas juntam as bocas, como vocês estavam fazendo, é porque estão namorando..."

Resmunguei qualquer coisa inteligível até pra mim mesmo, pensando que não tinha, realmente, como as coisas ficarem piores. "Eu sei, Julie, mas não é o nosso caso, okay? E não abra a boca para o papai."

Ela deu de ombros, sorrindo por fim. "Que seja. Papai mandou vocês descerem para jantar." concordei com um aceno de cabeça, vendo-a pular de meu colo e correr para fora do quarto. Suspirando, passei uma mão pelos cabelos, bagunçando-os, antes de olhar para você.

"Eu..." mordisquei o lábio inferior. "Desculpe por isso."

Você sorriu, dando de ombros. "Não precisa se desculpa a cada coisa que sua família faz." sorri de leve. Você inclinou-se na minha direção, beijando-me brevemente, antes de nos levantarmos e descermos para o que, eu sabia, seria o pior jantar da minha vida.

Comemos, estranhamente, em silêncio, o qual era eventualmente quebrado por Julie e suas amiguinhas, comentando qualquer coisa sobre algum desenho bobo e rindo sobre isso.

Mamãe, vez ou outra, olhava para você e para mim e colocava um sorrisinho bobo nos lábios, como que dizendo saber de algo que, de repente, nem nós mesmo sabíamos.

E papai... Bem, ele comia lentamente, seus olhos presos fixamente em você, que não parecia se importar com a sonda intensa e interrupta, mesmo que vez ou outra se remexesse, incomodado.

Quando todos terminaram de comer, mamãe recolheu os pratos e copos – você aproveitando para elogiar e agradecer pela comida –, enquanto as crianças saiam correndo da mesa, indo sentar-se em frente à televisão.

Papai se recostou na cadeira, os braços apoiados na borda da mesa, as íris ainda presas em você. "Obrigado pela comida, mamãe." agradeci, sorrindo para ela. "Vamos subir."

Afastei a cadeira, mas antes que pudesse sequer fazer menção de me levantar, a voz do meu pai nos impediu de sair dali o mais rápido possível. "Ainda não, Phillippe." resmunguei qualquer coisa pelo uso do meu nome do meio, sabendo que isso significava que ele estava bravo com qualquer coisa. "Quero conversar com seu amigo."

Gemi baixinho, lamentando o fato de papai não poder dar uma brecha uma única vez. "Certo." resmunguei, ajeitando a cadeira mais uma vez, lançando-lhe um olhar que deixava claro que estava lhe pedindo desculpas.

Você apenas sorriu de leve, voltando a olhar para meu pai. "Algum problema, senhor Desrosiers?" você perguntou, não parecendo realmente preocupado com a carranca que papai sustentava em sua direção.

Papai sorriu de leve, inclinando-se sobre a mesa, as sobrancelhas erguidas. "Isso depende, meu jovem. Você, por acaso, é Pierre Bouvier?" ergui as sobrancelhas, perguntando-me como diabos papai sabia o seu sobrenome.

Você me olhou brevemente, parecendo se perguntar a mesma coisa, mas pareceu ver que eu estava tão confuso quanto você, pois logo voltou a olhar para meu pai. "Sim..." você respondeu, não parecendo tão certo sobre falar a verdade, mas ainda assim o fazendo.

Meu pai deu de ombros, voltando a se recostar na cadeira. "Então, sim, temos um problema."

Engoli em seco, pensando em como esganaria Julie lentamente, por ter aberto a boca para papai sobre nós dois: quero dizer, o que mais poderia deixá-lo mais bravo que isso?

Você piscou lentamente, parecendo tentar entender o que estava acontecendo, mas não parecendo realmente preocupado com o que papai poderia fazer. Não que ele fosse fazer alguma coisa que fosse além de berrar com você, mas não era como se eu tivesse com a mínima vontade necessária de brigar com meu pai depois que você fosse embora.

"Nós temos?" você perguntou, erguendo as sobrancelhas e eu poderia jurar que você estava vasculhando sua mente atrás de qualquer motivo que papai pudesse ter para estar de birra com você.

Não havia nada, realmente, muito embora eu tivesse quase certeza de que Julie havia contado à meu pai que estávamos nos beijando quando ela entrou no quarto.

Pequeno ser dos infernos.

"Sim, temos." papai ergueu uma única sobrancelha, não parecendo satisfeito com sua indiferença. Eu diria que ele está furioso, mesmo que ele parecesse estar furioso o tempo todo. "Sabe, Bouvier, eu não me importo que meu filho tenha amiguinhos ricos, com papais influentes e o caramba. Realmente não me importo. O problema é quando esses amiguinhos começam a agir como se fossem melhores, e tentam fazer caridade."

Okay, isso não tinha nada a ver com o que fazíamos antes do jantar, o que me fez retirar todos os impropérios que pensei sobre minha irmãzinha.

Qual era a droga do problema, então?

Olhei para você, notando-o tão confuso e incomodado com tudo, quanto eu estava. Quero dizer, papai mesmo havia dito não se importar com o fato de eu ter amigos em alguma classe social superior a nossa, e ele realmente nunca se importou ou, sequer, tratou mal tais amigos. Então não era como se eu, realmente, estivesse entendendo porque ele estava agindo dessa forma com você.

Papai tinha um sorrisinho debochado nos lábios, olhando para você tão fixamente quanto em todo o jantar. Você, no entanto, apenas passou uma mão pelos cabelos, bagunçando-os, antes de dar de ombros. "Bem, não me lembro de já feito alguma caridade, de qualquer modo. Ao menos, nenhuma que pudesse deixar as pessoas chateadas, mesmo que aí não fosse mais uma caridade legal."

Vi meu pai cerrar os olhos, o sorriso sumindo por completo. E, embora eu estivesse adorando perceber que você não se permitia abalar e, ainda, desafiava meu pai, tive medo do que ele poderia lhe dizer. Medo de que te afastasse de mim.

"Bem, suponho que David tenha mencionado os motivos que nos trouxeram para Montreal..." você concordou com um aceno de cabeça. "E você, obviamente, achando que tinha algum tipo de obrigação de ajudar os mais desafortunados, correu até seu papai para contar à ele e implorar para que, puxa, ele doasse um serviço para o pai daquele seu amiguinho de escola desamparado e que não tem tudo o que quer, como você."

Você piscou, confuso. Você sabia o que tinha feito com que eu me mudasse para Montreal, mas era claro que seu pai não havia lhe contado que o meu não tinha um emprego. "Eu não..."

"Se quer ter amigos de classe inferior a sua, meu jovem, aprenda a aceitar o fato de que eles não podem ter as mesmas coisas que você, e que se você for amigo de verdade, não vai tentar mudar isso."

Você parecia realmente chocado com o quanto meu pai poderia ser grosso quando queria, mas não era exatamente isso que estava me preocupando; era mais a forma como você iria me tratar depois desse incidente: muitos amigos, com os quais papai havia extremamente grosseiro antes, não olharam mais para minha cara.

Eles eram completamente dispensáveis, por isso sequer me importei com tal fato. Mas você nunca sequer chegou perto de ser dispensável para mim: eu tinha uma estranha necessidade de você, a qual mesmo quando você estava ao meu lado parecia não ser satisfeita.

Não era como se eu estivesse disposto a aprender a viver com tal necessidade sem ter você ao meu lado, por isso bufei, chamando a atenção do meu pai. "Pierre não tem nada a ver com isso, se não percebeu, papai. Ele sequer sabe o que você está passando. Fui eu quem falou com o senhor Bouvier, e está na cara de Pierre que ele não sabe de nada, então... Apenas pare de agir como um completo idiota."

Você me olhou confuso e meu pai, furioso. Ignorei-o e, levantando-me, te puxei pela mão para fora da cozinha, passando por minha mãe, que parecia confusa com o que estava acontecendo, mas a ignorei, parando de andar apenas quando alcancei o jardim.

Permaneci de costas para você, sentindo meus olhos se encherem de lágrimas de raiva: papai tinha a habilidade de ferrar as melhores coisas da minha vida e não era como se eu quisesse abrir mão da melhor que já me aconteceu. "David..." puxei o ar com força, fechando os olhos, sentindo as primeiras lágrimas escorrerem, fazendo-me abaixar a cabeça, não querendo lhe encarar nesse momento.

Mas você não pareceu compartilhar tal sentimento, porque instante seguinte pude sentir seus braços enlaçarem meu corpo, o seu colando-se ao meu, por trás, seu queixo pousando no meu ombro, enquanto eu sentia seu olhar na lateral do meu rosto. "Meu pai é a pessoa mais... Mesquinha, arrogante, estúpida e completamente desnecessária do mundo todo. Você não precisava ter ouvido nada disso, não você e..."

"Está tudo bem, anjo." permiti que uma risadinha sem qualquer humor escapasse por meus lábios, antes de me virar para você, fazendo-o se afastar, parecendo preocupado com as lágrimas que corriam por meu rosto e, ao mesmo tempo, assustado com o olhar de raiva que eu lhe mandava, mesmo que tal sentimento não fosse sua culpa.

"Não, não está tudo bem." retruquei, cerrando os punhos. "Esse foi o momento mais... Ridículo e constrangedor de toda a minha vida e eu não fazia, ou faço, a mínima questão de tê-lo passado com você, principalmente porque você ouviu um sermão sem qualquer sentido, ou tendo qualquer..." mas você não me permitiu terminar meu discurso sem qualquer nexo, segurando meu rosto entre suas mãos e colando nossos lábios.

Senti meu corpo relaxa sob o toque da sua boca na minha, enquanto levava minhas próprias mãos até as suas, segurando-as carinhosamente.

Senti seus dedos acariciarem a pele do meu rosto, enquanto nossos lábios continuavam unidos: você secando minhas lágrimas, enquanto eu sentia as já tão bem conhecidas borboletas, lembrando-me que não importava o que meu pai fizesse ou falasse, você poderia sempre me acalmar e mandar a dor embora com um mero sorriso.

Suspirei contra seus lábios, afastando-nos e abrindo meus olhos, fixando-os nos seus, que iniciaram uma sonda intensa. "Seu pai deve ter os motivos dele para ter falado tudo aquilo, mas certamente nenhum deles inclui você ser o culpado, então... Relaxe, anjo. Seu pai não vai nos prejudicar, absolutamente."

"Eu..." comecei incerto, mordiscando meu lábio inferior, tentado a quebrar nossa sonda, mas sabendo não ser realmente capaz de. "Tenho medo de que, como sempre, ele afaste quem me é importante. Nunca realmente importou, mas você é diferente, sabe disso."

Você sorriu, nossas mãos ainda unidas, bem como nossos olhos, de uma maneira tão sincera e profunda, tão cheia de cumplicidade e promessas, como nunca antes havíamos nos olhado. Um olhar diferente e especial, meramente gravado por sua importância sumaria.

Você pareceu não conseguir encontrar palavras que pudessem formular uma resposta boa o bastante, por isso apenas cerrou seus olhos, roçando a ponta de nossos narizes, suas mãos escorregando para meu pescoço, arrepiando-me.

Soltando suas mãos, pousei minhas próprias no seu rosto, a ponta dos dedos acariciando de leve suas bochechas, vendo seu sorriso doce aumentar ligeiramente. Sorri em resposta, cerrando meus próprios olhos, tentando memorizar cada pequeno arrepio que seus dedos na pele sensível de meu pescoço, provocavam.

Nossos lábios encontraram-se uma vez mais, colando-se num selinho longo, enquanto mantínhamos nossa sonda. Não saberia dizer quando tempo ficamos assim, com os lábios juntos, os olhos presos e as mãos distribuindo carinhos singelos pelo rosto e pescoço do outro, antes de nos separarmos.

"Acho melhor eu ir..." você murmurou, muito embora o tom usado deixasse claro que não era isso que você queria fazer no momento. E, embora também não fosse a minha vontade, sabia que isso seria o melhor.

"Não quero que vá..." respondi no mesmo tom, erguendo minhas sobrancelhas ao ver você sorrir de leve, antes de juntar nossos lábios vez mais, muito mais brevemente do que qualquer toque antes.

Nenhuma outra palavra foi dita, de modo que permanecemos assim: ameigando os lábios do outro, nossos dedos continuando os carinhos, num modo de acalmar ao outro, numa forma de conquistar ao outro, também.

Entrementes, quando você repetiu uma vez mais que achava melhor ir embora, eu apenas suspirei pesadamente, concordando, antes de mandar você esperar que eu pegasse sua mochila em meu quarto, porque era óbvio que meu pai não iria querer lhe ver tão cedo novamente.

Entrei em casa, sentindo o olhar raivoso de meu pai me acompanhar por todo o trajeto, enquanto eu ia pegar sua mochila e voltava para o jardim, entregando-a para você, que me sorriu agradecido.

Despedimo-nos com um juntar de lábios e um roçar de narizes, prometendo que conversaríamos melhor no dia seguinte, quando não mais envergonhasse lembrar de tal momento, mesmo que eu soubesse que ficaria encabulado desse jantar para o resto da minha vida.

Separamo-nos relutantes, e eu fiquei observando você caminhar para sua casa, até que você sumisse do meu campo de visão, notando apenas agora que havia um pequeno sorriso bobo na esquina de meus lábios.

E quando meu pai berrou meu nome, do interior da casa, eu soube que ele observara todo esse momento, fazendo o meu sorriso sumir, sabendo que agora seria apenas uma continuação para o que começara na cozinha, momentos antes.

Mas não era como se eu me importasse de brigar com ele, entrementes. Da mesma forma que nunca realmente se importou com as coisas que eu pensou ou faço, eu não me importava com o que ele pudesse pensar de mim agora que tivera a confirmação que nunca se veria sendo apresentado à uma "loira gostosa" como se ele sempre falara sonhar.

Coloquei as mãos nos bolsos da minha calça, pensando seriamente em apenas ignorar o chamado de meu pai e caminhar para meu quarto, trancar-me lá e sair apenas quando desse a hora de ir para a escola, mas papai parecia realmente tentado a brigar, então, quando viu-me passando reto pela porta da sala, chamou-me uma vez mais.

Bufei, pensando no quanto seria realmente desnecessário isso tudo.

"O quê?" resmunguei, escorando-me no batente da porta e cruzando meus braços em frente ao peito. Papai estava parado no meio da sala, a expressão fechada, os cabelos desgrenhados e os braços cruzados em frente ao peito.

Ao ouvir minha indagação mal educada, ergueu as sobrancelhas, medindo-me. "Pode me explicar que putaria foi essa no meu jardim?"

Dei de ombros. "Exatamente a putaria que você viu, nada mais." ergui as sobrancelhas. "Ou você apenas acha que tenha sido uma putaria por, talvez, sua vontade ao dar tal show depois do jantar, fosse que Pierre sumisse da minha vida. Mas não deu muito certo, acho que deu pra notar, mesmo que sua percepção seja uma droga."

Papai bufou, começando a caminhar de um lado para o outro. "E você acha certo ficar com tanta... Intimidade com uma pessoa que você conhece há, o quê? Dois dias? E, pior, com um garoto?"

Deixei um sorriso debochado despontar na esquina dos meus lábios, voltando a dar de ombros. "Bem, sim, levando em conta que eu tenho atração por ele."

"Atração não segura relacionamento nenhum." papai sorriu parecendo se sentir vitorioso, mas não é como se ele estivesse apresentando tanta lógica quanto pretendia.

"Yeah, menos ainda grosseria. Sabe, um dia mamãe vai se cansar da merda toda que você tem posto na família que vocês constituíram. Eu me preocuparia mais com isso do que com o relacionamento homossexual do meu filho, se fosse você, porque é óbvio que os filhos iriam embora com a mãe e o pai ficaria sozinho, remoendo-se em culpa por ser tão mal agradecido."

"Não fale como se entendesse de alguma coisa." papai resmungou, cerrando os punhos e parando na minha frente.

Ergui levemente a cabeça, de modo que pudesse fixar seus olhos, uma única sobrancelha levantada em sarcasmo. "Se você parar de tentar afastar as pessoas que se tornam verdadeiramente especiais para mim, eu juro que paro de esfregar a doce verdade na sua cara."

Papai abriu a boca para falar qualquer coisa, mas não era como se eu estivesse com algum ânimo para sustentar essa discussão. Suspirei. "Eu esperava que você pudesse, ao menos, me deixar ser feliz ao lado de alguém que é realmente importante para mim, mas parece que você não se importa tanto quanto tenta fazer parecer com esses seus sermões vazies sobre moralidade."

E, sem esperar resposta, apenas girei sobre meus calcanhares, caminhando para meu quarto, sem me preocupar com o que ele poderia fazer a seguir, mesmo que eu soubesse que ele não faria nada apenas como sempre.

Entrei no meu quarto, batendo a porta atrás de mim, pensando no que você deveria estar achando de mim nesse momento. Fato era: não importava o quanto você tentasse me acalmar, nada iria tirar da minha cabeça como você iria me tratar a partir do dia seguinte e, menos ainda, nada faria com que eu esquecesse a vergonha absurda que eu estava sentindo por causa desse jantar idiota.

Bufei quando ouvi a voz do meu pai soar pela casa toda, tão mais alta que nunca antes, reclamando para minha mãe sobre qualquer coisa que eu não queria entender, por isso, apenas liguei o rádio em um volume alto o bastante para não ter que ouvir nada, além da música.

Não era justo você ter que pagar o pato por meu pai ser um idiota estúpido, que não sabia reconhecer que realmente precisava do trabalho – ou o inferno que fosse – que seu pai havia oferecido. E dane-se, de qualquer modo, se papai prefere ficar tendo que contar até o último centavo para ter certeza de que conseguiria pagar todas as contas.

Grunhindo, ainda com raiva, me joguei na cama, meus olhos fixando o teto, pensando em qualquer coisa, apenas para tentar me distrair de todo o mau-humor que me encontrava, conseguindo apenas pensar em tudo o que já havia passado com você, entretanto.

Mas eu não queria pensar em você nesse momento, porque eu sabia que, apesar das suas palavras, você estava bravo comigo, senão magoado. Eu sabia que, mesmo que por um minuto, você tinha me acusado de tudo o que meu pai havia lhe dito. E não importava se, depois, você notou que eu não tinha nada a ver com isso.

Dane-se: eu devia saber que papai iria dar um jeito de ferrar qualquer relacionamento bom que eu conseguisse aqui e não devia ter cedido ao pedido de minha mãe em te levar para jantar em casa. Eu deveria ter arrumado alguma desculpa para que você nunca fosse lá.

Eu sequer deveria ter sido sincero com seu pai: deveria ter dito que estava tudo ótimo, que papai tinha o melhor emprego do mundo e que estava ganhando rios de dinheiro. Talvez, assim o idiota estúpido tivesse sido menos mal-educado com você e não me faria ter a ridícula certeza de que você daria um jeito de me chutar para fora da sua vida, assim que nos encontrássemos novamente.

E eu não me importei, realmente, com o quão idiota essa idéia me soou, porque não era nada parecida com alguma atitude que você tomaria, entrementes, era o que eu realmente achava que iria acontecer.

Eu realmente achava que se você não me chutasse para fora da sua vida, ao menos faria com que ficássemos sendo apenas conhecidos. Nada mais de beijos e de piadinhas idiotas – quem sabe alguma outra aposta deliciosa –, seriamos apenas amigos e somente tal palavra para definir minha relação com você, fazia doer.

Eu não queria ser apenas seu amigo, e achava que já havia deixando isso perfeitamente claro para você, se não com palavras, com atitudes. A idéia de não mais poder te tocar como venho fazendo desde que nos conhecemos, causava dor semelhante a pior que você pudesse imaginar.

Passei horas apenas pensando isso, deitado em minha cama, ouvindo uma música qualquer, sem me importar com as batidas insistentes do meu pai na minha porta. Depois de tudo, eu tive a certeza de que não estava apaixonado por você.

Eu tive a certeza de que estava amando você.