03 – Capítulo Três

A manhã havia sido exaustiva e Edward estava esgotado. Fizera uma meticulosa cirurgia de ponte de safena, e uma de válvula estava agendada para logo após o almoço. Aquele deveria ser seu dia de folga, mas cobria um dos outros cirurgiões do O'keefe, acometido de uma gripe forte.

Entrou no refeitório com a bandeja procurando, esperançosamente, uma mesa vazia no local lotado, mas não deu sorte. O único lugar vago era na mesa ocupada por Isabella. Olhou por cima do prato de salada e da xícara de café.

Isabella baixou os olhos para o prato, furiosa por corar quando ele a olhou. Ele preferia levar sua salada para a pequena cantina junto do refeitório e sentar-se no chão a ficar ao seu lado, ela bem sabia. Se pudesse superar seus vergonhosos sentimentos por aquele homem terrível... Se não lhe importasse a opinião dele... Quase deixou cair o garfo quando, sem perguntar, ele colocou o café e o prato na mesa diante dela, puxando uma cadeira e se sentando. Ele percebeu a surpresa dela e quase achou engraçado. Abriu o guardanapo no colo, tirou o plástico recobrindo a salada e pegou o garfo.

— Sentar no chão seria muito óbvio? — perguntou num tom levemente seco.

O olhar sombrio prendeu o seu por um instante antes de colocar uma garfada de salada de atum na boca.

— Você faz isso tão bem — ela comentou.

— Isso o quê? — perguntou Edward.

Ela terminou de mastigar a salada e recostou-se.

— Esnobar-me. Suponho tê-lo irritado desde o dia em que nos conhecemos só pelo fato de existir.

— Não fale besteira — ele murmurou e tomou um gole de café. Olhou o relógio. —Achei que almoçasse às 12h30.

Ela cruzou as longas pernas nas calças de malha branca.

— Costumo almoçar nesse horário, mas você não devia estar operando hoje neste hospital — explicou.

Os olhos verdes dele piscaram.

— Então você me evita?

— Claro que sim — respondeu tensa. — É o que você espera de mim, não precisa dizer. — Ela olhou o café, notando que ele também tomava café puro.

O olhar dele percorreu-lhe o perfil. Não era bonita como Tanya, mas era magra e tinha um corpo bonito, embora os traços fossem comuns. O cabelo não era louro, nem castanho-claro. Os olhos eram mais para o cinza que para o azul. Nunca usava maquilagem. Na verdade, parecia não ligar para a aparência, embora estivesse sempre limpa e arrumada. Poderia ser atraente com outro corte de cabelo e roupas. Os olhos estreitaram-se observando o coque. Nunca a vira com os cabelos soltos. Por muito tempo, se perguntara como seriam.

Ela notou o olhar intrigado e enrubesceu.

— Sinto-me como uma borboleta presa num alfinete. Pode parar de me analisar? Sei que você me considera uma assassina, mas não precisa deixar isso tão evidente em público, certo?

Ele fechou a cara.

— Eu não disse nada.

Ela riu, mas com um traço de tristeza; os olhos cheios de decepção e solidão.

— Verdade — Isabella concordou. — Não disse. Você pode ser latino, mas não se comporta como tal. Nunca explode de raiva, atira coisas ou xinga a plenos pulmões. Pode conseguir mais num simples olhar do que a maioria dos médicos consegue mantendo o braço em fúria. Não precisa dizer nada. Seus olhos dizem tudo. — Ele franziu o cenho.

— E o que eles dizem?

— Que você me culpa pelo que aconteceu com Tanya — ela respondeu com calma. — Que me odeia. Que acorda todas as manhãs desejando que fosse eu naquele caixão, e não ela.

Ele cerrou a mandíbula, segurando as palavras, mas os olhos faiscaram.

— Você pode não acreditar — ela disse num tom contido —, mas por vezes eu gostaria de estar no lugar dela. Parece que nenhum de vocês percebe que eu também a amava. Fomos criadas juntas. Ela podia ser cruel, mas também gentil quando queria. Sinto saudades dela.

Ele tentou, sem êxito, engolir as palavras frias.

— Que maneira estranha de demonstrar afeto — murmurou secamente. — Deixá-la sozinha num apartamento para morrer.

Tão logo as palavras saíram, arrependeu-se, mas já era tarde.

Isabella fechou os olhos. Ficou tonta, como vinha acontecendo ultimamente. A respiração saiu entrecortada. Cruzou as mãos no colo e tentou controlar-se, não se denunciar. Edward era um excelente cirurgião. Não conseguiria esconder seu estado se ele a examinasse mais atentamente, e ele poderia comentar alguma coisa na administração. Levantou a cabeça momentos depois, pálida, porém mais firme.

— Preciso ir — disse e, devagar e cuidadosamente, levantou-se da cadeira, segurando-se para se apoiar.

— Você tem dormido? — perguntou ele de repente.

— Quer saber se minha consciência culpada me permite dormir? — ela devolveu, sorrindo friamente. — Se lhe interessa saber, sim. Eu teria salvado Tanya, se pudesse...

Ela dava a impressão de cansaço, como se não tivesse comido ou dormido.

— Você nunca me contou exatamente o que aconteceu — disse ele.

A afirmação a surpreendeu.

— Eu tentei — lembrou-o. — Tentei contar a todos vocês, mas ninguém se interessou pela minha versão da história.

— Talvez eu me interesse agora.

— Está dois anos atrasado — disse, pegando a bandeja. — Eu teria contado a vocês com o maior prazer na ocasião, mas não vou me dar ao trabalho de contar agora. Já não importa. — Os olhos sugeriam total ausência de sentimentos ao encontrar os dele, não traindo o tumulto em seu peito. — Não me interessa o que pensam a meu respeito. — Virou-se e caminhou devagar, sem olhar para trás ao atravessar a porta em direção aos elevadores dos funcionários.

Os olhos verdes de Edward a seguiram, arrependidos. Ele parecia incapaz de deixar de magoá-la. E ela não precisava disso. Movia-se mais devagar nos últimos dias. Parecia não ter interesse em nada além do trabalho. No hospital, corriam boatos sobre romances e rompimentos, mas nunca ouvira o nome de Isabella associado ao de ninguém. Ela não namorava. Mesmo quando morava na casa da família de Tanya, andava sempre com o nariz enfiado num livro médico, estudando para as provas. Formou-se em enfermagem com notas máximas, lembrou-se, o que não era de se estranhar.

Bebericou o café, lembrando-se da primeira vez em que a vira. Encontrara Tanya num jantar beneficente e a atração fora instantânea. O namorado de Tanya havia sido convocado pelo chefe para uma reunião tardia e Edward oferecera-se para levar a linda loura em casa. Ela aceitou de imediato. Morava numa enorme mansão georgiana, nos arredores de Atlanta, num bairro sofisticado. Os pais estavam na sala de estar assistindo ao jornal da madrugada quando ela o apresentou. A princípio, mostraram-se reservados até a filha falar de sua profissão e de como se tornava famoso.

Isabella estava em casa, enrascada num sofá perto da lareira, com um livro de anatomia na mão e óculos pendurados no nariz. Ainda se lembrava de seu olhar quando ele e Tanya aproximaram-se dela. Aqueles grandes olhos meigos acinzentados iluminaram-se com uma espécie de fogo suave, enormes, luminosos e cheios de segredos. Ele notou, no rosto radiante e no leve tremor da pequenina mão, ao serem apresentados, ter lhe causado uma profunda impressão. Mas ele só tinha olhos para Tanya. Isabella retraíra-se com um sorrisinho desanimado.

Nas semanas seguintes, enquanto cortejava Tanya, Isabella mal aparecia. Não fora convidada a tomar parte do casamento. Mais tarde, ele envergonhou-se ao lembrar-se de como Tanya insultara a prima. Não quisera incluí-la em seu séquito. Nutria um ciúme doentio da prima. Parecia deliciar-se em encontrar meios de derrubá-la, fazê-la sentir-se indesejável ou inferior.

Tanya era linda, sociável, segura de si e talentosa. Mas era vazia, ao contrário de Isabella. O ciúme ensejara uma terrível discussão antes da viagem de Edward a Paris, antes da morte de Tanya. Ele fechou os olhos e estremeceu por dentro, lembrando-se da conversa. Ele havia culpado Isabella por tudo, até por aquilo, quando a culpa era igualmente sua. O movimento na mesa ao lado o trouxe de volta das reflexões. Olhou o relógio e, apressadamente, terminou o almoço. Hora de voltar ao trabalho.

ISABELLA ansiava por voltar para casa, após o dia de trabalho. Sentia-se cada vez mais fraca, levemente nauseada, respirava com dificuldade e o batimento cardíaco, de tão irregular, preocupou-a. Deitou-se e adormeceu cansada demais para jantar até mesmo uma tigela de cereais.

Pela manhã, sentiu-se melhor e o pulso parecia menos irregular. Precisava continuar a trabalhar. Se perdesse o emprego, podia perder o seguro saúde e precisava dele para a cirurgia de válvula cardíaca, uma cirurgia cara. Caso não se submetesse a ela, poderia não viver muito mais. O especialista lhe dissera que a válvula comprometida regurgitava. Mas ela sabia ser possível viver muito tempo com uma válvula assim, dependendo da quantidade de líquido retido e do grau de cuidados médicos e supervisão a que fosse submetida. Desde a morte de Tanya, tivera pouquíssimos problemas.

Tomou um suco de laranja e fez uma careta ao lembrar-se de como Tanya estava mal e de como ela se desesperara para buscar socorro. Agora, Edward queria saber tudo a respeito e isso era trágico, pois não contaria nada. Não ocupava um lugar em sua vida e nem o desejava. Já pagara um preço altíssimo por seus sentimentos. Não cairia novamente na armadilha de amá-lo. A solidão era bem mais segura. Por vezes, pensava sobre o motivo da discussão que levara a prima a ir para a chuva com pneumonia. Ela tomava antibióticos para a bronquite e insistira em tomar o remédio sozinha, sem a ajuda da prima. Mais tarde, Isabella descobrira o frasco escondido debaixo do colchão.

Tanya ficara furiosa com Edward por ele não tê-la levado à França. Ou, pelo menos, fora o que dissera. Mas a empregada aludira a uma violenta discussão antes de ele partir, e isso nunca voltara a ser mencionado. Pelo menos, não para ela. Edward havia sugerido algo sobre Tanya querer puni-lo por não ter permitido que ela o acompanhasse. Houvera também a menção a um amante. Apesar dos esforços de Tanya em pintar seu casamento como um modelo de perfeição, Isabella sabia não ser verdade. Estranho como Edward tentara idealizar o casamento, agora que Tanya se fora.

Isabella se questionava se Tanya realmente pretendia morrer ou apenas subestimara os perigos da dramática exposição ao frio com pneumonia e morrera por isso. Talvez não lhe tivesse ocorrido que os pulmões fracos poderiam entrar em colapso, o que seria fatal. Apesar de viver com um cirurgião durante quatro anos, ela não parecia entender muito de medicina ou de doenças.

Edward não sabia que Tanya havia, propositadamente, se exposto à chuva e ao frio. A empregada, após encontrar o corpo da patroa, tivera um ataque histérico e não voltara sequer para receber o salário. Isabella nunca mais voltou a vê-la. Então, tudo o que Edward sabia era que Isabella deixara a prima sozinha e que ela morrera. Nem ele nem os pais de Tanya permitiram que ela contasse sua versão. Ficaram de luto e a amaldiçoaram. Dois anos após o ocorrido, todos ainda a culpavam.

Eles não a amavam claro, nem se importavam com á sua dor pela perda da linda e egoísta prima. Apesar das briguinhas, Tanya e Isabella haviam crescido juntas e sentiam uma afeição mútua. Mas os Swan expulsaram Isabella de suas vidas. Ficara surpresa quando a tia a convidara para lanchar, na semana do aniversário do tio. Isabella não gostara da conversa artificial. Imaginara que a tia a procurara porque as pessoas comentavam o fato de evitarem Isabella e de sua recusa em perdoá-la. Não podia imaginar outro motivo para quererem sua companhia. A tia odiava fofocas.

Fora para o trabalho e conseguira cumprir seu turno, sem maiores dificuldades, mas a falta de ar a preocupava. Naquela tarde, marcou uma consulta com um colega de seu cirurgião para o final do dia. Ele fez alguns exames e auscultou-lhe o coração. Era um homem alto e bonito, com um sorriso fácil e bem-humorado.

— Você é enfermeira. Não sabe quando o coração não está funcionando direito?

— Sei. Mas esperava que fosse devido ao excesso de trabalho.

— E é, mas essa válvula está vazando um pouco mais. Você precisa marcar a cirurgia logo. Não quero assustá-la, mas, se essa válvula parar, pode não ter tempo de chegar ao hospital. Com certeza, sabe disso.

Ela sabia. Como poderia falar-lhe das vezes em que pensara no alívio em não ter de enfrentar outro dia do frio antagonismo e acusação de Edward? Estou morrendo por amor não correspondido, pensou e riu alto pelo pensamento extravagante. Tenho o coração partido, em mais de um sentido.

— Não deve tratar o assunto com leviandade — disse o medico sério, interpretando mal o riso. — Quero conversar com o Dr. Myers, o cirurgião, e marcar a cirurgia. Sua falecida prima foi casada com o Dr. Edward Cullen. Ele é o melhor cirurgião cardíaco do país. Estudou na Universidade Johns Hopkins. Por que ele não a opera?

— Ele não sabe do meu problema. E não quero que saiba — disse laconicamente.

— Mas por que não?

— Porque ele me odeia. Ele pode deixar escapar algo sobre meu estado e eu perder o emprego. Não posso correr esse risco. Não posso permitir que saibam que estou enfrentando problemas graves de saúde e perder meu seguro.

— Eles não a demitiriam.

— Poderiam — retorquiu. — E eu não poderia culpá-los. Uma enfermeira responsável por pacientes num CTI tem que gozar de perfeita saúde. Tenho perfeita consciência de minhas limitações. Por isso, insisti em ter sempre outra enfermeira nos meus plantões — Ela deu um sorriso débil. — Não disse o motivo, é claro.

Ele balançou a cabeça.

— Você está brincando com fogo. Pode morrer. — Ela levantou-se da cadeira.

— Todos morreremos um dia.

Ele também se levantou, franzindo a testa.

— Não espere demais — pediu. — Eles a adoram no Hospital O'keefe. Tenho pacientes internados lá, então sei de todas as fofocas. — Ele observou-lhe o rosto lívido. — Você nunca contou a Cullen por que não estava com a esposa dele quando ela morreu. Por que não?

— Porque ele não quis ouvir. Agora, pouco importa. — Ela afastou uma mecha do cabelo louro. — É mais fácil para mim que ele continue a me odiar. Por favor, não me pergunte o motivo.

— Não perguntarei. Mas prometa tomar providências em breve.

— Prometo. — Ela respirou fundo. — É que eu me preocupo com o tempo que ficarei sem trabalhar. Não sei como sobreviverei.

— Há vários tipos de entidades que podem ajudar. Seus tios mantêm uma ala pediátrica no Hospital St. Mary's. Sem dúvida ajudá-la.

Ela riu.

— Eles me odeiam mais do que o próprio Edward — contou, e deu de ombros. — Pouco importa. Se eu morrer na mesa de cirurgia, ninguém vai chorar por mim. Ninguém nesse mundo.

Agradeceu e foi embora, apertando a receita que o persuadira a dar-lhe para estabilizar o batimento cardíaco e afinar o sangue. Assim ganharia um pouco mais de tempo antes da cirurgia. Em três semanas, teria o suficiente para pagar dois meses adiantados de aluguel. Se o seguro pagasse oitenta por cento da conta do hospital, como previsto, ela poderia se virar financeiramente.

— VOCÊ parece doente — murmurou Jacob Black quando ela chegou à ala. Jacob era um técnico de enfermagem dos bons. Começara a trabalhar no hospital mais ou menos na mesma época que Isabella, havia quatro anos. Era seu único amigo, embora fosse apenas uma amizade de colegas de trabalho. Jacob estava apaixonado por uma jovem médica residente da emergência. Ela o ignorava. O amor não correspondido os unia, embora Jacob não soubesse por quem Isabella se consumia.

— Eu me sinto realmente doente — contou.

Ele inclinou a cabeça e a observou detidamente.

— Está com uma cor péssima.

— Eu sei. — Isabella respirou fundo. — Vou ficar bem. O médico receitou um remédio para estabilizar o batimento cardíaco.

— Conte para mim.

Ela sorriu e balançou a cabeça.

— Não. Isso é problema meu. Eu cuido disso.

— Você me preocupa. Por que as enfermeiras nunca admitem que estão doentes?

— Muita força e pouco raciocínio? — aventurou-se e riu. — Ande logo. Temos medicamentos para ministrar, o almoço está a caminho e os médicos vão começar as visitas. Ao trabalho.

— Primeiro as damas — disse ele com afetação.

UM com problemas na válvula foi levado uma hora antes de Isabella terminar seu turno. Ela supervisionou as grades da cama, ligou o oxigênio e o soro, checando o prontuário para verificar os outros medicamentos prescritos pelo cirurgião. Era uma das pacientes de Edward. Reconheceu a assinatura no formulário.

A mulher abriu os olhos. Parecia pálida, doente e assustada. Isabella colocou a mão em sua testa e suavemente afastou os cabelos grisalhos da pele fria e úmida.

— A cirurgia já terminou. Vamos cuidar muito bem da senhora. Sou Isabella. Caso precise de alguma coisa, aperte este botão. — Guiou os dedos finos da mulher até o botão na grade da cama. — Tudo bem?

— A garganta ressecada — respondeu a mulher com voz rouca. — Tão... Ressecada.

— Alguém da família ficará com a senhora?

— Ninguém — foi à resposta melancólica. Fechou os olhos num suspiro. — Ninguém... Nesse mundo.

O coração de Isabella ficou apertado. Era assim que se sentia e assim ficaria depois da cirurgia: sozinha, sem um amigo sequer para segurar-lhe a mão. Faria a cirurgia na cidade de Macon, para se assegurar de que Edward não tomasse conhecimento. Então, nem mesmo Jacob estaria ao seu lado. Que pensamento desolador!

— Vou pegar um pouco de gelo — prometeu. — Isso ajudará um pouco. Também está na hora do seu remédio. Vou buscar.

— Obrigada — sussurrou a senhora com voz rouca.

— É minha obrigação — respondeu com um sorriso gentil. — Volto já. — Foi até a máquina de gelo e encontrou a esposa de um dos pacientes enchendo um balde.

— Sou supérflua — disse com um sorrisinho cansado. — Ele pode servir-se de suco e pegar o gelo; agora só sirvo para fazer-lhe companhia nos comerciais dos programas de TV.

Isabella pestanejou.

— Gostaria de dar gelo picado à nova no outro lado do corredor? Ela não tem família e está morrendo de sede.

— Adoraria — ela respondeu. — Pobrezinha. Somos tantos em minha família que nos revezávamos a cada hora do dia, mas Saul quer que a gente pare de incomodá-lo para ele poder assistir à novela. — Ela gargalhou. — Não imagina o prazer de vê-lo sentado na cama sorrindo novamente. Achei que fôssemos perdê-lo.

— Ele é forte. Fico contente por ter se recuperado. A Sra. Charles ficará muito agradecida se puder fazer-lhe um pouco de companhia.

— Com o maior prazer. Assim ocuparei meu tempo livre. — Elas encheram os baldes de gelo e Isabella levou-a para apresentá-la à senhora idosa. Iniciaram imediatamente uma amizade.

Isabella voltou à sala de enfermagem que compartilhava com outras pessoas em seu turno, parando apenas para tomar um café enquanto digitava informações sobre a Sra. Charles no computador. Jacob parou ao lado de sua cadeira.

— Você devia consumir essa quantidade toda de cafeína? — perguntou baixinho para que apenas ela ouvisse. Isabella fez uma careta.

— Não pensei nisso. Não, provavelmente não deveria.

— Você precisa de que cuidem de você, filhinha — brincou, apoiando a mão grande em seu ombro e sorrindo para ela.

Edward viu o modo como Jacob inclinava-se sobre Isabella, o sorriso e a intimidade daquela mão em seu ombro. Foi tomado pela raiva. Parou diante da enfermaria e fitou Isabella, que só notou-lhe a presença tardiamente e parou de sorrir no ato.

— Quero ver a Sra. Charles — disse sem preâmbulos. — Se você dispuser de tempo — acrescentou, olhando com frieza para Jacob, que enrubesceu.

— Ela está aqui — disse Isabella, conduzindo-o ao quarto da senhora sem fitá-lo. O comentário fora injusto e indelicado. Ela trabalhava tanto quanto ele. Jacob estava apenas sendo gentil, mas não ocorreria a Edward que alguém pudesse tratá-la com amabilidade. Ele a julgava uma assassina, alguém sem sentimentos.

Entraram no quarto da idosa, que sorriu afetuosa ao ver Edward.

— Obrigada — disse com voz fraca, estendendo-lhe a mão. — O senhor salvou... Minha vida.

— Foi um prazer — retrucou, apertando-lhe a mão. — Já receitei um remédio para a dor. Tome quando precisar. Não lhe fará mal. À melhor coisa a fazer no momento é repousar. Em um ou dois dias poderá se levantar e começar a caminhar. — Ele franziu a testa. — A senhora tem alguém na família a quem possamos contatar?

Ela sacudiu a cabeça.

— Todos mortos — respondeu triste. — Mas a Sra. Green tem me dado gelo picado. Foi ideia dessa simpática jovem.

Edward olhou Isabella.

— Poupando-se do trabalho? — perguntou ele em voz baixa, mas num tom acusatório.

Isabella ignorou o comentário e ocupou-se em ajeitar o lençol, cobrindo o corpo magro da Sra. Charles.

— Se precisar, basta chamar.

— Não vou chamar — respondeu gentilmente. — Vocês todos têm sido muito bons para mim.

— É fácil ser gentil com alguém tão amável quanto à senhora — respondeu Isabella, sorridente.

Edward a examinou. Satisfeito com o resultado, despediu-se animado e fechou a porta.

— Como ousa colocar uma acompanhante para cuidar de outra paciente? — perguntou furioso, tão logo se afastaram o bastante para não serem ouvidos pelos outros.

O coração de Isabella pulou e disparou, perdendo o compasso. Precisava recuperar o fôlego antes de responder.

— Não foi isso. O marido da Sra. Green deve receber alta a qualquer instante e não a quer plantada ao lado dele. Ela queria manter-se ocupada e não tenho tempo para dar gelo picado aos pacientes a cada cinco minutos. Conheço o meu trabalho. Não precisa me dizer como proceder, doutor — acrescentou deliberadamente. — A Sra. Green ofereceu-se. Eu não pedi.

A explicação era razoável, mas ele estava furioso com a intimidade entre ela e Jacob, e ainda mais furioso por se importar com isso.

— Espero que o prontuário de minha paciente seja mantido atualizado constantemente. Se houver alguma alteração, quero ser notificado. Não me interessa se forem três da manhã. — Ela apertou o prontuário contra o peito. — Ela tem arritmia. Esperou tempo demais para se submeter à cirurgia. O estado dela era crítico. E ainda é. Cuide bem dela.

— Pode deixar. — Saber como o tempo era crucial numa operação de válvula a deixava nervosa. E se ela estivesse esperando demais? Ela, mais moça que a Sra. Charles, também tinha arritmia...

Edward percebeu a respiração ofegante sob o jaleco de algodão florido que as enfermeiras preferiam ao uniforme todo branco. Franziu o cenho.

— Você está passando bem? O batimento do seu coração está... Estranho. — Mais estranho bateu graças à observação. A respiração saía afobada.

— É por ficar tão perto do senhor — murmurou num tom de voz dramático, mas tão baixo que ninguém mais podia ouvir. Arregalou os olhos. — É tão excitante — disse num tom teatral.

Ele murmurou algo em espanhol que, felizmente, ela não entendeu, virou-se e desceu o corredor a passos largos. Ela suspirou aliviada. Bem, sobrevivera àquele inesperado ataque de curiosidade. Como ele percebera seu batimento cardíaco? Com certeza, lhe conviria que seu coração parasse de vez.


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