Capítulo 4

"Boa tarde, gleeclubers!"

O falatório na sala do piano continuava alto. A tabela com as notas dos estudantes tinha sido divulgada naquela manhã. Brittany estava preocupada, porque havia ficado de recuperação em catorze das quinze matérias. Finn comemorava, porque graças à nota de espanhol, ele não ficaria nas aulas de reforço a tarde. Rachel tinha três notas vermelhas: educação física, matemática e física. As malditas exatas eram o seu terror particular.

O descanso havia acabado, mas todos eles estavam felizes pelas aulas terem voltado. O ano de formatura era o mais aguardado por todos.

"Eu sei que o verão foi muito bom, e que todos vocês queriam que ele não acabasse, mas agora temos um novo foco: Nacionais!"

O Sr. Schuester sempre vinha com o mesmo discurso de focar na competição. Mas dessa vez, todos eles levaram a sério. Finn ainda se sentia culpado pela derrota no ano passado, e Rachel também. Eles sabiam que foi o 'beijo do século' que tirou a classificação das mãos do New Directions. Finn não pensou nas conseqüências quando resolveu beijá-la. Mas em segredo, ele não tinha se arrependido do que fez, e o verão ajudou para que o resto do grupo os perdoasse.

"A verdade é que... Eu também aproveitei muito bem minhas férias, e acabei não preparando nenhuma tarefa para nossa primeira semana de aula."

O Sr. Schue foi até o litoral junto com a substituta Holly Holliday, aproveitar o sol do verão e as praias da Califórnia. Entre eles, era só amizade. O professor de espanhol sabia que sentia algo verdadeiro por Emma, mas por uma série de fatores, resolveu passar o verão solteiro.

"Vou mantê-los avisados. Mas, enquanto não há tarefa nenhuma, quero que me contem como foi o verão."

"Friends!" gritou em coro Lauren, Artie e Tina. Os três criaram uma estranha obsessão pela série durante os meses de sol. Ficavam quatro, cinco, e às vezes seis horas corridas vendo os episódios na casa do Artie.

"Hóquei!" Mike e Sam foram um dos vencedores do campeonato da cidade.

"Vamos lá, Rachel... Não vai dizer virgindade?"

Santana não perdeu a oportunidade de zombar da Rachel. Todos riram da cara que ela fez.

"Falar o que?" Rachel tentou responder como se não ligasse para as provocações. "Ela continua intacta, se vocês querem saber."

"Já estava na hora, senhor quarterback." Artie falou depois de dar um tabefe nas costas do Finn.

"Wow, wow, pessoal. Vamos com calma." Schuester colocou ordem na sala do piano. "A primeira vez é uma coisa particular. É decisão de cada um tornar isso público ou não."

Tina, que havia espalhado a notícia, abaixou a cabeça. Ela também passou por isso, e não gostou quando as meninas zombaram dela.

"Vocês já se colocaram no lugar dos outros? Pensaram bem antes de criticar alguém?" Não. Era o que todos pensavam. "Essa é a maior lição que vocês devem aprender: se colocar no lugar de certa pessoa, antes de falar qualquer coisa sobre ela."

Schuester havia descoberto a tarefa da semana.

"Todos aqui tem uma canção favorita, certo? Alguma canção que marcou a sua vida... ou que traduza tudo o que você sente agora, ou sentiu num momento passado. Eu quero que cada um pense numa canção. Amanhã, vocês escreverão o nome dela num papel. E não serão vocês que vão cantá-las. Os intérpretes de cada música vão ser escolhidos por sorteio. Quem sabe assim vocês não consigam se colocar no lugar de outra pessoa."

Todos ficaram ansiosos. Alguns já tinham uma canção em mente. Outros haviam tantas, que era difícil escolher uma.

O sinal bateu, e as aulas daquela tarde haviam sido canceladas. Isso significava que eles estavam dispensados. Finn e Kurt se despediram de todos e foram embora apressados para casa. Todas as segundas Carole preparava o delicioso bolo de carne, a comida preferida dos dois. Já havia se tornado tradição.

Rachel ia ficar na biblioteca pesquisando a sua música. Tantas haviam marcado sua vida: Don't Rain On My Parade, Poker Face, My Man, Faithfully, Pretending

A velha que cuidava da informática da escola deixou Rachel usar o computador para pesquisa. Ela estava tão concentrada pesquisando as músicas no Google, que nem percebeu que Quinn estava parada atrás dela, com seu rosto sem nenhuma expressão.

"Rachel, eu quero falar com você. E dessa vez é sério."

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A garota não agüentava mais. Passara a noite inteira chorando. Os olhos estavam inchados e a bochecha continuava marcada pelo rastro das lágrimas que escorreram por elas. Aquilo que Quinn havia falado foi tão cruel... mas ela não podia discordar. Tudo aquilo era verdade.

Rachel teria que crescer. Uma hora ou outra ela teria. Nos dois últimos anos, ela sempre correu atrás do Finn. Chegou a hora de mudar, ela pensou.

Penteou o cabelo rapidamente, lavou o rosto, escovou os dentes, e correu para o carro. Ela já estava atrasada para a primeira aula do dia, que era de espanhol. O Sr. Schuester iria perdoá-la pelos minutos perdidos.

O dia passou devagar, distraído. Espanhol, química, sociologia, e enfim, laboratório. Nas aulas de terça, a única que ela e Finn ficavam na mesma turma era no laboratório.

O professor deixou a aula livre para os alunos terminarem os exercícios sobre as briófitas. Rachel já tinha acabado há duas semanas, e isso era péssimo: nada ocupando o cérebro traz certos pensamentos à tona. Pensamentos que ela queria deixar bem guardados. Finn tinha se sentado perto do professor; era um dos poucos que faltavam terminar.

Rachel ficou fitando as costas dele durante a hora inteira. Passou a aula se lembrando daqueles meses de verão que ela passou ao lado dele. As tardes tranqüilas, as risadas que eles deram juntos, as sessões de cinema, o fiasco na casa da Quinn, o jantar no Breadstix... Tudo aquilo ficaria para trás uma hora ou outra. E quanto mais cedo isso acontecesse, melhor. Mais tempo para o coração se recuperar.

O sinal bateu. A 'boiada' saiu correndo para o refeitório. Era hora do almoço. Finn esperava Rachel do lado da porta.

"Que porre de exercício! Brófitas só existem para abaixar a minha nota de biologia." Ele disse, depois de dar um beijo de bom dia.

"Você quis dizer briófitas..." ela o corrigiu, fitando os seus passos no chão.

Finn estranhou. Toda vez que ele sem querer fazia alguma palhaçada, Rachel ria. Daquela vez, ela permaneceu séria. Os olhos também carregavam outra expressão, completamente diferente da que ele viu durante o verão.

"O que aconteceu, Rach?" ele parou de andar, e levantou o rosto dela. "Você está estranha hoje."

"Finn, nós precisamos conversar."

Ela o puxou para o canto do corredor, onde o barulho era menor.

"Pode falar."

"Eu não quero mais ficar com você."

Finn tentou tranqüilizá-la.

"Rachel, não se preocupe. O pessoal está caçoando da gente agora, mas daqui um tempo eles esquecem o que aconteceu, e..."

"Não, não tem nada a ver com isso. Eu não posso mais, Finn. E-eu... Eu pensei muito na noite passada, lembrei de algumas coisas que martelavam há muito tempo na minha cabeça. E eu decidi."

"Mas por que agora Rachel? Tudo está tão bem entre a gente. Acho que nunca estivemos tão bem assim um com o outro."

Finn não conseguia entender. Deve ser a TPM, ele pensava. Quinn mostrou todos os pontos negativos da relação dos dois no dia anterior, esse era o motivo da conversa.

Os olhos dela se avermelharam, e ela desviou o olhar para as mãos dele.

"Finn, veja os fatos... Se não existisse Glee Club, você estaria com a Quinn, eu continuaria sozinha, a mentira sobre a gravidez até hoje estaria escondida, e vocês dois continuariam felizes, como estavam antes de eu te conhecer."

Ela torcia para que ele encontrasse um argumento contra o dela, mas não. Ele permaneceu quieto, sem palavras.

"E mesmo depois de você descobrir a verdade, acabou voltando com ela. Mesmo sabendo que ela teve um filho com o seu melhor amigo, e mentiu dizendo que era seu."

"Rachel, v-você mesmo encontrou uma explicação para isso! Perdoam-se todos os erros do primeiro amor. Lembra? Você me disse isso!"

"Finn, não se sente fogos de artifício por um simples primeiro amor."

"M-mas, Rachel, eu amo você, de verdade."

Ela levantou os olhos vermelhos e o encarou.

"Finn, lembra o que você disse pra mim quando eu beijei o Puck no ano passado? Você disse que eu tinha quebrado seu coração. Pois bem: eu já perdi a conta de quantas vezes eu remendei meu coração por sua culpa! Você pensa que foi fácil ver você andando de mãos dadas com a Quinn todos os dias? Você pensa que foi fácil saber que você acha Santana mais quente, mais bonita que eu? Não há nada pior para uma garota do que isso."

Ela nunca viu Finn daquele jeito. O garoto estava com os olhos marejados, totalmente sem saber o que dizer.

"É difícil saber que eu sou a segunda opção. Percebe que você só me procura quando não dá certo com a Quinn? É sempre assim. Sempre, sempre, sempre."

Ele estava chorando agora.

"Não, Rachel... Eu amo você, você é a minha primeira escolha, você é..."

Ela colocou os seus dedos na boca dele.

"Eu acredito que você ama, acredito de verdade. Mas é difícil saber que eu divido esse seu amor com outra. Eu sei que você odeia que eu fale dele, mas veja: Jesse também já me magoou muito, muito mesmo. Mas todo o amor dele é meu, exclusivo, e isso é o que uma garota mais quer. Isso deve ser o suficiente pra mim."

Ela secou os olhos, e segurou forte a mão dele.

"Eu realmente te amo, Finn. Eu te amo, e nunca vou amar mais ninguém desse jeito como eu amo você, pode ter certeza. Mas nós somos muito diferentes. Eu penso em Nova York, Tonys, musicais, sucesso, Broadway... E você se contenta com Lima. Nós não combinamos, Finn. Quinn é perfeita pra você. Ela é bonita, inteligente, pretende ser contadora aqui na cidade. E você vai herdar a oficina do Burt, vai sustentar os dois ou três filhos que terão um dia... Vocês vão dar certo juntos."

Essa foi a parte que mais doeu na garota sonhadora.

"Eu... Eu não sei o que dizer."

"Não precisa dizer nada." Ela secou os olhos dele também, e sorriu. "Você sabe que tudo isso é verdade. Mas eu quero te pedir uma coisa. Só uma. O nosso namoro acaba aqui, mas eu espero que a nossa amizade não. Você foi o meu primeiro amigo aqui nessa escola, o primeiro cara que pelo menos me disse algo bom. E eu quero que seja assim sempre."

Ele a puxou num abraço forte. E o silêncio do abraço falou mais do que qualquer outro discurso que pudesse ser feito.

"Eu... eu preciso ir ao banheiro." Rachel disse, se soltando dos braços do garoto. Logo em seguida saiu correndo, para evitar qualquer constrangimento na frente dele. Ela precisava chorar; precisava liberar todas as lágrimas que ela repreendeu naqueles minutos de conversa.

Finn ficou parado naquele canto do corredor. Perdeu a noção do tempo. Ele se sentia a pior pessoa do mundo. Naquele instante, percebeu todo o mal que ele fez a Rachel, todas as coisas ruins que ele fez à garota que poucas vezes lhe magoou, que sempre quis seu bem, sua felicidade. Ele precisava consertar aquilo, mas Rachel não voltaria. Dessa vez, ela estava decidida.

Ele se deu conta que o intervalo havia acabado depois que viu o corredor cheio novamente. Foi até a sala do coral olhando para os seus pés, dando passos lentos, um após o outro, sem a mínima motivação. Sentou sem cumprimentar ninguém, nem mesmo o Sr. Schue.

Rachel havia lavado o rosto, e ensaiou no espelho o seu melhor sorriso. Ela deveria estar feliz. Agora os seus problemas estavam resolvidos: Quinn não a infernizaria mais, e a pedra que estava em seu caminho para a Broadway já havia sido jogada. Mas ela não conseguia se sentir bem por isso.

Entrou na sala como todos os outros dias, com a diferença de que naquele, seus olhos pareciam duas jabuticabas de tão inchados que estavam. Era visível que ela havia chorado há pouco tempo. Sr. Schue fez de conta que não percebeu, e iniciou a aula como sempre faz.

"Bom, pessoal, não vamos perder tempo. Cada um pegue uma caneta, e escreva num papel o nome da canção que escolheram. E lembrem-se, não coloquem seus nomes nele. Essa é a jogada de amanhã: os intérpretes das suas músicas é que terão que descobrir quem foi que as escolheu."

Brittany escreveu a sua com um enorme sorriso no rosto. Santana já sabia da sua escolha há muito tempo. Rachel escolheu a sua na noite passada. Finn, há quinze minutos.

Todos colocaram seus papéis na cartola. O Sr. Schue pediu para que Puck chacoalhasse bem o chapéu, e disse a todos para não roubarem. A idéia do jogo era tentar descobrir quem escolheu a música sem nenhuma outra pista.

Cada um foi tirando a sua canção. Quinn deixou escapar um leve sorriso quando viu o papel que tirou. Puck virou os olhos. Kurt soltou seu conhecido grito de empolgação. Finn não fazia a mínima idéia de que canção era aquela.

O dia seguinte seria muito, muito interessante.