Capítulo Quatro – Conforto, estranheza e irritações (ou como James Potter e Lily Evans começaram a criar uma amizade apesar dos pesares)

A manhã seguinte me encontrou acordando de repente. Tivera uma noite agitada, mas o sonho que tive não me ocorreu. Lembrava-me de cores e de frações confusas, que não permitiam que chegasse a uma nenhuma conclusão para o cansaço e para a inquietude. Levantei, atirando minha colcha do Rei Leão (filme da minha vida) para o lado e deslizando até o chão. Depois de devidamente espreguiçada, fiz menção de ir ao banheiro, deixando meus olhos descansarem na janela. Ao encontrar um par de olhos castanhos me encarando do outro lado, gritei.

James riu, endireitando os óculos. Baixei o rosto, tentando arrumar meu cabelo rapidamente (mais por causa de sua semelhança com uma fogueira pela manhã do que realmente pela bagunça, já que James Potter não é qualificado para menosprezar o cabelo de ninguém). Quando voltei a olhá-lo, corada mas já no caminho para a recuperação, meu vizinho ainda sorria. Estava com as vestes de Hogwarts e o cabelo molhado, possivelmente do banho. Alcançou a caneta para escrever alguma coisa.

Ele olhou para mim, baixou os olhos e rabiscou alguma coisa. Depois, em outra página, voltou a escrever.

Bom dia. Eu sabia que causava reações fortes nas pessoas, mas a sua foi inédita.

Eu ergui uma sobrancelha cética para ele, ignorando a agitação no meu estômago, e andei até a estante para pegar meu próprio caderno.

Bom dia, James. Adorável você conseguir tirar um elogio para si mesmo depois de ter alguém gritando depois de olhar para você.

Vi seus olhos varrerem o papel.

Algumas vezes meu charme pode ser um pouco demais de uma vez só, eu sei.

Eu bufei teatralmente.

Por favor. Eu assisto todos os filmes do Johnny Depp – eu sei lidar com charme. Egocentrismo são outros quinhentos.

Melhor se acostumar agora. Minha mãe diz que meu ego é quase um membro da família! Eu vou ficar desapontado se você não começar a apreciar minha auto-estima e boa aparência num futuro breve.

Eu balancei em julgamento a cabeça para omitir o quão cativantes eu descobria seu narcisismo.

Foi então que meu despertador tocou. Depois de desligá-lo, me virei para me despedir.

Tenho que ir. Espero que não seja um golpe muito forte no seu ego, mas o dever me chama.

Sua expressão se transformou em uma careta triste.

Vou tentar superar. Estou esperando você lá fora.

Eu acenei minha concordância, ainda me sentindo muito estranha na minha própria pele. Separei meu uniforme e meu rímel para pintar meus cílios claros e segui para o banheiro. Não deixei o sorriso imenso tomar meu rosto até ter a porta bem fechada.


Quando cheguei à cozinha, meus pais e Petúnia já estavam sentados à mesa, conversando. Papai em geral era o primeiro a sair de casa, então não era sempre que tínhamos refeições juntos, mas eventualmente ele tomava a liberdade – literalmente, já que, apesar de suas obrigações junto ao Profeta Diário, ele era o dono do jornal e suas matérias podiam ser escritas de casa – de tirar um mês de férias, deixando a administração na mão do Sr. Skeeter, um dos repórteres da cidade. Túnia deixava mamãe na floricultura e ia para a faculdade.

De qualquer forma, esses dias em que podíamos começar a manhã juntos começavam melhores. Ver meus pais interagindo, mesmo quando discutindo sobre o carro (do qual papai não queria se desfazer por, alegação dele, "razões sentimentais"), era refrescante. Depois de ouvir tantas e tantas vezes sobre divórcios, sobre falta de comprometimento e superficialidade nas relações, era reconfortante ter um exemplo tão claro de amor apesar das dificuldades e do desgaste do dia a dia.

Mas nem todas as minhas razões para comemorar não ter só minha mãe e Petúnia antes de ir para a escola eram assim tão nobres. Para ser sincera, nos dias em que meu pai estava à mesa do café, eu não precisava me preocupar (tanto) com os olhares e comentários da minha mãe quanto aos meus chapéus, toucas e aparência em geral. Mamãe acreditava que a maneira de reduzir meu óbvio conflito com minha aparência era me confrontar sobre o assunto sempre que eu estava prestes a sair de casa.

Naquela manhã nem a distração oferecida pelo meu pai foi suficiente.

"Bom dia!", eu cumprimentei minha família, deslizando na minha cadeira ao lado de Petúnia.

Meus pais me responderam enquanto minha irmã grunhiu em reconhecimento (eu diria que ela não é uma pessoa matutina, mas esse geralmente era seu comportamento ao meu redor). Comecei a colocar um pouco de suco num copo enquanto cantarolava uma música sob minha respiração.

"Você está animada hoje", mamãe observou, entre mordidas em uma torrada.

Eu acenei, evitando seu olhar escrutinador ao alcançar a manteiga.

"Dormi bem. Aquela troca de colchões foi uma boa, pai, parece que estou dormindo em uma nuvem."

Meu pai sorriu, silenciosamente, mas minha mãe não permitiu que a conversa fosse levada para outra direção.

"É mesmo?", ela perguntou, e a inflexão em sua voz me fez encará-la. "Nada diferente aconteceu ontem, então?"

"Nada em especial."

"Verdade?", mamãe insistiu, a sobrancelha erguida. "Porque eu tive a impressão de ver suas cortinas abertas quando eu fui ao seu quarto mais cedo pegar sua sapatilha emprestada."

Oops.

"Esqueci de fechá-la", me apressei a explicar.

"Faz anos que você disse que queria sua privacidade", ela observou. "Nunca mais tinha visto aquelas cortinas abertas."

"Sete horas", papai avisou, ao olhar seu relógio enquanto se levantava. "Vou buscar o jornal, volto em um minuto."

Ele saiu da cozinha e por um instante eu achei que estava livre da discussão. Petúnia começou a falar sobre Vernon, seu namorado, londrino e misterioso, mas aparentemente muito, muito rico (o que bastava para ativar nossa desconfiança). Meu pai voltou com a testa franzida em confusão.

"O rapaz...", ele começou incerto, como sem saber a quem endereçar a informação seguinte. "O rapaz aí do lado está à porta."

Eu comprimi meus lábios, afastando meu café discretamente de mim. Meu pai voltou a se acomodar à mesa e seu olhar me disse que ele decidira que a presença do nosso vizinho ia interessar majoritariamente a mim, já que me olhava.

mesmo, John?", mamãe perguntou.

"James Potter?", Petúnia se pronunciou, surpresa, esticando o pescoço para olhar para o hall (como se assim conseguisse alcançar James do lado de fora da casa). "Mas ele nunca vem aqui."

"Bom, é melhor eu...", comecei, me erguendo.

"Claro, querida", mamãe concordou imediatamente, seus olhos brilhando. "Mas eu não acho que essa touca seja apropriada para um dia como o de hoje."

"Mãe", eu suspirei, ajeitando minha touca.

"Lily, eu só quero o seu bem", ela continuou. Sua expressão se tornou desapontada. "Onde já se viu, esconder esse cabelo lindo..."

Petúnia deu uma risadinha afetada, que fez com que eu erguesse uma das sobrancelhas para ela.

"Não sei se juízo consegue perfurar esse pedaço de crochê horrendo que ela usa na cabeça, mãe."

"Não se preocupe comigo, Pet", falei, docemente, sabendo o quanto ela odiava o apelido. "Há mais na minha cabeça do que um pedaço de crochê."

Ergui as sobrancelhas sugestivamente na sua direção, antes de me virar e seguir para a escada, rolando os olhos para seu guincho de indignação. Peguei minha mochila e escovei meus dentes antes de voltar a descer, apressada, meio eufórica e meio apreensiva.

Coloquei a cabeça dentro da cozinha, avisando que estava indo rapidamente (para evitar comentários maliciosos/perguntas constrangedoras) e segui para a porta.

James estava a alguns passos do batente, de costas para a entrada da casa. Seu cabelo castanho naquele dia arrepiava justamente na parte de trás da cabeça, apontando para todas as direções, em oposição à linha tensa de seus ombros. Eu limpei a garganta para atrair sua atenção, fechando a porta atrás de mim; num segundo seus olhos avelã estavam grudados no meu rosto acompanhados pelo seu sorriso largo.

"Bom dia de novo", eu falei, já sentindo minhas bochechas corarem sob a intensidade de seu olhar (sem a proteção do vidro, sua presença tão perto voltava a ser expansiva, arrebatadora e – mais uma vez – surreal).

"Bom dia!", cumprimentou, enquanto eu o alcançava. "Sua bicicleta está pronta."

"Ótimo", eu comemorei. "Realmente não precisava. Quando você teve tempo de consertá-la?"

"Eu não tive", ele interpôs. "Sirius veio aqui e levou o pneu para trocar. Ele a deixou na nossa garagem pela manhã."

"Oh", eu disse, surpresa. "Não precisava disso tudo."

"Era o mínimo que eu podia fazer", ele deu de ombros. "Vai querer a bicicleta ou eu posso entregá-la mais tarde?"

Eu parei um segundo para pensar.

"Eu achei que nós íamos andando?", perguntei, incerta.

"Eu não queria presumir nada", ele sorriu, antes de gesticular para que começássemos a andar.

O silêncio caiu durante um ou dois minutos incômodos (ainda não tinha registrada a experiência de não saber como começar a conversar com James, porque no dia anterior um assunto tinha levado ao outro). Arrisquei um olhar para o seu rosto e ele me olhava de lado, sorrindo.

"O quê?", perguntei, levando imediatamente uma mão ao meu rosto.

"Nada", ele ergueu os ombros. "Só é... Engraçado falar com você depois de todos esses anos. Esquisito. E eu acho que é melhor nós registrarmos que é estranho e inesperado e fora do nosso normal para as coisas deixarem de ser esquisitas logo."

Eu franzi a testa, internamente achando graça de sua ansiedade para passar logo da fase desconfortável.

"Você acha que é esquisito falar comigo?"

"Você entendeu."

"É mesmo estranho", cedi, enquanto o vento frio da Inglaterra batia em nosso rosto. "Mas não era tão esquisito até você trazer o assunto à tona. Por que você tinha de estragar a nossa amizade promissora tão no começo, James?"

"Desculpe, Lily Evans", ele disse. "Eu realmente espero que você reconsidere."

Eu comprimi os lábios, dando voz a um dos pensamentos que tinham me ocorrido quando ele começou a falar comigo no dia anterior.

"Espera até a gente chegar até a escola antes de pedir que eu reconsidere", sugeri.

"O quê?", ele questionou.

"Nós nunca nos falamos", eu comecei, medindo as palavras na minha cabeça. "E nós não andamos exatamente com as mesmas pessoas. Não temos o mesmo tipo de imagem na escola."

"Você ainda tem problemas por causa da estupidez do pessoal daqui?", James parou de andar, franzindo a testa.

"Você achou que meu pneu tinha furado sozinho, James?", eu perguntei, o mais delicadamente possível para não parecer que estava irritada com ele. Perante seu olhar arregalado, continuei. "Claro que diminuiu muito, mas algumas vezes eu ainda encontro minhas coisas misteriosamente quebradas."

"E você sabe...", ele fez uma pausa, hesitante. "Sabe quem é responsável por isso?"

"Eu imagino", respondi, sinalizando para que retomássemos a caminhada.

"Quem?", insistiu, assistindo-me novamente.

"Eu preferia não falar sobre isso, se não tiver problema", eu pedi, cuidadosamente.

Bom, havia algumas pessoas que eu podia imaginar, dentre as quais a namorada do meu interlocutor. Catherine nunca teve uma atitude amigável em volta de mim, assim como seus amigos mais próximos (e mais preconceituosos).

Mas nem que o inferno congelasse seria eu a pessoa – depois de dois dias de convivência – a destruir a imagem que James tinha da namorada.

Eu não conseguia imaginar um motivo para que os dois se juntassem que não uma paixão avassaladora. James tinha reputação de bom moço, por mais que algumas vezes suas brincadeiras com seus amigos tivessem quase passado da linha, e era extremamente inteligente. Catherine era... bonita.

(Se bem que quem iria em sã consciência beijar uma crosta tão bonitinha sabendo que o interior era tão duvidoso? Devia haver qualidades sobre ela que eram desconhecidas por mim.)

James acenou para mim e seus ombros pareceram encolher. Não voltou a falar até já termos passado os portões, sob o olhar de alguns estudantes insistentes, a maioria absoluta curiosa para saber o motivo para estarmos andando juntos.

"Você devia fazer alguma coisa sobre isso", meu vizinho disse, de repente, franzindo os lábios.

"Sobre o quê?", perguntei, voltando os olhos para o seu rosto.

"Sobre te perseguirem", ele sugeriu. "Não é justo."

"As coisas são o que são", eu falei, enquanto entrávamos no Saguão de entrada.

"Mas não precisa ser", insistiu, enquanto nos direcionávamos para a escada que ligava o térreo aos outros muitos andares. "Eu achei que tudo isso tinha parado há muito tempo atrás, por isso eu nunca... Catherine."

A frase não faria sentido nenhum não fosse a própria dita-cuja aparecendo de repente, quase saída do nada, bem na nossa frente. Ela tinha uma sobrancelha erguida e uma mão na cintura.

"Jamie", ela disse, como uma mãe decepcionada com o filho de quatro anos que acabou de rolar na lama com uma roupa branca. "O que você está fazendo com ela?"

James suspirou.

"Eu estou andando para a aula com a Lily, Cathe."

"James", Catherine continuou, se aproximando dele e segurando seu braço, como que para contar um segredo, mesmo que o tom tivesse continuado perfeitamente audível. "Nós não nos misturamos com gente como ela. Você quer ser visto conversando com Lily Evans?"

Eu fechei meus olhos por alguns segundos, pedindo paciência para não dizer nenhuma besteira. Optei por desviar dos dois nos degraus da escada, tirando minha mochila do ombro de James rapidamente (e ignorando o olhar mortal resultante lançado pela sua namorada).

"Eu estou indo. Tchau, James."

"Lily, espera", James pediu, mas eu balancei a cabeça em sua direção e recomecei a subida. Sua voz exasperada me seguiu. "Catherine, você ficou maluca? Como você pôde falar aquilo?"

"Você está se irritando por nada!", ouvi a réplica. "Desde quando vocês conversam? Desde quando você a chama de Lily?"

Bufei, rolando meus olhos para o ciúme irracional (sem falar desmotivado) evidente em sua voz, apressando meus passos.

"Nós somos amigos", a voz de James ainda ressoou pelas pedras do corredor onde eu entrei. Eu me perguntei se não tinha sido proposital que eu ouvisse. "E você não tem o direito de tratar meus amigos assim."


O sinal do intervalo tocou e eu me atirei para fora da minha cadeira em um segundo, puxando Dorcas, que estava mais perto de mim, porta afora. As quatro primeiras aulas tinham sido tortura, porque tudo em que eu conseguia pensar era como James tinha dito que éramos amigos, como seu sorriso era e como Catherine tinha conseguido tirar o brilho de tudo ao me constranger.

Meus problemas com aparência não nasceram comigo. Se não fosse por todos os problemas na infância, eu teria sido perfeitamente capaz de crescer e me sentir confortável na minha própria pele. Eu era muito branca, mas tudo bem, porque eu não tinha espinhas; eu era muito ruiva, mas tudo bem, porque meus olhos eram de uma cor legal de verde; eu era magra, mas tudo bem, porque eu gostava das minhas pernas (apesar de a vontade de ficar usando roupas curtas na escola me escapar sempre).

Eu não era a menina mais bonita da escola e talvez não mais a inteligente, mas eu nunca fui plana, ou completamente desinteressante. Ouvir alguém falar de mim como Catherine fez – como se eu fosse de alguma maneira inferior a ela – tinha me deixado verdadeiramente enojada. James estar sendo receptor da mensagem também não ajudou a diminuir meu mal-estar. E aquele mal-estar, de vergonha e de irritação, significava baixa auto-estima, significava olhar no espelho e não conseguir enxergar uma única coisa boa sobre mim, por mais que eu soubesse que havia (tinha de haver).

Estar me sentindo assim era motivo suficiente para não querer falar com ninguém além das minhas três amigas mais próximas e evitar o resto do mundo, inclusive James Potter, mesmo que ele tenha chegado para a primeira aula atrasado, com o rosto vermelho de raiva, e tenha olhado para mim com os olhos dele cheios de desculpas.

Mas como ele me olhou não mudava nada, mesmo, porque ainda que ele tivesse dito que nós éramos amigos, nós nem tínhamos tido tempo. Durante todos esses anos, ele nunca tinha se aproximado. O puxão de orelha não cairia bem numa conexão ainda tão frágil. Sem falar que, sobre o bullying, sem querer soar como o eixo em volta do qual a Terra gira, James nunca tinha tomado lados. Ele nunca me defendeu, mas nunca me atacou, e na época em que as coisas estavam realmente muito ruins sua inércia era bem-vinda num mundo de rejeição e hostilidade. Não tê-lo contra mim era suficiente para alimentar minha fascinação. No presente, no entanto, eu tinha minhas amigas ao meu lado e não ia aceitar nada que não fosse para o meu bem.

Dorcas finalizou o meu transe/ataque interno puxando seu braço de volta bruscamente no meio do corredor de gente querendo chegar ao Salão Principal, onde fazíamos as refeições.

"Lily", ela falou, as mãos pequenas vindo imediatamente para os meus ombros, sacudindo-os como que para me acordar. "Pára um segundo e deixa a gente entender o que está acontecendo, tudo bem?"

Eu acenei, piscando os olhos para voltar a existir no mundo real.

"Ok."

"O que houve?", Marlene exigiu. "Alguém fez alguma coisa com você?"

"Não, só...", eu comecei e nesse momento a passagem dos marotos capturou minha atenção. Cerrei os lábios, voltando a olhar para minhas amigas. "Basicamente, furaram o pneu da minha bicicleta e Catherine falou algumas coisas não tão gentis. Nada radicalmente inédito."

Emmeline entrou na minha linha de visão, examinando meu rosto. Entre nós quatro, era a melhor leitora de expressões (e de pessoas), talento que muitas vezes – como naquele momento – eu me via desejando que não fosse tão afiado. Ela balançou a cabeça.

"Tem alguma coisa que você não está dizendo", disse, resoluta, e eu tive de soltar um suspiro.

Mal tinha aberto minha boca para pedir a elas para esperar até que fôssemos para casa quando, de repente, estávamos ladeadas por três dos quatro marotos. Sirius Black e Remus Lupin ficaram um pouco para trás, enquanto James se aproximou de mim com a mesma expressão de mais cedo.

"Lily, me desculpe", ele disse, ignorando os olhares atônitos que minhas amigas trocavam entre si. "Eu não sei o que ela estava pensando, estava tudo bem até que..."

Eu acenei, dando a redenção que eu acreditava que ele estava procurando para seguir com sua vida.

"Não tem problema."

"Claro que tem problema", ele continuou, firmemente, para minha surpresa. "Eu realmente sinto muito por você ter tido que ouvir aquilo."

"Está tudo bem", assegurei, mantendo o rosto impassível.

"Não", Marlene se intrometeu – e eu voltei meu melhor olhar fica-calada-pelo-amor-de-tudo-que-é-santo-nesse-mundo (mas eu já sabia que não ia funcionar, para ser sincera, porque Marlene fala o que bem entende na hora que bem entende). "Eu não tenho ideia do que saiu da boca da sua namorada, Potter, mas, agora que estamos todos aqui tendo essa conversinha amigável, vamos deixar uma coisa bem clara: se essa marcação começar de novo, nós vamos tomar providências sérias. Nós vamos à polícia. Avise isso à Catherine. Lily vai aceitar suas desculpas dessa vez, mas nós não vamos deixar que ela seja nenhum tipo de conforto para você e para os seus amigos. É meio estranho vocês estarem indignados com uma situação que vocês assistiram sem fazer nada por anos."

No fim do seu discurso, todo mundo (inclusive Sirius e Remus, que aparentemente tinham sido incluídos na discussão) estava encarando Marlene em atordoamento pela sua ousadia.

"Não foi assim que aconteceu", Black se intrometeu antes que qualquer outra pessoa tivesse se recuperado, seus olhos ocultados pela franja escura. "Nenhum de nós tinha ideia de que essa estupidez continuava."

"Bom, continua", Marlene devolveu, duramente.

Os olhos de James procuraram os meus.

"Marlene", a voz suave de Remus interveio. "Você está certa. E por isso nós nos desculpamos. Não sabíamos que Lily ainda tinha de lidar com esse tipo de coisa."

Marley pareceu considerar a sinceridade de Remus por alguns segundos.

"Certo. Fale com sua namorada, Potter."

"Eu já falei com ela mil vezes", James murmurou. "Acredite em mim, Lily, nós realmente não tínhamos ideia. Nós falamos com Catherine naquela época que ela jogou aquele negócio em você e ela nunca mais fez nenhum movimento aparente, então pensamos..."

"Não é tão ruim quanto costumava ser", eu informei. "E vocês não tem nenhuma responsabilidade nisso. Marley, por favor."

Eu olhei para a minha amiga, compartilhando o quanto o assunto me deixava desconfortável. Por mais que todas aquelas coisas ditas fossem sob certo ponto de vista verdades, nada ia mudar. Aqueles eram danos já feitos e já superados e, por mais que eu não me culpasse, jogar a culpa em pessoas de fora também não era justo.

"Lily está certa", Dorcas interviu. "Nós cometemos erros com a Lily e ela nos perdoou de qualquer forma, lembra, Marley? Vamos só pegar um lanche e melhorar os ânimos, tudo bem? Se vocês meninos puderem fazer alguma coisa, nós agradecemos. Nós só queremos viver em paz."

James acenou em concordância, alguma emoção diferente passando por trás dos seus olhos. "Tudo bem."

"Eu espero que vocês não estejam pensando em sentar conosco", Marlene atirou, antes de entrelaçar seu braço com o meu. "Porque nós absolutamente ainda não estamos nesse nível de tolerância."

Um segundo antes que ela me arrastasse corredor afora, James deslizou discretamente um pedaço de papel dentro do bolso da minha calça. Eu acenei levemente antes de seguir minha amiga – o aperto dela na verdade dói muito –, ouvindo a última reação esperada por mim numa situação complicada como aquela: risos.

"Eu gosto dela", a voz de Sirius Black trilhou atrás de nós, divertida.

"Você já tentou com ela, Pads", Remus respondeu com o tom inflexivo. "Não deu certo."

"Então eu não tentei o bastante."

Seu tom confiante fez Marlene bufar como um touro irritado. Ao menos alguma diversão teríamos dali para a frente.


Eu só tive tempo de realmente ler o bilhete de James quando voltamos para a classe. O Salão Principal abrigava as mesas das quatro casas e era sempre uma agitação enorme, então não me arrisquei, especialmente com Dorcas sentada perto do meu ombro como estava. Desdobrei o papel pequeno por debaixo da mesa, sendo recebida pela letra apertada de James.

Lily, eu realmente sinto muito. Volta pra casa comigo? – J


Logo minhas amigas estavam se despedindo. Nesse dia, quando elas finalmente tinham ido, eu ainda demorei mais alguns segundos na frente das enormes portas de carvalho de Hogwarts. Quando me sentia mais calma, desci as escadas até os jardins e continuei meu caminho até os portões, onde imaginava que James me esperava.

Ele tinha a cabeça encostada aos muros pelo lado de fora e os olhos fechados. Eu limpei minha garganta para atrair sua atenção e ele sorriu, antes de aparentemente se lembrar que o dia tinha sido longo.

"Lily, me desculpe", ele começou novamente, se aproximando com as mãos estendidas. Eu ergui as minhas próprias, sinalizando para que parasse.

"Nada disso é sua culpa", eu disse a ele, em tom definitivo. "Eu estou bem."

"Tem certeza?", James questionou, voltando suas mãos para o lado do seu corpo. "Nós estamos bem? Eu sinto como se eu devesse me desculpar com você por um longo tempo. McKinnon não estava errada nas coisas que ela disse."

"Estamos bem", concordei, sorrindo para ele (e ganhando um sorriso de volta). "E eu não sou uma criança, James. Eu sei que as meninas acham que eu preciso de proteção, mas eu tenho lidado com isso por anos. Agora, por favor, nós podemos falar de qualquer outra coisa?"

"Eu posso fazer isso", ele sorriu, parecendo aliviado.

Então voltamos a andar na direção da minha casa e deixamos o assunto girar em torno de gostos musicais – nós dois tínhamos uma tendência pop-indie-romântico, apesar de ele gostar muito mais de rock do que eu. Apesar dos anos de reconhecimento, o que não sabíamos sobre o outro ainda era um espaço enorme, que precisava, no caso da amizade evoluir, ser preenchido.

James parecia querer fazer questão de cumprir a tarefa.


N/A: estou completamente insegura sobre esse capítulo. Muito mesmo. Vou postá-lo, mas qualquer coisa – de verdade – eu apago e simplesmente continuo como era a história original. Só achei que algumas coisas não faziam sentido (depois que fui analisar melhor, os marotos não terem feito nada pela Lily não soa bem, por mais que todas as ações sejam justificadas depois; então é natural que as amigas dela se sintam afetadas pela repentina aproximação). Além disso, acho que tenho de aprofundar as famílias e os amigos, que eram muito superficiais anteriormente.

Outro detalhe é que essa segunda versão vai ter uma construção do relacionamento um pouquinho mais lenta: talvez a fic dobre o número de capítulos totais, talvez eu só os escreva num tamanho bem maior. Ainda estou vendo.

Por favooooor, me deixem saber o que vocês acham! Sem reviews eu fico realmente perdida, porque não sei onde melhorar. Obrigada por continuarem comigo e mais uma vez perdão pela demora.

Não vou ter tempo de responder as reviews dessa vez, mas eu li todas e as achei completamente adoráveis e lindas – e o número de respostas me surpreendeu mais uma vez. Espero que vocês continuem lendo e comentando!

Obrigada por tudo, Gabi.